Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

CORRENTES: CAPÍTULO 2 : O MEDO DA LUZ

Comenius: Considerações à parte, eu não vejo como não discutir a educação mundana dos iniciados.
Bernardo: Porque você lembrou disso agora?
Comenius: Por que como meu homônimo, rosacruz e pastor protestante da Moravia, sou um educador. E por que você sabe dos perigos que cercam a atividade mística, como por exemplo, o apelo à simplicidade como meio de atingir a plenitude, como se simplicidade não fosse a mesma coisa que mediocridade e falta de elaboração. O que vem antes? É apenas o extremamente simples que se transforma no complexo, como sugere o senso comum, ou é o extremamente complexo que, por assim ser, aparenta ser simples? Veja a formiga: pequena, aparentemente simples, mas uma vez posta sob o microscópio e analisada em seus hábitos de organização descobrimos uma maravilha de força e organização social, altamente complexa; ou a lâmpada, sobre nossas cabeças: acendê-la é um gesto simples e mecânico, que oculta a miríade de fios pelas paredes, para conduzir energia do interruptor até o bulbo, a fantástica invenção de Thomas A. Edison com seu tubo a vácuo com uma resistência elétrica que revolucionou a iluminação de cidades e países, ou mesmo as complexas centrais de geração de energia elétrica, que distantes daqui, a quilômetros deste restaurante, enviam constantemente energia para que esta simples lâmpada permaneça acesa. Não, a simplicidade tanto é o momento antes da complexidade, como a aparência daquilo que é tremendamente complexo, e que por isso, parece simples.
Assim, o espírito altamente refinado busca voluntariamente a vida simples por ser complexo e não por ser medíocre, tanto quanto o medíocre é simples porque não pode ser complexo e não por que queira ser simples. São coisas absolutamente diferentes, mas que foram tornadas sinônimos para preservar as pessoas na ignorância de maneira que não ameaçassem o poder dos sacerdotes e reis.
Com esta demoníaca estratégia, pouco a pouco a cultura, o discernimento, o eruditismo foram transformados em defeitos e não em qualidades, aquele que pensava por si mesmo era tido como suspeito e alvo de perseguição enquanto aquele que se conformava a repetir sem questionar o que lhe diziam ganhava o status de bom cristão.
Bernardo: Concordo. A velha armadilha católica.
Comenius: Exato. Por muito tempo a Igreja de Roma estimulou este tipo de perspectiva por pensamentos , palavras e obras, uma delas a permanência do texto canônico em uma língua que não fosse a do país em que a missa era rezada, o que mantinha o saber e o poder em mãos dos sacerdotes, especialmente treinados para ter o controle sobre o discurso adequado às almas dos devotos.
Bernardo: O intermediário perfeito.
Comenius: Sem dúvida. Uma verdadeira reserva de mercado para os padres no empreendimento de marcar entrevistas e conseguir audiências com o Todo Poderoso.
A distribuição de informações ou a elevação cultural dos devotos sempre foi temida pela igreja dos séculos medievais, ou por governos tirânicos e totalitaristas. Isto implicaria em perda do monopólio do conhecimento e de poder, ainda mais numa época em que a ciência era simples discussão de cânones bíblicos romanos, moderados por ensinamentos da Grécia Clássica.
Bernardo: Cultura grega esta, devidamente adaptada.
Comenius: Com certeza. Só não houve maior agressão ao conhecimento tradicional da Grécia antiga, porque nem todos tinham acesso e, suponho, deve ter parecido, naquela época, que o risco de contágio cultural era pequeno, já que nem cultura existia.
Bernardo: Mesmo assim muitos morreram nas fogueiras da inquisição por refletir com mais lógica e liberdade do que o desejado.
Comenius: É fato. A Arte foi perseguida, a Medicina foi perseguida, a Alegria foi perseguida e a Cultura só conseguiu ganhar algum fôlego em países que se livraram do jugo ideológico da Igreja Romana. No caso os países do norte da Europa. O curioso é que exatamente de lá vem o Protestantismo. Pode-se dizer que o rigor religioso era maior entre estes do que entre os católicos. É estranho que,mesmo assim, não tenham queimado cientistas aqui e ali.
