Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A IMPORTÂNCIA DA ÊNFASE NO MÉTODO CIENTÍFICO NA PEDAGOGIA DOS CONHECIMENTOS ESOTÉRICOS.

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

"Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos." - Carl Sagan



É preciso preservar a tradição.
Mas o que é preservar? É manter o que recebemos em formol, de forma a que nunca se altere ou é deixar que respire o oxigênio das eras que sucederão aquela em que o texto hermético foi elaborado?
Saint Martin, o mais insuspeito dos místicos , discute este tema em “Dos erros e da Verdade” (1), em um trecho chamado “Dos Dogmas Misteriosos”
Diz ele: “-Sei que por caminhos sábios e fora do âmbito do vulgar, os chefes e ministros de quase todas as religiões enunciaram seus dogmas com prudência e sobretudo com uma reserva que não se pode louvar demais; indubitavelmente conscientes da sublimidade de suas funções, eles sentiram o quanto a multidão devia ficar distanciada delas, e certamente foi por isso que, depositários da chave da Ciência, preferiram levar os povos a ter por ela uma veneração tenebrosa a exporem os segredos a profanação.
“Se é verdade”, continua ele, “que esses foram seus motivos, não posso censurá-los. A sombra e o silêncio são os asilos preferidos pela Verdade; e os que a possuem não podem tomar precauções demais para conservá-la em sua pureza; mas não seria justo eu lhes dizer que eles também deviam ter receado impedir sua expansão, que foram encarregados de fazê-la frutificar, de velar pela sua defesa e não sepultá-la (?); enfim, que confiná-la com excesso de zelo é talvez impedi-la de cumprir seu propósito, que é o de se expandir e triunfar?” ( o grifo é meu)
Não tenho dúvidas que Sint-Martin tocou o nervo com este comentário. A meu ver, ele denuncia, de forma polida, a incompetência e a falta de habilidade em traduzir o conhecimento esotérico para uma linguagem palatável a cada época, pelos responsáveis por zelar por este mesmo conhecimento.
Zela-se, no entanto, por alguma coisa, dando-lhe condições de sobrevivência, não impedindo-a de ver a luz do sol, mesmo que a protejamos deste sol com algum tipo de anteparo.
No caso do conhecimento esotérico, até o impressionante trabalho de tradução e modernização de Spencer Lewis, na elaboração das monografias da AMORC para o estudo dos rosacruzes americanos no início do século XX, ou de Blavatsky, com a compilação feita na Doutrina Secreta, poucos são os exemplos de esforços na transliteração dos textos herméticos para uma linguagem acessível a cada época e a cada sociedade.
A cada esforço como estes citados, seguem-se anos de silêncio pedagógico, que impediram e impedem que muitos seres humanos sejam tocados por estes conhecimentos. Recentemente houve um novo esforço por parte da AMORC e da Grande Loja de Língua Francesa, de modernização de seus textos na busca por um aperfeiçoamento da forma de exposição dos seus conhecimentos. Isto demonstra um interesse genuíno de facilitar a compreensão dos textos das monografias para nossos estudantes.
Precisamos no entanto melhorar ainda mais este esforço.
E na minha opinião, uma das formas de fazê-lo seria revisitar o espírito positivista que fundou nossa organização para o atual período de atividades.
Uma ênfase na experimentação, com experimentos que realmente o sejam,com efeitos perceptíveis no mundo tridimensional e não exercícios de visualização mental que são chamados de experimentos, seria uma forma, a meu ver, mais didática e marcante no espírito de nossos membros do que aperfeiçoar os textos que estudamos no sanctum no lar.
Existe uma série de princípios a serem demonstrados através de experimentos simples, e lembro-me que tais experimentos eram estimulados nas monografias anteriores com recomendações quanto a certos materiais que deveriam ser preparados para a consecução destes mesmos experimentos.
Numa época como a nossa, onde o tempo é escasso e deve ser preservado, e considerando a necessidade de Sistema e Ordem no processo de estudo rosacruciano, ao invés de elencar uma série de materiais que às vezes o membro não possa conseguir por mais simples que sejam, um kit de experimentos poderia ser enviado ao membro de tempos em tempos de maneira que o conceito a ser esclarecido pudesse facilmente ser absorvido através de procedimento simples e verdadeiramente empírico.
Precisamos revisar as apresentações dos nossos pensamentos e fortalecer o espírito científico de nossos membros. É pela falta da ênfase neste aspecto de verificacionismo que outros discursos, não místicos, mas de cunho religioso, se arvoram em invadir o tolerante ambiente da AMORC, pela boca de membros que tentam travesti-los com o manto rosacruciano.
Conceitos e idéias claras e distintas, como gostava Frater Descartes, formariam mentes Objetivas entre nossas fileiras, aptas a lidar equilibradamente com assuntos altamente subjetivos.
Aliás, um dos perigos que ronda nossa atividade esotérica é o Hipersubjetivismo. Discursos demais e experimentos de menos, geram instabilidade teórica e não reforçam as convicções íntimas de ninguém.
O convencimento íntimo é mais profundo quando associado a Experiência e a Verificação, ou nas palavras de Frater Reginaldo, um de nossos mais respeitados fratres, em recente ensaio, “ a AMORC, na qualidade de Ordem Tradicional, filosófica e iniciática, distingue-se nitidamente das religiões pelo fato de que seu ensinamento baseia-se no conhecimento e não na crença.” E conclui ele, mais a frente: “ Nada substitui a vivência.”
Por este motivo, e atento ao alerta de Saint Martin, defendo que a maneira de atualizar o ensino do conhecimento esotérico não se resume a melhoria da clareza dos textos, mas na implantação de um programa de experimentos didáticos, passíveis de ser realizados em ambiente doméstico, que atraiam o estudante para o ambiente da ciência e o estimule a correlacionar seus dados com sua experimentação, ou seja, que demonstre ao estudante a possibilidade e a necessidade do método científico no estudo místico rosacruciano.[2] “Nada substitui a vivência.”, de forma que a vivência do experimento criará o hábito da confiança em resultados demonstráveis, sem que isto precise ser dito.
Modernizar a apresentação inclui resgatar as bases reais destes princípios, com uma pedagogia atraente e estimulante.
Esta é a forma de nós místicos, atendermos ao chamado do filósofo desconhecido e não deixar que o esforço de nossos antepassados de nos trazer esta tradição, às vezes com o preço de sua própria vida, tenha sido inútil.

[1] “Dos Erros e da Verdade”, de Louis Claude de Saint Martin, Difusion Rosacrucienne, 2ª Edição em Língua Portuguesa, maio de 2006, pág. 169

 [2] O método científico consiste de : Observação - Uma observação pode ser simples, isto é, feita a olho nu, ou pode exigir a utilização de instrumentos apropriados. Descrição - O experimento precisa ser replicável (capaz de ser reproduzido). Previsão - As hipóteses precisam ser válidas para observações feitas no passado, no presente e no futuro. Controle - Para maior segurança nas conclusões, toda experiência deve ser controlada. Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado. Falseabilidade - toda hipótese tem que ser falseável ou refutável. Isso não quer dizer que o experimento seja falso; mas sim que ele pode ser verificado, contestado. Ou seja, se ele realmente for falso, deve ser possível prová-lo. Explicação das Causas - Na maioria das áreas da Ciência é necessário que haja causalidade. Nessas condições os seguintes requerimentos são vistos como importantes no entendimento científico: Identificação das Causas ;Correlação dos eventos - As causas precisam se correlacionar com as observações. ;Ordem dos eventos - As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados.