Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 19 de agosto de 2014

MINHA RÉPLICA AOS COMENTÁRIOS DE INC EM 6 PARTES #1



Inc



Ia PARTE


A CRÍTICA COMO DEMONSTRAÇÃO DE RESPEITO E REVERÊNCIA

por Mario Sales, FRC e SI


Como os textos, tanto o meu como os comentários de Inc são relativamente longos e contemplam vários aspectos, achei por bem estabelecer como estratégia de resposta o trabalho parágrafo a parágrafo, de acordo com a ênfase de cada trecho.
Vejamos.
“Mário, louvável a ideia de colocares na 'tábua' uma discussão tão árdua. As leituras devem sempre ser críticas e não meramente passivas.
Pelo que tens escrito no blog, há bastante tempo, tenho a impressão que tens uma visão muito pessimista em relação ao pensamento de SM.”
Realmente é uma discussão árdua porque infelizmente temos, como místicos, o mau costume de tratar nossos autores de referência como semideuses ou iluminados e, por causa disso, reverenciá-los de modo quase religioso.
Essa atitude produz um bloqueio psicológico a análise dos textos, por mais inspirados que sejam; basta ver como exemplo o sem número de conflitos, armados ou não, gerados por interpretações diferentes de um livro que não é um livro, mas muitos livros, com estilos diferentes, a Bíblia.



Inc lembra apropriadamente que “As leituras devem sempre ser críticas e não meramente passivas.”.
Esta é uma postura intelectual e mesmo espiritual louvável.
É isto que faço sempre no blog. “Leituras...críticas”, analíticas, sem pudor de pensar homens os quais tiveram coragem de expor em textos seus mais profundos pensamentos, na intenção de suscitar em outros homens a reflexão sobre estes assuntos.
É preciso entender que, ao contrário do que pareça, presta homenagem e reverência a estes homens quem analisa seus textos impiedosamente.(impiedoso no sentido primitivo de sem piedade, ou seja, sem atitude religiosa [pio] ).
Apenas repetirmos o que foi dito séculos atrás seria um desrespeito à mentes tão poderosas e generosas.
Livros, sejam místicos ou não, são cartas à posteridade, enviadas para muitas pessoas em todos os lugares do planeta.





São um ato de carinho ao procurarem compartilhar ideias, conceitos, visões. São atos de misericórdia ao facilitar aqueles que não são tocados como estes homens foram pelo fogo de Pentecostes, a percepção das imagens que eles em suas mentes visualizaram. E devem ser respondidas, ao menos por consideração.

Portanto devem ser lidas com atenção e reverência, mas sem subserviência.
Nesse sentido, não é verdade que eu tenha “uma visão muito pessimista em relação ao pensamento de SM.”





