sábado, 12 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 3

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Acredito que toquei na ferida. As reações apaixonadas, poucas, aliás, que recebi ao longo da semana na defesa do Ocultismo, mostram que ainda temos um longo caminho pela frente neste debate. Temos tempo, no entanto. E pelo jeito em ambiente democrático, todas as posições são bem vindas, até para esclarecer as emoções, como gostava de falar o psicólogo americano Carl Rogers.

Carl Rogers
Talvez o coração deste debate não seja o Ocultismo em si, mas a estratégia eleita para seu uso. O Ocultismo, como lembrou o frater de pseudônimo AEC, é uma forma de cultura, indubitavelmente, inscrita na história da sociedade humana e cujas manifestações simbólicas se estendem por séculos de civilização. Só que como comentei antes trata-se de um fenômeno datado (séc. XVII e XVIII), que teve um repique no séc. XIX, com a instituição da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), em 1880, e, claro com a fundação da Sociedade Teosófica por Helena Petrovna Blavatsky e outros, em 1875. Sei que suas origens remontam aos primórdios da civilização mas estas datas citadas são aquelas em que atingiu seu auge.
Helena Blavatsky

A Inglaterra é o epicentro desta movimentação de reorganização do Ocultismo, e, relatam os nossos historiadores esotéricos, tal situação tinha uma finalidade específica: contrabalançar o avanço de teorias materialistas, como a filosofia Marxista, chamada de Comunismo, e a filosofia Positivista de Augusto Conte. É narrado por Spencer Lewis que em função desta estratégia, Blavatsky apoiaria em um primeiro momento o trabalho de Alan Kardec na fundação do Movimento Espírita, na intenção de reforçar o combate a iniciativas materialistas e ateístas, para mais a frente, quando as instituições estavam mais sólidas, retirar discretamente este apoio.

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte
Longe destas análises políticas sobre o Ocultismo e seu papel na tentativa de coibir o avanço do Materialismo Ateu, ele persevera no Imaginário de muitos místicos como um caminho para a iluminação.
Nós, rosacruzes, somos e fomos ocultistas, em todas as épocas, preservadores dedicados da tradição esotérica do mundo civilizado. O que quis evidenciar com meu ensaio, propositadamente provocativo em suas imagens, é que a estratégia de uso do Ocultismo como um caminho para a iluminação foi denunciada há muito como desnecessariamente complexa e enganosa, no mínimo dúbia. O que os Ocultistas do passado queriam com suas práticas mágicas ou teúrgicas, não podemos garantir, pois eles não estão mais entre nós, (e mesmo assim estão) para nos dizer com clareza. O que verdadeiramente importa, no entanto, é o que eles diziam para si mesmos. O campo mais profundo do esoterismo e do Ocultismo, e esta é a minha tese central, minha “piéce du resistance”, é o homem e suas causas psicológicas para dedicar-se a tais práticas.
Dizer que a prática do Ocultismo sempre foi uma busca de Poder pode ser um reducionismo, concedo, só que é um reducionismo fundamentado. Ninguém dedicar-se-á a estudar Magia e Teurgia, durante anos, com prejuízo de sua vida pessoal e profissional, por vêzes, em busca, apenas, de auto conhecimento.
O Ocultismo provê ferramentas para determinadas operações e ao realizá-las, liberta energias com as quais é preciso lidar, seja para usá-las em determinada finalidade, seja para comprovar, pura e simplesmente, sua real existência. De qualquer forma, em minha opinião, repito, ninguém buscou o Ocultismo, em todas as épocas, apenas e tão somente como forma de cultura pessoal. Falemos com franqueza, existia uma intenção mais prática nesta busca. Só que o Ocultismo traz consigo uma perigosa tentação. A Vaidade. Não há como escapar desta verdade.
Aleister Crowley
Esta Vaidade é que pode solapar o caminho da espiritualidade. A sensação de poder que advém de práticas ocultistas muitas vêzes é inevitável. E com isso vem a Vaidade.
É um sofisma dizer que os atos são sempre bidirecionais e que o que está dentro está fora, e portanto todo ato do Ocultista reflete uma busca pelo auto aperfeiçoamento. O Misticismo verdadeiro, que é diferente do Ocultismo, é um movimento eminentemente para dentro, em busca do Graal, do Cálice Sagrado, que se esconde dentro de nossos corações. O Ocultismo em si e por si é um movimento para o Externo, para o que está fora, já que busca um relacionamento com energias exteriores a nós, seres fantásticos e energias do Universo cujo domínio é delicado e às vêzes perigoso.
Sim, é claro que os movimentos se compensam e existe uma dinâmica dentro e fora do indivíduo, como lembra a Tábua de Esmeralda.

