Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

domingo, 17 de outubro de 2010

O LENTO DESAPARECIMENTO DA CAPACIDADE DE LER OU, TAMBÉM, NINGUÉM LÊ BLOGS.



Por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Outro dia,no café, li um artigo de um jornalista sobre um fenômeno recente: a incapacidade da maioria das pessoas de chegarem ao fim das matérias jornalísticas, por pressa, por ansiedade, por várias razões. Quase ninguém, segundo ele, conseguia chegar ao final do texto.
Isto é preocupante. Não sei, no entanto se é um processo semelhante a um incêndio em uma floresta seca.
Acredito que o articulista tem razão ao identificar um número maior de pessoas incapazes de ler e compreender um texto, mesmo os textos pequenos de uma notícia de jornal. Só que a meu ver isto se deve ao aumento da população do planeta, que causará sempre um aumento, em números absolutos, de tudo que se possa imaginar: crianças, idosos, artistas plásticos, motoristas, aposentados, desempregados, etc.
Talvez o certo fosse buscar análises percentuais e não em números absolutos pois, e isto é uma crença a comprovar, sempre existirá uma parcela da população dedicada ao hábito da leitura, a qual provavelmente, em números absolutos, também está crescendo.
Gostar de ler não é um dom coletivo, é coisa pra poucos. Que, já que a população do planeta cresceu, tornaram-se muitos. Com um grave problema. Os direitos autorais são vilipendiados todos os dias pela rapidez das mídias e da internet.
A multiplicação dos blogs é vertiginosa, mas quem lê estes blogs pelo que está escrito neles? Muito poucos.
É como uma floresta amazônica de letras, que aumenta exponencialmente, a cada segundo.
O que tornaria uma árvore mais atraente que outra, mesmo considerando os nichos de cada blogueiro?

Ler por prazer é um traço de caráter. Para os aficcionados, a Leitura, como prática, demanda paz de espírito e tendência pessoal. O leitor compulsivo tem uma relação pessoal e sensual com o texto, com a textura do livro, seu cheiro, sua forma, etc, coisa que aos poucos pode desaparecer com a praticidade dos Readers, estes leitores eletrônicos maravilhosos. Veja no entanto que o próprio E-Reader tem uma forma e uma estética, e uma capa, o que talvez mude o objeto de relacionamento sensual mas não a sensualidade do ato de ler.
Somos filhos de nossa época, uma época de informações prontas, vomitadas sobre nós em telejornais previamente editados para nos passar uma imagem de mundo mais adequada a demanda da audiência, violência, sexo, escândalo e tragédias, como retrata a tira do Calvin em epígrafe.
Só que o leitor, que sempre existirá, em todas as épocas, jamais se tornará presa deste ritmo frenético da mídia porque ele contrapõe a informação enlatada com a sua própria cultura e por isso, independente do editor de seu tele jornal ou jornal de papel, ele tem a sua própria opinião, baseada na sua estrutura intelectual sólida.
A única defesa contra a avalanche de idéias que nos são empurradas goela abaixo todos os dias é a cultura. É ela que nos defende, protege e nos dá condições de filtrar quaisquer imagens que cheguem às nossas retinas, dando-lhe o devido processamento antes de absorvê-las.
A cultura nos deixa seguros, a ignorância coloca nossa vida, nossa liberdade e nossa autonomia em risco.
Quanto a ler o que se escreve em blogs, isto é muito relativo.
É certo que eu mesmo tenho três leitores constantes. É para eles que escrevo e para uma quarta pessoa, eu mesmo, já que meu blog é um espaço onde organizo minhas idéias e emoções em textos e onde elaboro meu próprio imaginário de forma sistemática, num exercício narcisista sim, mas terapêutico, de autoanálise constante.

Quase ninguém lê os milhares de blogs que estão por aí, a não ser talvez duas a três linhas, e depois continuam a navegar, sem se aprofundar muito naquele local ou naquele texto em particular.
Às vezes, estou certo disso, abrem a página, olham as imagens, e imediatamente seguem em frente, sem se dar ao trabalho de consultar quaisquer textos que  possam ali estar.
Este momento surgirá na estatística do blog como uma visita, mas não reflete de maneira fiel o número de pessoas que tiveram acesso real as idéias expostas ali.
Compreendi, depois de ver uma moça seminua, em uma matéria da Internet, rotulada como "Musa dos Blogueiros" que, considerando a minha própria beleza física, meus textos têm pouca chance de chamar atenção por si.
Paciência, ninguém provavelmente lê mais nada, a não ser aquele grupo de eleitos de que eu falava há pouco, e mesmo eles têm suas preferências, que necessariamente não deve ser ler textos de blog. Há tantos livros no mundo, e tão bons, que os blogs são necessários sim, mas para os blogueiros, que ali encontram um espaço pessoal de elaboração de suas próprias angústias existenciais, uma espécie de bálsamo de letras, que aplicado sobre a alma de quem o escreve, causa um enorme e gratificante conforto.
E é bom que seja assim.