Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

EVOLUÇÃO ESPIRITUAL, SERVIÇO E DESAPEGO


Meu discurso aos Artesãos da região SP2, em Suzano, São Paulo

Por Mario Sales, FRC.:, C.:R.:+C.:; S.:I.:(membro do CFD)



"A voz do mestre cessou. E todos do quarto, os ouvintes visíveis e os invisíveis, os visitantes da Terra e do Céu, permaneceram unidos num grande acordo de silêncio. Os discípulos viram, através da diminuta luz ao redor da cama, que o mestre jazia como um morto, mas eles sabiam que sua alma havia deixado o corpo e estava explorando as regiões superiores. E esperaram numa tensão sem ar, vacilando entre a esperança e o medo. Enquanto eles assim viveram por um longo momento de eternidade, a luz ao redor da cama começou a renovar-se com um fresco esplendor. Um sol de júbilo iluminou as feições de Shumon bem Yochai quando ele abriu os olhos para eles - um sorriso profundo, como se de muito longe. E sua voz vibrava com uma segurança profunda enquanto ele os ensinava, dizendo: "Sei que meu rosto está refletindo júbilo, mas o júbilo que vocês vêem nele não é senão um reflexo infinitesimal da felicidade que veio a mim. Minha alma acabou de voltar a mim do outro mundo, onde contemplei a glória dos que se entregaram ao Nome Santo. E eu os vi banhados em treze rios de perfume, e então conduzidos à frente do Trono Santo, onde o Santíssimo mostrou seu deleite com êles. E quando eu perguntei: "-Para quem é toda essa glória?",  foi-me dito:      "-Estes são os homens que serviram a Deus sobre a Terra por amor e não por medo!".
"Revelações sobre o Inferno e o Paraíso", Zohar,passagens selecionadas pelo rabino  Ariel Bension, capítulo 26, págs 221,222, Ed.Polar, São Paulo, 2006

