Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

MINHA RÉPLICA AOS COMENTÁRIOS DE INC EM 6 PARTES #3


IIIa PARTE

ANGÚSTIA E EVOLUÇÃO

por Mario Sales, FRC e SI

Continua Inc:
"O homem precisa desenvolver-se, coisa que para o animal, por exemplo, não é necessário, pois o animal nasce praticamente pronto, digamos assim. A potencialidade do homem por outro lado, é quase infinita, enquanto para o animal é muito limitada."                 
Se considerarmos a condição animal estática eu concordaria com voce, mas minha posição é a de que o Universo não tolera nem o Vazio, nem o Estático, portanto, fecho com linhas de pensamento que crêem em uma evolução da Mônada através de todos os planos, mineral, vegetal, animal, humano e angélico, como no pensamento teosófico de Blavatsky, que ando relendo.
Não vejo os animais como estáveis ou uniformes; existem animais e animais, alguns com um comportamento visivelmente superior aos seus iguais. Isso pressupõe alguma diferença evolucional o que inspira a idéia de que também eles, animais, evoluem.
"A angústia", continua Inc "não se desenvolve no homem porque ele não bebe bons vinhos ou porque não aproveita uma boa dança, ou porque é desenquadrado da sociedade, mas porque vê maldade em si mesmo e em seus irmãos. Veja que o próprio Cristo diz que não somos deste mundo mas estamos nele (João 15, 18-21). Eu não precisaria citar aqui exemplos de maldade que vemos no dia a dia."
Esse trecho não me pareceu claro pela citação de João, já que o fato de não sermos deste mundo evidencia, a meu ver, a preponderância da Personalidade Alma sobre o Corpo, o que significa e lembra, metaforicamente, que existe mais importância no "Corpo" do que no "Macacão" que o veste. Portanto, ao lembrar nossa verdadeira natureza e origem, isto seria uma forma de evidenciar o bem que existe em nós e não nossa maldade.
De qualquer maneira, ver maldade nos seres humanos é o mesmo que ler as pessoas pela sua aparência, seus sinais mais frágeis e sem importância, manchas sobe seu/nosso "macacão". Brancas ou negras, essas manchas não atingem nossos "corpos" por baixo do "macacão". Embaixo do "macacão", tudo está bem, o "corpo" está limpo e sadio.
O "macacão" pode ser manchado. Mas a alma-"corpo" dentro dele, dentro do "macacão", não.
O fato de estarmos no macacão prejudica nossa clareza mental. Aliás, vamos mudar aqui a metáfora de "macacão" para "escafandro", que eu prefiro.
Dentro do "escafandro", portanto, somos muito mais limitados, pois na verdade a vida na Carne reduz nossa percepção mais sutil, o que torna nossas opções e clareza de escolhas muito mais difíceis.
Caminhamos lentamente, a gravidade nos gruda à Terra, e não podemos voar por meios próprios; ouvimos menos que um cachorro, vemos menos que uma águia, e um simples e invisível vírus pode nos matar.
Essa limitação deve ser levada em conta quando falamos da maldade humana, que na verdade é o nome do comportamento possível de uma Mônada confusa dentro de um sem número de limitações.
Penso como o Buda e como os rosacruzes, que dentro de todos nós existe toda Plenitude da Luz e da Glória do Divino, bem como toda a Sua perfeição. Que mesmo o menor entre nós, o mais bárbaro e sanguinário membro da espécie humana, age sob o impulso de um erro de percepção, oriundo da falta de conexão com este Deus Interior.
O que chamamos Mal (e eu concordo, vemos muita "maldade" todos os dias) é a manifestação de equívocos interpretativos e dizem respeito a uma administração imperfeita da vida na matéria, pela personalidade alma envolvida.
Energias pouco elaboradas, pouco evoluídas, como costumamos dizer, tendem a cometer neste mundo de ilusões e fantasias, barbaridades, mas do ponto de vista místico, e esta é uma afirmação consciente e lúcida, fico com Richard Bach, o autor de "Ilusões" quando diz que ninguém morre, ninguém mata, e o sangue é mero molho de tomate. O Amor e o Apego decorrente que temos pelos que amamos é que nos leva ao sofrimento. E toda a nossa revolta e tristeza e dor advém da crença de que não somos espíritos na Carne, mas Carne apenas; que não somos pessoas dentro de "macacões", mas "macacões", apenas.
