Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 26 de dezembro de 2010

DESCONFORTO

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Não sou cristão.


Antes que alguém atire a primeira pedra, peço sua tolerância e paciência para contextualizar esta afirmação.


Quando digo que não sou cristão, isto não quer dizer que não respeite e admire a personalidade e os feitos do Cristo, Jesus. Este ano, tornei-me ex-mestre da Heptada Guarulhos da Ordem Martinista, uma ordem sabidamente de orientação Cristã. Considero-me, pois, um dos defensores da causa do Cristo, como Mestre Espiritual que foi para todos nós, seres humanos, e como exemplo para toda a Humanidade.


Mesmo assim, não pertenço a nenhuma crença religiosa cristã, nem sigo seus dogmas religiosos, e, portanto não posso me colocar entre aqueles que seguem o que se convencionou chamar de Cristianismo, este conjunto de idéias atribuídas ao Cristo, mas que na verdade resultam de uma codificação que levou ao menos quatro séculos após a ascensão do Mestre aos céus, para ser elaborada através de sucessivos concílios de Bispos e Cardeais, bem como pela organização de uma doutrina fruto da combinação de três autores principais: Paulo apóstolo, Santo Agostinho, bispo de Hipona, e São Tomás de Aquino.


Repetindo, agora de modo mais claro: não pertenço a uma linha cristã de pensamento.


Admiro e anseio por imitar a vida do Cristo, mas não sou seguidor desta estrutura teórica tributária da tríade Paulo-Agostinho-Aquino, que se construiu em seu nome.


Muitas pessoas não tem claras esta diferença, em seus espíritos.


Eu tenho.


E, em sendo assim, desde muito jovem, o discurso que mais me atraiu, seja por sua postura, pelos seus contrastes ou por pura identificação foi o do Hinduísmo, como expresso nos Vedas, no Mahabharata, ou na sua principal parte, seu coração, o Bhagavad Gita.


Ali não se encontra a Culpa, o Lamento pela vida, o horror à vida material, o repúdio a prosperidade e à felicidade presente em discursos da maior representante do cristianismo ortodoxo como doutrina no planeta, a Igreja Católica Romana, coisas que sempre me causaram náusea, primeiro inconscientemente, depois de forma bem consciente do ponto de vista histórico.


Nos textos Védicos, a vida material é sempre exaltada, embora esta exaltação seja paralela ao alerta de que “Tudo é Maya”, tudo é ilusão, e que o papel do espírito é desfrutar conscientemente desta ilusão, para obter conhecimento e, por que não, deleite.


Semelhante a uma ida ao cinema, aonde concordamos em supor reais as coisas que acontecem na tela, de nos emocionarmos e assustarmos com elas, e observar certas afirmações interessantes saírem em meio aquele drama, afirmações estas que às vezes podem mudar nossa compreensão de certas aspectos da existência, ou da nossa própria vida.


A emoção nos torna receptivos e, há muito se sabe que aquilo que é ensinado pelo drama e pelo teatro, dificilmente se esquece.


E o teatro pode ser um deleite, um prazer, um divertimento, se estivermos conscientes de que tudo é apenas uma representação.


O Hinduísmo, ao contrário do Cristianismo e do Islamismo, não tem profeta.


A identidade dos autores dos textos védicos se perderam nas eras, e mesmo os comentários a estes textos, conhecidos pelo nome de Upanishads, que significa “ aos pés do mestre”, no sentido de explicação de rodapé, também são anônimos, e seus autores são conhecidos apenas pelo nome de Rishis, que quer dizer Sábios.


Os textos falam por si, não há, pois necessidade de citar ou mesmo conhecer seus autores.


Este envolvimento desde os 15 anos com a filosofia hinduísta não quer dizer que não tive meu flerte com a prática católica. Sou ocidental, nasci em um país católico, meus pais,melhor dizendo, minha mãe é o que se chamaria de uma católica convencional e encaminhou-me nessa direção desde cedo.


Foi, aliás, em uma Igreja Católica, a Paróquia de São Geraldo, em Ramos, um bairro do Rio de Janeiro, em 1970 ou 1971, já não me lembro bem, que tive meu primeiro contato com a vida templária. Fui coroinha, ou melhor, ajudei na missa muitos domingos.


Naquela Igreja, me tornei membro do que se chamava na época um Grupo Jovem, que substituiu o anterior, liderado por um rapaz muito carismático e criativo, com quem tive um breve contato pessoal, cujo nome era Perfeito Fortuna.


Para quem não conhece a história do teatro e do meio artístico carioca, Perfeito Fortuna foi membro e fundador de um grupo teatral conhecido como “O Asdrúbal trouxe o Trombone”, que revelaria talentos como Regina Casé ( também fundadora), Luiz Fernando Guimarães, e Evandro Mesquita, fundador da banda Blitz, onde uma das cantoras era Fernandinha Abreu. Foi Perfeito Fortuna também que fundou e administrou o Circo Voador, iniciativa pioneira e original, num espaço antes esquecido do Rio, a Praça 11, e aonde foram reveladas bandas como “Os Paralamas do Sucesso” e "Blitz" e "Legião Urbana".


Fiz esta digressão para dar uma idéia de qual era o ambiente na Paróquia de São Geraldo, absolutamente livre e tolerante, tolerância esta garantida pela administração de três padres católicos espanhóis, dos quais só lembro o primeiro nome:Antônio, Cipriano e Severiano.


Ao contrário de outras paróquias, na Igreja de São Geraldo tínhamos um salão a nossa disposição em que podíamos exercitar as mais diferentes tendências teatrais, com liberdade de expressão do pensamento, coisa que na época me pareceu que fosse comum a todos os templos daquela religião.


Mal sabia eu, na época que liberdade de pensamento e de expressão era exatamente aquilo que a Igreja tinha combatido historicamente, na ciência e na arte.


Os três padres que trabalhavam nesta paróquia eram atípicos. Antonio era professor de História, Cipriano de Eletricidade, e Severiano, sociólogo, dava aulas regulares na Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC.


Eu não sabia, mas todos homens cultos, e em crise quanto à sua Fé.


Tanto que, todos os três, Antonio por último, abandonariam o sacerdócio e se casariam, nos anos que se seguiram. Fora padre Antônio, que se tornaria anos depois professor de meu colégio, o Pedro II de São Cristóvão, nunca mais soube de nenhum deles.


No entanto, foi pela convivência com a extrema tolerância destes três homens em um templo Católico que entrei nas malhas do catolicismo prático, e acompanhando sua decepção, também me afastei.


A Doutrina não me dava respostas, não me oferecia solução para minhas inquietações interiores, e quem já foi adolescente sabe que elas são muitas. Ainda mais um adolescente com veleidades espiritualistas.


De qualquer forma foi a convivência com estes três padres, principalmente Padre Antônio e com a liberdade daquela paróquia que me ensinaram a importância dessas coisas.


Eu não sabia nada sobre Galileu ou Giordano Bruno, mas eu sabia que liberdade era muito bom.


A transição para o Hinduísmo foi suave. Antes de me ligar à Paróquia eu já tinha sido iniciado nos conhecimentos védicos, principalmente nos livros de um professor muito conhecido no Rio, Caio Miranda, o qual tinha várias academias de Yoga pela cidade.


A medida que diminuía meu interesse na espiritualidade católica aumentava meu interesse pelo misticismo hindu. Estudando o Gita, encontrava cada vez mais pontos de identificação entre o que eu sentia sobre o Universo e a Vida e o pensamento expresso naquelas linhas de forma bela e poética.


Por volta dos 17 anos, através de um colega e amigo feito no curso colegial, (hoje chamado ensino médio) conheci sua mãe, Abadia Caparelli, mulher de raro magnetismo pessoal.


Descobri que esta estranha senhora era membra de uma associação secreta, fundamentada em tradições egípcias, conhecida pelo nome de Antiga e Mística Ordem Rosacruz, cuja Grande Mestra no país era uma pediatra carioca, chamada Maria Moura.


Foi Sóror Abadia Caparelli a minha porta de entrada para a Amorc, nos idos de 1975. Eu tinha 17 anos.


Todos nós, adolescentes impressionáveis, a respeitávamos porque sabíamos que ela era dotada de estranhos dons.


