Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MINHA RÉPLICA AOS COMENTÁRIOS DE INC EM 6 PARTES #4

IVa PARTE




SERENIDADE E EVOLUÇÃO

por Mario Sales, FRC e SI


Continua Inc:
"Na vida de Jacob Boheme ocorreu o mesmo, ele sentia uma angústia (aguilhão) desmedida até ser iluminado.
Veja que o próprio Buda (Sidartha Gautama) vivia em um palácio e só foi buscar a vida espiritual depois de ver o sofrimento de seus irmãos, o qual lhe causou sério impacto.
Sem angústia não há busca e, repito, essa angústia não é pela situação social, dinheiro ou casos amorosos, mas pela 'saudade' da Jerusalém celeste, onde todos seremos verdadeiramente irmãos."
Voce sabe, Irmão Inc, não existe um lugar como esse, Jerusalém Celestial. É apenas um conceito, não uma realidade tempo-espacial. E se existe esta dimensão aonde todos são irmãos, ela está dentro de nós, e não fora.
Se "...na vida de Jacob Boheme ocorreu o mesmo, ele sentia uma angústia (aguilhão) desmedida até ser iluminado" foi porque não estava em estado mental iluminado. Uma vez que mudou sua condição mental tudo a sua volta mudou também, se bem que tudo, depois dele se iluminar, estava como antes dele se iluminar. Foi ele que mudou, não as coisas em volta dele. 
Ele não alcançou um lugar, mas um estado mental, que é a verdadeiro significado simbólico da expressão "Jerusalém Celestial".
A angústia não gera a busca. A angústia é parte da busca, e às vêzes até atrapalha a busca, mas ela não torna a busca mais intensa. Podemos ser mobilizados também pelo amor e pelo conhecimento, não só pela angústia.
É exatamente pela libertação desse estado de angústia que o monge Zen chega a Iluminação.
O Ocidental busca a felicidade, o monge Zen a Serenidade. Estratégias diferentes, a primeira mais primitiva, medo e angústia, a segunda mais avançada, progressivo aumento do equilíbrio, do autoconhecimento, da paz interior.
A mente precisa ser compreendida, não combatida.
Sua função não é nos atormentar, mas nos ajudar a lidar com a realidade. Ela só nos será útil, entretanto, se nós estivermos no controle e não ela.
A mente é a louca da casa dizia Santa Teresa Dávila.
É preciso acalmá-la, não afligi-la mais ainda,
E para isso a Serenidade é fundamental.
Ela é dominadora e insidiosa, devemos ser perspicazes ao lidar com ela.
Veja esta parábola.
Os monges não devem se envolver com mulheres, tocar em mulheres, faz parte das normas do monastério.
Dois monges estavam a beira de um rio quando uma mulher pede que eles a carreguem para o outro lado para que não se molhasse.
O mais velho pega a mulher e a coloca às suas costas. Atravessa o rio com ela, deixa-a na outra margem, e segue seu caminho. A contrariedade de seu companheiro mais jovem era evidente. Finalmente o outro explode: "Voce não se envergonha? Não sabe que por nossas leis não podemos tocar em mulheres?"
O outro com serenidade, responde:
"Eu a deixei na margem do rio. E voce que ainda a carrega até agora?"



Acredite querido Inc, nossos braços não tocam em nada, nossa mente sim.
Nossas pernas não caminham, nossa mente caminha.
Não nos cansamos, nossa mente se cansa.
Existem diversos programas de treinamento que condicionam pessoas a resistir mais e melhor a fadiga. E fazem isso mexendo com a cabeça das pessoas, principalmente.
Mas voce sabe disso.
Só estou enfatizando.
Inc continua:
"Se tudo estivesse perfeitamente bem nenhum homem buscaria a espiritualidade ou a evolução.
SM sustenta, em todas suas passagens, a necessidade da busca pelo aperfeiçoamento do homem e não a imperfeição de forma estática, tanto que a todo momento busca estimular o desejo por este aperfeiçoamento."
Sim é verdade, ele estimula este aperfeiçoamento, mas usa de uma didática assustadora:
"Homem, o mal é ainda maior. Não digas mais que o universo está em seu leito de morte; dize que o universo está no sepulcro, a putrefação se apoderou dele e que espalha a infecção por todos os seus membros, e é a ti que cabe censurar-te por isso. Sem ti ele não estaria assim decaído no túmulo; sem ti (homem) ele não espalharia assim a infecção por todos os seus membros" 
Este é um trecho de "O Ministério do Homem-Espírito", pág. 75. Podemos argumentar em defesa de SM que está fora de contexto, que foi pinçado aleatoriamente, que a imagem pode estar correlacionada com a simbologia alquímica, onde a morte e a putrefação são partes do processo de regeneração do indivíduo.
Muito bem, concedo.
Mesmo assim é assustador.
Se algo podemos dizer de qualquer texto do filósofo desconhecido é que ele não era uma pessoa serena.
Se sua angústia era a angústia dos santos ou dos homens de estirpe moral, de qualquer forma paz de espírito não seria a maneira certa de classificar seu estado mental.
Ao contrário dos monges zen que buscam acalmar dentro de si o turbilhão mental, ele era devorado por uma tristeza e uma depressão permanentes, um estado de sofrimento do qual, provavelmente, pelas suas crenças, devia até se orgulhar.