Só que este é um jogo de espelhos, um na frente do outro, que oculta a origem do primeiro raio de luz. É aí, nesta origem, no sentido que apontamos o primeiro raio, que reside e se oculta a Intenção do praticante de Ocultismo. Sim, porque o Ocultismo é uma prática, não só uma teoria. E ninguém se esforça na busca de uma habilidade qualquer para não usá-la. Ninguém em sã consciência vai estudar Magia e Teurgia por anos sem a intenção de pô-la em prática e usufruir os possíveis benefícios que advém desta habilidade. Novamente, o que importa neste debate é, portanto, a Intenção por trás da prática ocultista, e não o Ocultismo em si. Foi citado no debate que a prece é uma prática ocultista, já que nos conecta com o mundo das forças espirituais. Concordo. Só que a prece é um exemplo diferenciado. Na prece, e aí me refiro ao tipo de prece que o homem faz na intenção de encontrar com seu Deus interior, temos a única prática oculta que mostra como sentido inicial aquêle para dentro.
E aí o raio de luz começa a se refletir no espelho interior do espírito humano e resvalar para fora do homem, iluminando a criação a sua volta e refletindo nela a sua luz interior que então, novamente reflete na criação e retorna para o homem na forma de bênçãos intermináveis, principalmente as bênçãos espirituais, aquelas que garantem bem estar e serenidade, equilíbrio familiar e pessoal. Já os praticantes de Ocultismo por excelência não tiveram uma vida pessoal que demonstrasse esse tipo de bênção. E a lista de exemplos é longa e antiga. Começa em John Dee. John Dee (Londres, 13 de julho de 1527 - Richmond upon Thames, 1608 ou 1609) foi um matemático , astrônomo, astrólogo, geógrafo e conselheiro particular da rainha Elizabeth I. Devotou também grande parte de sua vida à alquimia, adivinhação, e à filosofia hermética. Quero transcrever aqui, da Wikipedia, um trecho de sua biografia:
John Dee
“No começo da década de 1580, crescia a insatisfação de Dee com seu pouco progresso em aprender os segredos da natureza e com sua própria falta da influência e do reconhecimento. Começou a se voltar para o sobrenatural como meio de adquirir conhecimento. Especificamente, tentou contactar anjos através do uso de um "scryer" ou bola de cristal, que agisse como um intermediário entre Dee e os anjos. As primeiras tentativas de Dee não foram satisfatórias, mas em 1582 encontrou-se com Edward Kelley, que o impressionou extremamente com suas habilidades. Dee pôs Kelley a seu serviço e começou a devotar todas as suas energias a suas perseguições sobrenaturais. Estas "conferências espirituais" ou as "ações" eram conduzidas sempre após períodos de purificação, de preces e de jejum. Dee foi convencido dos benefícios que eles poderiam trazer à humanidade. (o caráter de Kelley é mais difícil de avaliar: alguns concluíram que agiu com completo cinismo, mas a desilusão ou a decepção consigo mesmo não estão fora de questão). Dee dizia que os anjos lhe ditaram muitos livros desta maneira, alguns em uma espécie de língua angélica ou enochiana. Em 1583, Dee conheceu o nobre polonês Albert Laski, que convidou-o para lhe acompanhar em seu retorno a Polônia. Através de alguns sinais dos anjos, Dee foi persuadido a ir. Dee, Kelley e suas famílias foram para o continente em setembro 1583, mas descobriram que Laski estava falido e aquém dos favores da côrte de seu próprio país. Dee e Kelley começaram uma vida nômade na Europa central, mas continuaram suas conferências espirituais, que Dee registrou meticulosamente.
Edward Kelley
Tiveram audiências com o imperador Rodolfo II e com o rei Stefan I de Polônia e tentaram convencê-los da importância de suas comunicações angélicas. Foram ignorados por ambos os monarcas. Durante uma conferência espiritual na Boêmia (que corresponde atualmente a parte da República Tcheca) em 1587, Kelley disse a Dee que o anjo Uriel ordenou que os dois homens compartilhassem suas esposas. Kelley, que nessa época estava se tornando um alquimista proeminente e era muito mais procurado que Dee, pode ter desejado usar isto como uma maneira de acabar com as conferências espirituais. A ordem provocou em Dee uma profunda angústia, mas ele não duvidou de sua autenticidade e aparentemente deixou que ela fosse em frente, mas pouco depois abandonou as conferências e não voltou a ver Kelley. Dee retornou a Inglaterra em 1589.”
Obviamente, Kelley era um indivíduo mal intencionado. E Dee só não percebeu isso, porque em sua ingenuidade se deixou levar por um enganador. O que é estranho e que muitos não conseguem entender, é como um homem de tamanho conhecimento se deixou enganar por um reles charlatão, provavelmente hábil com as palavras e capaz de alguns feitos impressionantes, mas nem por isso menos charlatão. Isto é simples de responder: Dee deixou-se cegar pela Falsa Luz. Tão alardeada e comentada, esta Falsa Luminosidade que engana os tolos provém do acúmulo de conhecimento puro na ilusão de que o conhecimento de per si traz sabedoria. Não é bem assim. Como o Intelecto, o Ocultismo é fascinante em sua complexidade e em seus efeitos. Da mesma maneira como o intelecto pode nos iludir com suas piruetas, o Ocultismo também pode. Dee estava totalmente fascinado pela Magia e pela Teurgia e não poderia ter percebido que, ao seu lado, sua própria esposa seria vítima de um escroque, que na sua malícia justificou-se na própria Teurgia para justificar seus atos. Ao homem envolvido com práticas ocultistas sugere-se prudência e cuidado, de forma que não perca o foco de sua real intenção em buscar o Ocultismo. É sabedoria que ele busca? Ou apenas Conhecimento? E este Conheciemnto uma vez conseguido, lhe trará progresso espiritual ou aumentará sua própria vaidade e sensação de autonomia dos desígnios divinos?

