Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 16 de março de 2011

RELACIONAMENTOS

Por Mario Sales

Existem pessoas que dizem estar melhor enquanto estão sozinhas. Sinceramente não acredito nelas.
Desde o diálogo “O Banquete” de Platão sabemos, pelas palavras do médico Erixímaco, que éramos um, e que os deuses nos puniram, dividindo-nos ao meio. Depois passamos a procurar desesperadamente nossa outra parte, arrancada de nós por um raio terrível de um Zeus enfurecido.
Precisamos de outro que nos complete. E esta busca às vezes demanda tempo e paciência.



Caso tenhamos a impressão de ter encontrado nosso complemento humano e psicológico, esforçamo-nos para conservá-lo, se bem que a única coisa certa da vida é que nada é certo, e tudo que tem um início, tem um fim.
Em nossa necessidade de complementação, aceitamos viver a ilusão da eternidade, na vida e nos relacionamentos.
Comportamo-nos como se nunca fossemos morrer; relacionamo-nos como se tudo que desfrutamos com o parceiro fosse eterno.
Só que não é.
Como tudo na existência, relacionamentos entre seres vivos também tem a sua própria vida e muitos mais fatores contribuem para o sucesso ou o fracasso de um relacionamento do que supõe a nossa vã filosofia.
Um desses fatores é a bagagem que todos trazem aos relacionamentos. Valores morais pessoais, espirituais, religiosos.
Existe claro o contexto de época. A cada momento da civilização os valores mudaram acompanhando as mudanças psicológicas coletivas.


Valores pessoais, crenças e convicções de cada um e a época em que essas pessoas manifestam a sua presença no mundo, dialogam, confrontam-se às vezes.
E deste confronto surge uma atitude resultante, que na verdade combina uma e outra força em uma força diferente na direção e no sentido.
Ao longo dos anos este embate permanece, dinâmico, e provoca transformações nas personalidades e mesmo nas convicções de cada um, pois a única coisa certa na vida é que tudo é impermanente, mesmo os valores que um dia achamos que jamais iríamos abandonar.
Por um lado, esta mutação inexorável das personalidades causa insegurança em alguns; em outros casos é um alívio. Imagine um relacionamento que tem tudo para dar certo, mas por causa do orgulho empedernido de um ou de outro se desfaz. Anos mais tarde pode ser que ambos olhem para trás já sem a paixão ou o apelo da emoção, e lamente seus atos e sua intempestividade. Só que nesta hora, Inês é morta, nada mais poderá ser feito, pois tudo flui com o tempo e aquêles que se separaram um dia jamais poderão se reencontrar. Se em algum momento no futuro as mesmas duas pessoas se reencontrarem com certeza já não serão as mesmas. A Vida terá feito o seu trabalho de lapidação e assim, um re-encontro torna-se impossível.
Só novos encontros são possíveis já que tudo é novo em uma existência que é fluida e dinâmica como a nossa.
Não falemos de anos; falemos de dias, horas.
Enquanto estamos em um relacionamento, embora não percebamos, as mudanças se efetuam,minuto após minuto.
Podemos ter duas atitudes em relação a esta situação: uma atitude reativa ou uma atitude proativa.
Na primeira, uma vez que percebamos sinais de situações que podem vir a nos trazer embaraços, nada fazemos.
Deixamos que as plantas cresçam sem podá-las e depois, honestamente, não podemos reclamar da forma que o jardim tomar.
A outra é a forma proativa em que monitoramos as alterações dia após dia, mantemos nosso foco no outro, fazemos dele nosso objeto de concentração, de forma a adequar palavras e gestos às mudanças que virão de modo tão certo como o Sol amanhã de manhã.
Não devemos ter receio de interferir, de nos responsabilizarmos pela qualidade de nosso relacionamento. Relacionamentos são investimentos e como tal, merecem todo esforço que pudermos fazer para preservá-los do desgaste.
Isto tudo deve ser feito com elegância e consciência, sempre em atenção ao que vai no nosso coração e não ao que vai na nossa cabeça. Não se trata de atitudes cerebrais mas de estratégias motivadas pelo valor que damos aquilo que estamos protegendo, como as atitudes de um pai amoroso com seu filho, para as quais sempre existe energia, disposição, disponibilidade. Afinal são nossos filhos, nós os amamos e faríamos quaisquer coisas por eles.
Amor, essa é a chave. O mesmo amor que hoje assusta os jovens que não querem senti-lo ou declará-lo com medo do compromisso ou do erro, como se a Vida nos permitisse escapar de sentimentos ou como se não tivéssemos sentimentos.
Não é bem assim. Um dia amaremos, quando menos esperarmos. E viveremos por este amor, e morreremos por eles. Ninguém, mesmo que fuja, livrar-se-á desta bênção e desta maldição.


Amar é ser laçado com corda forte. O resto acontece. Todo nosso orgulho desaparece. Toda nossa vontade , nossa ânsia de independência, nossa auto estima, desaparecem. O ser amado passa a ser o foco de nossa atenção e damos o salto, transformando-nos de seres egocêntricos, egoístas, em seres altruístas, que mais se preocupam com o bem do outro, do ser amado do que com o seu próprio.
Não é algo que desejemos ou queiramos. Simplesmente acontece.
Pode-se lutar contra isso; pode-se até negar que esteja ocorrendo, para nós mesmos principalmente.
Mas será mais doloroso e improdutivo.
É melhor render-se e deixar-se arrastar, não como um feixe de lenha inerte arrastado pelos campos pelo agricultor, mas como um surfista que escolhe a onda com cuidado e até, com algumas braçadas alcança o seu topo, propositalmente, para depois deixa-se levar por ela, equilibrando-se enquanto o mar e suas ondas seguem em direção a praia.


Surfista e onda um único ser, cúmplices em busca do mesmo objetivo: o prazer de desafiar o imponderável, a satisfação de correr um risco calculado, o risco maior de conseguir surfar até a praia e divertir-se como nunca naqueles poucos minutos. Um risco de ser feliz tão intenso que valerá a pena, uma vez chegando a praia, prancha embaixo do braço, voltar ao mar em busca de novas ondas, de novos prazeres.
Ironicamente, o mesmo oceano pode oferecer muitas e diferentes ondas. É preciso perseverar.

Trocar de Oceano não melhora a performance, pois cada um tem suas próprias marés, seus próprios recifes, seus perigos particulares.
O ideal é praticar sempre, no mesmo local, no mesmo mar, e insistir até que a familiaridade com aquelas águas nos dêem a segurança necessária para desfrutar mais intensamente cada onda que pegarmos.
Precisamos todos de um pouco de estabilidade nesta instabilidade permanente que é o Oceano da Vida, este Oceano do relacionamento com outro ser humano.
Se gostamos, com nosso coração, desta praia e deste mar, esforcemo-nos por aprender sobre ele. Um dia nossa persistência e constância será recompensada.
Concentremo-nos. Não percamos o foco.
Talvez este seja o segredo da felicidade a dois.