quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

DIÁLOGOS ROSACRUCIANOS:CAPÍTULO 8: 5° E ÚLTIMO SEMINÁRIO: KARMA, ANJOS E HARMONIA.

Bernardo: Bom dia a todos. Estamos iniciando o último de 5 seminários que nos tomaram os últimos meses. Sejam todos bem vindos.

Comenius: Neste encontro , temos um tema que gostaríamos de propor a assembléia de rosacruzes aqui presente: o karma.
Bernardo: Quero colocar de início que não acreditamos como rosacruzes em maldições do passado, e, além disto, acreditamos que karma resulta de opções cotidianas, ininterruptamente, gerando situações que terão efeito cármico.
Não há nenhum ato que não seja kármico, que não gere reação, porque afinal, da genética e do karma é impossível fugir.
Aliás, genética também é karma.
Comenius: Ora, tal fatalismo não implica em tragédia. Leis naturais e universais, como dissemos, não são maldições, como alguns querem fazer crer mas parte da mecânica interna do Cosmos. A mão que vai ao fogo, queima e dói.
O indivíduo não repetirá o mesmo ato. O fogo, no entanto, não o puniu por nenhum pecado. É a natureza do fogo queimar, como da água molhar. O contato entre naturezas diversas, uma que se queima e outra que queima é o encontro entre forças antagônicas que se reconhecem e portanto se afastam, mantendo a tendência de adaptação constante entre os elementos da realidade.
Não há caráter moral a ser considerado. Trata-se de um fenômeno físico, o qual por sua regularidade e constância, torna-se conhecimento científico. Uma vez que saibamos que não devemos fazê-lo não o faremos, porque aprendemos que é melhor que seja assim. Não há nobreza intrínseca em nosso ato. Apenas sensatez. Atitudes sensatas são amorais, mas nem por isso deixam de ser sensatas. Nem por isso deixam de ser boas. Espera-se que um ser humano equilibrado seja, antes de moralista, sensato.
O estudante rosacruz é, via de regra, um ser humano equilibrado.
Portanto sua visão do karma é tão sensata quanto ele. Não um sistema de punições e prêmios, mas um mecanismo de balanceamento de forças, amoral, mas eficaz e automático. A justiça cármica é uma lei da natureza, não dos homens, portanto não atende, embora o homem desejasse que assim fosse, aos valores comezinhos de certo e errado que cada cultura estabelece em cada período histórico da sociedade, e em cada região do planeta.
O fogo queima aqui e na China, bem como nas Antilhas e na Suécia. Em todas as partes do planeta, ou mesmo do Universo, onde uma mão humana encostar em uma chama sofrerá queimaduras imediatas por causa de sua atitude, seja a mão de um homem mau ou de um homem bom, segundo os critérios particulares de cada cultura.
Não haverá petições, apelações ou pedidos de desculpas que poderão ou não ser aceitos. Apenas uma queimadura. Nada mais. E o fogo não se sentirá culpado por queimar nem a mão terá qualquer benesse por ser queimada.
Ação e reação terão se manifestado, de forma automática, mecânica.
Bernardo: Isto não implica em um universo sem Deus ou sem dignidade, mas sim em uma visão da Natureza sem romantismo ou idealismos particulares, que escondem a tentativa de impor concepções humanas à realidade e à Divindade. Esconde a atávica tentativa do ser humano de dar a Deus qualidades também humanas, de antropomorfizar a Divindade. No passado, Deus já foi “um Deus de vingança”, “um Deus Cruel”, “um Deus de Fúria”, “um Deus guerreiro”; depois tornou-se “um Deus de amor”, “um Deus bondoso”, “um Deus de perdão”.


Na verdade estes são adjetivos humanos para um fenômeno além do humano, que na impossibilidade de ser compreendido recebe vestes mais palatáveis e acaba mais parecido com o observador do que consigo mesmo.
O que realmente ocorre é que não podemos conhecer o Criador e nem compreendê-lo, mas o contemplamos através de sua Obra, a Criação.
E quem se esforça em compreender esta Criação, vê claramente que não há intenção específica na Natureza de ser boa ou má. A natureza apenas é. E ponto.
Pensemos agora como místicos. Os instintos dos animais são absolutamente naturais. Autopreservação, satisfação da fome, da sede e do ar, a necessidade de abrigo e de afeto, a sexualidade que garante a perpetuação da espécie, são fenômenos naturais em todos os seres, inclusive em nós.

EQUANIMIDADE

Ora, se como místicos concordamos que a Criação é obra de Deus, todos as programações automáticas internas dos seres vivos, mediadas por substâncias químicas poderosas, os hormônios, que conhecemos como instintos, são desígnios deste mesmo Deus e por isso, são santos.
Não há nada mais puro ou em harmonia com Deus do que satisfazer tais necessidades. Elas não podem ser objeto de crítica ou de punição pois foram colocadas em nós por Aquele que não pode ser desobedecido.
É sensato que um animal siga seus instintos, da mesma maneira que é sensato um homem, dotado de consciência, não ser escravo dos seus. O que em si não implica negá-los ou maldizê-los.
Da mesma forma que o fogo, os instintos são o que são por que esta é a sua natureza.
O mesmo Deus que criou os instintos criou o karma. São dois subsistemas do mesmo grande esquema. Portanto é sensato pensar que não sejam sub sistemas, sub rotinas antagônicas, mas sinérgicas, que buscam um trabalho em conjunto na busca pelo equilíbrio da Criação.
Então porque a destruição da vida não implica em remorso para um tigre que devora sua presa, ao mesmo tempo que matar outro homem nos afeta, a nós, homens, de forma tão devastadora?

Por que o homem, ao contrário do tigre, sabe o que faz, e avalia intimamente seus atos em conjunto com Deus.
Isto faz do homem uma criatura particular. Ele tem o poder da auto análise. O homem tem em si algo que o tigre não tem: consciência; mais do que isso: o homem tem consciência de si mesmo.
Deste modo, ele julga a si mesmo, através de sua consciência, e estabelece, em conjunto com a mente universal, a correção de seus atos, dadas as suas particulares circunstâncias.
Isto é o karma humano. Além de reações mecânicas na interação com o chamado mundo material, por causa de sua consciência o homem também tem de estar atento aos seus pensamentos e atitudes íntimas, por causa das reações que colherá no mundo mental.
A consciência gera para um homem um segundo nível de exigência, que o obriga a ter um comportamento mais cuidadoso, consigo mesmo tanto quanto com a criação a sua volta. Não fosse a consciência não haveria culpa, ou remorso, mas por causa da consciência, não temos a liberdade de arbítrio que apregoamos.

Podemos arbitrar entre duas opções, mas não livremente. Nossa consciência guiará nossas opções e determinará o tipo de escolha que deveremos fazer.
Mais consciência, menos liberdade de escolha.
Mais e mais nossas escolhas estarão atreladas àquilo que sabemos ou acreditamos ser a coisa mais sensata e mais certa a fazer. E assim o fazemos. Vejam, não há como ir contra nossos sentimentos mais profundos
Pois tanto quanto o fogo, a consciência gera uma reação em nós. Sem ela não sentiríamos nada, nem pudor, nem vergonha.
Sem consciência, não há karma.
Assim, existem mecanismos de autoregulação que devem ser considerados, quando lidamos com a Criação, tanto no nível de existência menos elaborada, reguladas pelo instinto ou pela autopreservação, como nos níveis mais elevados de manifestação da vida, com a consciência em nós. Instinto e Consciência são modos de a presença divina se manifestar em nós, como em todos os seres vivos da natureza.
Jamais estamos sós, ou livres, como gostamos de achar.
Frater João: Já que o frater expôs este tema com tanta elegância eu confesso que uma curiosidade me assaltou.
A questão é: se os animais têm instinto, e os homens têm consciência, dois mecanismos intrínsecos de auto-regulação comportamental, como ficam os anjos? Se eu não me engano eles são mensageiros de Deus. Terão eles algum mecanismo semelhante?
Comenius: Questão interessante.
Bernardo: Eu gostaria de dar a minha opinião.
Comenius: Fique a vontade.
Bernardo: Acho meu frater, elaborando sua interessante questão, que os chamados Anjos são seres de evolução paralela aos humanos, e, portanto, com características muito próprias. De certa forma, baseado nas muitas descrições em livros santos, sabemos que não são seres necessariamente voltados para a prática do bem, e isto se entendermos o bem como a ausência de violência, brutalidade e beligerância.
Basta acompanhar a descrição de um único livro: a Bíblia cristã. Lá os encontramos destruindo cidades, expulsando Adão e Eva com espadas em fogo ou lutando uns contra os outros no combate às forças de Lúcifer. E porque são então chamados “Santos Anjos”, se essas mesmas criaturas são capazes de atos tão violentos? Talvez por uma certa ingenuidade de compreensão do homem do passado.
Se olhamos com o olhar místico moderno, vemos a descrição dos Anjos como forças da natureza que, à semelhança de Tigres de Bengala, são, a um só tempo, belas, poderosas e perigosas, desde que motivadas a isto. E, se nos tigres temos o instinto que os guia, nos Anjos temos a Vontade de Deus, ou seja, Anjos não têm vontade própria e possuem, da sua maneira, uma conexão íntima com a vontade do Universo. São seres assexuados. São gloriosos em esplendor, mas também, da mesma forma, são energias que se mobilizam em função de valores diferentes dos valores humanos.
Há relatos de antigos rabinos que aprisionavam anjos com a finalidade de roubar-lhes a força e a bênção, a semelhança da luta de Jacó com o Anjo, que, segundo dizem, é uma história mais cabalística que histórica e indica a possibilidade de interação entre humanos e Anjos, claro que considerada a devida hierarquia angélica.
Como o irmão deve saber, dos textos de Dionísio o pseudo-Aeropagita , existem três coros de anjos, cada um com três níveis dentro dele:

1° nível: Serafins, Querubins e Tronos; 2° nível: Dominações, Potestades e Virtudes ; 3° nível: Principados,Arcanjos e Anjos, propriamente ditos.
Tenho a impressão que nesta classificação oculta-se também uma hierarquia de força, sendo que os mais poderosos e mais fortes seriam os Serafins, os que queimam por Deus, e os mais frágeis os Anjos propriamente ditos, que podem inclusive, ser objeto de captura por cabalistas mal intencionados.
Não é objetivo nosso aqui, tentar julgar os atos de Místicos de outras linhas, mas ao saber desta prática de capturar Anjos em busca de sua bênção, senti o quanto ainda é necessário, entre místicos, a melhoria do comportamento que advém da cultura e da civilização.

Considero a Ordem Rosacruz a escola de místicos mais refinada no Ocidente, e entre meus pares, reputo conviver com as mentes mais lúcidas do misticismo ocidental.
Seria impensável para um místico rosacruz, ao menos supor tal ato de barbárie no relacionamento com seres da Natureza, sejam animais, sejam Anjos.
Os Anjos têm seu próprio caminho.
Homens jamais serão Anjos e Anjos jamais serão homens. São linhas de evolução paralelas e é assim que deve ser.

Sua interferência no destino dos homens ainda está para ser melhor explicada. (Por exemplo, a justificativa de que Sodoma e Gomorra foram destruídas, por causa das barbaridades e orgias que lá aconteciam não se sustenta, se fosse assim, muitas cidades modernas e do passado, nestes últimos 2000 anos deveriam também ter conhecido a Ira dos Anjos, a começar pela Roma de Calígula, ou a Bagdá de Sadam Hussein).

Mesmo assim, nenhum homem, nenhum Mago, em sã consciência, pode se colocar na posição de ter, sabe-se lá de onde, autorização para capturar e aprisionar qualquer ser desta estranha espécie que conosco divide o Universo, do mesmo modo que os golfinhos ou os pássaros.

Anjos são seres que , mal comparando, parecem-se com os animais: não possuem como nós consciência,vivem pelo impulso interior, são forças instintivas, só que neles o instinto chama-se Vontade de Deus, seja lá o que isto queira significar para os Anjos.
Da mesma maneira que podemos nos afeiçoar pelos nossos animais domésticos, e comunicarmos-nos com eles essencialmente pelo sentimento, também, ao que parece, anjos relacionam-se com os humanos muito mais pelo sentimento do que pela razão.
Teremos a proteção desses seres desde que estejamos na mesma freqüência vibracional de bondade e docilidade.
Portanto, meus irmãos, os Anjos não são mais divinos do que nós, homens, ou que os animais, pois que todos nós, seres vivos, compartilhamos o título de filhos de Deus.
Somos todos irmãos na criação, e semelhantes pela filiação divina.
Aliás, este é o segundo racismo que teremos que superar no futuro: o racismo entre espécies. O homem sempre lidou mal com o diferente. Cabe aos místicos, principalmente aos místicos rosacruzes, mais sensatos, mostrar a humanidade que espera-se de todos um comportamento a altura do refinamento espiritual mais elevado no trato com a natureza, seus habitantes e suas forças.
Jamais dominaremos a Natureza pela força, como desejava o homem do passado.
Poderemos no entanto, ter todo o seu poder aos nossos pés, desde que nos harmonizemos com ela, que vivamos em harmonia com a Vontade da Consciência Cósmica, como vivem os animais da floresta, os peixes do mar, e os Anjos do Céu.
Como parte desse discurso sobre os Anjos, gostaria de lhes dizer do meu amor e carinho por esses seres fortes, nobres e dignos mensageiros.
São nossos companheiros de Universo, porém estão mais próximos do Todo Poderoso, já que não possuem ego que os iluda. Precisamos de nosso Ego para sentir e experimentar sensações. É isto que nos diferencia, nós, humanóides, dos outros seres: nosso discernimento, Viveka, na língua dos deuses, o Sânscrito.
Gostaria de poder compartilhar o que sei, como homem, com os Anjos e com os outros seres da natureza, mas só poderia fazer isso através da emoção do Amor.

Porque como a música e a matemática, o Amor é uma linguagem universal. Se qualquer um de nós quiser se comunicar com todos os seres do Universo, e encontrarmos o ponto aonde a compreensão verdadeira se estabelece, precisamos do Amor. Pelo Amor podemos entender as plantas, as nuvens, as rochas e ver em cada coisa a presença divina.
O Amor não é apenas um sentimento. O Amor é a linguagem dos seres que não possuem Ego, como é o caso dos Anjos.
Para se conversar com Anjos, portanto, é preciso amá-los, profunda e decididamente.

Alguém poderia, pragmaticamente, como é normal entre Rosacruzes, perguntar qual a finalidade de se amar os Anjos.
Afinal o mundo evoluiu e já sabemos que não devemos tentar descobrir as coisas que precisamos através de outros seres, pois no passado não tão distante, era comum a certos tipos de místicos pedir aos Anjos que lhes dessem sinais ou instruções sobre o nosso comportamento, nosso próprio mundo ou outro mundo, acima do nosso, ou devo dizer, o mundo que fica ao lado do nosso, já que as dimensões são contíguas e, certas vezes, até se interpenetram.
Anjos eram consultados sobre temas universais partindo-se do princípio de que, já que eram seres tocados pelo divino, poderiam nos falar melhor sobre Ele do que qualquer humano.
Só que hoje sabemos que a evolução é feita com nossas próprias pernas, nossas próprias intuições e percepções e transferir nossa busca de conhecimento a outrem, humano ou não, é retardar ou tornar excessivamente complexa uma busca que em si já é difícil.
Então porque esta fascinação pelo tema angelical, aliás recentemente descoberto?
Parte, eu suponho, por mera curiosidade inconseqüente.
Nada mais.
E, em parte, porque tornando-nos como os anjos, plenos da emoção do amor que conseguiremos a percepção que eles possuem, quase palpável, do que chamamos acima de A Vontade de Deus.
Por que, assim como os seres simples têm o instinto, os Anjos têm o Amor Infinito que sentem pela Divina Presença.
Um Amor tão intenso que nos levaria, a nós, humanos, a autoconsumição, caso fosse sentido de uma vez, sem uma gradual aproximação, sem a prudência de senti-lo pouco a pouco, até alcançar a sua intensidade plena.

Não por outra razão os Anjos mais perto de Deus são chamados Serafins, “os que permanentemente queimam por ele”.
Portanto, meus irmãos, como qualquer encontro entre humanos, ou entre os homens e outras espécies do Universo, o encontro com Anjos tem um caráter didático.
Podemos aprender como sentir o Criador através da convivência com os Anjos, já que, como eu disse, estão mais conectados a ele pela ausência do que chamamos entre nós humanos, Ego, embora devamos ter em mente que o mero contato com tais seres não nos torna melhores, pois isto, evoluir, é única e exclusivamente responsabilidade nossa.
Anjos não tem vontades pessoais: são e fazem apenas o que o Amor a Deus os manda ser ou fazer.
Para nós humanos, isto pode ser enriquecedor.
Comenius: Tema interessante. Sua abordagem Bernardo foi surpreendentemente original, sem a reverência ou o romantismo comuns a este assunto. Agradeço por sua objetividade. Existe alguma referência que possa ser consultada sobre este assunto?
Bernardo: O texto mais conhecido sobre os Anjos é o de Dionísio o pseudo aeropagita.


