Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 23 de outubro de 2010

LIBERDADE DE PENSAMENTO E PRÁTICA DO MARTINISMO NA TOM

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


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Como Rosacruz habituado a tolerância de pensamento e ao discurso metódico em busca do esclarecimento, estranhei muito os primeiros anos de prática do Martinismo.
Talvez a palavra prática até seja inadequada neste particular pois, se é verdade que o Martinismo é uma Via Cardíaca, também é um caminho altamente intelectualizado.
Basta uma visita ao site Martinista Hermanubis, para se ver o sem número de artigos sobre uma imensidade de temas, em quatro idiomas, que ali são discutidos.
Verdade seja dita, não são assuntos pragmáticos. Via de regra se apresentam com tal grau de erudição e riqueza de detalhes que não estarei enganado em dizer que poucos são capazes de acompanhar aquela bruzundanga de termos e nomes, citações e datas, históricos e levantamentos de costumes e tradições de todas as linhas de pensamento místico.
O foco quase sempre está no século XVIII , época de ouro do Ocultismo e das Práticas Ocultistas, hoje abandonadas a não ser por alguns saudosistas.
O Martinismo Ocultista orbita nomes e textos de todos os esoteristas daquele momento da história, textos que apresentam enorme dificuldade de entendimento, já que além da barreira proposital do esoterismo e do simbolismo ainda temos que nos defrontar com a diferença de época histórica e de perspectiva social e espiritual.
Se o homem do século XVIII aceitava como válido invocar um Anjo para que este lhe ensinasse acerca das coisas de Deus,(e o fazia, demonstrando rara habilidade teúrgica), também era ingênuo o bastante para acreditar que isto o auxiliaria a tornar-se mais sábio e viver com mais dignidade.
Pelos depoimentos de Saint Martin após a morte de Martinez de Pasqually, sobre o enorme risco de demência associado aos rituais dos Ellus Cohen, o que levou ao abandono destas práticas após a morte do Mestre, tal idéia infantil de que alguém, mesmo que seja um ser angelical, possa viver e evoluir por nós, hoje soa aos nossos ouvidos apenas como imaturidade psicológica.
Naquela época, no entanto, havia a crença ingênua de que deveria se controlar o destino através de uma intervenção neste mundo; para os céticos, através da razão; para os místicos, através da magia e da teurgia.
Os magos do passado, embora hábeis do ponto de vista esotérico, eram imaturos do ponto de vista psicológico.
Foram-se os homens, a época, mas ficaram seus textos, com sua visão toda própria da relação com Deus e com os homens.
Como já analisei em outro ensaio, a linguagem de Martinez de Pasqually e Saint Martin era militar e jurídica, porque ambos eram oriundos da Caserna, do Militarismo, (Saint Martin, além disso, seguira a carreira do Direito), e ambos eram provenientes de Lojas Maçônicas, estando por isso acostumados a termos grandiloqüentes, tão ao gosto da Maçonaria.
Por causa disso, dialogavam com a realidade através das categorias ligadas a disciplina militar e a noção de crime e castigo e sua leitura da Bíblia concentrava-se no Velho Testamento, onde a noção de Pecado Original, Queda e Culpa, ganham forte destaque e fundamentam a cultura hebraica e judaica, tanto quanto a Igreja Católica.
Nada a ver com João Evangelista, 10- 30 (Eu e Deus somos UM).
Não. Deus está afastado, lá, em algum outro lugar, e nós estamos aqui.
É Onisciente, mas não previu uma revolta de seus próprios anjos contra ele. Mais: deixou que ela acontecesse e depois encarcerou os culpados em uma prisão gigantesca, o Círculo Eixo Fogo Central Incriado.
É Onipresente, mas reside em outro espaço acima de nós, e não em nós, como todo rosacruz repete, a todo o momento, quando ora dizendo: Deus de meu coração...
Tal mito sobre este Deus controverso, contraditório, contado por Pasqually, o Midrash que fundamenta o Quadro Universal, é belíssimo, na verdade brilhante, considerando a época e seus conhecimentos. E assim tem sido preservado ao longo dos séculos pelos sucessores desta equipe de iniciados, em respeito a sua memória, e em respeito aquilo que seus textos simbolizam.
No entanto, o tempo passou, e o mundo tornou-se bem mais complexo.
Hoje, não podemos falar apenas em progresso material, como vejo constantemente sendo repetido como um mantra por alguns saudosistas.
Houve progresso psicológico também e o místico moderno já não procura o isolamento e o silêncio apenas, mas convive com o caos do mundo, buscando não controlá-lo, mas harmonizar-se com seu cotidiano.
