Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 15 de março de 2011

A ORAÇÃO E SEU PAPEL NA CONSOLIDAÇÃO DA SANTIDADE NO HOMEM COMUM

por Mario Sales,FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

“Sobre tudo o que se deve guardar,
guarda o teu coração porque dele
procedem as saídas da vida”.
Provérbios, 4-23


“Todas as portas do céu estão fechadas, exceto a porta das lágrimas.
Os que guardam as portas do céu abrem-nas
para admitir as lágrimas derramadas durante a oração”
Zohar, cap. 13


Irmãos e irmãs,



Existe algo mais sagrado com certeza do que um momento de oração verdadeiramente sincera e íntima, só que eu não sei o que seja.De todas as práticas às quais o místico se devota como parte de sua rotina diária no mundo profano, a oração, na minha opinião, é a que mais se aproxima do título de técnica de todas as horas e de todos os momentos.


É comum na leitura da Bíblia passarmos ao largo de uma questão que salta aos nossos olhos e que tentamos disfarçar pela sua assustadora significação: a conversação entre Deus e seus profetas. Frases como “E deus disse...” se avolumam por páginas e páginas sem que paremos para com seriedade considerarmos esta estupenda e espantosa revelação: Deus fala com os homens em certas circunstâncias. Não com qualquer tipo de homem pois só seus profetas (Abraão,Moisés, Isaías, Jesus) ouvem sua voz, mas mesmo assim, porque reconhecem nessa voz a voz do altíssimo não tem dúvidas em seguir suas orientações. Vejam o caso de Noé por exemplo. Mesmo àquela época, onde as mentes eram mais simples e supersticiosas, ele foi vítima de ridicularização pelos seus vizinhos e mesmo entre os seus familiares houve constrangimento.Ou no caso de Abraão que à luz de uma visão moderna, mas provavelmente não descabida de sentido, seria preso e internado caso fosse pego tentando matar o próprio filho em um sacrifício que segundo ele , lhe teria sido solicitado por Deus em pessoa.



Tais homens enfrentaram o medo, a vergonha, o apego aos seus, e mesmo a dúvida, porém não vacilaram em seguir orientações que sentiram dentro de seu coração vinham do próprio todo poderoso.


E quando lemos estas coisas perguntamos: “-Se eles falavam com Deus porque nós também não falamos? Provavelmente estas histórias são simbólicas, metafóricas, não se referem a fatos históricos”. E concluímos que eles provavelmente não falavam realmente com o próprio Deus, mas que tais relatos têm uma finalidade didática e religiosa. E assim nos sentimos psicologicamente mais confortáveis.


Só que os relatos se sucedem. E vão se aproximando assustadoramente no eixo do tempo de nossa época, com as biografias de santos como Joana D´Arc, para citar alguém cuja vida está militarmente documentada, ou Santa Teresa d`Ávila, que representa um exemplo de devoção de elevação mística devocional. Todas essas pessoas diziam ouvir a voz de Deus, falar com Ele, seguir suas orientações, dialogar constantemente com o Todo Poderoso buscando seu conselho como se busca o conselho de um amigo em quem muito confiamos ou com o qual apenas compartilhamos nossa angústia. E a narrativa da vida destes personagens históricos recentes, revela o mesmo embaraço da parte daqueles que com eles conviveram que por não escutar esta Voz Poderosa que eles diziam ouvir apenas acompanhavam seus atos visíveis cheios de dúvidas, convencendo-se de que alguma coisa acontecia realmente entre estes indivíduos e alguma força indescritível e invisível, dados os resultados surpreendentes de seu desempenho no cotidiano. No caso de Joana D´Arc, não importava o fato de que ela falasse ou não com Deus. O fato é que sob suas ordens, quase sempre descabidas de sentido à luz da razão, os franceses venceram os ingleses e o Delfim foi coroado Rei de França.


Portanto, o que a Bíblia revelava acerca de seus profetas ainda ocorre nos nossos dias: alguns de nós crêem que podem conversar ou conversam realmente com Deus, e fazem desta conversa a base de sua conduta no cotidiano.


E como se dá esta conversação? Com certeza não em palavras audíveis senão outros ao lado destes Sublimes Enlouquecidos escutariam a mesma voz e não teriam dúvidas sobre o que eles afirmavam. A escuta deve ser interna, através de uma audição psíquica, que não é necessariamente composta de sons, mas que nada impede que assim o seja.