Aquilo me fascinou profundamente e minha curiosidade quase explodiu. Somado ao fato de que se tratava de uma filosofia originaria do oriente, foi um salto tornar-me neófito desta nobre e misteriosa Ordem, a qual prometia em seus textos dar aqueles que estudassem adequadamente e fizessem certos exercícios os mesmos dons e o mesmo magnetismo que Abadia possuía.


A primeira vez que entrei em um templo Rosacruz anos depois, foi acompanhando Abadia.


Era um capítulo em fase de organização, em situação ainda tão precária que nem possuía sede própria e as reuniões aconteciam dentro de uma Loja Maçônica, a Augusta e Respeitável Loja Simbólica Cayrú, no bairro do Méier, se não me engano, na Rua Dias da Cruz. Por sinal, isto acontecia porque o Venerável Mestre maçon daquela oficina era também rosacruz e Mestre do Capítulo Méier, ora em processo de organização.


Vi, portanto, de uma só vez, dois tipos de templos diferentes em um só. Um templo Rosacruz dentro de um templo Maçon, e nenhum dos dois, embora templos, destinados a qualquer prática religiosa.


Embora não fossem templos religiosos, ambos eram preenchidos por profunda religiosidade, garantida pela atitude respeitosa e solene daqueles que os freqüentavam.


Eram templos elevados à Razão e ao Não Sectarismo, templos de Liberdade e Fraternidade, como aquela antiga Paróquia Católica que eu freqüentara anos antes.


Foi a primeira vez que soube do vínculo histórico entre estas duas nobres Ordens, às quais hoje pertenço.


Meses mais tarde , na Rua Fábio da Luz, ali perto, foi inaugurado o Templo próprio do Capítulo Rosacruz Méier, hoje Loja Méier, no final de 1976 ou princípio de 1977, com uma palestra de um frater muito famoso no meio artístico como ator, Carlos Alberto, naquela época orador oficial da AMORC. Mais uma vez eu testemunhava a relação entre a Arte e a prática do misticismo rosacruz, uma senda voltada para a busca da plena expressão do espírito humano em todas as suas manifestações.


Lembro-me que me encantei pelo despojamento do Templo, pela penumbra, pela tranqüilidade e por seu simbolismo interno. Tudo, absolutamente tudo dentro do Templo tinha um significado.


O Leste, de onde o Mestre oficiava a cerimônia, era um local de grande poder, mas em nenhum momento ofuscava o resto do templo, com pólos bem definidos com os quais dialogava durante o desenrolar do ritual, do drama.


Ali, o frater que ocupava o púlpito, simbolizava, e apenas simbolizava, o Mestre Interior, em nenhum momento demonstrando qualquer atitude personalista ou confusão entre o papel que desempenhava ali e a sua vida real.


Tudo era um teatro destinado a alma imortal dos presentes, uma ilusão com a qual concordávamos temporariamente, afim de atingir um estado de consciência adequado às práticas daquela noite.


Todos os rosacruzes que estavam ali eram buscadores do conhecimento.


Aprendi deste modo que o ritual de uma ordem esotérica ou mística nada tinha a ver com um ritual religioso, já que neste, como na Paróquia de São Geraldo aonde eu começara minha caminhada, apenas um indivíduo, o sacerdote, de forma solitária, incumbia-se de dialogar com a divindade e nós, devotos, apenas testemunhávamos este diálogo no altar, onde havia uma imagem do Cristo, sem podermos dele participar. Em um ritual esotérico e místico, ao contrário, todos os presentes são instados a participar ativamente deste diálogo, através de exercícios vocálicos e de imaginação, de forma a comungarmos individualmente e em coletividade com a presença divina.


O ritual religioso é personalista; o místico, partilhado.


E também diferentemente de uma igreja, a presença divina não está à frente de nós, mas entre nós, no meio de nós, em um local que tem em hebraico exatamente este significado, Presença Divina, Shekinah.


Este templo místico foi o Templo que aprendi a amar e respeitar, um Templo dedicado a busca Interior, livre dos dogmas da religião, consagrado a Fraternidade e à Liberdade de Espírito.


Por causa de todas estas coisas e do que elas significaram para mim na minha história pessoal, foi com profundo desconforto que vi a capa da última edição de “O Rosacruz”, aonde o artista Nicomedez Gomes, que tantos serviços maravilhosos já prestou a representação de valores rosacruzes, representou um tempo rosacruz com o Cristo na área do leste, quadro que ele denominou de “Luz”.