Particularmente o Místico Rosacruz moderno, de maneira Panteísta, cultua o Deus Espinoziano, identificado com a Criação e não separado dela, verdadeiramente Onipresente, Onisciente, e Onipotente, tal como a Internet, em toda parte e em lugar nenhum.
E este místico rosacruz contemporâneo, no mínimo estranha que em determinados momentos os debates martinistas tratem como axiomas afirmações que deveriam ser encaradas como eminentemente simbólicas e datadas historicamente, tendo hoje um impacto bem menor do que tiveram em sua época.
Refiro-me principalmente a noções como Queda ou Involução, categorias desconhecidas para os Rosacruzes, que só acreditam na Evolução, mas freqüentes no discurso de Saint Martin e preservadas por Papus, quando da restauração da Ordem.
Falar-se em pecado original no século XXI é no mínimo descabido, considerando que já no século XV, um rosacruz, pensador e matemático francês, René Descartes, refutou a noção de Pecado e transmutou-a brilhantemente na noção de Erro, desfazendo a culpa judaica do coração de muitos. Isto para não falar no debate entre Santo Agostinho e Pelágio,no século IV, em que Agostinho defendia que a criança não batizada era portadora de pecado ao que o padre Pelágio refutava como absurdo culpar um inocente pelo pecado dos que o precederam.
Com Descartes, instaurou-se a Razão como meio de compreensão do mundo. Infelizmente, fazendo progredir apenas a Ciência e não a fé. E como diria mais tarde Immanuel Kant, a fé sem razão é cega, mas a razão sem a fé é vazia.
Deu-se então uma separação artificial entre ambas, que aos poucos em nossos dias vai se diluindo a medida que nosso conhecimento vai avançando.(Basta lembrar a frase do Bacteriologista Louis Pasteur de que Ciência de menos afasta de Deus e Ciência demais, aproxima).
Sim, ainda temos bolsões de fanatismo e resistência ao bom senso, só que antes isto era a maioria, não parte da realidade.
No meio desta batalha os místicos procuravam se manter em equilíbrio, nem participando de conflitos bélicos pelo poder sobre os corações e mentes do mundo, nem abandonando suas crenças na frase do Evangelho de João, sobre a Unidade de cada Homem com o Pai, como a do Cristo. Sem intermediários.
Alguns, no entanto, não eram tão equilibrados, e buscavam, mesmo que por boas razões, métodos de intervenção complexos na busca de um diálogo que poderia ter sido feito apenas no coração e no recolhimento. Naquela época compreende-se o equívoco.
Hoje, ao contrário, não podemos aceitá-lo.
Somos rosacruzes, homens e mulheres livres de espírito, embora prisioneiros de nossa consciência a qual prestamos obediência indiscutível.
Desta forma, metáforas que insinuem que somos um erro de Deus, e não seres divinos em missão nesta terra, talvez esquecidos de seu poder, mas não em regime de prisão forçosa dado a um erro nos primórdios da Criação, não fazem o menor sentido.
Como Rosacruz sinto-me poderoso, pois sou Um com meu Criador, e se ele é poderoso, eu também sou.
Nada há que me separe dele, a não ser as aparências da vida material, que como o nome diz, são apenas aparências.
A razão é minha aliada e não me afasta de minha confiança em Deus e no seu suporte.
Esta, entretanto, não é a fala de um iniciado do século XVIII, mas de um iniciado do século XXI, principalmente um iniciado que embora tenha lido o Velho Testamento, também leu o Novo, com os olhos do século a que pertence.
E que além de ler a Bíblia, leu o Corão e principalmente o Bhagavad Gita, reconhecendo o mesmo Deus representado em cada um destes livros santos.
O discurso martinista deve ser, portanto, contextualizado em sua época (século XVIII) e lugar (Europa Ocidental), momento e local de características muito próprias, que devem ser consideradas ao analisarmos os textos produzidos neste ambiente.
É isso que um rosacruz de mente livre faz ao estudar os textos Martinistas, ao contrário de tentar decorá-los e interpretar o mundo moderno pelos olhos de outra época, não só do ponto de vista social, mas também, e principalmente, do ponto de vista psicológico.
Seria ingênuo agir de outra forma, por mais respeito que tivéssemos por nossos antecessores na senda martinista, e até por respeito a eles não devemos deixar estagnar nosso pensamento ou permitir que valores questionáveis como a noção de Queda, sejam mais do que aquilo que são: figuras de linguagem.
Só uma mente livre e positiva pode pensar assim.
Uma mente verdadeiramente rosacruciana, honra a sua linhagem tanto quanto os martinistas honram a sua. E da linhagem rosacruz constam nomes que estiveram fortemente ligados ao ato de pensar com liberdade.
