Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 16 de setembro de 2012

JORNAIS DE DOMINGO, POPPER, MATÉRIA ESCURA E A BUSCA DO INVISÍVEL


por Mario Sales, FRC.:, C.:R.:+C.:, S.:I.:(membro do CFD)



O dia está propício para a leitura dos jornais. Aproveito o silencio e a solidão (todos dormem) para tomar um café tranquilo regado a pão torrado e a notícias.
As manchetes econômicas e políticas, locais e mundiais, são o átrio daquilo que eu chamo de "páginas profundas", as que trazem os verdadeiros textos de reflexão, sem o compromisso com o imediatismo e a cotidianidade que um jornal precisa ter.



Mario Vargas Llosa


E nestas páginas, encontro alguns tesouros como o ensaio de Mario Vargas Llosa, sobre o "Jovem Popper". Fala sobre um livro de Malachi Haim Hacohen, Karl Popper: The Formative Years 1902-1945 (Karl Popper: os anos de formação). 





Sir Karl Popper foi um filósofo austríaco, exilado na Nova Zelândia da perseguição nazista, mas pelo qual tive simpatia na faculdade de Filosofia por causa de sua área de especialização: a teoria da ciência, a busca pelo estabelecimento de critérios de verdade, ou, como é mais conhecida, a Epistemologia, de espistéme, que em grego quer dizer conhecimento de certeza, ao contrário da doxa, que é a mera opinião, sem fundamentação. 


Sir Karl Popper


Embora o artigo foque no aspecto de pensador social que Popper desenvolveu em sua obra mais famosa "A Sociedade Aberta e seus Inimigos", um libelo contra a tirania e o totalitarismo, enquanto eu lia lembrava da imagem de Popper que mais me marcou, e que não estava neste texto mas em outro, anterior, chamado "A Lógica da Pesquisa Científica", aonde ele desenvolve, salvo engano, as teses de "falsificabilidade" na busca da verdade pela ciência. 



Malachi Haim Hacohen

Tudo que é científico, segundo ele, pode ser submetido a testes de falsidade, verificações que averiguam o grau de verdade das coisas. O que é passível de ser testado, submetido a verificações constantes, é científico; o que não pode ser testado é dogma. E dizia ele, uma teoria deve ser capaz de se defender sozinha dos ataques realizados nestes testes. 




Não há necessidade de que este ou aquele cientista venha em seu socorro. Se 2 e 2 são 4, são porque são, por que todas as vezes que somamos duas unidades ( sejam bananas, maçãs, garrafas ou pessoas) com mais duas unidades de qualquer coisa, chegamos ao mesmo resultado de 4 unidades destas mesmas coisas.
Não é a toa que a matemática de Descartes a Kant, é sempre tomada como referencial daquilo que é confiável, enquanto conhecimento de certeza, científico.
Só que a imagem que mais me marcou em Popper foi a imagem do farol.
Ele dizia que o intelecto e a busca científica eram como um farol, que ora lançava luz sobre uma área, ora sobre outra. Ele não disse, mas de sua imagem eu inferi, que ao lançar luz sobre determinada área, todas as outras ficam na escuridão, ou seja, o intelecto, ao contrário do pensamento intuitivo captativo, tem um curso direcionado e linear, não consegue uma visão de 360°, pois não tem condições para tanto. Não é a toa que falamos de "linha de raciocínio", "curso do pensamento", etc. Com o intelecto, só o que podemos é subir uma escada reta, degrau após degrau.
Este é o processo da razão, na ciência e na filosofia.
Mudemos de página, e na 23 encontramos um belo artigo do repórter Herton Escobar, sobre o mais ambicioso projeto da astronomia brasileira, em trabalho conjunto com cientistas espanhóis. 



Jornalista Herton Escobar


Fala da construção de um mega observatório (veja o esquema abaixo) em uma montanha próxima a Teruel, no leste da Espanha, no chamado Pico do Abutre, a dois mil metros de altura. 





E pasmem, este complexo será direcionado apenas para a pesquisa do mais interessante fenômeno astronômico dos últimos 80 anos: a matéria escura, uma área gigantesca do Universo, cinco vezes maior que a área de matéria visível, a qual não irradia nem absorve luz, e que é não vista, mas inferida a partir de seus efeitos gravitacionais.
O complexo será chamado de Observatório de Javalambre, em homenagem a cadeia de montanhas que o abriga, ao custo total de €30 milhões, o qual está em fase adiantada de construção, com túneis subterrâneos, sala de controle, dormitórios, etc. Faltam, segundo a matéria, duas peças fundamentais: o telescópio T250, que está sendo montado na Bélgica, e a "câmera J-PCAM, que foi projetada e está sendo construída parcialmente no Brasil", no valor de €5 milhões. 


É o astrônomo Renato Dupke, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, que relata que esta câmera será a segunda maior do mundo, com uma resolução de 1,2 bilhão de pixels, pesando mais de uma tonelada.
A previsão é de que fique pronta só em 2014, mas o observatório começa a operar já em 2013. 





Renato Dupke 

Também envolvidos no projeto estão o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da Universidade de São Paulo, através do pesquisador Laerte Sodré e sua equipe. Renato Dupke, do Rio, divide a coordenação do projeto com o colega espanhol Narciso Benítez, do Instituto de Astrofísica de Andaluzia. 



Narciso Benítez

O adjetivo escuro tem a ver com a total invisibilidade desta massa. Para enfrentar o problema, novos recursos óticos foram postos em ação. O mais interessante, a meu ver, foi o de acoplar à supercamera J-PCAM 56 filtros para estudar todas as cores da luz possíveis. Ora, supõe-se que ao usar-se de forma sequencial, um a um destes filtros, possa-se encontrar algum comprimento de onda perceptível ao olho humano ou aos recursos computacionais que integram o software da J-PCAM.




