Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 24 de agosto de 2014

MINHA RÉPLICA AOS COMENTÁRIOS DE INC EM 6 PARTES #6


VIa E ÚLTIMA PARTE


                 

LINHAS QUE SE CRUZAM


por Mario Sales, FRC e SI

Marquês Stanislas de Guaita


Com este trecho, Inc encerra seus comentários:
"O filósofo Desconhecido por diversas vezes, sempre que possível, canta as maravilhas da realidade Espiritual, deixo-o transcrito: 'Alegria pura, alegria divina, não sereis estéril em mim. Por demais repleto de vós para vos conter, quero que tudo o que existe seja disso testemunho'. E, além disso, manifesta que apenas o homem pode deixar entrar o mal ou não por meio do seu coração.
Tens razão quando manifestas o sentimento de culpa que pode ser gerado da interpretação errada do cristianismo. Muitos e muitos seguidores, quase sem fim, são maculados pela culpa ao invés de buscar o caminho da sabedoria pelo amor à verdade. Tratam-se de atitudes diferentes.
Pedindo desculpas pela nova intromissão, saúdo fraternalmente."


Caríssimo Inc:
Ao comentar a possibilidade de uma interpretação errônea da mensagem do Cristo por uma visão mórbida da mesma, onde , não a ascese ativa positiva, que era a marca de Jesus, mas a ascese ativa negativa é evidenciada, você toca o dedo no centro da ferida, sem trocadilho.



Como eu disse no início de meu arrazoado, meu desconforto não é com a intenção de Saint Martin, mas com a forma à qual recorre para convocar os seres humanos em geral à espiritualidade.
E esta forma, como já vimos, era uma característica da época, fortemente marcada por imagens bíblicas e uma leitura do novo testamento através da ótica do velho.
Sim, pois é no velho testamento que encontramos os tais Tremor e Temor como marca registrada enquanto que no novo a mensagem é de amor e compreensão.
No velho existe a rigidez e brutalidade da lei de Levíticos enquanto no novo testamento fala-se em compreensão e tolerância.




No velho manda-se apedrejar as adúlteras enquanto no novo pergunta-se quem não tem pecado, para que atire a primeira pedra.
Decerto, existe um dilema, já que a Bíblia não é um livro, mas vários livros (o significado da palavra bíblia) que cobrem séculos de história de um mesmo povo e que vai se modificando à medida que o tempo vai passando, e as sociedades vão se modificando.
É um livro polissêmico, de muitos sentidos possíveis, mas tem uma indiscutível importância na história da cultura ocidental. Em uma época na qual ninguém escrevia, não se publicava o que era escrito, mas apenas se copiava, a bico de pena, com dificuldade artesanal, os textos que chegavam do passado helênico grego, os textos bíblicos eram sem dúvida um manancial de informações e imagens.
Foram por séculos fonte de inspiração para muitos intelectuais ocidentais e pelo impacto e importância da igreja, o ato de pensar começou como um ato de refletir sobre imagens da Bíblia.



Abelardo e Heloísa


Não se conhecia os sutras de Buda, nem o Livro dos Mortos Tibetano, não se conhecia o Mahabharata Hindu, com seu capítulo glorioso, a Sagrada Canção do Senhor, que em sânscrito diz-se Bhagavat Gita.
O Corão de Maomé, mesmo com trechos de uma semelhança impressionante com o texto bíblico, principalmente com o Gênesis, não era estudado por significar uma heresia. Restava então a Bíblia, lida pelos padres e monges, início ao fim, interpretada, revirada, base para reflexões filosóficas e existenciais, inspiração para pintores barrocos, clássicos, românticos, para escultores, como Michelângelo, para Caravaggio, para Rafael.
As universidades eram eminentemente voltadas para os Cânones Católico Cristãos, e lembro-me que dois filósofos importantes da idade média, Abelardo e Heloísa, começaram seu relacionamento discutindo de quem eram os porcos que se atiram do penhasco depois que o Cristo manda que os espíritos da Legião, que tinham possuído um pobre rapaz, saíssem deste e entrassem naqueles desafortunados animais, que enlouquecidos, se matam.