Saint Martin
Quando Saint Martin opta por um trabalho discreto (“Descobri que fazer alarde não faz bem, assim como fazer o bem não deve fazer alarde”) manda uma mensagem a todas as gerações de Ocultistas, que além de Ocultistas eram Místicos, de que se concentrassem na Via Cardíaca, dentro de si mesmos, e que buscassem com fervor apenas um mistério, o maior de todos eles, aquele que em si sintetizava todo a busca esotérica e Ocultista: a busca de Deus em nós mesmos. E alertava que para tal busca não eram necessários complexos rituais, nem jejuns especiais, nem encantamentos obscuros. Bastava-se para isso voltar-se para a Luz Maior que emana de nós mesmos e procurar refleti-la em todos os nossos atos pela prática da Misericórdia, transformando-nos em “agentes de Deus na Terra”.

AMORC
Não foi acidental que AMORC se tornasse a protetora do empreendimento de Saint Martin como reelaborado por Pappus. Não deixamos de prestar reverência a Willermoz nem de honrar a memória de Martinez de Pasqually, da mesma forma que Saint Martin honrou. Só que o caminho de Saint Martin é absolutamente diferenciado daquele do Ocultismo Martineziano, aonde bebe apenas por deferência ao seu mestre, mas do qual não precisaria para organizar seus próprio método de busca do Divino, dentro de si mesmo. Isto está em perfeita consonância com o trabalho Rosacruz ao longo dos séculos.
Alquimista

O que nos difere, nós, frateres e sorores, é que se alguma prática ocultista e alquímica fizemos ao longo destes séculos, e com certeza não há maiores ocultistas do que os rosacruzes na história do esoterismo, sempre o fizemos com foco na busca por Luz Espiritual. Este era e ainda é nosso objetivo. Quando percebemos, por consenso, que o Ocultismo era uma prática desnecessária a esta busca, enveredamos por outro caminho, por outra estratégia, a estratégia de adequar a nossa busca por conhecimento ao modelo proposto pela ciência do século XX. Este foi o papel histórico de Harvey Spencer Lewis: fazer estra transição de estratégia sem traumas. Os rosacruzes, desta forma, evoluíram em suas práticas, e despiram a busca esotérica de sua roupagem romântica, dando-lhe uma objetividade e uma verificabilidade que lhe garante um caráter científico extremamente moderno. Os Rosacruzes hoje representam uma nova classe de Ocultistas e como a Alquimia deu as bases para a Química, embora uma não seja superior a outra, apenas menos subjetiva, da mesma maneira o Ocultismo deu lugar ao Trabalho Esotérico Científico, do qual a maior expressão é a Universidade Rose Croix, aonde experimentos de caráter positivista, investigam em ambiente e condições controladas os mesmos fenômenos que Dee investigava de forma confusa em seu tempo.

Nem deveria ser de outra forma. Muito sofrimento mostrou que práticas ocultistas liberam energias com as quais na maioria das vêzes, seres humanos comuns não estão aptos a lidar. É preciso cercar a investigação de cuidados iguais àquêles que cercam quaisquer procedimentos de investigação na ciência ortodoxa. Cuidados que visam preservar a integridade dos pesquisadores e produzir um conhecimento epistemologicamente confiável, e não um número descomunal de interpretações pessoais que carecem de comprovação ou fundamento.
Kant dizia que sensação é o estímulo organizado, percepção é a sensação organizada, concepção é a percepção organizada, ciência é o conhecimento organizado, sabedoria é a vida organizada.
O Moderno Misticismo Rosacruz, do qual o Ocultismo é um subproduto, uma subdivisão, beneficia-se desta forma kantiana de pensar, procurando dar organização ao seu conhecimento para transformá-lo em ciência e orientando os rosacruzes da AMORC a usar esta ciência em suas próprias vidas, de forma a demonstrarem com a organização de suas próprias existências, a Sabedoria de seus ensinamentos. Em última análise, é o sucesso pessoal, profissional e psicológico de um indivíduo que demonstra o acerto ou o erro de suas opções pessoais.
Se a prática do Ocultismo trouxesse estes três tipos de conseqüências para seus praticantes, eu me calaria. Só que não é assim. Ao contrário, na sua grande maioria, adeptos de práticas essencialmente ocultistas viram sua vida entrar em desequilíbrio e drama, como a de John Dee na Inglaterra do séc. XV.
Dirão alguns: “Este é um exemplo isolado, não representa um padrão.” Muito bem, vejamos então a história de um mago mais recente e um Ocultista da época das celebridades: Aleister Crowley.
Crowley
Recebi comentários baseados em seus ensinamentos. Transcrevo uma parte de sua biografia retirada da Wikipedia: “Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), foi um membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e influente ocultista britânico, responsável pela fundação da doutrina Thelema . Ele é o co-fundador da A∴A∴ e eventualmente um líder da Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.
Livro da Lei
Crowley também era um hedonista , usuário recreacional de drogas, e crítico social. Em muita de suas façanhas ele "iria contra os valores morais e religiosos do seu tempo", defendendo o libertarianismo baseado em sua regra de "Faz o que tu queres". Por causa disso, ele ganhou larga notoriedade em sua vida, e foi declarado pela imprensa do tempo como "O homem mais perverso do mundo." Além de suas atividades esotéricas, ele era também um premiado jogador de xadrez, um alpinista, poeta, dramaturgo e foi alegado que ele também era um espião para o governo britânico.”
Thelema é uma filosofia mal compreendida.A leitura mais atenta de seu teor mostra uma preocupação com a valorização do ser humano e a pseudo liberdade desenfreada que lhe é atribuída não se confirma no texto. Existe um chamado a responsabilidade pessoal . De qualquer forma, a maneira teatral e midiática como Crowley procedeu as suas operações ocultas deixou espaço para o equívoco e o erro. Todos concordarão comigo, ele nunca foi uma pessoa discreta. De qualquer forma, posso ser acusado de muitas coisas, mas não de ser uma pessoa conservadora ou moralista. No entanto o que chama atenção neste Mago Pop Star é o seu Ego. Suas pregações sempre foram despidas de quaisquer preocupações éticas e ele é o espelho de tudo que eu disse sobre o perigo da Vaidade na prática ocultista. Outros magos tão importantes e célebres autores como Eliphas Levi não buscaram a notoriedade e nem pregaram a destruição de valores ("Faz o que tu queres") de forma tão irresponsável.
Eliphas Lévy
Sim, porque alguém que consegue a fama que Crowley conseguiu poderia ter se aproveitado disso para promover a busca de valores mais elevados. Não era o seu caso. O Hedonismo foi mais forte e ele também cedeu a falsa luz, talvez de modo mais consciente do que seu antecessor e também inglês, John Dee. Esta é uma atitude compatível com os objetivos rosacrucianos? Com certeza não. Repito, não somos moralistas, não fazemos julgamentos de quaisquer pessoas ou comportamentos, pois isso compete a Deus e ao Karma de cada um. Só que nosso caminho é outro, temos outros objetivos. E com certeza, no campo da espiritualidade e do esoterismo, a vida de um homem deve ser um referencial mais importante para corroborar seus ensinamentos do que esses ensinamentos de per si.
Crowley não é, portanto, um modelo a ser seguido ou consultado por nenhum membro lúcido e comprometido tanto da Ordem Rosacruz quanto da Ordem Martinista. O compromisso de rosacruzes e martinistas é com as coisas de Deus e não com as coisas do homem. Crowley arrastou consigo um sem número de pessoas desprovidas de bom senso. Ele fez suas escolhas; deverá portanto, responder por elas ao Universo.
A escolha dos rosacruzes e dos martinistas é outra.
Acho que é isso.

