Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 19 de agosto de 2014

MINHA RÉPLICA AOS COMENTÁRIOS DE INC EM 6 PARTES #2

IIa PARTE

CAÍMOS OU MERGULHAMOS?

por Mario Sales, FRC e SI








Inc continua seu comentário:
"Também tenho lido SM com frequência e vejo que ele busca dizer que a dor, angústia que sente o homem de desejo, demonstra que ele não está em seu lugar de origem (teoria da queda e reintegração), tanto é assim que para obter o Shabat ele tem que conquistá-lo com o suor de sua face. "
Meu querido amigo Inc
Como descrevo em um ensaio bem pequeno de 3 de março de 2010, "O Mergulho", não sou adepto da Teoria da Queda e da Reintegração. A palavra Queda me parece, e isto eu descrevo naquele texto, inadequada, mais do que isso, incorreta para descrever o fenômeno da encarnação ou das encarnações.





Sim, SM tem razão, o homem não está em seu lugar de origem, mas acredite, ele não deve mesmo estar lá.
Portos de onde partimos são apenas isto, pontos de partida.
A angústia que sentimos não é saudade, mas a soma das emoções de nossa atual aventura. Nenhum de nós, em sã consciência, quer voltar. Não se evolui para trás.
Nossa meta é nosso horizonte. Para lá devemos nos dirigir.
Embora seja Martinista, no sentido de pertencer a TOM, sinto-me a vontade para discordar de alguns dos pilares do pensamento de Saint Martin ou de Pasqually, como este da necessidade de um retorno, uma reintegração a um mundo ideal de onde fomos "exilados". E me sinto a vontade por estar fundamentado nos termos da carta do Marquês Stanislas de Guaita, que pelo menos no meu tempo de Heptada era lida para todos os presentes no início do terceiro grau da Ordem, da qual falarei no 6o ensaio de réplica.
Ali, Guaita instrui diretamente os membros do Martinismo Moderno sobre a importância da liberdade de pensamento, para fugirem do dogmatismo e sentirem-se livres dentro da Ordem Martinista como restaurada por ele, Papus e Chaboseau, para exercerem o seu direito de interpretar o mundo como seu coração assim comandar.
Dito isso, a minha postura Martinista é ser contrário a esta idéia de SM ( e de Pasqually, e de outros) de que caímos aqui de forma involuntária; mais, que fomos lançados aqui, contra a nossa vontade, como consequência de nossa prevaricação, personificada por Adão.
Aliás, um parênteses: ontem a noite, estudando com meus ex colegas de Heptada, tive um insight bem curioso sobre a coerência interna do Mito da Queda.
Porque, segundo o Mito, a queda do homem se deu porque ele demonstrou ser sensível às tentações do Mal, personificado no conceito de Lúcifer, disfarçado em uma serpente. Ora, diz-se, a partir daí, que este local, a Terra, fora do Paraíso, é um lugar aonde existe predomínio das forças da Matéria e do Mal, consideradas inferiores e degeneradas. O Mal, segundo esta visão, aqui tem seu lugar de predileção, ao contrário do Céu, aonde convivem com a Luz de Deus Serafins e Querubins sempre em equilíbrio e em plenitude do Amor Divino.
O Paraíso de onde fomos expulsos era assim uma espécie de continuação deste ambiente divino, puro, impecável.



Pergunta: antes do homem e do Paraíso, aonde deu-se a manifestação do Mal, como personificado no Mito? No Céu, já que é de lá que vem Lúcifer, o Anjo dito caído, mas antes habitante das mesmas regiões chamadas puras e divinas.
E como conceber a entrada do Anjo Caído no Paraíso, na forma de uma serpente? O escudo do mundo Divino mais parece uma peneira que um escudo.
Portanto, o Mal, como representado, não nasceu na Terra, mas no Céu, mito-historicamente marcado pela batalha entre as Hostes Celestiais de Gabriel e os seguidores (veja, seguidores) de Lúcifer, que a partir deste evento, tem seu título de Anjo modificado para o de Demônio, do Grego "Daimon", espírito que influencia, como citado nas obras de Sócrates.



É uma maldade passar no fio da espada racional o frágil tecido do Mito, mas foi divertido mostrar que a confusão começou no andar de cima e que nós, humildes moradores do andar térreo, nada tivemos a ver com este "barraco celestial", no Martinismo cognominada Prevaricação ou Desobediência. Fim do parêntese.
Bom, trata-se de um Mito explicativo.
Meu Mito explicativo é outro.
Para mim, a vida na carne é parte integrante da viagem da Mônada através das eras. No espírito estamos em uma espécie de limbo, sem dor, mas também sem prazer, sem contato com o Mal, mas da mesma forma sem contato com o Bem, um estado sem dualidades, sem contrastes, sem forma ou imagem.
Não há ambições e desejos, tudo está satisfeito na plenitude do espírito.
Não há Morte, mas, exatamente por isso, não há Vida.
Na Carne, todos essas contradições surgem e se manifestam, e no encontro dos polos contrários ( "a vida é dual em essência e trina em manifestação") surge a faísca que gera o terceiro ponto, o homem.
A Carne é nosso Oceano de aventuras, o mar em que navegamos e aonde enfrentamos monstros e piratas, mas principalmente, aonde enfrentamos nossos medos, aprimoramos nossa coragem e habilidades de navegação.
Viver é preciso. E navegar na Carne é viver.
É na experiência ilusória da Carne que exercitamos as paixões, os sentimentos passivos de frater Descartes, descritos na sua última obra, As Paixões da Alma, publicada em 1649, aonde ele defende que as paixões (ou os modernos sentimentos) eram eventos passivos, reacionais a um estímulo externo ao sujeito.
A vida na carne ou encarnação, expõe-nos aos mais diversos estímulos e nos permite elaborar sobre eles.
Fala-se muito no discurso Martinista e espiritualista em geral, sempre dualista, que a " a carne milita contra o espírito e o espírito contra a carne" (Gálatas, 5:17).
Tolice.
Sem a Carne não haveria vida espiritual, permaneceríamos no limbo sem pecado, mas também sem virtude.
É a Carne e o mundo ilusório de Maya, aonde viemos voluntariamente praticar uma série de exercícios espirituais, que nos possibilita este seminário eterno sobre paixões,  sobre a covardia e heroísmo, sobre usura e generosidade, sobre o apego e o desapego.
A Alma precisa desesperadamente da Carne, para aprender a ser melhor, como a Carne depende da Alma para experimentar o Sopro da Vida, que permite este aprendizado.
Este é um aspecto importante na minha leitura crítica de SM e outros que com ele concordam em usar esses modelos interpretativos da dinâmica por trás da evolução espiritual, interessantes, mas inexatos e arcaicos, a meu ver.
Isto é o que me parece e encerro aqui meu segundo comentário.