E quando estes se tornam imprestáveis, ou quando se reasgam, ou mancham, supomos, em nossa limitação de compreensão em Maya, que a personalidade alma ali dentro foi lesada também, quando na verdade quem estraga é a roupa, não a pessoa.
Para ficar claro, quem tem filhos e os ama, e eu as tenho, para quem tem uma companheira sem a qual não há muito sentido na existência, (e é o meu caso), estas afirmações são muito difíceis, pois o Amor, já disse, implica apego, e ao perder-se o contato, físico ou intelectual, com alguém que amamos, pela chamada morte ou pela loucura, o sofrimento que experimentamos é gigantesco, e acredito que não estou fora disso, como ser humano comum que sou.
Mas se eu quiser ser coerente com o pensamento místico, não poderei chorar no enterro de pessoas queridas, não lamentarei a sua transição, não amaldiçoarei o dia em que essas coisas acontecerem, pois são cursos normais da existência como a conhecemos neste mundo de dualidades, de aparente Vida e de aparente Morte.
O ser humano comum em mim, mergulhado nesta cultura e nessas crenças que ouvimos desde crianças, este no entanto chorará, e lamentará e sofrerá com essas coisas, tanto quanto qualquer não iniciado, e é destas contradições que é feita a natureza da vida na Carne.
Indignarmos-nos com o que chamamos Mal, ou sofrer com os desígnios do cotidiano contrários ao nosso apego, são movimentos normais e aceitáveis, mesmo que, como iniciados, saibamos que estas coisas são apenas crenças, modos de ver o mundo.
Não há morte para o Iniciado, apenas Transição.
Esta é a nossa crença como rosacruzes. Essa era a crença de SM ("Não conheço dois tipos de vida, mas apenas uma Vida").
Mas aqui na Carne, lutamos e lidamos com forças culturais muito poderosas e estudar Misticismo é desaprender e descondicionarmos-nos de tudo que aprendemos a entender como real, todos os dias.
Nossa visão do Mundo em parte como Bom e em parte como Mal é uma dessas coisas que, ao Místico Iniciado, não é permitido.
Toda a Criação é Obra de Deus.
Portanto ver, no seio de Deus, espaço para o Mal, advém mais de uma limitação de nossa percepção do que do fato de ser assim, realmente.
Deus não é o Bem, o Belo, o Justo, nem é o Mal, o Feio e o Injusto.
Deus é Deus.
Falta-nos portanto iluminação e serenidade para olhar a criação com desassombro e não como algo hostil à nós, mesmo testemunhando como testemunhamos em Maya, a Ilusão, tantos eventos tristes e desalentadores, em nossa concepção.
Repito, isto nada tem a ver com o mundo, mas com o Observador e com a mente do Observador, que somos nós.
Mude a Mente, e a Paisagem também se transformará.
Tudo continuará do jeito que é, mas ao mesmo tempo estará completamente diferente.
Vou reproduzir uma parábola Zen que está no livro de Osho, "A Jornada do Ser Humano: É possível encontrar a felicidade real na vida cotidiana?", da série "Questões Essenciais", Ed. Academia, página 8.
Diz a parábola:
"Perguntaram a um monge Zen: "O que voce costumava fazer antes de se tornar um iluminado?"
E ele respondeu:" Eu costumava cortar madeira e carregar água do poço."
E então lhe perguntaram:" E o que voce faz agora que se tornou um iluminado?"
E ele respondeu:" Eu corto madeira e carrego água do poço."
O questionador ficou confuso e disse:" Então parece não haver diferença."
O mestre disse:" A diferença está em mim. A diferença não está em meus atos, a diferença está em mim - mas porque eu mudei, todos os meus atos mudaram. Sua importância mudou: a prosa se tornou poesia, as pedras se tornaram sermões e a matéria desapareceu completamente. Agora há apenas Deus e nada mais. Para mim a vida agora é uma libertação, é o Nirvana."
Veja que interessante.
Eu me identifico muito com esta perspectiva.
Agora imagine um monge Zen lendo SM.