sexta-feira, 11 de março de 2011

REFLEXÕES MÍSTICAS: Tréplica do Frater AEC

Aqui o Frater continua a sua defesa do Ocultismo como uma forma de cultura mística.Ao final, notas de rodapé esclarecem alguns de seus comentários.

Frater Mario


O aspecto grosseiro do ocultismo, magia e teurgia prende- se unicamente aos fenômenos chamados no Oriente de Siddhis, mas como tanto os mestres do ocidente e oriente afirmam, ao percorrermos a senda espiritual os siddhis são uma conseqüência natural, não um fim.

Telepatia, um tipo de Siddhi

Dizer que o ocultismo e a teurgia ou mesmo a magia buscam unicamente o poder, Frater, é um reducionismo.
Não há nada que se manifeste no exterior, que não esteja primeiro no interior. Nos mistérios herméticos revelados no Cabalion(1) , na Tábua Esmeraldina e nos textos alquímicos rosa+cruzes do século XVII e XVIII, estes princípios são esclarecidos.


O pentagrama (microcosmo) e o hexagrama (macrocosmo) estão irremediavelmente emaranhados.
Não há prática exterior a nós; uma prece é uma operação teúrgica. O ritual Martinista, independente da ordem em questão, mesmo simplificado, opera as forças ocultas da natureza. Não há como um membro comprometido participar de um Ritual Martinista, qualquer que seja a ordem,  e não sentir o contato com a cadeia mágica dos mestres passados. Todas as religiões tem seu aspecto exotérico e esotérico. Muito do que comentaste, pertence ao aspecto exotérico, tanto de religiões como ordens, ou mesmo grupos solitários.

A Prece
Interessante questão sobre a psicologia, uma vez que nos tempos modernos a Ordem que mais influenciou o cenário esotérico com suas práticas e idéias foi a Ordem Hermética da Golden Dawn(2) , que através de dois grandes divulgadores, Israel Regardie(3) e Dion Fortune(4) fizeram uma maravilhosa síntese entre magia, ocultismo e psicologia.
Através de uma abordagem psicológica, se ensina e pratica o ocultismo rosacruciano do século XVII e XVIII da Rosa+Cruz de Ouro, fonte dos ensinos da AMORC, e não é em vão que na maioria dos graus, AMORC e Golden Dawn usam o mesmo nome para os graus.

Dion Fortune e Regardie


Frater, para concluir, ainda existe uma igreja interior, um aspecto esotérico, uma realização onde não pseudo- buscadores presos aos fenômenos, mas verdadeiros adeptos se debruçam e realizam incognitamente os mistérios do altíssimo, segundo uma razão não cartesiana, newtoniana, ou clássica, mas "quântica" onde os opostos estão contidos numa única coisa: partícula-onda, dentro-fora, ser-não-ser, morto-vivo.


Fraternalmente,

AEC

PS 1:
[1] O Caibalion (Kybalion) é um livro esotérico e ocultista sobre os Princípios Herméticos, foi publicado pela primeira vez em 1908 em inglês. O livro foi escrito por três indivíduos auto-intitulados Os Três Iniciados, e segundo eles contêm a essência dos ensinamentos de Hermes Trismegistus tal como ensinado nas escolas herméticas do Antigo Egito e da Grécia. O título Caibalion se refere a uma palavra hebraica que significa "Tradição ou preceito manifestado por um ente de cima" e compartilha a mesma raiz da palavra Qabala. Muitas das ideias apresentadas neste livro anteciparam conceitos relativamente modernos da Lei da Atração e do Movimento do Novo Pensamento( da Wikipedia)


PS 2: A Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), foi uma sociedade mágica surgida na Inglaterra, na década de 1880, que reunia várias vertentes do Ocultismo, e cujas ramificações encontram-se ativas até os dias de hoje.No dizer de Gerald Yorke, a Aurora Dourada foi "a glória culminante do renascimento ocultista do século XIX, sintetizando um vasto corpo de material desconexo e disperso, em um todo coerente, prático e eficiente, o que não pode ser dito de qualquer outra ordem ocultista de que tenhamos conhecimento naquele tempo ou a partir de então".(da Wikipedia)


PS 3: Israel Regardie, nascido Francis Israel Regudy (November 17, 1907–March 10, 1985) era um ocultista e escritor autor de livros na Ordem Hermética da Aurora Dourada.