Jesus expulsa a Legião de um possuído, e permite que entrem nos porcos. Ao fundo vê-se os animais atirando-se do penhasco.


Portanto, este era o ambiente cultural da época.
Saint Martin resgatou esses valores, e os colocou em seus textos porque era assim que um homem piedoso, religioso, que na época era sinônimo de misticismo, deveria se comportar.
Aprofunda esta visão no estudo de Boheme, tocado pelos mesmos valores cristãos bíblicos, e assim constrói sua obra.
Mas, da mesma maneira que a Bíblia evoluiu do texto de Levíticos ao Sermão da Montanha, também o Martinismo- Martinezismo evoluiu de Pasqually até Papus.



Papus, jovem.

Quando Gerard Encause resolve se unir a Chaboseau e restaurar uma tradição esotérica típicamente ocidental, para enfrentar o avanço da cultura oriental através dos textos da Teosofia de Blavatsky, então em voga, ele não o faz na mesma época e condições que geraram o surgimento desta tradição.

Augustin Chaboseau, velho.

No final do século XIX, Paris e o Ocidente, da qual a cidade luz era a capital cultural, efervescia.
A Arte já de há muito tinha se tornado Laica e os temas bíblicos tinham sido substituídos por aspectos políticos e sociais, pelo naturalismo e pela redescoberta da beleza do corpo, ao estilo do período helênico.
Havia espaço para a imaginação, para a fantasia, e por isso condições para o surgimento, no início do século XX do Cubismo e do Dadaísmo, o Surrealismo de Salvador Dali.

Blavatsky

O mundo mudara e até as universidades ensaiavam movimentos em que o racionalismo predominava sobre a crença, o que permitiu, no final do século XIX, a instauração do pensamento positivista de Augusto Conte, que pede evidências das coisas ditas, resgatando o pensamento de Descartes e de Francis Bacon, empirista e chanceler inglês do século XVI.
O final do século XIX foi um momento de ruptura importante com este passado de reflexões essencialmente bíblicas, e com a idéia de que pensar religião é pensar através de categorias bíblicas.
Agora, neste momento, poderíamos pensar a nossa relação com a Divindade através de outras óticas, outras culturas, que o Filósofo Desconhecido admite não chegou a estudar, como os Vedas, ou como o Budismo, e sua vertente mais instigante, o Zen.
Quando entrei para o Martinismo atendendo um apelo de uma sóror pela qual sempre tive o maior respeito, dois motivos me inspiravam: a curiosidade de conhecer outra tradição esotérica que depois, percebi, não era tão original assim, e a vontade de entender o que significava a expressão Via Cardíaca.
Os primeiros anos foram difíceis. De cardíaco o Martinismo não tinha muito, já que as aulas eram profundamente teóricas e pouco práticas. Muita informação era passada nas aulas, informações de natureza histórica e referente ao século XVIII, com valores do século XVIII. Picco de La Mirandola, Marcelo Ficino, e outros eram personagens de uma época que valorizava o Magismo e se impressionava com o Cabala Judaico como uma estratégia impressionante para examinar o problema da comunhão com o Divino.
Os textos estudavam as práticas daquela época, provavelmente uma sequela do restaurador moderno, Papus, um conhecido entusiasta do Magismo.
Só que o tempo dos chapéus cônicos e mantos com estrelas para os rosacruzes tinha acabado, com o advento de Spencer Lewis.
Ele fez um up grade dos conhecimentos passados por Hyeronimus e pelos rosacruzes de França, de maneira que o trabalho místico rosacruciano no século XX era centrado em um mentalismo profundo, que recorria ao poder da imaginação criativa, a técnica mais poderosa que nós, rosacruzes modernos, aplicamos à realidade.
A mente, não a fé, tornou-se objeto de nossa atenção, exatamente como no Zen e no Sankhya Yoga, o que contrastava com a abordagem do Martinismo, ainda influenciado por aquele momento setecentista onde Bíblia e Religião eram sinônimos.
Meu desconforto continuou até o início do 3° grau, o Grau SI, quando ouvi, na segunda reunião, a carta de Stanislas de Guaita que tirou de mim toda angústia que até então eu carregava.
Entendi então, que deveria olhar para o Martinismo como restaurado por Papus e preservado por Spencer e Ralph Lewis como o ponto de encontro de muitas linhas de pensamento e interpretações, e que na verdade guardava dentro de si, em uma aparente homogeneidade, uma enorme heterogeneidade, que já estava presente no grupo que lhe deu vida, ao final do século XIX.
Se Chaboseau e Papus dividiram as iniciações que haviam recebido de linhas de iniciadores desde o tempo de Saint Martin, um personagem como Guaita colocara seu dedo no projeto e com ele modificou a face do que seria o Martinismo moderno.
Péladan, que mais tarde romperia com o grupo, também tinha suas próprias idéias acerca do que significava ser Martinista, de forma que não se pode falar de uma idéia, mas sim de um esforço em conciliar o inconciliável, ou seja, naturezas humanas díspares em busca de Luz Espiritual, única e tão somente para contrapor a onipresença da filosofia vedântica da Sociedade Teosófica.  