Pressupõe-se que um artesão seja um homem ou mulher de refinamento espiritual indiscutível. Pensamos, quando neófitos, que são os mais antigos rosacruzes e que por isso atingiram um nível místico elevado, onde as questões que realmente importam não são as mesmas de quem não é iniciado ou o foi há pouco tempo.
Na vida real as coisas não são bem assim.
O caminho no estudante místico segue sempre um rumo peculiar, que diz mais respeito a seu karma e às suas peculiaridades psicológicas e pessoais do que ao ritmo próprio das monografias que chegam pelo correio.
A diferença entre os artesãos e os neófitos não é de evolução, mas de autopercepção, de clareza quanto às suas próprias limitações. Certa vez alguém disse que não era tão jovem para saber todas as respostas. Artesãos tem certeza sobre isso.
Aprenderam a duras penas que sua evolução atende a movimentos erráticos, guiados por uma força superior à sua vontade, e que ao aperfeiçoar-se espiritualmente depararam-se, necessariamente, com suas mais antigas imperfeições, com as regiões mais sombrias de sua mente.
Este é um exercício assustador e ao alcance de poucos. Principalmente porque no início desta senda de auto descoberta supomos que precisamos de coragem para atravessá-la.
Ledo engano. Enfrentar nossos próprios fantasmas, nossos demônios pessoais, que nos tentarão de maneira sagaz e sutil a abandonar o caminho, demanda muito mais confiança em Deus e na sua Infinita Bondade e Proteção do que em nossas próprias forças.
Se possuímos em nós uma parte com a qual temos dificuldade de lidar, uma parte que nos assusta, e que mesmo assim é parte de nossa personalidade, é porque ela representa uma ameaça às nossas convicções, não por que se opõem frontalmente a estas últimas, mas sim porque fazem todo o sentido e são objeções racionais às nossas ações e escolhas, em última análise, sensatas.
Nenhuma tentação verdadeira é explícita ou banal. Não nos oferece escolhas simples, como ouro e riquezas em troca de nossa paz espiritual. Ao contrário, propõe-nos reavaliar nossos critérios acerca daquilo que realmente nos traz felicidade.
A tentação verdadeira sempre toca em nossas carências, ela nos lembra as coisas que achamos que perdemos, de nossas insatisfações sexuais, da inevitável perda progressiva da juventude, das coisas que ferem nosso orgulho, nossa auto estima, nossa vaidade.
Porque dúvidas sempre teremos, se quisermos decidir sozinhos o rumo que daremos às nossas vidas. Só teremos paz verdadeira e tranquilidade quando entregarmos o comando de nosso barco nas mãos do Sublime Navegador, chamado de Mestre Interior, e que é a manifestação em nós da Consciência e da Sabedoria Divina.
É através deste mestre e guia íntimo que somos levados a tomar decisões mais acertadas e nem sempre as mais sensatas, nem sempre aquelas que nos pareceriam mais adequadas à luz da Razão.
Razão esta que muito nos auxilia no cotidiano, mas que não devemos esquecer que é a Falsa Luz, mesmo que pareça ser uma luz verdadeira.
Por isso as argumentações do Demônio, que é o nome que estamos usando para designar o conjunto de energias dentro de nós resultantes de nossa temporária estadia na forma física, nossos hormônios, nossa educação, nossos preconceitos adquiridos, etc, são sempre um primor de lógica e coerência, e nos faz mesmo supor às vêzes que estejamos recebendo uma inspiração angelical, quando na verdade estamos sendo submetidos a uma tentativa de desvio de nossa senda mística.
É sempre bom recordar que a figura babilônica dos Demônios, é, para todos os efeitos, um Anjo, como outro qualquer.
O Mal não nos tenta com o Mal, mas com o Bem.
E assim, ao Artesão é sugerido que sua vida seria mais fácil se abandonasse suas crenças para as quais não obteve às vêzes uma comprovação satisfatória, não no sentido de duvidar de sua autenticidade, mas sim da possibilidade de aplicá-las à sua existência.
As falhas humanas dos oficiais da Ordem são usadas como prova de que não estão aptos a exercer o cargo que exercem e que a qualidade do corpo ritualístico não tem o mesmo apuro que em outras eras, em anos anteriores.
A idade do Artesão pesa sobre seus ombros e isto é usado para mostrar-lhe que talvez tenha se dedicado de modo equivocado a uma prática e a um estudo que não lhe trouxe a paz que desejava, mas sim compromissos e obrigações que às vêzes rivalizam com o tempo da família e com o lazer.
O Demônio, sempre educadamente, com voz baixa, pergunta em nosso ouvido: " Do fundo do seu coração, o que melhorou em tua vida nos últimos anos? Tua pele não está mais jovem, teu corpo não está mais disposto, os problemas cotidianos, as questões de natureza familiar e profissional continuam a surgir, junto com dificuldades sociais e financeiras, e às vêzes legais. Pode-se dizer sinceramente que você está mais feliz hoje do que antes? A sua filiação e a sua lealdade trouxeram algum lucro psicológico ou dom em particular, a não ser aquele aparente consolo diante dos problemas que qualquer religião traz?"
Ficamos quietos, escutando estes comentários, tentando encontrar respostas a estas questões, que se modificam de acordo com o indivíduo que sofre esta tentação.
O que o neófito não sabe e que o Artesão conhece bem, é que o Mal não está fora de nós, mas mora em nossas frustrações pessoais, em nossos fracassos pessoais, em nossa falta de auto estima, em nossos "esqueletos escondidos no armário".
E alguns entre nós tentarão combater estes ataques do inimigo lembrando-se do Karma, e pensando que obedecer a Deus e à Ordem implica em proteção para si mesmo e para os seus, como reflexo da Lei de Anra. Que algum tipo de recompensa, não necessariamente material, mas algum tipo de compensação, acontecerá como consequência de sua firmeza em manter-se junto às fileiras dos oficiais mais antigos.
Em seu interior temem ceder às provocações do mal não por convicção, mas pelo receio das punições, que tem a ver com a Lei Universal.
Isto não é suficiente, entretanto, para trazer paz.
Apenas garante um estado de conflito e receio que precisa ser superado para que possamos realmente trilhar um caminho luminoso.
O Mal tem uma característica interessante. Ele se fortalece com nosso esforço em combatê-lo. Reconhecê-lo como uma força real é dar-lhe densidade e estrutura. O Mal precisa de nosso medo e de nossa resistência para afirmar-se como uma entidade independente.