PS 4: Dion Fortune, pseudônimo de Violet Mary Firth Evans (1890 1946), psicóloga e ocultista britânica.Violet nasceu em Bryn-y-Bia (Llandudno, Gales), e cresceu no seio de uma família onde se praticava, rigorosamente, a Ciência Cristã. Por volta de 1910, após sofrer uma crise nervosa interessou-se pelo Ocultismo. Em 1919, ela foi iniciada no Templo "Alpha e Ômega", da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), onde adotou o nome-mágico de "Dion Fortune", inspirado no lema de sua família: "Deo , non fortuna "(Deus, não o destino)  Ao mesmo tempo, estudou Psicologia e Psicanálise na Universidade de Londres, onde se formou, passando a trabalhar como psicoterapeuta na Clínica Médico-Psicológica de Brunswick Square (Wikipedia)


Agradeço mais uma vez ao Frater, cujo nome real não sei infelizmente, pela sua agradável e estimulante colaboração.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 2

Recebi agora a pouco o email de um frater da AMORC sobre o texto O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA e, com sua autorização, publico, para promover o debate, suas colocações e a minha réplica. Fiquem à vontade para participar.

“Prezado Frater,


Também sou membro da AMORC e TOM
Em vista a seu último poste no Blog, gostaria de tecer alguns comentários. Respeito sua intelectualidade e desinteresse no ocultismo e teurgia. Mas afirmar que morreram ou estão fora de moda, é totalmente um non-sense. Nunca estiveram em moda, sempre foram reservadas a poucos, pessoas dotadas das condições adequadas de determinação e vontade. Apenas para ilustrar que a tradição continua perpetuada em outras ordens, recomendo consultar os sítios da Sociedade da Ciências Antigas, Hermanubis, Ordem Kabalística da Rosa+Cruz, por exemplo. Está, como sempre esteve, viva!... Não é para todos, mas aos verdadeiros homens de desejo, abre os portais de seu santuário.
Que você viva sempre na Eterna Luz da Sabedoria Cósmica !


AEC


Minha resposta:

Caro Frater AEC:


Primeiramente obrigado por seu comentário.
É sempre um prazer inenarrável esta troca de idéias. Em segundo lugar, gostaria de recolocar minhas idéias.
A prática do ocultismo, como o frater deve saber, sempre teve como objetivo o desencadear de efeitos palpáveis na realidade. Eram uma seqüência de técnicas e textos que, se lidos da forma certa, acompanhados de algum tipo de preparação pessoal e ritualismo, resultariam em manifestações visíveis e/ou audíveis de seres etéreos, terrestres ou celestes, permitindo o diálogo com estes seres ou transformando-os em emissários de determinadas incumbências.

Ou seja, ocultismo sempre buscou Poder, nunca auto conhecimento. Sempre buscou as respostas para as perguntas fundamentais (como viver em equilíbrio com meu meio ambiente e meu Deus de forma próspera e saudável) fora do homem e não dentro do homem.
Ao contrário, a busca mística era uma busca para dentro do homem, busca tão ou mais complexa do que a busca do Ocultismo, mas absolutamente livre de quaisquer aparatos especiais ou tecnologias obscuras para empreendê-la, já que o simples contemplar do mar em uma praia já potencializa e dá às vezes o pano de fundo para tal exercício.


Quando falo moda, refiro-me realmente a isto: um conjunto de práticas que alcançou um prestígio grandioso em um período histórico da sociedade, período este que já passou e prestígio este do qual não goza mais.
Era de bom tom que todo aquele que se dissesse místico fosse capaz de discorrer sobre técnicas ocultistas e usasse, ao se expressar, a terminologia própria deste campo.


Hoje, frater , não é mais assim. O frater e eu já podemos conversar sobre a vida mística através de categorias mais psicológicas do que ocultistas. Podemos falar em aprofundamento da consciência, aumento da consciência do mundo e de si, aperfeiçoamento da sensibilidade, uma fala que está encharcada de valores eminentemente psicológicos; no século XVII e XVIII não existia Psicologia Laica, apenas a religião, e a Bíblia, no Ocidente, e o Ocultismo baseado em valores cristãos, que desconhecia o trabalho místico hindu, o Vedanta, os Upanishad, ou mesmo o Corão de Maomé, ou aspectos importantes do Budismo Zen.



O mundo era muito menos globalizado e os Europeus brancos e cristãos ainda supunham ser o conhecimento judaico o único referencial importante na cultura.



Não havia a ciência, não havia positivismo, enfim, não havia Cultura fora dos textos do Velho e do Novo Testamento. Não é a toa que os trabalhos artísticos da época são redundantes e na sua grande maioria tratam de assuntos descritos no Livro Santo dos Cristãos e dos Judeus. Tudo isto mudou, passou, desapareceu.