Ele estava convicto que uma pessoa santa ou em busca de santidade deve mesmo sofrer e se angustiar. A felicidade ou a alegria não era algo do qual ele fosse capaz porque em sua concepção, o mundo estava mergulhado em trevas, os homens tinham virado a face para Deus e tudo, tudo era triste, então.
Se ele buscasse serenidade, se ele acalmasse sua mente, extremamente aflita e infeliz, talvez o mundo parecesse menos caótico, como aconteceu com Boheme após a iluminação.
A iluminação é isso, ver o mundo por lentes transparentes, não vermelho sangue ou marrons escuras, mas transparentes.


Vemos o mundo do modo que acreditamos que ele é.
SM acreditava que o homem podia fazer com sua prevaricação, do Universo um Caos, que ele poderia macular a criação com sua ignorância e com seus erros.
Arrogância humana típica, disfarçada de humildade.
Perante Deus, não somos absolutamente nada.
Deus nos olha de perto e acompanha nossa jornada, zelando por nossa evolução e integridade.
Em verdade, entretanto, não estamos em risco, nada está em risco e tudo está exatamente como deveria estar.
Eu sou um místico rosacruz.
Rosacruzes sabem do poder do Todo Poderoso.
Rosacruzes não supõem que existam poderes superiores ao de Deus em seu próprio universo.
O Caos que angustia pessoas como SM é o Caos de suas próprias mentes, não o Caos do Universo.
O Caos, aliás, em si, não é uma desgraça, mas potencial para novas combinações, novos arranjos, em oposição ao Cosmos, a ordem estabelecida.
De qualquer maneira, um místico verdadeiro, em paz, sereno, não olharia para fora de si, mas para dentro, seguindo as recomendações do próprio SM, e lá encontraria a Ordem Divina, calma, tranquila, serena.



Quem disse que a Via Cardíaca não é o método rosacruz? 
A verdadeira Via Cardíaca é o caminho rosacruz da busca do Mestre Interior. 
Ele habita em nós, em nosso corpo, nosso templo, e divide conosco neste espaço a experiência do êxtase no Sagrado.
O Sagrado é a perfeição.
Dentro de nós não existe Caos, não existe angústia, não existe sofrimento.
Se ainda nos angustiamos, não olhamos direito para dentro de nós mesmos, ainda estamos olhando para fora, para Maya, a Ilusão.
Não podemos procurar a perfeição de Deus fora de nosso corpo e de nosso coração porque Deus está lá dentro.
Ao nos contemplarmos internamente, da maneira correta, só poderíamos nos deleitar com a visão da Luz Divina em nosso coração, a Luz que não julga, que não condena, que, como foi dito, "não faz acepção de pessoas".
Quem vê o mundo em crise é o religioso angustiado, não o místico sereno.
Por isso, às vêzes, o Martinismo propriamente dito lembra mais uma religião disfarçada de esoterismo do que uma escola mística verdadeira.
No misticismo verdadeiro busca-se a Serenidade. Aprendemos pela Serenidade, não pela Angústia.
O que nos move para a frente no progresso espiritual é a Serenidade, não o Sofrimento.
E ambos são excludentes.
Se existe Sofrimento ainda não estamos Serenos.
E se estamos Serenos, não poderíamos, mesmo que quiséssemos, sofrer.