Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 8 de março de 2011

DUALIDÃO

por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Os homens que viram e vêem além de seu tempo dialogaram e dialogam não apenas com sua época, mas com todas as épocas. E como falar com os que já deixaram o corpo só é possível por meios e técnicas mediúnicas nem sempre confiáveis, resta ater-se às suas obras.  É a obra que importa não o homem. Somos eternos naquilo que escrevemos, não em nós mesmos, se bem que somos nós mesmos apenas naquilo que escrevemos.

Franz Overbeck
Numa carta a Franz Overbeck, em 30 de julho de 1881, Nietzsche diz encontrar em Spinoza seu único precursor, e “que a partir de então a sua solidão (Einsamkeit) passava a ser uma dualidão (Zweisamkeit).
Todas as pessoas de sensibilidade são inevitavelmente solitárias. É assim que as coisas se encaminham, já que muitas vezes é impossível compartilhar de seus sonhos e elucubrações.

Nietzsche
A palavra escrita nos salva, no entanto, de não poder compartilhar suas maravilhosas visões. Não é na tela de um computador, mas em uma folha de papel que, há milhares de anos temos acompanhado a fala dos santos, filósofos, romancista, poetas.
É através de seus textos, seu corpo eterno, que dialogamos como Nietzsche dialogou com Spinoza, com aqueles que viveram, amaram e pensaram antes de nós, mas com a mesma humanidade que nos caracteriza.
Um professor que tive sempre lembrava que os filósofos eram pessoas e embora seus textos sejam bem acabados suas vidas eram tão humanas quanto as nossas.


Baruch de Spinoza
Precisamos ouvir suas vozes-texto até para nos dar conta do quanto a nossa vida é tautológica, dentro da nossa humanidade.
Não há, com já se disse, nada de novo debaixo do Sol. Mesmo assim é possível avançar em nossa compreensão daquilo que já está aí, diante de nossos olhos, assim como o raio x mostrou um dia para surpresa de muitos, o esqueleto antes que as carnes se desprendessem dos ossos.
Muda a nossa visão e se amplia a nossa consciência.
E a leitura destes homens transforma nosso trabalho intelectual em um momento de Dualidão, em que temos exatamente a companhia daqueles que desejamos nos mostrando as coisas que queremos ver e nos ajudando a prosseguir na jornada da existência. Isto é tudo que um ser humano de sensibilidade poderia desejar.
Aos textos então.