Hoje a leitura que se faz dos textos bíblicos é muito mais crítica e qualificada ( veja como exemplo o eruditíssimo trabalho do professor Severino Celestino, sobre as muitas leituras possíveis do Hebraico, no You Tube). A Igreja, enfim, perdeu o poder de queimar os pensadores e matar os dissidentes e, livres de suas amarras, uma grande multidão de filósofos começou a pensar baseado em outros parâmetros que não os parâmetros da Igreja.


Foi assim que, pouco a pouco, aquela erudição sacra representada pela prática ocultista foi lentamente substituída pela erudição laica, proveniente de uma Astronomia Galileliana em oposição aos astrólogos, uma química como de Lavoisier, ao invés das Alquimia, e uma cultura mística verdadeiramente livre ao invés de um misticismo aparentemente cristão, mas que, na verdade, era essencialmente católico romano.



Ao contrário do que pareça, tais práticas perderam sim, toda a importância que tiveram um dia, não por serem combatidas, mas porque perderam espaço para a busca pessoal e despojada da Verdade Interior de cada um. E talvez, repito, um dos mais importantes artífices disso foi o próprio Saint Martin que, ao contrário de Willermoz, que continuou organizando templos, dedicou-se a iniciação pessoal e solitária, sem nenhum tipo de aparato, confirmando que "não se precisava muita coisa para ver a face de Deus". Bastava para isso que olhássemos em nossos espelhos, já que ele está dentro de nós. 

Paz profunda frater. 

M

terça-feira, 8 de março de 2011

O OCULTISMO E A TEURGIA ESTÃO FORA DE MODA 1

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:, M.:M.:

Recebi um comentário meio bravo de um frater (acredito que seja) que leu o artigo “Os Muitos Martinismos na história recente do Martinismo”. Textualmente ele dizia que “sinceramente, poderia a TOM se libertar do jugo da AMORC e cada uma seguir seu caminho, cada vez de forma mais profunda e independente. Seria macular a tradição martinista, "rosacrucianizar" seus ensinamentos, uma vez que é cristã em essência e se alicerça na pura tradição esotérica ocidental da cabala esotérica cristã e essência da doutrina de Pasqualy e Bohème.(SIC) Argumentei educadamente que sem a colaboração e cuidado de AMORC, a Ordem Martinista Papusiana nem existiria.
Só que em uma segunda intervenção, minutos depois, notei na fala do frater uma certa tristeza pelo caráter quase inexistente de práticas teúrgicas no Martinismo como exercido dentro da AMORC. Dizia que a Ordem não tinha permissão para retirar o conteúdo teúrgico do Martinismo. O que achei de interessante na sua observação foi a sensação de viuvez pela Teurgia, como se fosse algo ou alguém por quem devêssemos chorar. Na verdade, não há modernamente como sustentar a necessidade de práticas teúrgicas no misticismo moderno, aliás, para tal levando em consideração justamente a posição do próprio Louis Claude de Saint Martin que, respeitosamente, comentava, enquanto Martinez desenhava os círculos e invocava os anjos, se realmente “tudo aquilo era necessário para ver Deus.”


Uma mudança de postura se avizinhava dos místicos de então, que além de místicos, buscadores do infinito dentro de si mesmos, achavam necessário praticar o Ocultismo, esta seqüência de encantamentos e técnicas mágicas famosas.
O Ocultismo morreu de velho. Velho e inadequado para mentes mais equilibradas e maduras que sabem ser inútil invocar deuses e demônios. Inútil, porque se alguém se dá a tal esforço tem pelo menos uma de duas intenções: ou acha que com isso conseguirá algum poder que tornará sua vida objetivamente melhor, ou acha que conseguirá informações privilegiadas sobre a vida e contemporaneidade, como nos séculos XVII e XVIII.

Senhores, modernamente, ninguém mais em sã consciência acredita na tese de que alguém ou alguma coisa pode viver por nós ou nos dar o atalho para um poder que, só será útil se manipulado por mãos experientes. Viver pode ser difícil e, diversas vezes extremamente frustrante, mas acreditar que existe alguma coisa superior a experiência e maturidade adquirida com esta experiência que demanda Tempo e Esforço é, no mínimo, uma denúncia de falta de conhecimento acerca da natureza humana.
Tal ingenuidade é grave. Grave porque a sociedade humana e a vida têm seus ritmos psicológicos e devemos todos nos adaptar a eles, se queremos que eles se adaptem a nós. A Magia Moderna não está mais fora de nós, não precisa de instrumentos ou grandes rituais, e talvez duas ou três técnicas mântricas somadas a uma imaginação bem treinada sejam tudo que o Mago moderno precise. O resto ele deverá ser capaz de produzir com seu esforço, com sua capacidade física e intelectual, e com trabalho honesto, focando com clareza um determinado sonho e objetivo e perseguindo-o de modo obstinado.
Lamentar-se pela morte de um período romântico, em que pessoas ingênuas, por mais que parecessem sábias e pudessem realizar feitos de pirotecnia impressionantes, acreditavam que um anjo ou outro ser qualquer pudesse nos ensinar a viver ou nos dizer o que é melhor para nossas próprias vidas é ser tão ingênuo quanto eles eram.
A época de buscar em outros nossa própria felicidade terminou há décadas e culpar os outros pode ser tentador, mas é falso e inadequado.
Temos em nós tudo que necessitamos. Nem mantos, nem cajados, nem anéis nos darão mais poder do que a serenidade que vem da experiência sólida ao longo de anos de esforço sério e dedicado a cultura e ao aperfeiçoamento ético pessoal.Fujamos dos atalhos e dos cantos de sereia. Precisamos é viver e superar nossas próprias limitações com nossas próprias pernas, com nossos próprios braços.
O Ocultismo e a Teurgia não foram retirados do Martinismo pela AMORC ou por quem quer que seja. Eles morreram sozinhos. O Ocultismo e a Teurgia, sinceramente, estão fora de moda.