Seu ponto fraco é ser desmascarado e ter sua enorme fragilidade revelada. Sim, o Mal é extremamente frágil e carente e por isso precisa de alimento e de atenção.
Se consegue gerar a dúvida, a hesitação e o conflito, ou mesmo a reflexão sobre seus argumentos, sua vitória sobre nossas melhores intenções está assegurada.
Como, entretanto, não ter dúvidas, sendo como somos seres frágeis e sujeitos às pressões naturais dos acontecimentos? Como superar nosso receio diante da certeza de nossa morte física, ou da doença, ou da dor psicológica? Como enfim não nos sentirmos inseguros, sendo como somos seres humanos comuns, hoje, exatamente por causa de nossa experiência e tempo de vida, perfeitamente cientes de nossas próprias limitações?
Por isso não podemos confiar em nós mesmos, mas na entrega à inspiração divina, à orientação do Todo Poderoso, e deixar que não nossa cabeça, mas nosso coração, guie nossos passos, nossa jornada.
Assim fazendo, somos tocados pela egrégora dos Mestres deste e de todos os mundos, os Dhyân Chohans da Doutrina Secreta de Blavatsky, ou seus auxiliares, os Mestres da Fraternidade Branca na Terra.
E ao entrar na vibração destes Homens e Mulheres, estes Irmãos mais antigos, tornamos-nos, também, suas extensões neste mundo, e somos imediatamente tocados por sua força.
E o que este contato nos ensina?
Em uma expressão, uma palavra, resume-se a técnica dos Mestres, que nos liberta das tentações e nos ajuda na conquista da Luz: o Serviço.
Servir o próximo,(seja a sociedade que nos cerca, a nossa própria família ou aos animais, sim, aos animais que são nossos companheiros neste planeta e que em muito podem nos mostrar a importância e a força do afeto incondicional), é, além de uma estratégia de acumulação de karma positivo, uma vacina contra a perda da confiança nos valores espirituais.
Servir é a forma manifesta do Amor.
Servir é realizar a mais elevada das virtudes, o Altruísmo, o pensar no outro antes de em voce mesmo.
Servir é exercitar a libertação das preocupações do ego, a verdadeira face do Demônio tentador, o ego que quer prevalecer, que tem receio de desaparecer, que tem medo de não ser valorizado, que se alimenta do elogio e da bajulação.
Servir, principalmente de forma discreta, de modo que "a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita", transforma a prática do bem em uma hábito e, com o tempo, em uma necessidade involuntária, onde a Vontade do Altíssimo determina nossas ações e não as nossas crenças pessoais ou valores religiosos.
O Servir é o meio prático e direto de enfrentar as incertezas da existência, colocando-nos em sintonia com toda a Vida em todas as partes do planeta, não só a vida humana, mas com vegetais e animais.
O Amor como um valor ou uma virtude é abstrato e filosófico. Através do Serviço ele ganha densidade e existência, como o Amor Manifesto. E na verdade, é no Serviço que nos assemelhamos ao Criador. Pois Deus nos serve todos os dias, dando-nos o Nous necessário a existência, mantendo-nos aptos através de sua inspiração, no sentido mental e no sentido respiratório.
É Dele que nos alimentamos, é Nele que encontramos sustento, é por Ele que exercemos nosso direito de existir e aprender mais e mais para a Glória de Seu Nome e de toda a Criação.
E se servimos, transformamos-nos em Forças da Criação, ou em termos Martinistas, Agentes Divinos na Terra.
E de que forma servir para aumentar nossa Luz Interior, nos aproximarmos da Iluminação, e vencer a Tentação do Inimigo?
Persistentemente. Compromissando-nos de forma que o desânimo possa ser combatido com o senso de dever. 
Nem todos nós são talhados para o serviço em Corpos Afiliados. Mas quem o é deve usar deste expediente para organizar o seu próprio esforço de serviço.
Pois pelo compromisso, que se oficializa num juramento ao assumir o cargo, seja ele qual for, comprometemos-nos a servir. E aí, aplicamos uma técnica descrita por Pietro Ubaldi como "automatismo": mesmo que o corpo não esteja disposto, mesmo que a preguiça ou o simples cansaço peça, não poderemos faltar a um compromisso que juramos cumprir e isto nos força a comparecer a uma cerimônia aonde exercemos um papel teatral e iniciático importante para outros e não só para nós mesmos.
O Serviço contribui para outro tipo de ganho místico: o desapego. Ao participar solidariamente da ajuda a terceiros, descobrimos o sem número de pessoas que precisam de nosso auxílio e colocamos, automaticamente, nossas próprias dificuldades pessoais em perspectiva por comparação.
Como reclamar de uma unha quebrada diante do Câncer de mama de outro?
Impossível.
Situações como estas são didáticas, elucidativas, esclarecedoras. Permitem-nos contemplar a floresta, não a árvore.
Levantamos os olhos do próprio umbigo e olhamos a nossa volta. 
Esta simples mudança de foco é terapêutica. 
De repente, como num passe de mágica, a nossa dor, o nosso sofrimento (e todos nós temos alguma dor a tratar), torna-se banal. Saímos da condição de murmuradores para a situação inversa, de agentes transformadores. Este é o verdadeiro crescimento da maturidade espiritual.
Este é o verdadeiro batismo de fogo do Artesão. E aí sim, ele será glorificado pelo Altíssimo, porque o serviu não por Medo mas por Amor; mas amar é um verbo transitivo, já que quem ama, ama a alguém ou a alguma coisa. 
E assim, o Artesão, por definição, nunca ama em tese, mas de fato; ama o ato de tecer a realidade a sua volta, com as linhas da generosidade e da bondade. O artesão deve ser, sempre, o tecelão de um novo Universo, para si e para todos a sua volta. Não de forma aleatória este é o seu título, já que também é a sua missão. construir com beleza e arte. 
O ser humano, afinal, principalmente o ser humano iniciado, como lembra o Cabala, tem na sua existência como missão primordial Retificar a Criação, corrigindo-a e aprimorando-a, cônscio de sua cumplicidade com o Criador que gerou não uma obra pronta e acabada, mas um Processo em constante evolução e aperfeiçoamento. E aí sim nos reconheceremos como aqueles abençoados do trecho do Zohar em epígrafe. "-Para quem é toda essa glória?",  foi-me dito:"-Estes são os homens que serviram a Deus sobre a Terra por amor e não por medo!".
Sirvamos, sempre, e muito, de forma a manifestarmos na Terra o Amor de Deus, o amor criativo, real, palpável, não um valor metafísico, mas uma ação concreta no Mundo. Este é o caminho para derrotar a Tentação e humilharmos o Inimigo, amando-o também e de tal forma que ele, como sombra que é, desapareça debaixo de nossa Luz.