Bernardo: É verdade, mas foi assim. Nos países em que a Igreja de Roma foi substituída por outra entidade religiosa houve progresso sem par. Basta ver a situação socioeconômica dos países nórdicos em comparação com a situação dos países católicos da América do Sul e central, como bem descreveu o sociólogo Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo(Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus) escrito entre 1904 e 1905. É um conjunto de ensaios bastante convincentes fundamentando a tese de que a religião e os valores religiosos tem marcante, senão total influência na compreensão de mundo dos seres humanos, modificando até o grau de prosperidade de uma nação. Existem na minha opinião religiões que verdadeiramente enfraquecem o espírito em vez de o fortalecer. São todas aquelas que não reconhecem a liberdade do ser humano de contatar seu Deus de modo direto e sem intermediários. Graças a Deus não somos Cátaros em 1209 , e muito menos aqui é Languedoc.
Talvez, entretanto, por ironia, o mundo seja mais Cátaro hoje do que naquela época.
Comenius: É fato. E talvez, toda esta perseguição aos livres pensadores tenha sido por causa do Medo, este demônio do mal, que assusta crianças e homens, homens fracos e poderosos, ateus e religiosos. Medo de perder Poder, Status, a Vida. Medo da Fome, da Solidão. Poucos de nós crêem que são o que são por merecimento pessoal. Na maioria das vezes acreditamos estar em situação de instabilidade permanente, e achamos mesmo que somos apenas impostores e que a qualquer momento seremos descobertos.
Nos escondemos na mediocridade dos outros de forma que a nossa própria mediocridade não seja exposta e não sejamos vítimas da humilhação. Temos medo da Verdade que não é a nossa, temos medo da Diferença, que pode nos revelar por contraste. Não fomos educados para lidar com este Medo, não sabemos discipliná-lo, para transformá-lo de carrasco em auxiliar, nos dando os sinais necessários a autopreservação, função para a qual foi criado. O Medo nos afasta uns dos outros, nos torna agressivos e nos faz pessoas dissimuladas e frias em relação ao outro, em relação a qualquer um que precise de nós.
“...Disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem...”, dizia o poeta.
Talvez a Bondade não seja Coragem, mas apenas ausência de um Medo patológico que adoece e amaldiçoa o espírito.
Bernardo: Acho que entre os medos que você enumerou podemos colocar também o Medo da Luz, o Medo da libertação de trevas que são antes de tudo aconchegantes e que nos mantém aparentemente, em um tal conforto visual, que chega a ser viciante.
A adaptação deve ser lenta, como previa Platão em seu Mito das Cavernas, mas mesmo sendo lenta, a mudança de paradigma é tão extrema que provavelmente assusta aos desavisados.
Falamos da Ilusão (Maya para os Hindus), como se fosse algo ruim, mas na verdade, é nela que estamos mergulhados até o pescoço, até eu e você nesta mesa estamos apenas brincando com imagens ilusórias e nos divertindo com isso.
Na nossa compreensão e no nosso atual estado de percepção, este é nosso mundo “real”. Como sair deste estado e desta compreensão sem desconforto ou resistência?
Daí talvez o medo da Luz que todos carregam em si, preocupados em evoluir, sim, mas não tanto que as coisas como as conhecemos percam total sentido para nós.
Comenius: É interessante sua abordagem, tanto quanto pertinente. Acostumamos-nos a ver uma das colunas que sustentam o Mundo como a Coluna das Trevas e a outra como a Coluna da Luz e a dizer: “- Quero esta e não aquela”, como se não tivéssemos duas pernas, como se não nos apoiássemos em ambas. As Trevas da Ilusão nos envolvem e nelas exercitamos o Conhecimento. Precisamos desta Ilusão como de um laboratório ou de um quadro negro. Ela nos ajuda a pensar e elaborar.
Não há perigo em estar nas trevas desde que saibamos para o que elas servem e não confundamos exercício intelectual com realidade.
Carl G.Jung achava que nosso lado sombrio, a Sombra, era composta de todos as nossas características inferiores mas que não era necessariamente algo ruim e também era fonte de nossa espontaneidade e de nossos insights.
Podemos viver em ambas as dimensões e passar de uma a outra, quando necessário. Para que não haja sofrimento nesta troca de ambientes, porém, devemos estar atentos à velocidade e ao ritmo do processo: se lento demais, sofremos pela manutenção do status de limitação; se rápido demais, sofremos pelo choque da mudança. Tudo no Universo baseia-se em ritmo, na velocidade certa, no senso de momento, parafraseando Marx, quando as condições quantitativas necessárias para o salto qualitativo estiverem postas. Aí, tudo acontece. Quando for a hora e o momento adequado. É preciso tempo e calma.Os nossos piores inimigos são o Medo e a Pressa.São ambos duas pesadas Correntes a serem quebradas na busca pela nossa liberdade espiritual.Com o resto até que podemos lidar.
Bernardo: Até que podemos, é verdade.