DUALIDÃO

por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Os homens que viram e vêem além de seu tempo dialogaram e dialogam não apenas com sua época, mas com todas as épocas. E como falar com os que já deixaram o corpo só é possível por meios e técnicas mediúnicas nem sempre confiáveis, resta ater-se às suas obras.  É a obra que importa não o homem. Somos eternos naquilo que escrevemos, não em nós mesmos, se bem que somos nós mesmos apenas naquilo que escrevemos.

Franz Overbeck
Numa carta a Franz Overbeck, em 30 de julho de 1881, Nietzsche diz encontrar em Spinoza seu único precursor, e “que a partir de então a sua solidão (Einsamkeit) passava a ser uma dualidão (Zweisamkeit).
Todas as pessoas de sensibilidade são inevitavelmente solitárias. É assim que as coisas se encaminham, já que muitas vezes é impossível compartilhar de seus sonhos e elucubrações.

Nietzsche
A palavra escrita nos salva, no entanto, de não poder compartilhar suas maravilhosas visões. Não é na tela de um computador, mas em uma folha de papel que, há milhares de anos temos acompanhado a fala dos santos, filósofos, romancista, poetas.
É através de seus textos, seu corpo eterno, que dialogamos como Nietzsche dialogou com Spinoza, com aqueles que viveram, amaram e pensaram antes de nós, mas com a mesma humanidade que nos caracteriza.
Um professor que tive sempre lembrava que os filósofos eram pessoas e embora seus textos sejam bem acabados suas vidas eram tão humanas quanto as nossas.


Baruch de Spinoza
Precisamos ouvir suas vozes-texto até para nos dar conta do quanto a nossa vida é tautológica, dentro da nossa humanidade.
Não há, com já se disse, nada de novo debaixo do Sol. Mesmo assim é possível avançar em nossa compreensão daquilo que já está aí, diante de nossos olhos, assim como o raio x mostrou um dia para surpresa de muitos, o esqueleto antes que as carnes se desprendessem dos ossos.
Muda a nossa visão e se amplia a nossa consciência.
E a leitura destes homens transforma nosso trabalho intelectual em um momento de Dualidão, em que temos exatamente a companhia daqueles que desejamos nos mostrando as coisas que queremos ver e nos ajudando a prosseguir na jornada da existência. Isto é tudo que um ser humano de sensibilidade poderia desejar.
Aos textos então.

sábado, 5 de março de 2011

AMOR ENTRE ESPÉCIES

por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:;M.:M.:

“Só a arrogância humana faz com se suponha que a humanidade é a raça mais avançada do planeta”, nas palavras do senhor Spock, o imortal personagem de Leonard Nimoy, no consagrado seriado “Jornada nas Estrelas”. Penso nisto enquanto minhas filhas reclamam, enciumadas, da atenção excessiva que minha esposa dá a nossa cadela de estimação, Nina, uma Cocker Spaniel. 
Na verdade o contato carinhoso e harmônico com outras espécies nos humaniza, por mais paradoxal que isto possa parecer. É comum dizer que devíamos cuidar mais dos nossos antes de cuidar de animais, com o carinho e dispêndio de recursos materiais que atualmente se gasta com animais de estimação.
Em hipótese alguma, no entanto, esta prática tem uma característica nefasta. Os animais, puro instinto e sentimento, são expressões de vida muito mais em sintonia com a vontade de Deus do que os vaidosos e fantasiosamente autônomos seres humanos. A convivência amorosa com cães, cavalos e golfinhos é didática para todos nós e nos ensina o relacionamento sem a linguagem, o contato do coração. Neste encontro entre espécies que não comungam a mesma linguagem e os mesmos símbolos, a comunicação se concentra em gestos, atitudes, tons de voz e não no que a voz diz. Ou seja, conversamos através da via cardíaca.
Quando fazemos isto aprendemos a confiança, a lealdade, o afeto desinteressado. Acalmamos nosso espírito com as demonstrações de afeição simples e efusivas de nossos animais e cultivamos bons sentimentos.
Por outro lado, isto eleva nossa espiritualidade, melhorando nossa sensibilidade ao outro. Os seres humanos são dos mais diferentes níveis e estão nos mais diferentes níveis espirituais. Alguns são naturalmente altruístas, têm um senso de pertencimento a sua raça, mesmo com suas diferentes compreensões e seus variados comportamentos. Outros, exatamente por esta variedade de seres humanos, sentem-se inseguros e desconfortáveis dentro da própria sociedade, como seu próprio meio biológico lhe seja hostil, o que denuncia uma psicopatia em gestação ou um quadro de agorafobia, o medo das multidões. O contato dos animais domésticos pode sim reverter esta situação, ensinando primeiro aquele indivíduo a arte do relacionar-se, educando-o sem palavras a perceber o outro, a olhar para fora, a preocupar-se com outros além se si mesmo, abandonando o narcisismo perigoso e pouco produtivo.