Comenius: Meus frateres, minhas sorores, mais alguma questão.
Frater Alberto: Eu tenho.
Comenius: Diga frater, e com a concordância de todos, encerraremos o nosso seminário com sua questão.
Frater Alberto: Minha questão é a seguinte: no passado,havia a intenção entre alguns místicos de conseguir poder mágico sobre a natureza. A vida, então, era muito difícil. A civilização não existia. Os direitos humanos não existiam. A democracia não existia. Era um planeta de tiranos absolutistas ou de classes sociais pétreas, chamadas nobres, absurdamente privilegiadas.
Sim existia a violência, mas era infinitamente mais grave do que agora. A magia era um recurso válido, parte por causa da insegurança parte por causa da falta de alternativas. Havia doenças de todo o tipo, incuráveis. Hoje ainda existem , mais diminuíram em número e existem mais recursos de tratamento. Ou seja, houve progresso material, social e político. A magia operativa deixou de ser o único meio para conseguir a felicidade e o equilíbrio entre a matéria e o espírito.
A cultura está difundida pela Internet e temos um acesso nunca visto a um sem número de fontes.
Ora, se não tenho a ilusão, por ser rosacruz, de que qualquer ser, anjo ou demônio, possa fazer por mim aquilo que só eu posso fazer; se sei que minhas opções e escolhas somadas a graça de Deus, como lembrou bem o frater Bernardo, são as únicas coisas que serão realmente decisivas na minha evolução; se sei que meu progresso material será diretamente proporcional ao meu esforço intelectual e profissional; minha questão é: qual a razão de sermos rosacruzes hoje? Para ser mais provocante: qual a utilidade em sermos rosacruzes hoje?
Sim, as iniciações rosacruzes são tremendamente inspiradoras; mas, de resto, textos de São João da Cruz, de Santo Agostinho, ou mesmo de Paulo apóstolo, também são.
Digo mais: necessariamente, os estudantes rosacruzes não apresentam modificações significativas em sua existência.
Então, o que a herança de nossa Ordem faz, objetivamente, que poderia impedir que muitos a abandonassem, tornando-se mais um de muitos rosacruzes inativos, como tem acontecido?
Bernardo: Frater, eu queria começar a responder a sua questão lembrando a frase de que muitos são chamados, mas pouco são escolhidos. Por causa disto, muitos abandonarão a ordem, comprovando o que é mostrado na parábola do semeador. Esta é a razão de muitos rosacruzes tornarem-se inativos, como o frater bem lembrou.
Comenius: Outra coisa: não nos tornamos rosacruzes, na minha opinião, apenas por opção. Fazemos isto principalmente por necessidade. Alguma coisa nos faz sentir forte atração pelos símbolos, ensinamentos e textos publicados pela Ordem em todo mundo. Em todo o planeta, mesmo diante de todo o progresso material que o frater descreveu, permanece em alguns o vazio espiritual e a insatisfação que desde eras priscas são os responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento da humanidade.
Dizia um antigo material sobre rosacruzes que todos nós, membros da Ordem, somos Buscadores.
E o que buscamos? Poder, glória, saúde, fortuna material, abundância? Talvez tudo isto, ou nada disto.
A busca é pessoal. Cada um tem aspirações particulares ou ilusões que precisa desfazer. E talvez seja exatamente aí que o trabalho da Ordem se destaca num mundo tão avançado materialmente como o nosso, mesmo que persistam bolsões de miséria aqui e ali, em toda a parte.
O ser humano melhorou seu domínio sobre centenas de aspectos de sua vida no planeta, mas permanece sem controle de sua imaginação.
Bernardo: Se os rosacruzes ensinam como preservar a saúde, embora com técnicas complementares a medicina ortodoxa e não em substituição à esta, é para que a doença física não distraia o estudante de seu processo criativo através de sua imaginação.
E, ensinando como organizar o pensamento lógico, estimulando o estudante a se familiarizar com os grandes pensadores da humanidade, fazemos com que tenha sensatez em seu processo de raciocínio, e clareza em sua imaginção.
A maioria de nossas técnicas não prescindem da participação ativa do processo imaginativo, seja como desencadeador de energias astrais, seja como guia dessas energias fora ou dentro de nossos corpos.
Nossos ensinamentos nada devem as modernas escolas pois atualizamos as monografias de acordo com as mudanças de paradigma da ciência. Entretanto é notável que essas modificações sejam de forma e não de conteúdo.
Não antecipamos os antibióticos, mas o conceito de seres invisíveis que provocam doenças já estava em nossos textos da idade média.
Não antecipamos a ciência da acústica, mas o conceito de que sons poderiam causar efeitos específicos sobre os seres vivos ou sobre objetos sempre esteve em nossos ensinamentos, aliás, nossa mais sagrada herança do conhecimento atlantiano, que ainda não foi totalmente percebida pela ciência ortodoxa.
Antecipamos a importância do sistema nervoso autônomo na gênese da doença psicossomático, fato amplamente aceito hoje em dia pela Medicina, se bem que ainda não esgotado em todas as suas nuances.
E mais coisas ainda virão pela frente. Principalmente no capítulo do uso terapêutico da nossa energia sutil no tratamento de moléstias as mais variadas.
Se concordarmos que somos, essencialmente, uma Escola de Aperfeiçoamento da Imaginação, podemos depois destas ponderações concordar que, mesmo hoje, ainda temos uma ou outra coisinha a ensinar ao mundo lá fora.
Comenius: Não fosse meu irmão por essas coisas que Bernardo enumerou, a Ordem não teria atrativo; mas, embora concorde com você que muitos abandonam suas fileiras sem aproveitar 1/10 de seu potencial benefício, gostaria de ressaltar o fluxo ininterrupto, geração após geração, daqueles que chegam ao nosso portal.
Quem são essas pessoas que continuam a nos procurar com os olhos cheios de questões e o coração cheio de esperança de encontrar respostas? Buscadores, como nós, pessoas que não estão satisfeitas com o que têm ou com o que são e que sabem que podem ser melhores como seres humanos, como indivíduos.
Suas aspirações são legítimas, mas são apenas o princípio de qualquer caminhada. Descobrirão ao chegar até nós, que as respostas não serão dadas mas, isto sim, construídas e conquistadas, a partir do Aperfeiçoamento da Imaginação Criativa e da utilização de técnicas ainda hoje avançadas e eficazes na melhoria de nosso desempenho pessoal e social.
Bernardo: O fato é que para usufruir destas técnicas todos devem dominá-las e para isto é preciso praticá-las.  O rosacrucianismo é uma experiência e uma vivência, não um conceito.
Os experimentos mostrados em nossas monografias não são decorativos. Devem ser utilizados exaustivamente ou não terão nenhum valor.
Estimulo o frater a fazer suas práticas.
Aí é que encontrará a razão pela qual devemos, todos nós aqui, vivenciar o rosacrucianismo entusiasticamente e, se possível, mostrá-lo ao maior número possível de pessoas.
Comenius: Assim seja. Meus irmãos, vamos encerrar este seminário e, com ele ,esta seqüência de seminários voltados a discutir a prática rosacruciana.
Agradecemos a todos pela participação, em meu nome e em nome de frater Bernardo, mas principalmente em nome de nossa Amada Ordem, acredito que tão fundamental nas nossas vidas quanto na vida de todos vocês.
Que todos fiquem em paz profunda. Assim seja.
Todos respondem: Assim seja.
E se retiram.
FIM

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

DIÁLOGOS ROSACRUCIANOS: CAPÍTULO 7: 4°SEMINÁRIO: MITOS EXPLICATIVOS, RELIGIÕES E RELIGIOSIDADE

Frater João: Gostaria de ouvir dos frateres algum comentário sobre se em nossa época ainda tem algum cabimento o estudo dos mitos religiosos com a profundidade com que alguns irmãos, frateres ou sorores, lhes dedicam.

Comenius: Bem, frater João, as bases de escolas de pensamento de cunho espiritual geralmente fundamentam-se em percepções de um líder ou de um indivíduo em particular que atingiu níveis de consciência extremamente elevado. Este indivíduo, seja como for, cria em torno de si uma área de forte influência que redunda sempre em um movimento de adeptos, que buscam acompanhar a luz deste indivíduo, receber parte de seus fluidos, da bênção de sua presença ou de suas palavras.
Obviamente, nem todos, para não dizer nenhum, terá nível de evolução ou sensibilidade espiritual semelhante ao seu líder. A compreensão do seguidor de um líder espiritual religioso, por ser menos elaborada que seu mestre, requer que as preleções deste mestre sejam em uma linguagem propícia, didática,que, via de regra, deságua em um mito explicativo.

Não é por outra razão que Cristo falava por parábolas.
Bernardo: O problema,frateres e sorores, é que mitos explicativos, por sua beleza, por seu simbolismo, têm grande apelo emocional. Muitos deles, com o tempo, ganham status de verdade incontestável, fazendo com que o símbolo se transforme na própria coisa que ele representa.