Guaita

Mas o que dizia este discurso que tanto me impactou?
Dizia Guaita:
"...Nós te saudamos, SI, e quando tiveres estudado e meditado sobre o conteúdo de nossas lições, chagará o momento de te tornares um Iniciador. A tuas mãos fiéis será confiada uma importante missão: ficará sob tua responsabilidade o encargo - e também a honra - de formar um grupo do qual tu serás, perante tua consciência e perante a Humanidade divina, o Pai intelectual e, quando necessário, o Tutor moral.
Não queremos aqui" , continua ele, "te impor convicções dogmáticas. Pouco importa se te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo (!? o parênteses é meu); que te proclames um livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto. Não atormentaremos teu coração agitando teu espírito com problemas que só podes resolver perante tua consciência e no silêncio solene de tuas paixões aquietadas."
Este trecho me comoveu e me tocou profundamente. Eu percebia finalmente que, tivesse ou não ouvido todas as aulas que ouvira, os restauradores modernos do Martinismo, ou pelo menos Guaita, o mais culto entre eles, reconheciam que, mais importante que o Martinismo era o Martinista que metabolizava dentro de si aquele conjunto de informações dando origem a sua própria sínteses pessoal daquelas informações.
Isto é em tudo e por tudo consoante com o espírito rosacruz. Naquele instante, relaxei.
E ele continuava:
"Se te sentes envolvido pelo amor verdadeiro de teus irmãos e irmãs humanos, não procures nunca dissolver os laços de solidariedade que te unem estreitamente ao reino hominal considerado em sua síntese. Tu fazes parte de uma religião suprema e verdadeiramente universal, pois é ela que se manifesta e que se impõe (de uma forma múltipla, é verdade, mas idêntica em sua essência) sob os véus de todos os cultos exotéricos do Ocidente quanto do Oriente."
Aqui deve-se fazer uma referência ao termo "religião" que Guaita tão ingenuamente usa. Ele se referia provavelmente à religiosidade, base de todas as religiões. Mas não a uma religião em si.
Quanto a universalidade desta linha esotérica, esta é a ambição que todos almejam e que jamais conseguirão.
A própria palavra Católico (katolikos) quer dizer Universal, no grego.
O que sucede é que tudo que tentamos unir acaba se dividindo pela ação de Shiva. O Universo se renova, constantemente, dissolvendo-se a si mesmo e reorganizando-se. Todas as formas são temporárias, tudo se desmancha em suas unidades básicas e se refaz , como a Fênix, de suas cinzas essenciais. Assim, por mais que queiramos, ou que tenham desejado os restauradores do Martinismo, a natureza de Livre Iniciadores que a Iniciação dos SI lhes conferia tornava esse evento tão peculiar que seria impossível garantir uma unidade de visão depois de séculos de sucessivas iniciações pessoa a pessoa. Só que este era o modelo deixado como legado de Louis Claude de Saint Martin. Cada iniciado iniciaria, quando pronto, outro indivíduo, que se tornaria, depois de algum tempo, também iniciador.
A restauração de Papus e Chaboseau, como já demonstrei aqui, seguiu o modelo, em grande parte, de Wilermoz, pois organizou em templos o que seria, em si, um movimento pessoal e individualizado.
Diz mais Stanislas de Guaita:
"(...quanto ao amor verdadeiro por teus irmãos) Como psicólogo, dá a este sentimento o nome que quiseres: "amor", "solidariedade", "altruísmo", "fraternidade", "caridade", ...como economista ou filósofo, podes chamá-lo de "Socialismo", se quiseres, "coletivismo", "comunismo"... as palavras não são nada! Como Místico, honra-o pelo nome de "Mãe Divina" ou de "Espírito Santo". Mas não importa o que sejas, nunca te esqueças que, em todas as religiões realmente verdadeiras e profundas, isto é, alicerçadas no Esoterismo, colocar em prática este sentimento é o primeiro ensinamento, o mais importante e essencial desse mesmo Esoterismo".
