Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 4 de dezembro de 2010

A DOR

(Atendendo ao pedido de meu amigo Fernando, de Pernambuco, uma das duas pessoas que lêem este blog, e ao qual, por isso, não posso negar nenhuma solicitação.)



“Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria , (não) significando nada.” Macbeth, ato 5, cena 5




A questão do sofrimento já foi abordada de vários ângulos pelos pensadores, escritores e místicos de todos os tempos. Filósofos propunham que por causa da dor inerente a existência e que atingia a todos de modo equânime, a vida não fazia sentido. Como no trecho da peça shakespeariana acima.


Já os religiosos vêem na dor e no sofrimento, físico ou espiritual apenas a demonstração de nossa culpa atávica, ou pelo pecado original ( aliás, que de original não tem nada), ou pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual também temos uma dívida, mesmo que Ele tenha dito que nos redimiria com seu sacrifício.


Já os místicos falam de um sentido secreto em todos os acontecimentos, oculto aos olhos dos não iniciados, que encerraria o motivo dos acontecimentos, partindo de um postulado que diz que tudo, absolutamente, tem um significado.


Acreditemos que a Dor que nos atinja tem ou não algum sentido, uma coisa devemos admitir: a Dor e o sofrimento nos mobilizam. Outra coisa que é consenso: a dor sem sentido é, psicologicamente, a mais dolorosa, já que quando eu sei por que apanho, apanho com mais dignidade, e sofro com estoicismo, sem queixas, porque sei que mereço. Já no caso de uma dor inesperada e aparentemente absurda, o sofrimento é muito mais intenso, com grande risco para a sanidade, já que, nas palavras do Coringa, último personagem de Heath Ledger, arquiinimigo de Batman, “a loucura e a gravidade são muito parecidas: basta um empurrãzinho!”.


O certo é que, como o fogo, e o calor por ele provocado, instabilizam as moléculas de um corpo e aumentam a capacidade de transformação de seu estado na matéria, a Dor instabiliza as certezas e convicções daqueles que a atravessam, causando insegurança e perda de referenciais para alguns, auto-reflexão para outros, e modificação ativa da natureza do sofredor.


Este é o papel da Dor, se é que podemos falar assim: transformar, liquefazer o que antes parecia extremamente sólido, cumprindo o aforismo de Marx que dizia que “tudo que é sólido desmancha no ar”. E eu completaria, "desmancha por efeito da Dor".


Nós buscamos o impossível: estabilidade e equilíbrio, já que é pelo desequilíbrio que vivemos e crescemos. Não é pela estabilidade que se garante a existência, já que estabilidade perfeita significa morte. Uma linha reta, perfeitamente reta, em um eletrocardiógrafo ou no eletroencefalograma, são péssimos sinais.


Viver é oscilar, desequilibrar-se, recompor-se e reequilibrar-se para, em seguida, desequilibrar-se novamente. Até o simples caminhar é baseado em sucessivos desequilíbrios prontamente corrigidos e refeitos.


O Sofrimento e a Dor, portanto, física ou psicológica, não tem um sentido em si, mas estabelecem as condições para a busca e o encontro de novos sentidos na nossa existência. Não nos ensinam nada em si porque Dor é apenas isto, Dor, e não um ensinamento em si, mas um alerta de que algo está errado e precisamos corrigir o rumo de nossa vida. Como um alarme de carro faz apenas barulho, mas em si não faz nada de especial em relação aquele que ameaça nosso patrimônio. Alarmes fazem ruído, mas não agem.


Quem toma as atitudes necessárias somos nós, que em virtude deste alerta vamos em busca de sua razão e nos questionamos, e procuramos dar sentido ao que aparentemente não tem, seja através da filosofia, do romance, do teatro ou da religião.


E assim, encontrando um sentido, o nosso sentido , para o que nos sucede, aliviamos nosso sofrimento em muito, às vezes conseguindo mesmo extirpá-lo, dando-lhe um nome, nesta álgebra emocional que busca o nome do X da Dor, e se resolve ao encontrá-lo.


Quando Santo Agostinho diz que o Mal não pode vir de Deus, mas que vem do homem, através de seus erros cometidos em função de seu livre arbítrio, ele cria um sentido para a sua Dor, a morte de sua companheira e depois, de seu filho de 20 anos.


Quando dizemos que nossa Dor é uma espécie de punição por nossos pecados e que por isso devemos suportá-la, mesmo sem compreendê-la, por que isto nos tornará mais fortes espiritualmente, estamos também traçando uma estratégia para tornar nossa Dor mais leve. Batizar a Dor é torná-la suportável.


São estratégias psicológicas para defesa de um ego fragilizado pelo sofrimento, e que perde, pelo menos por algum tempo, seus referenciais, como em um pesadelo, que parece não ter fim.


Embora seja muito duro para mim mesmo, dizer e escrever estas coisas, já que, nos últimos 4 meses esteja vivendo meu próprio pesadelo com um problema de ordem familiar, é absolutamente necessário que usufruamos deste período e saibamos retirar do Caos de nossas antigas certezas, novos elementos para crescer como seres humanos.


Nada a ver com Mal ou Bem, já que tudo que nos acontece tem a sua própria utilidade.


É nosso papel, de acordo com nossa competência intelectual, extrair sentido dos acontecimentos, ou colocarmo-nos em estado receptivo, atentos aos acontecimentos, certos de que todas as tempestades, por mais terríveis que pareçam, passarão eventualmente, e que devemos aguardar confiantes e calmos, por este instante certo de calmaria, que virá.


E com certeza não seremos mais os mesmos ao chegarmos neste período de Sol em nossas vidas, mas muito mais flexíveis e adaptáveis, como o ferro na fornalha precisa queimar e sofrer os golpes do martelo do ferreiro para conhecer, depois, a beleza de ser espada.


Que nos tornemos belas espadas na mão do Santo Cavaleiro.