Embora isto aconteça freqüentemente, não deixa de ser grave.
Primeiro, porque grande energia intelectual e física geralmente é gasta em debates inúteis, quando não batalhas violentas, sobre detalhes do mito, enquanto que a idéia por trás dele, aquilo que se queria passar através dele, fica relegada a segundo plano, oculta, soterrada por palavras e discussões infindáveis.
Segundo, porque quando a idéia principal é perdida, a essência do discurso daquele iniciado é esquecida, e resta apenas uma estrutura religiosa vazia, rituais sem clareza, com mistérios demais, sem capacidade de causar no adepto o efeito que seria desejável.
Passa-se a um ritualismo burocrático, sem vida, o qual será defendido e comandado por aqueles que só conseguem ver o externo, o superficial.


Comenius: A conseqüência direta disso é que o mito explicativo já não explica, mas confunde. A chave está perdida, uma vez que ela se oculta no coração. É do coração que vem a autorização e a decifração, do profundo, não do superficial. Quando, depois de anos, alguém tenta apenas comentar que o mito é apenas isto, um belo mito, as reações dos superficiais ou daqueles que os seguem pode ser violenta e geralmente é. Não se discutem idéias. Não se discutem percepções. Discutem-se crenças, dogmas. E como dogmas não se discutem, não existe evolução possível. Sistemas fechados filosófico espirituais sempre sofrerão com este esquema de expansão, condensação e enrijecimento.
Sistemas abertos ao contrário, têm fluxo, dinamismo, vida.
A maioria das religiões são sistemas fechados.
Algumas escolas esotéricas são sistemas abertos.
A Ordem Rosacruz é um destes sistemas.

O SOM DO SILÊNCIO

O que isto quer dizer?
Que religiões são sempre fadadas ao fracasso? Não é bem assim. Digamos que qualquer movimento religioso corre o risco de enveredar pelo caminho do congelamento das idéias, mas que isto não implica que toda religião seja uma estratégia equivocada em direção a harmonia com o Deus de nosso compreensão.
Quando o homem se organiza em um culto religioso, dá um passo importante no aperfeiçoamento de sua espiritualidade.
Um passo, não o último, e provavelmente, com certeza não o primeiro.


Portanto, esta é uma iniciativa que deve ser louvada e apoiada, mas que não significa um encerramento da jornada.
Ela apenas organiza nosso relacionamento com nossa espiritualidade, que pode mais facilmente se expressar através de modelos e protocolos que criam o hábito do contato com o Eterno. É a religiosidade inata no homem que leva normalmente a instituição de uma religião, que então aos poucos passa a ser uma organização no plano material.





E a organização religiosa tem este papel multiplicador e organizador da religiosidade, pois, para a maioria das pessoas, é preciso que se diga com a boca aquilo que não se consegue ouvir com o coração. E quando a palavra toca seus ouvidos, o indivíduo, que não entende direito a mensagem de seu interior, que não consegue escutar o som do silêncio, reconhece naquilo que seus ouvidos escutam algo familiar, porém esquecido, e que agora se torna novamente audível.


Bernardo: A diferença principal entre sistemas abertos e fechados é que aqueles ao contrário destes últimos, estimulam seus membros a caminhar com as próprias pernas, a cultivar esta audição interna, a dar voz ao seu Mestre Interior. Assim, cada um conectado com seu íntimo, todos os membros deste grupo manterão suas melhores características em atividade, não se renderão a quaisquer tentativas de uniformização mental e saberão que, em sua originalidade, serão, mesmo assim, membros de uma mesma egrégora.
Uma egrégora viva, pulsante, em renovação interna constante. Seus símbolos e mitos serão vivos, plenos de energia e significado, e serão como devem ser, pontes para o sentido profundo que representam, para além dos véus do mistério. E eles o decifrarão com facilidade, pois têm a chave dentro de si mesmos.
Comenius: Mesmo as ordens esotéricas devem se precaver contra o perigo de se tornarem sistemas fechados.
Nada impede a dogmatização a não ser a cultura e o desenvolvimento da sensibilidade. O que muitos não entendem é que a ausência de dogmas não quer dizer ausência de doutrina.
A ciência tem sua doutrina, embora não se trate de uma doutrina dogmática.
O corpo de conhecimento e de valores que forma uma doutrina mística também pode ser, desde que bafejado pelo espírito científico, aberto a mudanças, em vigência das condições necessárias.
E quais são estas condições de transformação? As mesmas da ciência: fatos novos, surgidos da busca e da experimentação científica séria. Dados novos nos impelem na direção de pensamentos novos. Assim evolui e caminha a ciência.
E o misticismo, como avança, como caminha? Sua evolução é diferente. Na verdade, enquanto o processo científico vai tentando retirar o véu do desconhecido, o misticismo vai aos poucos levantando os véus daquilo que já sabe. Sua linguagem, seu modo de revelar seus conhecimentos vai ficando menos hermético, não por uma decisão das escolas esotéricas, mas porque a humanidade progressivamente vai galgando níveis mais altos de refinamento e portanto, permitindo que este conhecimento sagrado seja revelado.
E porque o misticismo e a ciência não são um e o mesmo saber? Porque o conflito entre ambos?
Primeiro, porque como lembra Saint Martin, o cientista atual ainda busca as respostas no Livro da Natureza e não no Livro do Homem. Portanto busca fora de si as respostas que poderia achar dentro de si mesmo. Já o místico faz o caminho inverso, buscando dentro de si mesmo as respostas as suas questões fundamentais.