É mais ou menos o que acontece comigo. Eu acredito que a mente é senhora do real ou da concepção de realidade das coisas.
SM faz suas elaborações a partir do pressuposto de que tudo que ocorre neste mundo é absolutamente real, e que a mente de cada um não vê as coisas de um modo próprio, mas que todas as pessoas experimentam a realidade da mesma forma.
No século XVIII, não havia nenhum conceito de perspectiva mental, ninguém cogitava alguma importância à mente, mas o Corpo era o objeto de atenção de todos os religiosos e pensadores místicos, e na maioria das vezes, vendo no corpo e no mundo material um problema e não uma solução, um obstáculo ao crescimento espiritual e não um instrumento para este mesmo crescimento, como vemos, ou pelo menos como eu vejo, agora.
Se lá atrás, eu citei que a base do pensamento de SM é a noção, em primeiro lugar, de uma relação com Deus através do temor e do tremor, às vezes do Terror, e que , para ele, SM, em segundo lugar, o mundo do Céu e o da Terra são absolutamente diferentes, em terceiro lugar ele, como todos os pensadores ocidentais, acredita que o Mal existe de per si e não porque a Mente vê o Mal no mundo.
Para os pensadores de base católico judaica, o Mal vem de fora e não de dentro.
Para o Zen, ao contrário, tudo, bem e mal, beleza e feiura, e aliás, o Paraíso e o próprio Inferno, estão dentro de nós.
Só que isto não está claro para nós por causa da mente impossibilitada de enxergar com serenidade. É como a doença dos olhos conhecida como "Catarata".



Ela causa cegueira, mas é uma cegueira reversível.
Retire-se o cristalino opacificado e substitua-o por uma lente limpa e transparente e o mundo a nossa frente ressurge, belo e colorido.



O mundo não estava turvo, nem havia deixado de existir: nós é que não conseguíamos vê-lo.
Nossa mente perturbada pela ignorância provocada pelo seu mergulho na carne, precisa ser restaurada ao grau de transparência para que a luz entre e saia de forma livre e desimpedida.




E para isso, precisamos da meditação, constante e regular, de forma a serenar a Mente, Chitta, e colocá-la em condições de ver sem as distorções das opacidades da falta de paz interior, a tal da paz profunda que todos os rosacruzes desejam uns aos outros quando se encontram.
Só neste estado de serena e profunda paz, começamos a ver as coisas da forma certa. E as imagens tornar-se-ão muito mais agradáveis e em nada ameaçadoras.




Estaremos finalmente pacificados e sem temor, e seguraremos em nossas mãos o cálice sagrado do Cristo, o "Hole Graal" que todos buscamos.
Voce lembrou bem, em SM, existe uma ênfase muito grande na importância da Angústia, não na Paz Profunda. É uma questão de foco, de dar atenção a Luz ou às Trevas.
Eu foco na Luz, já que o Sol sempre gera sombra, mas a sombra não é o problema, ela pode até servir para descansarmos da inclemência do calor do Sol. A sombra é uma vicissitude, uma decorrência da Luz, não um problema a ser resolvido, mas um efeito inevitável em um mundo dual.
Vamos tentar olhar com serenidade para esta dualidade. Não devemos sofrer com ela porém compreendê-la, e evitar a angústia por causa disso com a Paz Profunda dos rosacruzes, ou com o estado de indiferença santa, do Zen.