Ao que parece, as “palavras de Deus” são intuições impressas em nossa mente de forma indelével, acompanhadas daquela certeza inerente às inspirações intuitivas, epifanias que dizem respeito apenas ao arcabouço simbólico daquele que a recebe. E quando falo em “ouvir as palavras de Deus”, não considero que as pessoas que tiveram esta experiência estavam em uma mesquita, igreja ou sinagoga de forma a ter um ambiente propício para tal evento. Não consta que houvesse um templo no alto do monte Sinai aonde Deus segundo a tradição passou a Moisés os dez mandamentos, ou que Noé estivesse em um templo ao receber a ordem de fazer a Arca. Aliás, já que falamos de Noé, lembremos que seu comportamento, embora reconhecido pelo próprio Deus como justo, não poderia ser tomado como exemplo de conduta.


Noé era um homem comum. Sujeito aos erros e aos acertos como todos nós. Após ter salvo a descendência da humanidade, torna-se um agricultou. Planta uma vinha, e bebe do líquido de seu fruto. E se embriaga, a ponto de bêbado, cair nu em sua tenda e ter de ser vestido por seus filhos ( Genesis, cap.9, vers. 20 até 29).



Este homem, capaz de ser vítima da bebida, é um dos que foram tocados pela Voz do Altíssimo. Portanto, um homem comum, mortal, capaz de erros, assim como todos nós aqui, tem a possibilidade de conversar com o Altíssimo. É como Pedro diz em Atos dos Apóstolos: Deus realmente não faz distinção de pessoas. Indo além, qualquer um de nós pode ouvir tal voz. Ou mais ainda: talvez todos a ouçamos todo o tempo, mas não a reconheçamos, ou a neguemos, ou a desobedeçamos, traídos pela idéia de que isto não é possível e que somos seres racionais que não devem se levar a sério, pois, tais desvarios.


A questão é: existe um meio aceito de estabelecer este contato íntimo, esta conversa transcendente sem que pareçamos tomados pelo desatino?


A resposta é sim, existe.


Este meio é a oração.


É através da oração que podemos conversar com Deus e ao mesmo tempo praticar esta intimidade descrita no Antigo Testamento ou na história medieval da França, com Joana D´Arc, de forma simples e socialmente imperceptível.


Graças a Deus, nem todos nós precisamos construir arcas ou salvar o Rei.


Às vezes, em uma oração, precisamos apenas dar conta de nosso dia a dia, de problemas os mais mundanos possíveis, e nada impede, e é até bom que assim seja, que o ser humano comum recorra através da oração ao Altíssimo como fonte de inspiração e conforto.


Embora gostemos de perecer autônomos e racionais, a vida não pára de lançar sobre nós desafios os mais freqüentes, problemas os mais numerosos, sejam de natureza social, psicológica, sexual ou espiritual. São angústias as mais mundanas, mas que podem e tiram nossa serenidade e nosso sono. Os problemas mais comuns são aqueles do relacionamento humano, em família, e nessas horas, o homem comum que tenha noção da importância da oração, recorrerá a ela para aliviar seus temores e suas inseguranças. E quanto mais alívio perceber em seu espírito através da oração mais ele orará em busca de conforto. Tornar-se-á um aspecto comum de sua existência.



Aos poucos, perceberá que não ora apenas por precisar de algo, mas para agradecer a Deus por uma bênção inesperada. E se tudo correr de forma comum, pouco a pouco este homem verá na prece também uma forma de conversação cotidiana e fácil entre ele e o Altíssimo.


Não falamos aqui de uma oração especial, de um contato sublime, mas de intimidade e companheirismo. Referimos-nos a um estado de amizade com Deus, baseado no amor entre dois amigos. Esta oração comum, despojada, entre um homem comum como Noé e seu Deus, é uma prática que sem dúvida contribuirá para que este indivíduo penetre no reino dos Céus.


Como na citação em epígrafe do Zohar, a cabala ensina que “todas as portas do Céu estão fechadas, exceto a porta das Lágrimas. Os que guardam as portas do céu abrem-nas para admitir as lágrimas derramadas durante a oração e colocá-las diante do Santo Rei, já que Deus participa das penas do homem” . Quando oramos, por motivos comuns e cotidianos, não oramos de uma maneira certa ou errada. O importante é que oremos para praticar este contato, para aprofundar esta intimidade com o Altíssimo do qual muitas teorias e ritualismos tentam nos afastar.