O pensamento de Saint Martin(SM), seus ideais, são coadunantes com os meus. Ele, SM, quer um mundo mais espiritual. Deseja que os homens se voltem para o Divino. Vê a humanidade desorientada e infeliz em meio a falta de clareza quanto ao seu objetivo primordial na Terra; lamenta o excessivo materialismo da sociedade, e em todos estes aspectos estamos, eu e SM, de acordo.
O que realmente me incomoda portanto, não é o conteúdo do pensamento de SM, mas a forma pela qual ele escolheu expô-lo. Nesse sentido, ele segue modelos absolutamente comuns e fiéis à imagética cristã católica, que jamais se destacaram pela alegria e pelo deleite, mas por uma ênfase na tristeza e no sofrimento.
Esse é o ponto.
A meu ver, podemos ter estratégias as mais variadas para despertar a espiritualidade em pessoas que estejam com suas almas embotadas pelo materialismo excessivo.
Acredito que a estratégia da lamentação, ao estilo do livro de Jó, não seja a mais indicada para isso e, inclusive, tenha um efeito contrário, de afastar da espiritualidade aqueles que gostariam de abraçar uma qualidade de vida mais espiritual, mas não querem mergulhar em um ambiente sombrio e apático.
Por isso enfatizei no ensaio o lado luminoso e social da vida de Jesus, o Cristo. Se vamos tomá-lo como modelo de comportamento, devemos tomá-lo, em minha opinião, como modelo por inteiro, e não pinçar certos aspectos de sua história pessoal e elegê-los como os únicos que importam, desprezando os outros em nome de uma morbidez primitiva e de um moralismo de época.
O Cristo que curava, eu disse, era o mesmo que conversava com pessoas simples e com sábios, que ia a festas e que fazia grandes encontros, festivais ao ar livre de espiritualidade. O Cristo que tratava os enfermos era o mesmo que pregava.
Se conseguia pessoas para ouvi-lo, quando discursava, era porque tinha conseguido sua atenção por seus atos.
O que chama atenção, no ministério Cristão é isso: os atos vêm antes que as palavras. Ele nunca foi um místico literário, mas um homem de ação, e se tinha seguidores não os tinha porque apenas suas palavras arrastavam multidões, mas porque seus atos de cura, testemunhados por centenas, demonstravam, inequivocamente, um poder incomum.
A Vida era plena nele. Não pregava a dor ou o sofrimento, mas a busca por um estado de entrega à inspiração divina, sem ansiedade, de rendição e confiança na providência, semelhante aquilo que todos antes dele pregaram. Como está dito abaixo:
“E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;(Mateus 6:28-32)
Pura poesia e beleza.
Esta pregação da rendição está de acordo com a tradição hinduísta, por exemplo. O caráter de rendição à vontade divina, (que muitos consideram erroneamente a perda da capacidade de autodeterminação, ou uma passividade inaceitável em nosso momento histórico cultural),  é fundamental na busca do Santo Cálice da Iluminação, a que todo místico aspira.
Rendição é desfazer o terror diante da vida.
Rendição é perder o medo.
E assim chegamos ao ponto crucial: o medo.
Existem dois tipos de estratégia na relação com o Divino: o Temor da carta aos Efésios 6:5 (Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo); ou a camaradagem dos apóstolos que dividiam o peixe, o pão e o vinho, nas muitas ceias que realizaram, ao longo de três anos de caminhada e convivência. Camaradas são companheiros. Companheirismo significa solidariedade, entendimento entre pessoas que têm interesses comuns.
A visão de Paulo acima, na Epístola aos Efésios, está de acordo com trechos bíblicos judaicos que enaltecem o medo e não a camaradagem.
Salmos 2:11 Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor.;   
Salmos 55:5 Temor e tremor vieram sobre mim; e o horror me cobriu;  
Jó 4:14 Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.
Ou seja, trata-se da espiritualidade do medo.
Quando se fala em rendição aqui, não se fala de entrega como no hinduísmo supra citado, mas de uma rendição semelhante a de um exercito derrotado.
Um Deus que não aterrorize, nessa visão, não é um grande Deus.
Como Zeus com seus raios. Como Baal e sua boca devoradora de sacrifícios humanos.
Já a fala do Cristo, Jesus, modifica esta relação de temor e tremor, para uma relação de identificação e confiança, como se vê nos textos do Evangelho segundo João:
Eu e o Pai somos um. João 10:30
E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. João 17:22
Não há medo, nem ameaças, mas fortalecimento da auto estima, restabelecendo a herança divina do homem, retirando dele seu complexo de viralata, e transformando-o em um príncipe do Universo.
Este é um reforço psicológico positivo, ao contrário da outra forma, não necessariamente errada, mas demodé.
A estratégia do Terror, a do Tremor/Temor, pressupõe genericamente que todas as pessoas são estúpidas e grosseiras, infantilizadas, e que só se mobilizariam se fossem açoitadas psicologicamente.
A educação através do carinho e do convencimento nunca foi considerada como primeira opção porque implica um refinamento intelectual superior, uma compreensão mais profunda da natureza humana, uma fé no ser humano mais intensa do que os líderes, chamemos assim, do mal, possuíam.
Não, seria injusto achar que eles fizeram as coisas como fizeram apenas por maldade. A causa era mais pueril e banal: ignorância, primariedade mental, falta de elaboração, falta de complexidade cultural.
Costumamos achar que existiu um complô bem organizado para levar todo o ocidente a se tornar apático e inseguro.
Não é correto. O Ocidente é apenas mentalmente limitado, retilíneo, grosseiro. Ao contrário do Mundo Oriental, milenar, o Ocidente sempre teve um pensamento primeiramente racional e depois militar.
