Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

CORRENTES CAPÍTULO 1

Aniax Klebstsvs,

FRC, SI , M.:M.:

30 de novembro de 2007



CAPÍTULO 1



CORRENTES

Bernardo: Há dois tipos de harmonia, Comenius : a primeira é a harmonia intelectual, que faz duas pessoas portadoras do mesmo discurso, defensores do mesmo argumento, de idéias iguais, se tornarem cúmplices.

Esta é uma harmonia e uma afinidade parcial.

A segunda,é a harmonia sentimental, ou cardíaca, como Louis Claude gostava de falar. Esta une verdadeiramente as almas, e as conecta de forma transespacial, independente de existir ou não, proximidade física.

Pessoas unidas por afinidades cardíacas, são realmente parte de uma mesma tripulação.

Comenius: Tripulação?

Bernardo: Sim, tripulação. A existência é como navegar, e quanto mais gente participa desta experiência, juntos, mais fácil fica desfrutar melhor da Viagem, já que pode haver revezamento.

Comenius: Uns descansam enquanto outros remam?

Bernardo: Isto. O barco é o mesmo. O barco é a egrégora.


Comenius: Egrégora?

Bernardo: Sim, egrégora. Papus, em seu Traité Élémentaire de Science Occulte (Tratado elementar de Ciência Oculta) a define assim : As egrégoras são "imagens astrais geradas por uma coletividade" (pág. 561).

Comenius: Ah, como um campo de força?

Bernardo: Sim, um campo de força, gerado por centenas de mentes conectadas pela via cardíaca ou intelectual.

Comenius: Eu tenho uma dúvida, aliás, uma quase certeza. Confirme se estou correto. Uma coletividade unida por laços intelectuais não forma uma egrégora de qualidade , mas sim uma falsa egrégora?

Bernardo: Sim, uma falsa e frágil egrégora. Alguma egrégora sempre se formará, mas não terá a mesma força de uma egrégora criada pelo encontro entre pessoas afins pelo coração.

Comenius: Para usar a imagem que você construiu há pouco, será um frágil barco?

Bernardo: Frágil, muito frágil, e se desmantelará ao primeiro sinal de tempestade.

Comenius: Vamos explorar mais a sua imagem: é possível que egrégoras ou embarcações diferentes naveguem na mesma rota?

Bernardo: No que me consta, não só é possível como na verdade todos nós, por diferentes caminhos, buscamos o mesmo porto. Navios diferentes, rotas semelhantes, mesmo destino. O oceano é grande, no entanto. É possível que duas embarcações ou mesmo duas esquadras, naveguem na mesma direção sem que uma veja a outra.

E é possível também que naveguem tão próximas que seja possível acenar para eles do nosso barco todo o dia ou trocar de navio às vezes, e fazer, digamos assim, visitas, de caráter social.

Comenius: Compreendo. Conheci uma vez um irmão que dizia ser impossível a convivência em egrégoras diferentes sem que um dia esta convivência gerasse conflitos e nos forçasse a uma escolha.

Bernardo: Tolice. Senão veja o que somos ao longo de um dia normal, senão visitantes de várias egrégoras diferentes. Isto faz parte da existência: este intercâmbio, digamos assim , entre complexos energéticos diferentes, quase como uma alfabetização vibracional. Os vínculos com nossa egrégora mãe , entretanto, nunca se rompem, e se esticam para nos acompanhar em nossas incursões em outros navios, que navegam dentro de nossa esquadra. O que eu acho impossível é visitar uma esquadra tão distante da nossa que nem possamos vê-la, que segue outra corrente do mesmo oceano. Isto nem me parece possível, nem desejável.
Comenius: Você falou em correntes? Como correntes marítimas?

Bernardo: Sim, falei.

Comenius: Crê então que seguimos correntes específicas no nosso trajeto dentro do oceano da vida?

Bernardo: Sim, creio. Acho que somos como somos e não de outro modo. E este modo de ser nos diferencia, nos garante uma identidade absolutamente clara. Não somos todos um no sentido de sermos manifestações iguais, mas por pertencermos a um tipo de embarcação que nos caracteriza, embarcação esta que segue, só ou acompanhada de outras, uma corrente específica deste oceano. Precisamos deste pertencimento. Isto nos dá uma direção e um sentido à nossa jornada.Estas correntes são, digamos assim, a expressão de nossas personalidades, tendências, crenças. Os seres humanos, homens ou mulheres, vinculam-se carmicamente a estas correntes, e serão mais felizes quanto mais se abandonarem ao curso que a corrente determina. Devemos navegar com nosso barco em correntes adequadas às nossas características e afinidades.

Comenius: E o que me diz : na sua opinião nós escolhemos as correntes ou elas nos escolhem?

Bernardo: Aqui eu queria frisar que simplesmente não sei lhe responder porque a viagem começou faz tanto tempo que acho que nenhum de nós se lembra. Suponho que isto tem a ver com o ponto de partida que aliás, também é o mesmo ponto de chegada.

Comenius: O mesmo ponto. Esta é uma viagem de circunavegação, em um planeta esférico. Existir é navegar em torno deste gigantesco mundo, deste gigantesco oceano.

Essa imagem do barco não é original mas sem dúvida é extremamente didática.

Bernardo: É fato. E na hora da partida, o Grande Navegador lançou-nos todos ao Oceano da Existência com tamanha força que criou as diferentes linhas de viagem. Vários barcos trilharam estas vias antes de nós , com tripulações diferentes, mas deixaram um traçado que hoje seguimos e que corresponde às nossas tendências. Esse traçado são as correntes.