Louis Claude de Saint Martin

Ambos, no entanto, estão incompletos, sem o outro. Tanto o cientista precisa de Deus como o místico precisa da prudência do método científico. A separação atual é estúpida e despropositada e só beneficia o Mundo Das Sombras.
A religiosidade é aperfeiçoada pela razão enquanto a razão ganha um sentido mais profundo quando embebida da religiosidade.
Frater João: Então na opinião de vocês, já que o misticismo não avança, apenas se torna menos hermético, não haveria porque sermos classificados como cientistas místicos, como os frateres gostam de chamar os rosacruzes. A motivação para a ciência é a busca da verdade e, se já sabemos toda a verdade não haveria motivação para buscá-la nem necessidade do experimentalismo ou do método científico.
Bernardo: Sua questão é muito interessante. Gostaria de dizer que, se para o cientista ortodoxo, os experimentos científicos buscam revelar, para o cientista místico a experimentação busca confirmar e consolidar o já sabido.
O método embora seja o mesmo, tem objetivos finais diversos. O homem comum que ingressa na senda mística é informado por sua escola esotérica que o poder está dentro de si e que, mediante alguns exercícios e experimentos poderá verificar esta afirmação.
Porque verificar? Porque com isso entenderá por experiência própria, pessoal, com seu próprio esforço, que aquilo que lhe foi afirmado é real e tem procedência.
Comenius: É esta ciência para dentro ,digamos assim, que o místico vai praticar. Não precisará sacrificar animais como cobaias de experimentação: ele é a sua própria cobaia. Não precisará de instrumentos refinados: descobrirá dentro de si mesmo os instrumentos que necessita.
O que não muda é a atitude mental que deverá ter, a mesma prudência, o mesmo cuidado ao examinar as evidências que encontrar, que um cientista ortodoxo deve ter com as evidências que encontra, com a vantagem de que, neste tipo de campo, não precisa convencer ninguém de suas descobertas, mas apenas a si mesmo. Só que é justamente aí que está o perigo da ciência mística. Livre da necessidade de demonstração a terceiros, o místico destreinado pode ser condescendente com os resultados encontrados e deixar-se levar pela falta de rigor metodológico, supondo ter conseguido aquilo que é apenas fruto de sua imaginação. E como sua imaginação é um dos seus instrumentos de trabalho, tudo fica muito mais delicado.
Bernardo: Isto torna impossível o rigor? Isto quer dizer que a nossa sensibilidade deve ser a única maneira de perceber a veracidade de nossas experiências místicas? Não seria adequado, já que é possível submeter nossos resultados ao rigor do bom senso, desde que tenhamos prudência, um dos mais importantes degraus da Escada de Rá, que todos os irmãos aqui conhecem.
Repito o que disse antes: cultura intelectual, acadêmica, e bom senso são coisas diferentes. Para que alguém seja prudente não é preciso ter lido muitos livros, ou falar várias línguas. Prudência é uma das virtudes decorrentes da maturidade psicológica e espiritual. E para isto temos que combater nossos piores demônios interiores: a pressa, a vaidade, a arrogância.
Por vaidade, não admitimos que não estamos prontos; por pressa, não aguardamos o tempo suficiente para consolidar os estados de consciência necessários; e por arrogância não admitimos que estamos errados em nossa atitude diante do conhecimento interior.
A sabedoria mística é delicada, fortalece-se aos poucos, até ter uma densidade segura que nos garanta uma manipulação fácil e hábil.
Em outras palavras, aos poucos a Voz do Mestre Interior fica mais forte, mais audível, e muda de um simples sussurro em estrondo ensurdecedor.
Esta alquimia da autopercepção é o experimento mais demorado e o que requer mais paciência e determinação.
Não sei se o frater se satisfez com esta análise.
Frater João: Plenamente, frater. Plenamente.
Comenius: Passemos então a outras questões.
Frater João: Eu gostaria de colocar outra questão, se a assembléia me der sua tolerância.
Bernardo: Acredito que tolerância, aqui, não falta.
(Risos.)
Frater João: Gostaria de discutir o papel do Bem e do Mal, na visão Rosacruz.
Comenius: Tema fascinante, mas não sei se podemos fazer uma discussão baseada na ótica rosacruz, já que a Ordem não estabelece premissas próprias sobre isto.
Bernardo: É uma discussão baseada em princípios filosóficos, mas também em crenças pessoais, por isso o debate é complexo.
Frater João: E os frateres não tem uma opinião pessoal sobre o assunto? Gostaria de ouvi-la.
Comenius: Bernardo tem longas considerações sobre o assunto. Talvez devêssemos deixar que ele tecesse esse comentário.
Bernardo: Pois não. Primeiro, não comungo da visão ocidental sobre o tema. Este é o primeiro ponto que gostaria de deixar claro. Tendo mais a pensar como os hindus que encaram a realidade como uma Grande Ilusão, nem boa nem má, que denominam Maya, produto da imaginação criativa de todos.
Talvez minha posição cause estranheza a muitos aqui, mas esotericamente isto já está dado em várias passagens de rituais secretos tanto da Rosacruz como da Ordem Martinista.
O grande mistério neste assunto é a conjunção harmônica dos contrários, assunto profundo e de largas implicações no cotidiano de todos nós.
Eu começo minha análise pela análise da percepção neurológica da realidade que já foi objeto de estudo de vários pensadores ao longo da história da humanidade.
Ora, neste particular, existe consenso científico de que o cérebro humano é incapaz de abarcar a totalidade, funcionando de maneira binária, dual como diria a Ordem, e estabelecendo para tudo que está a sua frente uma divisão em pólos. Desta forma, vemos o mundo como um todo mas o descrevemos em partes, e, ato contínuo, narramos esta realidade percebida em partes dividindo-a em positiva e negativa, boa e má.
A realidade , em si, não têm estes pólos, estas ambigüidades, circulando livre entre todas as suas partes, manifestando-se de forma íntegra; mas a percepção humana, por limitação neurológica, não pode acompanhar esta integralidade, e a divide para entendê-la.
Vejamos a linguagem, reflexo direto de nossa intelectualidade. Ao descrevermos um evento, não temos palavras para falar do todo, só de suas partes.
Não ajuda falarmos “Elefante”: precisamos dizer, também, pernas grossas, orelhas longas, presas,tromba.
Não adianta dizermos “casa”: precisamos dizer também janelas azuis, porta de madeira entalhada, marrom, jardim com rosas na frente, etc.
A linguagem demanda os detalhes, as partes; a coisa vista, no entanto, é uma só.
Assim, quanto ao Bem e o Mal do mundo, temos o mesmo fenômeno.
O mundo é um só, seus acontecimentos apenas são, sem adjetivos. Nossa escala de valores e limitação de linguagem, entretanto, impõe a adjetivação em bom ou mal, em coluna negra ou coluna branca, quando , na verdade, todos os místicos sabem que o mestre senta entre colunas, manifestando o mistério da conjunção dos contrários no seu centro, usufruindo o campo formado entre os pólos.
Como lembra a Ordem, o Universo é dual em essência e trino em manifestação.
E porque dual? Porque é assim que se gera campo, fluxo entre os extremos, em uma palavra, Vida.
As colunas não importam, importa a existência do campo. O campo que garante o movimento, a realidade como a conhecemos, sempre dinâmica, sempre em mutação.
A realidade é o campo entre os pólos.
Os Rosacruzes tem acompanhado de perto e até interferido no estudo dos campos eletromagnéticos. Basta lembrar que um eminente rosacruz, Benjamin Franklin, colaborou pessoalmente para a compreensão do fenômeno elétrico com uma experiência absolutamente romântica e inesquecível, capturando raios com uma pipa, e demonstrando assim sua natureza elétrica.

Benjamim Franklin, rosacruz, e seu clássico experimento. Benjamin Franklin (Boston, 17 de Janeiro de 1706 — Filadélfia, 17 de Abril de 1790) foi um jornalista, editor, autor, maçom, filantropo, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata e inventor estadunidense, que foi também um dos líderes da Revolução Americana, e é muito conhecido pelas suas muitas citações e pelas experiências com a electricidade.Um homem religioso, calvinista, é ao mesmo tempo uma figura representativa do Iluminismo. Ele trocava correspondência com membros da sociedade lunar e foi eleito membro de Royal Society. Em 1771, Franklin tornou-se o primeiro Postmaster General (ministro dos correios) dos Estados Unidos da América.


Estava assim demonstrado a natureza elétrica dos raios e aberto o caminho para trabalhos posteriores que caracterizaram o eletro magnetismo, como os de Maxwell, e seu papel no conjunto da forças universais, como o da relatividade de Einstein, já no início do século XX.


James Clerk Maxwell (13 de Junho de 1831, Edimburgo, Escócia - 5 de Novembro de 1879, Cambridge, Inglaterra) foi um físico e matemático Escocês. Ele é mais conhecido por ter dado a sua forma final à teoria moderna do electromagnetismo, que une a electricidade, o magnetismo e a óptica.


E porque eu me demoro a narrar fatos da ciência eletromagnética ao falar do Bem e do Mal? Para tirar deste debate toda e qualquer fantasia filosófica.
A Dor, a Morte, a desdita, os infortúnios, tanto quanto as alegrias, as vitórias, os prazeres deste mundo, são todos apenas, e tão somente, oscilações de campo. E tudo nestas oscilações depende de manter-se equilíbrio entre os pólos, entre as colunas, e vai depender da habilidade de todos nós de não pendermos nem para um lado nem para o outro.
E esta talvez seja a afirmação mais polêmica: nem para o Bem devemos pender demasiadamente, pois não há maior Mal do que o Bem permanente. Sem os contrários, sem as oposições, a Vida, como a conhecemos, não poderia existir.
O que muda na mente daquele que transcende as limitações do mundo, daquele que é chamado de Iluminado, é que ele percebe a ausência de diferença entre os pólos, e pode então usar o campo a seu favor, sem ser uma aparente vítima de suas oscilações.
Pois o campo não é mal ou bom em si, mas apenas uma manifestação natural da Criação, uma poderosa conjunção de forças e energias aonde construímos com nossa imaginação aquilo que chamamos Realidade.
A Realidade é Maya, a grande Ilusão.
Maya é o Campo.É isso.
Comenius: Acho que depois disto podemos dar por terminada esta fase do seminário. Retiremos-nos agora para meditar, sozinhos, sobre o que foi comentado aqui. Que todos tenham um bom retorno a seus lares, mergulhados na Paz Profunda dos Rosacruzes. Assim Seja.
Todos respondem: Assim seja
E deixam a sala.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