É assim que pouco a pouco, qualquer um de nós, sejamos ou não eruditos, sejamos ou não homens e mulheres destacados em nossa sociedade, podemos caminhar em direção a um estado de intimidade com Deus conhecido por todos os santos da história, e assim tornarmo-nos, como eles, também pessoas santas.


Diz ainda o Cabala, no Zohar: “Os mundos de cima sentem pela região das lágrimas o mesmo desejo que o macho sente pela fêmea. Quando o Rei se aproxima e a encontra triste, Ele lhe concede tudo que ela deseja. E como sua tristeza é reflexo da do homem, Deus se compadece. Feliz é o homem que chora enquanto está orando.”


O estado de angústia que induz à oração simples, sendo sincero e estando em harmonia com o coração do peticionário, o levará as lágrimas. E estas refletirão sua sinceridade. Não que todos nós precisemos chorar para alcançar graça aos olhos do Senhor, mas devemos sim atingir um tal grau de sinceridade em nossas preces que as tornem as mais fortes possíveis.


Toda oração tem uma força diretamente proporcional à sua sinceridade, no momento que é feita. E é a partir de uma angústia real que muitos começam a rezar.


Ao longo do tempo, no entanto, a oração se transforma num hábito e perde a sua especificação inicial de técnica para fugir ao desespero. Digamos que o desespero é a fagulha de uma grande fogueira, mas de forma alguma é a fogueira em si.


É quando chega à condição de prática cotidiana que ela começa a nos transformar alquimicamente em pessoas de Deus, e mais tarde no próprio Deus.


Diz o Cabala: “Aquele que bendiz o Santíssimo atrai vida da fonte de vida a este mundo de baixo. Ademais aquele que pronuncia a bênção, recebe uma parte para si mesmo, e aquele que diz amém a ela é também abençoado. E a bênção se estende por todos os mundos e até desce às regiões inferiores, onde assim se anuncia: Aqui está o dom enviado ao Altíssimo por Fulano de tal. Um mistério supremo jaz oculto na Bênção.”


Como mostra o Zohar, não existe uma oração melhor ou pior, mais ou menos santa, se for feita com o coração, mesmo que se refira a assuntos do cotidiano, mundanos, que causem desespero e lágrimas. Pelo contrário, nestes instantes atraímos sobre nós as forças do Alto, e com elas a Bênção de Deus, que nos penetra, nos preenche e a qual irradiamos em volta de nós e de nossos familiares e amigos. Existe uma conexão permanente entre o que está em cima e o que está em baixo e a oração fortalece este fluxo de forças, de forma progressivamente mais intensa.


Conversar com Deus a todo instante, ouvir sua voz inaudível, porém clara, é o passo seguinte. Não precisaremos parar para orar, mas estaremos em constante estado de conexão e oração, de forma que a Vontade Maior se tornará nosso guia e estaremos realmente nas mãos do Todo Poderoso. Perderemos progressivamente o medo de assim nos comportarmos, e isto nada terá a ver com um aumento da fé, mas sim da nossa confiança em um relacionamento amoroso, como aquele que temos com alguém que amamos profundamente, nosso marido, nossa esposa, nossos filhos, e pelos quais daríamos sem pestanejar, nossa própria vida.


Este é o grau de relacionamento amoroso que o místico, principalmente o místico martinista deve procurar em seus momentos de oração, quando tomado pela aflição ou apenas pela vontade de estar na companhia do Altíssimo, deixando sua consciência ser levada a esta comunhão espontânea que nos alimenta e sustenta enquanto estivermos neste corpo e mesmo quando não estivermos mais dentro dele.


Pois não há dois tipos de vida, mas apenas uma vida, como lembrava Saint Martin.


Em qualquer condição em que estejamos não há objetivo maior para o místico do que conseguir esta fusão com o todo poderoso, que muitos se habituaram a chamar de Santidade.


E a oração é a técnica para isso, desde que venha de um coração sincero. E é por isso que precisamos guardar nosso coração, a parte mais importante de nosso ser, porque nos mantém em contato com o Altíssimo, não por palavras, mas por nossos sentimentos.


Oremos todos, pois, todos os dias, e recolhamos as bênçãos que Deus despejará sobre nossas cabeças como o óleo que unge a testa do justo.


Amém.