Comenius: Correntes que nos conduzem, mas que, suponho, nos acorrentam também, em outro sentido.

Bernardo: Não acho. Acho que as correntes são oportunidades de ter uma vida mais tranqüila e produtiva já que estaremos harmonizados com um fluxo ao qual pertencemos. Nada impede que o indivíduo abandone o barco, em um bote pequeno, ou pulando dele, mas existem duas maneiras diferentes de abandonar o barco e trocar por outro: na primeira, o marinheiro amadureceu a ponto de perceber que não pertence aquela tripulação e aí é direito seu, baseado em sentimentos sinceros de incompatibilidade vibracional, procurar novas associações; isto trará transtornos, e alguma lentidão, mas é o mais digno a fazer; e a segunda maneira é abandonar um barco por simples diletantismo, inconstância, e instabilidade emocional: este marinheiro está condenado a perambular de barco em barco por que o problema não está no barco, mas nele, que não tem paz. Tal gesto não faz o menor sentido para um marinheiro experimentado. Por isso dizemos que ao entrar em uma egrégora, desde que estejamos em harmonia, é interessante que permaneçamos dentro dela, aonde permaneceremos protegidos, em evolução , já que toda a embarcação, toda a egrégora, se move em direção ao porto.

Comenius: É verdade. Visto desta maneira é difícil entender como alguém pode abandonar o barco. Ou mesmo ficar trocando de barco, pois toda vez que vamos para um barco novo recomeçamos a aprender regulamentos da nova embarcação. Já no barco antigo, nosso conhecimento provavelmente estava avançado o suficiente para que um recomeço como esse seja desnecessário e inexplicável.

O estranho é que vemos coisas assim com freqüência. Marinheiros que chegaram a um estágio que podemos chamar de oficiais de bordo, e que jogam tudo isto fora para serem marinheiros de novo. Talvez na ilusão de que os postos conquistados no navio anterior sirvam para o novo navio, mas a tripulação é outra, outro o ritmo de trabalho e de turnos.

Outro comandante, outras prioridades. Existem navios em que o mais importante é a limpeza; outros, a segurança; e existem aqueles em que a técnica de navegar é exigida com muito rigor, que primam pela qualidade intelectual e técnica de seus marinheiros, talvez porque o comandante ache que todos devem saber que são oficiais em potencial e que um dia, todo o navio será formado de capitães. Claro que este navio será mais difícil de acompanhar: muitas técnicas a aperfeiçoar, muito a saber sobre a navegação como ciência e arte. Levará tempo, muitos exercícios, muitas simulações, mas pense bem, Comenius, que tripulação!

Comenius: É verdade.

Bernardo: As tempestades que o navio tenha que enfrentar eventualmente não serão temidas, mas aguardadas com ansiedade, pois serão a chance de por em prática suas habilidades. Todos , lembre-se, são capitães, comportam-se como tal, buscam a perfeição e a excelência de um comandante verdadeiro.

Comenius: Serão homens de Vontade férrea.

Bernardo: Não Comenius, de Conhecimento Sólido, não Vontade, pois quem tem a técnica correta, não se esforça desnecessariamente. A Força da Vontade é inversamente proporcional a Capacidade Intelectual do marinheiro. Na verdade poder-se-ia dizer que o marinheiro experiente encara a rotina do dia com certo tédio, pois conhecendo bem o protocolo de todas as situações possíveis de acontecer durante a navegação , seu plantão é tranqüilo e sem sobressaltos. Ele terá tempo para se dedicar a outras tarefas e sua produtividade será maior porque não estará dilacerado pelo medo do fracasso ou do imprevisto. Resta muito pouco de acaso verdadeiro para marinheiros assim. Na grande maioria das vezes , as novidades e os acontecimentos que possam ser chamados de inesperados serão apenas recombinações de elementos já conhecidos e que serão rapidamente identificados por uma análise precisa da situação em meio ao caos aparente.

Observar o mar e o navio, é, antes de técnica , arte, mas também se aprende.

Comenius: É verdade. Bons capitães são aqueles capazes de formar grandes tripulações, grandes equipes, composta por marinheiros diferenciados e oficiais de primeira qualidade.

Bernardo: E você compreende, Comenius, que o navio é o que é a sua tripulação e seu capitão. Bons navios não são fortes na madeira ou nas velas ou nas cordas, mas são fortes porque sua tripulação é forte, e cada marinheiro do navio tem importância na avaliação final, pois o mais fraco dentre eles pode por toda a embarcação em risco. Portanto a solidariedade não é uma virtude mas uma medida administrativa de segurança. O navio não irá a bom porto senão quando todos seus marinheiros forem (ou se comportarem como se fossem) capitães.

Comenius: A viagem aí acaba?

Bernardo: Não acredito. Acho que recomeça em novos padrões e em oceanos desconhecidos para nós aqui e agora. Devem ser muitos os portos do Grande Navegador e, em frente de cada um deles, muitos e imensos oceanos.

Comenius : Navegaremos sempre, pelo jeito.

Bernardo: Sim, sempre, e isto sim é expressão da liberdade. Guiados por estas correntes nos libertamos de outras correntes, aquelas que nos oprimem e angustiam, como as correntes da inércia, da ignorância, da falta de determinação. Além disto, aprendemos, navegando, a navegar. A vida deixa de ser uma incerteza, passa a ser um deleite, uma aventura e uma diversão.

Comenius: Abençoados sejam todos os navios e seus marinheiros.

Bernardo: Que sejam para sempre abençoados.