DIÁLOGOS ROSACRUCIANOS, CAPÍTULO 6: 3° SEMINÁRIO, 2a PARTE


Comenius: Meus frateres e minhas sorores, vamos retomar nossos trabalhos.
Bernardo: Gostaríamos que os frateres e sorores ficassem a vontade para trabalhar as idéias do texto.
Frater Jorge: Boa tarde, meu nome é Jorge e queria dizer que a parte que mais me impressionou no ensaio do frater em questão foi a referência aos experimentos e a possibilidade de simpósios por grau. Aliás eu também ficava incomodado com a frase, “...os frateres e sorores estão neste momento sendo beneficiados por vibrações positivas, estejam ou não conscientes disto, etc...”. Na maioria das vezes eu dizia pra mim mesmo“- Bom eu estou inconsciente pois não sinto nada. Espero que algo bom esteja acontecendo...” e assim por diante. E me sentia confuso exatamente pelo que o frater fala no ensaio, já que como cientista rosacruz eu me acostumei a desenvolver confiança nas técnicas rosacruzes por que elas funcionavam e as que não funcionavam, nem em um, nem em dois nem em dez anos, eu aceitei que isto só acontecia comigo e tinha fé, a palavra é esta, fé, que com alguém funcionava. Mas não nego que já passou pela minha cabeça que não funcionasse com ninguém, e isto me preocupava. Se eu pudesse participar de um círculo de trabalho onde pudesse observar a técnica em execução não só melhoraria o meu entendimento, como reforçaria minha confiança na possibilidade e viabilidade da técnica
Comenius: É verdade. O que nos chamou atenção, a mim e a Bernardo, foi exatamente isto. Por sermos um grupo heterogêneo, alguns de nós desenvolverão certas técnicas com mais facilidade que outros, não só porque estudaram melhor mas porque tem o dom de fazê-lo que nem todos têm, e a idéia de dividir suas habilidades com outros nos pareceu muito interessante. Todos os Rosacruzes têm como santo padroeiro São Tomé, e gostam de colocar os dedos na ferida, apenas para ter certeza.(Risos)
Frater Jorge: E estes seminários práticos já têm data para começar?
Bernardo: Não Frater, eles precisam passar pela avaliação do Grande Mestre e, se aprovados, seria interessante que tivessem um modus operandi padrão, para poderem ser feitos em todas as partes da nossa jurisdição. É preciso também, que tenham o modelo de aulas comuns e que , se possível, possam ser realizadas dentro do espaço físico dos corpos afiliados. Esta tornar-se-ia uma terceira função dos nossos capítulos, pronaos e lojas: além de serem pontos de referência ritualística e administrativa, somariam a isto a condição de laboratórios oficiais da rosacruz na região sobre a qual tivessem a jurisdição.
Frater Jorge: A idéia é muito interessante.
Comenius: Realmente é.
Sóror Vera: Eu queria fazer uma colocação.
Bernardo: Pois não sóror Vera.
Sóror Vera: É sobre o pedaço que fala sobre o kardecismo. Como kardecista me senti um pouco incomodada. Não vejo aonde , dentro do kardecismo, exista qualquer tentativa de pregar a pobreza como meio de alcançar a santidade.
Comenius: Com certeza, de modo explícito, a sóror está certa.
Sóror Vera: Como assim de modo explícito? No meu entender nem de modo implícito existe tal doutrina.
Bernardo: Sóror, muitas das coisas que acreditamos serem corretas não são ditas com nossa boca, e às vezes nem em nossos pensamentos. São nossos atos que revelam nossas verdadeiras convicções, bem como nossas simpatias e antipatias. O modelo que o frater ensaísta citou, de compreensão quanto ao papel da pobreza, é muito sutil ou muito profundo, para ser revelado com tanta clareza.
Eu dou um exemplo. É comum, (e a sóror, tenho certeza, conhece exemplos), encontrarmos pessoas de boa posição social, do ponto de vista econômico e financeiro, que ficam encantadas em conhecer pessoas do Oriente, geralmente da Índia ou Paquistão, que se apresentam às vezes em trajes sumários, fazendo palestras em grupos religiosos, e que, independente da coerência interna de seu discurso, ou da existência ou inexistência de fundamentos nos seus atos, conseguem exercer uma influência quase hipnótica sobre essas pessoas abastadas e com uma vida confortável.
Ora, parece uma obviedade falar isto, mas, para estas pessoas, o hábito faz o monge, e, eu diria, a nudez ainda faz o santo.
Existe um estereótipo do que é ser um mestre ou um iluminado, um modelo moisaico, fora de moda, mas que ainda habita o imaginário de muitas pessoas, qual seja o do homem de manto branco, barbas longas, com um cajado nas mãos; e para o iluminado místico, de preferência alguém emagrecido, sem manto, com vestes humildes, mas também com as notórias barbas brancas. (risos)
Ou seja, pobreza e iluminação são associadas de maneira quase automática em mentes psicologicamente ingênuas, antes que qualquer palavra seja dita, que qualquer gesto seja feito.
A história do manto e das barbas talvez possa ser explicada pela imagem do Cristo, aceita em todo o planeta, símbolo eterno de dignidade e santidade. Só que aquelas eram vestes comuns na época e todos usavam, como calças jeans e camisa, com ou sem casaco. Só o romantismo entende que , de alguma forma, as roupas ou a magreza possam ter algo a ver com a dignidade ou a santidade de alguém. Se isso fosse verdade, H.Spencer Lewis estaria em maus lençóis. (risos)
Comenius: O que Bernardo tenta dizer, Sóror Vera, é que as religiões ou linhas de pensamento tem camadas diferentes, uma visível e explícita e outra invisível e implícita que só pode ser percebida quando ficamos atentos ao comportamento social dos membros desta linha.
Sóror Vera: Eu continuo perplexa com esta idéia pois, na verdade, até agora, ambos os frateres falaram sobre generalidades psicológicas, mas não deram nenhum exemplo concreto desta pseudo-atração do kardecista pela pobreza.
Bernardo: É verdade. A sóror me permite então demonstrar meu ponto, usando personagens históricas dos dois movimentos, o movimento rosacruz e o kardecista?
Sóror Vera: À vontade.
Bernardo: A sóror concordaria comigo que os líderes de um movimento representam, ou para usar uma palavra propícia, encarnam este movimento em seu modo de vida?
Sóror Vera: Sim, posso aceitar isto.
Bernardo: Na opinião da sóror, quem na história brasileira recente poderia representar o espírito do kardecismo, pelo seu profundo envolvimento com a causa espírita kardecista?
Sóror Vera: Frater, esta não é uma pergunta difícil de responder embora o kardecismo brasileiro tenha muitas luzes, mas sem dúvida, existe um consenso sobre a importância de Chico Xavier, médium já desencarnado de Uberaba, que deixou um exemplo de dignidade e postura a ser seguido.
Bernardo: A sóror concorda que a simplicidade deste homem, a sua humildade ao se vestir, sempre foi uma marca indelével de sua personalidade?
Sóror Vera: Sim, é verdade.
Bernardo: E a sóror concorda que, independente da dignidade indiscutível deste espiritualista, caso suas roupas fossem mais exuberantes, seu linguajar mais rebuscado, filosófico mesmo, seu impacto seria diferente naqueles que buscavam seu conselho?
Sóror Vera: Na verdade frater, Chico Xavier lidava com pessoas humildes como ele e não haveria de ser de outra forma que um homem com aquela personalidade se comportaria.
Bernardo: Digamos, sóror, no entanto, num exercício meramente especulativo, que Mestre Chico, permita-me dizer dessa forma, se apresentasse àqueles que o buscavam, bem vestido, digamos até um pouco obeso, com cabelos fartos, de tênis, e recebesse seus interlocutores em uma sala com ar refrigerado. Isto mudaria em uma vírgula a dignidade deste homem?
Sóror Vera: Com certeza não mudaria em nada sua dignidade.
Bernardo: Talvez não para a sóror que pelo visto é uma mulher espiritualmente diferenciada, mas nem todos os seres humanos têm a mesma maturidade que a sóror aparenta ter.
Para muitos outros, isto seria um sinal de que sua santidade não seria tão grande, e sóror, eu arrisco o palpite de que ele sabia disso, de modo consciente ou não. Por isto ele não se apresentava assim. Havia simplicidade física ao seu redor. E havia um consenso que deveria ser assim pois existem entre não iniciados, um axioma não explícito que diz que um homem santo é um homem pobre e veste-se de forma humilde.

A sóror disse a pouco que ele lidava com pessoas humildes e por isso era humilde. Não é bem assim. As pessoas que o procuravam, e eu bem me lembro disso, eram de todas as classes sociais, alguns simples e humildes, é verdade, mas outros eram não só cultos, mas membros das forças armadas de alta patente, artistas, pessoas da alta da sociedade, que comungavam entre si apenas a busca pelo alívio de uma dor espiritual ou a busca de um consolo para sua aflição específica, já que todos sofrem por alguma razão.
Todo o tempo, a discussão girava em torno do consolo pela perda de um ente querido, vítima de uma transição súbita, encarada por aquele que o procurava como trágica. E todo tipo de pessoa ia até Uberaba ouvir suas palavras.