Se bem que o espiritualista deve ater-se a razão tanto quanto a intuição a Espiritualidade é estranha para o pensamento racional.
Por isso é mais fácil um espiritualista ser racional do que um racionalista se espiritualizar.
Aquele que tem como meio primordial de contato com o mundo a razão fica restrito a este canal e não se dá conta da amplitude que o cerca, como alguém que trabalha fascinado em seu computador sem conexão com a Internet, orgulhando-se das muitas operações que sua máquina pode realizar, da qualidade da imagem de sua tela, mas incapaz de ter acesso a qualquer coisa fora de seu CPU.
As informações não baixam suave e rapidamente da nuvem de terabytes sobre seu computador, mas tem que ser trazidas, em grupos, dentro de pendrives ou CD-ROMs, mais lentamente, mais mecanicamente.
O intelectual não sabe que há uma rede espiritual na qual podemos mergulhar e da qual podemos desfrutar sempre que desejarmos ou precisarmos, rede esta que nos desobriga de levarmos conosco  um sem número de livros e textos todo o tempo, rede que pode ser acessada em qualquer lugar do planeta ou do Universo e que é a reunião de todo o conhecimento que existe em uma só dimensão ou talvez em várias dimensões.
Quando Cristo prega a União (Eu e o Pai somos Um) ele propõe esta conexão. Uma conexão direta , sem intermediários, e se usarmos o linguajar martinista, uma conexão cardíaca.
Ouvi uma vez, já comentei aqui, um discurso dentro do Templo Martinista, que associava a Fé Martinista não à uma crença cega como a rosacruz sempre repudiou em seus textos, mas sim a conexão com o GADU, a vinculação entre nossos atos e Sua Vontade, de forma a que nos tornássemos seus "Agentes Divinos na Terra". Perfeito. (Este é um dos movimentos teóricos de rosacrucianização do Martinismo assim como existem outros movimentos que martinizam o rosacrucianismo.) Conexão, harmonização de objetivos e planos, fusão entre a nossa mente e a mente de Deus, é isso que todo místico almeja e quer.
Mas é preciso superar a premissa de que para isso é preciso Medo, Tremor e Temor.
Se existia algo em que a mensagem do Cristo sempre insistiu foi em tratar os seres humanos com respeito e dignidade, todos os seres, os fracos e os fortes, os nobres e o pobres, os cultos e os incultos.
Ele, o Cristo, viu a presença do Espírito de Deus em um coletor de impostos e em uma prostituta, em um pescador ignorante das letras e em um soldado romano, em Fariseus reunidos na cada de José de Arimatéia da mesma forma que em uma mulher samaritana que lhe dá água para beber.
Em Atos dos Apóstolos, 10:34, um Pedro surpreso faz uma constatação: "E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas".
É estranho que ele, que tinha convivido tão perto de Jesus já não soubesse disso. Mas assim era. Mesmo depois de Pentecostes, Pedro continuou a evoluir e se aperfeiçoar, a descobrir que o Ministério Cristão não seria um fardo fácil de carregar, já que eles, Seus discípulos, não tinham tanta luz quanto o Mestre, tanto discernimento e elaboração mental e psicológica quanto ele, sendo vítimas de preconceitos culturais naturais àquela época e região. Daí a perplexidade de Pedro ao descobrir que todos tem luz, todos são manifestações do Divino, mesmo aqueles que não vão ao templo. Num poço, no meio do caminho, Jesus vê a presença do Bem; em uma prostituta ele divisa a presença do Bem. Seus atos, não suas palavras, dizem: Deus está dentro de todos e de todas as coisas, em toda parte.
Um verdadeiro Cristão, descobria Pedro nesta passagem, veria a todos os seres humanos como iguais, repetindo uma passagem do Bhagavad Gita:
"O Iluminado não vê distinção entre o Brâmane, o elefante, o cachorro e o comedor de cachorro (pária)"
Aquele que se Ilumina manifesta dentro de si esta transformação e não fora dele. Ao contrário do que a Igreja pregou, não são seus atos que devem se modificar, mas ele mesmo, internamente.
A bondade mecânica não faz o homem caridoso, mas o homem que foi tocado pela bondade torna-se caridoso naturalmente.
E a bondade não vem de fora para dentro, brota dentro de nós quando permitimos a manifestação de Deus em nós, quando auxiliamos este Deus em nós a se manifestar e transcender a ilusão da limitação da carne.
Isto lembra o método socrático conhecido como Maiêutica, o parto das almas. Sócrates o ensina no Teeteto, um dos diálogos de Platão, que diz:
"Sócrates — A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras, com a diferença de eu não partejar mulher, porém homens, e de acompanhar as almas, não os corpos, em seu trabalho de parto. Porém a grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro. Neste particular, sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria, tendo grande fundo de verdade a censura que muitos me assacam, de só interrogar os outros, sem nunca apresentar opinião pessoal sobre nenhum assunto, por carecer, justamente, de sabedoria. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Por isso mesmo, não sou sábio não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. Porém os que tratam comigo, suposto que alguns, no começo pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu próprio julgamento como no de estranhos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira."
Aqui está a diferença entre a técnica do medo e da angústia como fonte de crescimento espiritual e o convencimento e a elaboração solidária, companheira, camarada entre Mestre e Discípulo.
Neste primeiro ensaio de reflexões sobre os comentários de Inc devo parar por aqui. Se algumas linhas me causaram tantos desdobramentos só posso agradecer a Inc pela chance de esclarecer meus pontos de vista.

Pretendo continuar a trabalhar essas idéias e acho que vou deixar para publicar tudo de uma vez para não criar debates paralelos.