Os pais do pensamento racional (Bacon, Descartes e Leibnitz) eram rosacruzes. Não me referirei a eles, desta vez, mas a alguém mais próximo de nós, ligado ao movimento rosacruz, mas muito mais ligado ao trabalho de restauração do Martinismo em nossa época e que fala com a língua de um espírito rosacruciano.
Ouçamo-lo:
“A Grande Magia não é um compêndio de divagações mais ou menos espíritas, arbitrariamente erigidas em dogma absoluto: é uma síntese geral – hipotética e racional – duplamente fundada sobre a observação positiva e a indução por analogia”
Ou ainda:
“Tu foste sucessivamente investido nos...graus de nossa Ordem. Nós te saudamos, S.:I.:, e quando tiverdes estudado e meditado sobre o conteúdo de nossas lições, chegará o momento de te tornares um iniciador.(...)Não queremos aqui te impor convicções dogmáticas. Pouco importa para nós que te consideres um materialista, espiritualista ou idealista; que professes fé no Cristianismo ou no Budismo; que te proclames um livre pensador ou que defendas até mesmo o ceticismo absoluto. Não atormentaremos teu coração agitando o teu espírito com problemas que só podes resolver perante tua consciência e no silêncio solene de tuas paixões aquietadas.(...)
A busca sincera e desinteressada pela verdade, é isso que teu espírito deve a si mesmo.”
Este trecho será reconhecido por alguns, senão por muitos.
Os que são martinistas têm, por obrigação, sabê-lo de cor da mesma forma que reverenciar o nome do homem que escreveu estas linhas, pois era um Martinista tão sincero como eu sei que todos que se engajaram na senda martinista desejam ser. Todo Martinista almeja “a perfeição dos seres santos”, mas antes disto, pelo menos, o discernimento dos sábios.
E estas palavras acima são as palavras de um sábio, um sábio martinista, a frente de seu tempo, um homem que fez a união entre o pensamento racional e esotérico em seus textos, livrando o discurso místico do pedantismo démodé provinciano e arcaico de que às vezes vem revestido.
Este homem, que leu Paracelso, Pico De la Mirandola e o Evangelho de Jesus, leu também Baudelaire, Montaigne e Cervantes.
Este mesmo homem não suportaria assistir uma discussão ou um fórum martinista em que não houvesse uma participação coletiva, e um debate franco e enriquecedor, se bem que em ambiente fraterno e acolhedor. Por que não conhecia o medo do erro nem sentia culpa pela sua ignorância, que tentou ao longo de sua breve existência desfazer o mais possível (nasceu em 1861 e morreu em 1897, com apenas 36 anos) o que conseguiu, com enorme sucesso.
Guaita
Todos nós, que somos Martinistas, além de Rosacruzes, devemos com nossa atitude crítica e com um pensamento livre de amarras e dogmas, prestar reverência e ser dignos do nome de Stanislas de Guaita, companheiro de Pappus na restauração da Ordem Martinista, no final do século XIX.
E a primeira coisa a fazer é começar a pensar sobre tudo que aprendemos em nossas reuniões com mente livre de dogmatismos, cônscios de que pertencemos a uma Ordem Esotérica de caráter Cristão, não a uma religião, aonde somos livres para interpretar com nossa mente e coração tudo aquilo que estudarmos.
Toda vez que um Martinista se esquece de que é um homem livre, que deve pensar com sua própria cabeça, trai a confiança de Guaita e trai o espírito do próprio Martinismo, que não é hoje o mesmo do século XVIII, como de resto nenhum de nós também.
Somos homens de nosso tempo, queiramos ou não, e estudar o passado não significa querer reproduzi-lo, mas ampliar nossa compreensão dos passos que a sociedade deu em direção ao presente que ora experienciamos. E quem não estuda a História, já diz o ditado, corre o risco de repeti-la.
Quanto ao Ocultismo, que tanto fascina alguns, não esqueçam que a primeira coisa que Louis Claude de Saint- Martin fez após a morte de Pasqually foi abandonar tais práticas, por considerá-las “demasiadamente perigosas e complexas” e, em sua opinião , desnecessárias para ver Deus.
Estudemos a história de nossa Ordem, mas enriqueçamo-la com a nossa própria contribuição, estudando e escrevendo sobre nossas pesquisas, para que aqueles que nos sucederem, na sequência de nós deste cordão, possam ter aonde se basear para não repetir nossos erros e desfrutar de nossos acertos.
Para terminar, recorramos novamente às palavras de Guaita:
“Abrimos diante de teus olhos os lacres do livro, mas cabe a ti aprender agora a soletrar”