Mestre Chico nunca se comportou de forma a estimular a pobreza como meio de evolução espiritual, nunca falou que assim devia ser, mas comportava-se dentro deste estereótipo porque acreditava nisso de forma sincera, acredito eu, e a sóror deve também concordar comigo nisto.
Portanto, mais forte do que suas palavras era o exemplo daquele homem vivendo em aparente dificuldade material e quem o via se encantava, de modo até um pouco romântico, com sua humildade física, como se esta em si fosse uma comprovação de sua santidade.
Comenius: Ao contrário sóror, os líderes da rosacruz são pessoas comuns e procuram viver com equilíbrio financeiro e com conforto material, não são magros nem esquálidos, não são simples do ponto de vista intelectual, nem buscam esta simplicidade; pelo contrário, fogem dela. O que identifica rapidamente um rosacruz é sua curiosidade, sua grande vontade de ler e pesquisar todos os assuntos ligados ao misticismo e ao aperfeiçoamento do ser humano.
Isto pode dar a impressão que o estereótipo rosacruz seja um indivíduo extremamente cerebral, mas a sóror sabe que não é verdade e que nos esforçamos todo o tempo na busca pela harmonia com os desígnios da Consciência Cósmica coisa que só é possível pela sensibilidade e pelo coração.
Embora os rosacruzes sejam imbuídos de grande religiosidade, para rezar não precisam se ajoelhar, pois a oração é um ato do espírito, não do corpo. Pode se dizer que os rosacruzes de graus avançados estão em freqüente estado de oração e ligação com Deus, sem que ninguém possa dizer quando ele está em oração e quando não está, pelos seus gestos, ou pelas suas palavras.
Bernardo: Somos discretos em nossa prece e na demonstração de nossos sentimentos, enquanto místicos. Não somos menos generosos ou menos interessados na santidade do que qualquer indiano seminu, com barbas compridas e sujas. Só que, sabemos que nada disso, a nudez e a miséria, têm qualquer coisa a ver com nossa busca.
Comenius: Veja agora o exemplo de Ralph Lewis, escritor e arqueólogo, ex imperator da nossa Ordem. Sua maneira de se vestir era comum, seus ternos embora de boa qualidade, não tinham nada de luxuosos, mas ele mantinha asseio e elegância em suas aparições públicas. Lembrava mais um executivo ou um professor de universidade do que o líder de uma escola esotérica da magnitude da nossa. Seu pai, Harvey Spencer Lewis, era jornalista e empresário, e como todos sabem, não era magro, nem tinha barbas compridas. Mesmo assim, H.S.Lewis foi uma das luzes que atravessaram nosso mundo. Nossa antiga Grande Mestra, Maria Moura, era uma médica e pediatra, uma mulher à frente de seu tempo, dona de um saber técnico e determinação sólidos, mas tão voltada para a busca da nobreza e da dignidade espiritual quanto Mestre Chico Xavier, e provavelmente, tão irradiadora de luz em torno de si quanto este grande líder religioso.

CHICO XAVIER

Bernardo: Portanto, sóror, os rosacruzes, de maneira não explícita, demonstram no seu modo de ser a não existência de relação entre a pobreza ou simplicidade física e a busca do Santo Cálice, pois a nobreza de um cavaleiro não está em sua armadura, mas em seu coração. O que quer dizer que, necessariamente, uma armadura suja e maltratada não significa que o cavaleiro que a usa é digno, enquanto outro, porque tem uma armadura limpa e reluzente, tenha que ser, por causa disso, obrigatoriamente pouco espiritualizado.


Comenius: É sobre isto que o nosso frater ensaísta falava.
O fascínio e o quase imediato respeito que homens vestidos com trajes sumários, ainda mais se forem orientais, causam sobre ocidentais, às vezes bem educados, denuncia a ingenuidade crítica dessas pessoas e a presença dentro delas de preconceitos acerca de como deve ser um homem santo.
Bernardo: Chamam atenção as críticas que a imprensa internacional, às vezes, faz ao Dalai Lama, dizendo que um monge que usa tênis não pode ser um espiritualista sério. Esta ignomínia não é mais do que a expressão viva deste preconceito de que falávamos.
Comenius: O conceito da relação necessária entre pobreza e santidade é talvez um dos mais fortes condicionamentos que já foram inculcados na mente e no inconsciente da raça humana. Tanto que é difícil até identificá-lo em nós, mas tenham certeza, ele está lá.
DALAI LAMA

Bernardo: Embora sub-reptício, ele afeta decisivamente a capacidade de trabalho e a prosperidade de um sem número de membros da Ordem, em todo o mundo e, claro, também em nossa jurisdição.
Comenius: É muito interessante também o trecho do ensaio em que o nosso frater diz que “...os nossos recentes ancestrais administrativos eram homens que prezavam a Ordem, tinham determinação de implantar um Sistema de estudos para divulgá-la, e se empenharam, sem culpa, na busca de recursos materiais para fazê-lo.”
Bernardo: Quantos de nós, como oficiais administrativos, não temos pudores, de forma clara ou disfarçada, em relação a lutar de forma mais acirrada pelos meios materiais de tornar nossos corpos afiliados mais dignos materialmente?
E como este comportamento diz respeito a preconceitos inculcados no nosso inconsciente, ninguém consegue arrancar uma erva daninha que não se vê.
Comenius: O início do fracasso material de um capítulo, loja ou pronaos, é a crença de que a questão material não deve ser objeto de atenção de um indivíduo que busca a santidade. Se assim não fosse, não seriam só alguns poucos que organizariam festas, eventos e outras estratégias para levantar os fundos necessários para a manutenção física do corpo afiliado enquanto os outros observam passivamente ou comparecem sem muito ânimo.
Isto pode mudar e deve mudar. Temos que buscar juntos meios de manter de forma estável nossos corpos afiliados, os quais devem ter uma administração empresarial, voltada para a auto suficiência financeira se possível.


Bernardo: O que portanto difere um rosacruz de outro místico, de outra pessoa dedicada à religião ou à religiosidade é o equilíbrio e o balanceamento entre o espírito e a matéria.
Jamais poderíamos conceber, nós, membros da Ordem, que qualquer um de nós se apresentasse seminu para o serviço rosacruz, ou que iniciasse dentro de nossa ordem qualquer movimento à parte, baseado no culto da personalidade de um de nós, ao qual os outros prestariam uma reverência. Não é nosso estilo. Não é nosso modo de ser.
O que somos enquanto Ordem, depende da divisão entre nós de nossas responsabilidades, mas também da soma de nossas capacidades, todos nós, de modo a fortalecer a nossa egrégora. Não somos fortes se não formos todos fortes; não seremos uma Ordem, se não formos todos partes ativas deste todo.
Comenius: Portanto, o que o ensaio nos lembra é que nós
não somos uma religião, mas uma escola esotérica, como uma hierarquia sim, mas que tem uma finalidade unicamente administrativa. Na verdade, estamos todos no mesmo plano.
Precisamos todos uns dos outros. Não há portanto, nesta távola redonda, lugar para uma pessoa ficar na cabeceira.


De forma que quando vemos líderes religiosos que se destacam em suas religiões, suportando o peso de serem os mais santos entre seus pares, estranhamos que uma pessoa receba tanta atenção ou assuma tamanha responsabilidade do ponto de vista espiritual. Para um rosacruz isto não faz sentido.
Ninguém no nosso particular modo de ver, o modo rosacruz, pode sozinho dar conta de assumir tal papel, sem se expor à exaustão física e psicológica. Por isso, nosso Imperator jamais construiu em torno de si um culto ou uma aura de destaque, mostrando-se em seu trabalho como mais um dos servidores da causa, mas nem o único nem o mais importante, e para o trabalho, divide o ônus com o auxílio dos grandes mestres das jurisdições de cada língua do planeta. Cada grande mestre, por sua vez, serve-se do auxílio dos grandes conselheiros, que por sua vez se valem do auxílio dos monitores regionais, que esperam receber a colaboração de cada oficial administrativo e ritualístico do corpo afiliado que está sob sua responsabilidade.
Bernardo: Nesta sucessão de níveis, o que se desenha é uma espiral descendente e ascendente, formada por centenas de pessoas.
Óbvio, nenhum ego suporta bem este anonimato, esta ausência de definição de focos, já que todos, absolutamente todos são luzes neste gigantesco candelabro.

Isto causa desconforto, pois não há como transferir a ninguém a responsabilidade da santidade quando todos tem obrigação de brilhar.
Esta é a Utopia rosacruz: nosso brilho total depende do brilho de cada um de nós.
Comenius: Agora, frateres e sorores, pensem comigo: o que colabora mais para o nosso crescimento espiritual? Uma sociedade na qual somos obrigados a nos fortalecer ou um agrupamento em que todos são devedores da força espiritual de um só ao qual presta-se reverência constante?
Sim, os santos são um exemplo a ser seguido, mas isto implica em trabalho intenso para conseguir esta santidade e não uma veneração estática daquele espírito que mostrou sua luz ao mundo e que esperava provavelmente muito mais daqueles que o admiram.
Se considerarmos a imagem anterior, é como se uma única luz acesa fosse admirada por várias pequenas luzes apagadas. Não faz sentido.