Embora culto, Guaita lança mão em sua fala de valores, conceitos e imagens do cristianismo.
Ao falar de Místicos, associa-os automaticamente a imagens como Espírito Santo ou Mãe Divina, desconhecidas para místicos hinduístas e budistas, mas caras aos místicos religiosos cristãos.
E a palavra Místico, o buscador de mistérios, não pode ser atribuída hoje apenas aos místicos cristãos, pois estamos em um mundo e um planeta que se conhece melhor, que divide diariamente experiências sociais de diversidade importante, seja considerando os ritos de países africanos, seja as práticas do Xintoísmo Japonês, e outras.
O Cristianismo Católico Romano é hoje uma entre muitas forças religiosas do mundo, e nem é a mais forte.
Mas naquela época, final dos anos oitocentos, isso ainda não era assim e apenas saber da existência dos Vedas e do Budismo fazia de alguém um erudito bastante gabaritado.
Não, o Martinismo, como fundado, não existe mais. E mesmo o restaurado por Papus também já teve seu momento, sendo que corre um grave risco de ser diluído e digerido pela História se não permitir elasticidade interna em seus valores como promete o trecho acima da carta de Guaita.
Saint Martin, que nomeia este movimento, é hoje apenas uma de muitas outras influências, uma das muitas linhas que se cruzam aqui, nesta realidade chamada Ordem Martinista.
Acredito que todos os textos de todos os membros desta tradição devam ser não só lidos, mas estudados, como voce parece que tem feito Inc, de forma a que cada um de nós encontre em si mesmo uma interpretação pessoal do que está escrito ali.
E esta interpretação não será, com certeza, igual a do Irmão ou da Irmã ao seu lado, pois cada um de nós é uma experiência irreprodutível do Ser, e o que faz de nós semelhantes é exatamente a nossa diferença pessoal.
Concluindo assim estas réplicas, foi graças a Carta de Stanislas de Guaita que entendi que, mesmo não sendo cristão e nem concordando com uma abordagem do Misticismo tão perigosamente perto do Religioso, posso sim manter minha afiliação ao Martinismo intacta já que o próprio Guaita me garante, textualmente, que como Martinista sou livre quanto a minhas convicções.




Este espírito de Liberdade me permite fazer leituras crísticas e críticas ao mesmo tempo, sem contradição, sem ferir com isto o escopo principal da Ordem Martinista, que é, segundo Guaita, "colocar em prática este sentimento (o qual) é o primeiro ensinamento, o mais importante e essencial desse mesmo Esoterismo", e que está expresso na fala do Cristo, respondendo a pergunta sobre qual seria o mais importante mandamento da fé Moisaica:
"Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo". Este é o maior mandamento, esse é o mote do Martinismo. O amor fraterno, desinteressado e universal, tanto aos irmãos e irmãs de Ordem, quanto a toda a Humanidade.
Nisso, e na liberdade de pensamento, sinto a identificação entre Martinismo e Rosacrucianismo, provavelmente a mesma similaridade que Spencer e Ralph Lewis viram um século atrás.
Pra voce Inc, meu incógnito amigo, deixo as palavras ainda da carta de Guaita que nos estimulam a continuar a busca:
"Tu és um "initiatus", aquele que outros colocaram no caminho. Esforça-te para te tornares um "Adeptus", aquele que conquistou o conhecimento por si mesmo; em outras palavras, o filho de suas próprias obras."
Que mais precisa ser dito?
Paz profunda Inc.