Quem se sente hostilizado, hostiliza. Quem se sente agredido, agride. Só que quando este indivíduo inseguro, hostil, entra em contato com o amor de outras espécies e se acaba conhecendo a experiência do amor, não apenas verdadeiro, mas intenso e incondicional, a qualidade espiritual deste indivíduo melhora e temos aí um avanço em sua condição humana.
O fato de não cuidar de sua própria raça tem mais a ver com incompetência emocional do que com falta de sensibilidade emocional. E o animal pode , com sua lealdade exemplar, educar o suposto dono, dando-lhe uma estrutura sentimental e emocional mais robusta, graças a anos de convivência e demonstrações de carinho. Quanto aos outros animais, realmente poderíamos buscar uma harmonia maior e mais significativa. Nosso comportamento em todos estes séculos tem sido, no mínimo, desastroso. Muitas espécies destruídas, o equilíbrio ecológico abalado e outras façanhas das quais nenhum de nós se orgulha. Não somos necessariamente os mais avançados, nem os mais poderosos, mas com certeza uma das espécies mais devastadoras. Quanto a nossa inteligência, decantada em prosa e verso,( por que o homem, como Narciso, queda-se fascinado por si mesmo em seus textos e obras de arte), talvez devesse explicar os três lóbulos cerebrais dos golfinhos, os complexos mecanismos de radar dos morcegos, a melhor audição dos cães e a melhor visão das águias. Ao olhar a organização social de formigas e abelhas nossa sociedade, às vezes, parece primitiva. E quanto a nossa propalada força, fica abalada nas batalhas que perdemos e que continuamos perdendo, hoje com menos baixas, para os nossos piores inimigos e que vivem em nós em sua maioria: os microorganismos. Sim, criamos os antibióticos e as vacinas, mas eles ainda estão aí, adaptando-se, mudando sua estrutura de forma a contornar nossas defesas, a ponto de ameaçar a nossa existência.
Não, de forma alguma somos tão poderosos como gostamos de achar. Melhor vivermos em harmonia com nossos companheiros de planeta do que em confronto.
Eles podem nos ensinar e ajudar muito mais do que pensamos, assim como nossa cadela, Nina, nos ensina com sua alegria e seu carinho as possibilidades do amor sem exigências.

quarta-feira, 2 de março de 2011

HISTÓRIA, LENDA, MITO

Por Mario Sales FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Lá no fundo deste blog, no ano passado, publiquei em forma de vídeo uma propaganda que peguei da TV, acerca de um automóvel que é descrito por um tuaregue, um beduíno do deserto, como se fosse um monstro poderoso, com dotes fantásticos e impressionantes, mas que mesmo exagerando e pintando com cores fortes sua narração, ao fazer sua descrição fantasiosa estava sendo fiel ao que descrevia.
O que havia de peculiar era apenas o jeito que ele usava para fazer a descrição, baseada em imagens típicas de uma pessoa pouco objetiva, intelectualmente limitada, impressionável e supersticiosa.
Alguns dias atrás publiquei um outro trabalho especulativo, em que ponderava a semelhança entre o que se consagrou chamar de “Árvore da Vida” e um vórtice gigantesco de energia cuja imagem coloquei no texto.
As duas publicações se conectam porque defendem igualmente a tese de que o que hoje chamamos de Misticismo Esotérico é na verdade a descrição possível, exagerada e eivada de superstição de acontecimentos de dimensões magníficas, mas tão naturais quanto a água que pinga de uma torneira.
Pela beleza destes ensinamentos eles até hoje estão cercados de uma religiosidade às vezes, na minha opinião, excessiva, além dos inúmeros rituais e do segredo com que são guardados. Só que a meu ver, trata-se de matéria que necessita de muito mais estudo do que aqueles que os místicos podem fazer, e parafraseando outra citação, o Conhecimento Esotérico é importante demais para ficar apenas na mão de esoteristas.
Ao longo dos séculos, tudo que foi impressionante sofreu com a deturpação natural nas narrativas humanas e o que era história virou lenda e o que era lenda virou mito.
Isto não quer dizer que este mito não tenha um fundo de verdade, uma base sólida em que ele se apóia para alçar vôo na nossa imaginação. O que nos falta são dados objetivos e infelizmente estes são difíceis de encontrar.
Difíceis, mas não impossíveis. Existem acidentes muito promissores. Recentemente no Rio de Janeiro, aliás ontem, no mesmo dia em que a cidade fazia 446 anos, escavações de uma obra corriqueira perto do cais do porto encontrou o que parece ser um outro e antigo porto por baixo da terra. Pedras de época apareceram intactas e o entusiasmo dos arqueólogos foi tanto que as obras foram embargadas e a área foi declarada de importância histórica. Alguma coisa da história do Rio de Janeiro antigo , do tempo do império, talvez, aparecerá ali.
Já em CHRISTCHURCH, na Nova Zelândia, semana passada, depois de um terrível terremoto que quase destruiu a cidade, uma das mais tranqüilas do mundo, ao levantar a estátua destroçada no evento de um dos fundadores da cidade, foram encontrados dentro do pedestal uma garrafa com uma mensagem dentro e um tubo de metal, considerados verdadeiras cápsulas do tempo.


Assim, pode ser que ainda tenhamos confirmações arqueológicas de Atlântida, ou talvez de Lemúria e quem sabe de tecnologias revolucionárias esquecidas na poeira, e muito do que chamamos mito, súbito emirja acidentalmente do fundo da Terra.
O passado pode sim retornar, a qualquer momento.