É o uso de tecnologia visível na busca da percepção do invisível.
Ao final da matéria, o jornalista Herton Escobar deixa uma frase de Laerte Sodré , da USP.



Prof  Laerte Sodré


 "Quem não procura, não acha" diz ele cobrando mais ousadia da ciência brasileira, que segundo ele, "costuma trabalhar com questões mais periféricas". "Se não arriscarmos" continua ele, "e não ousarmos a responder perguntas fundamentais, não vamos chegar a lugar nenhum, temos de meter as caras mesmo", conclui.
Fiquei com isto na cabeça. Ousadia e ciência. Busca. Coragem na busca. 





Pesquisas científicas não são apenas a reunião de fatos. Elas partem também da coragem de perguntar, de questionar verdades e possibilidades, de tentar "falsificar" o que se acredita, separando o que é dogma do que é conhecimento científico, como dizia Popper. Não há pecado em tentar, desde que haja coragem de fazer as perguntas certas, de manter a curiosidade ativa e tenha-se a ousadia de fazer as "perguntas fundamentais".
Se estivermos certos, nossos esforços serão coroados de êxito. Se não estivermos certos, pelo menos estaremos mais longe do erro, como lembrava Platão, pois saberemos o que não fazer.
Não tentar, não ousar é que é o verdadeiro pecado. Mas nunca tinha ouvido um membro da comunidade científica astronômica brasileira dizer isto com todas as letras.
Isto me lembrou um episodio recente que aconteceu comigo.
Trata-se de uma discussão que tive, no ambiente interno da Rosacruz, com um físico, membro da nossa Ordem, que vive em minha região. Ele é respeitado entre nós como representante do meio científico ortodoxo e como dentro da Rosacruz temos por tradição amor ao conhecimento e à atividade científica, todos o tratamos com a maior deferência. Alguns anos atrás eu o procurei, levado pela mão de outro frater, Waldemiro Guzzi, e combinamos de trocar emails sobre a minha obsessão dos últimos anos: a possibilidade de visualização da Aura Humana por pessoas não videntes, tal como se consegue ver o interior do corpo através de um simples aparelho de raio x.
Argumentei com ele, na época, que existiam duas possibilidades em relação a esta questão: a primeira, que a aura humana fosse apenas uma emanação psíquica, fora de nosso plano de manifestação, e por isso não houvesse possibilidade alguma de visualizá-la por meios materiais. A segunda, que a aura fosse uma emanação de baixa intensidade, mas ainda assim luminosa, e que pudesse ser captada desde que usássemos recursos óticos adequados: câmeras de alta sensibilidade, dotadas de filtros para verificação de vários espectros de luz, à semelhança do observatório, ora em construção no leste da Espanha.
Eu falava com um físico, mas não com qualquer físico, um físico rosacruz, de quem esperava pelo menos algum tipo de simpatia com a minha curiosidade.
Qual não foi minha surpresa quando, ao longo de 6 ou 7 emails ele defendesse veementemente de que nada podia ser feito quanto a esse aspecto, já que a emanação da aura dizia respeito apenas ao campo psíquico e não ao físico e assim não se podia pensar em desenvolver qualquer tecnologia para auxiliar neste particular, ou por outra, não se podia usar algo visível para visualizar o invisível.
Guardadas as devidas proporções, é exatamente o que está se fazendo na Espanha, usando o visível (cameras com gigantescos recursos óticos) para buscar o invisível (a matéria escura). E a argumentação de que eu era um místico conversando com um homem de ciência também não se aplica aqui, considerando o fato de que ambos, eu e ele, independente de ser um físico, é um rosacruz e além disso martinista como eu, ou seja, teoricamente professamos crenças em coisas semelhantes.
Ele apenas enterrou minha proposta dizendo da sua inviabilidade e quando indaguei da possibilidade de conversar com alguém da área de ótica, reagiu com veemência, dizendo que o problema não era esse, que o problema não era ótico, mas metafísico.
Faltou ousadia, como diz Laerte Sodré, da USP. Embora Rosacruz e físico, ele não se encantou com o desafio, nem quis envolver-se. Preferiu desmerecer a iniciativa. Faz parte, e o debate científico é assim mesmo, duro, áspero, mas fundamentado em convicções, nem sempre baseadas em fatos, mas em idéias de mundo, preconceitos.
O que me surpreendeu foi encontrar este tipo de timidez investigativa em um cientista que também é rosacruz, e que por isso eu achei que era um cientista rosacruz. Não era. Não há necessariamente relação entre uma coisa e outra, descobri.
Ser um rosacruz, ser um cientista e ser ousado em suas pesquisas não são coisas necessariamente relacionadas.
Quando vejo astrofísicos procurando o invisível, mesmo que seja um invisível perceptível pelos seus efeitos gravitacionais, morro de inveja das pessoas que tem acesso a estes recursos. E fico triste que em minha Ordem, no passado reduto de mentes pensantes, atualmente, mesmo mentes de irmãos ligados a ciencia, estejam tão burocráticas e pouco ousadas.
É pena. Popper estava certo. O que não pode ser questionado, é dogma. Para mim, ser rosacruz não é crer em dogmas, é avançar com coragem, ousadia, e procurar outras possibilidades de estabelecer pontes entre o pensamento ortodoxo e o místico, usando o visível para buscar o invisível.
Para mim é a única alternativa de devolver a AMORC a glória da qual ela já desfrutou e interferir na sociedade como é tradição dos rosacruzes, através do conhecimento.