Consigo compreender que o autor da pintura tenha querido representar sua devoção pessoal nesta imagem, e, ao mesmo tempo, veja na imagem do Cristo a personificação desta Luz Espiritual, visão da qual não discordo; no entanto, o templo rosacruz não é um templo cristão, como não é budista, islâmico, xintoísta, judeu ou druso. Os membros da Ordem Rosacruz de outras partes do planeta podem não concordar e sentir o mesmo desconforto que eu, de formação hinduísta, sentiria ao ver a imagem de Krishna ou Shiva ali representada, já que o templo Rosacruz, repito, não é um templo religioso, mas um templo místico.


E o que caracteriza um templo místico é exatamente a impessoalidade, que permite que cada membro que por ali passa possa exercer suas práticas espirituais sem embaraço e sinta-se a vontade para mergulhar em suas próprias tradições em busca de um mesmo Deus Interno.


Embora muitos dos líderes rosacruzes historicamente tenham pertencido a uma linha cristã de pensamento, como os membros protestantes do Círculo de Tübingen, entre os quais Johan Valentin Andrea, redator do Fama Fraternitatis, ou o nosso primeiro Imperator para este ciclo de atividades, Harvey Spencer Lewis, metodista americano, a Ordem Rosacruz em si não é uma associação formalmente baseada em dogmas cristãos, existindo espaço em seus ensinamentos para todos os tipos de linhas de pensamento que tenham contribuído, de alguma forma, para o aprimoramento do espírito humano.


Seu Universalismo abarca todas as filosofias voltadas para o bem e para a evolução e dentro de suas fileiras todas as tendências espirituais legítimas podem encontrar abrigo.


Fazer uma representação de um templo rosacruz com o Cristo no Leste, embora com certeza com intento respeitoso, apenas reduz este Universalismo e pluralidade aos padrões de uma espiritualidade européia ocidental. Por mais que os cristãos achem que seu pensamento é universal, não é. Em certas partes do mundo e para muitas pessoas, os fundamentos e as imagens do cristianismo não tem nenhum significado e são, até mesmo estranhas a vida cotidiana destas pessoas.


O Rosacrucianismo não é uma religião, como de resto o Martinismo também não é, embora este sim seja uma Ordem de Inspiração Cristã, mas é bom lembrar, fundada por Ocultistas Maçons.


É por isso que, não sendo cristão, tive a honra de servir a causa Martinista com a mesma dignidade que um verdadeiro cristão faria.


Nem sempre fica claro para quem participa generosa e sinceramente desta nobre ordem, a Ordem Martinista, esta diferença entre uma Ordem Cristã e o Cristianismo como Doutrina baseada na tríade Paulo – Agostinho - Tomaz de Aquino.


Religiões são e devem ser dogmáticas. Ordens místicas são formadas por pensadores livres, como bem lembrou em um discurso o mais interessante dos Martinistas modernos, Stanislas de Guaita.


Devemos ter cuidado de não deixar este detalhe não tão sutil incomodar suscetibilidades, permitindo que a imagem do templo de determinada linha religiosa específica se confunda com a do Templo Rosacruz


Tolerância não é leniência, nem permissividade.


Lembremos sempre que na Ordem Rosacruz abrigam-se pessoas de muitos credos, que podem, e eu espero que não, sentir o mesmo desconforto que eu, Hinduísta, ao ver o templo Rosacruz assemelhado a um templo unicamente e exclusivamente cristão.

PS: Para conhecer um pouco da história da Paróquia ou Matriz de São Geraldo, recomendo a quem se interessar o blog : http://turmadeolaria.blogspot.com/; ali, um espaço feito por um amigo pessoal de Perfeito, fala-se nos eventos políticos ligado a Igreja. Pode-se ler mais no endereço http://revistaquem.globo.com/Quem/0,6993,EQG1010131-2157,00.html. A Matriz de São Geraldo, em Olaria, e sua história, se bem que de cunho mais oficial, sem citar os detalhes que me são mais caros está no site http://matrizsaogeraldo.vilabol.uol.com.br/; ali tem fotos da Igreja (maravilha esta coisa de Internet).