Bernardo: Portanto sóror, nenhum rosacruz destacar-se-á de sua Ordem, chamando a atenção para si, pelo seu orgulho, a vaidade positiva, ou pela sua humildade ostensiva, a chamada vaidade negativa. Do modo positivo ou negativo, isto seria apenas vaidade, do ponto de vista rosacruz.
Para fugir do pecado da vaidade, ninguém deve atrair para si mais atenção do que para a Ordem a qual serve, deve saber tornar-se invisível, discreto, porque nenhum de nós importa neste sentido, só a Ordem é importante.
Comenius: Essa é a diferença entre nós e as religiões. Nas escolas esotéricas todos, absolutamente todos, são discretamente responsáveis, o que não quer dizer que todos sejam iguais. O que nos marca são nossas peculiaridades, nossas características únicas que fazem de nós, não uma coleção de elementos monótonos e repetitivos, mas alguma coisa como peças únicas e diferenciadas de um quebra cabeça, de bordas irregulares, que se encaixam exatamente aonde tem que encaixar, completando aos poucos um quadro único.
Bernardo: Não só não pregamos com nossas bocas e palavras a pobreza como meio de encontrar a santidade como não nos comportamos de modo a dar a impressão que acreditamos nisto no fundo de nós mesmos.

O Karma

Comenius: Uma outra questão que queríamos comentar para marcar a diferença entre a visão kardecista e a visão rosacruz, e que é sutil, é a compreensão do grau de possibilidade de intervenção no karma, que temos ao nosso dispor. Esta discussão é importante porque de acordo com nosso entendimento, seremos mais ou menos conformados com as condições de vida que receberemos e aceitaremos estas condições mais ou menos passivamente.
Aos kardecistas não é ensinado que aceitem passivamente seu destino e as situações de sua existência, mas é dito que o karma é a expressão da lei divina de justiça.
O que nos parece que decorre disso é a compreensão de que o papel do karma é de punição ou de recompensa.
E que a encarnação resume em si estes aspectos, de maneira que existe um componente de culpa em todo problema que enfrentarmos enquanto na Terra, já que este problema deverá estar relacionado a uma dívida Cármica.
O curioso é que, com freqüência, não se vê entre kardecistas referências ao quanto são abençoados com esta ou aquela dádiva, baseando-se no mesmo raciocínio, de merecimento cármico.
É lícito pensar-se que, da mesma maneira como a causa de alguns sofrimentos é de natureza cármica, a causa de alguns benefícios e acontecimentos de bom alvitre também seriam.
Existe, e esta é uma afirmação a qual está sujeita a debate, já que estou expressando não um ponto de vista da Ordem, mas uma avaliação absolutamente subjetiva e pessoal, uma ênfase descabida no aspecto negativo do karma entre os kardecistas com quem conversei ou dos quais sou amigo, entre eles a minha própria irmã de sangue.
De qualquer forma, o karma para os Kardecistas, é um conceito um tanto estático, sendo muito difícil escapar de nossas dívidas e por isto, muitos se comportam como se certas situações devam ser encaradas com um comportamento de aceitação, de inevitabilidade.
Para o Rosacruz, por outro lado, karma é um conceito extremamente dinâmico. Ele está expresso na Lei de AMRA, a lei egípcia do Dar e do Receber.
A nossos membros não só ensinamos, mas demonstramos, que não somos vítimas do karma mas senhores deste karma, desde que percebamos que depende unicamente de nossos atos, palavras e comportamento a maneira como nosso karma será conduzido.
E nesse ponto, surge uma diferença importante entre kardecismo e rosacrucianismo. Se para ambos a Caridade é a expressão mais importante da bondade, para os kardecistas a Caridade surge como uma virtude, às vezes um sacrifício, em direção à luz, enquanto para o rosacruz caridade é apenas uma técnica.
Dizendo com outras palavras, se o kardecista acredita que quando dá alguma coisa, deu algo que era seu para outro, o rosacruz sabe que apenas redirecionou a energia de prosperidade que passa por ele, que não vem dele, mas de Deus, para que outro se beneficie dela, e que é dando que se recebe, já que se mantém em andamento o fluxo da prosperidade.
Dar um pouco do seu tempo, algo de suas posses materiais, ou de seus talentos é o que os rosacruzes chamam servir, e através do serviço, estabelecer um impulso na energia que de acordo com a lei de AMRA garantirá para si e para sua família um retorno imediato em paz e tranqüilidade.
Não se trata de negociar com o Universo mas de, cônscio da natureza das leis universais, manter o balanço energético sempre a nosso favor.

Fazemos o bem por que assim deve ser, não por sermos generosos, mas por que é assim que as energias e as leis universais determinam.
Todos nós , que habitamos esta criação, estamos sob a égide da mesma lei e portanto devemos segui-la para que nossas vidas sejam plenas em recompensas morais, materiais, ou ambas.
O segredo da prosperidade dos rosacruzes, prosperidade esta que pode ser de natureza material, psicológica ou espiritual, está em saber como manipular a lei a nosso favor e não contra nós.
Por que a lei universal é cega, mas nós não. Podemos optar e o fazemos todos os dias. Se de acordo com a lei, fizermos as opções corretas, a Lei de AMRA nos protegerá; se não, teremos as conseqüências inevitáveis. Porque como está dito na doutrina rosacruz, a Lei cósmica se Cumpre, nesta vida e nesta encarnação, e não necessariamente em outra vida.

De qualquer forma estamos diante de uma lei dinâmica, como tudo no Universo, que reflete nossas atitudes como o espelho reflete a luz do sol. A todo o momento estamos mobilizando as energias através desta lei e portanto, respeitando as normas de operação da Lei, garantimos nossa qualidade de vida, física e espiritual. A qualquer momento, poderemos intervir positivamente no karma e resgatar débitos ou providenciar créditos de forma a auferir benefícios incontáveis.
De forma alguma tal lei foi criada para punir. Sua função é regular o fluxo das energias e garantir sua boa aplicação. E apenas isto. Não é também uma lei moral, na acepção humana.

Ela apenas restabelece o balanço de forças em ambas as direções, mostrando a quem se disponha a prestar atenção o caminho do meio, do equilíbrio.
Bernardo: Portanto, para o Rosacruz, karma é justiça sim, mas no sentido de reequilíbrio, e não de punição e recompensa. Uma bússola não aponta para o norte por que é boa ou má. Ela apenas segue a lei da natureza, e além disso, cumpre a natureza da lei. Que o karma seja para a nós como o Norte magnético para a bússola: um guia, uma direção para a qual somos atraídos naturalmente, e pela qual devemos nos deixar atrair.


KARMA, DOR E ACASO


Comenius: O último tema que gostaríamos de abordar na nossa comparação entre a visão kardecista e a visão rosacruz de mundo é o entendimento do papel da Dor, seja esta uma dor psicológica ou física.
Bernardo: O exemplo da bússola vai nos ajudar neste tópico novamente. Diz-se que a dor é inevitável e o sofrimento uma opção que se baseia na compreensão de mundo daquele que sofre. Assim, a Dor, fenômeno ligado à própria vida, em si nada tem a ver com sofrimento, mas com sensibilidade natural do ser humano.
Portanto várias são as razões de sentir dor sem relação com o fenômeno do sofrimento, como as dores musculares após a prática do esporte, o parto normal por opção, a dor de cabeça ligada a falta de um óculos, a dor moral de uma perda, seja material ou pessoal, como o luto por um ente querido que morreu de forma natural, com uma idade avançada, mas que mesmo assim nos traz tristeza pela separação física, que são vicissitudes da existência.
Mesmo no caso da transição, que os não iniciados chamam morte, existem circunstâncias específicas para que possamos dizer que aquela transição foi ou não marcada por intenso sofrimento de nossa parte, pois nem todas as transições implicam em surpresa ou em lamento, como é o caso de um amigo que há tempos sofre de um mal incurável e que, embora sem esperanças de recuperação, é mantido por meios artificiais ligado ao corpo.
O final de seu sofrimento implicaria em alívio para todos que o amem e inclusive para o próprio, uma vez que marcará a sua libertação do plano terreno e de suas complexidades.
Comenius: De maneira que dor não é igual a sofrimento e a perda nem sempre está ligada a lamento. Há muito tempo, a Ordem Rosacruz ensina aos seus membros que, mesmo respeitando as ligações afetivas que envolvem as pessoas, a transição é parte da existência e nas palavras de Saint Martin não existem dois tipos de vida, mas apenas uma Vida.
Bernardo: Já quanto aos problemas da existência que possam provocar dor moral, ao contrário de outras linhas, é de praxe entre os rosacruzes esforçarem-se em compreender as causas da Dor e não a Dor em si.
Mal comparando, se um alarme toca, não tentamos prestar atenção no alarme em si, mas sim procuramos imediatamente a causa pela qual ele disparou. Não é a Dor que nos importa pois ela é apenas um mecanismo de alerta. Importa-nos estudar as razões pelas quais este alarme foi disparado e removê-las. Este processo implica em autoconhecimento, em aumento da prudência, e principalmente em aceitar que as razões pelas quais somos vítimas de situações desagradáveis estão diretamente relacionadas às nossas opções pessoais, ao longo do cotidiano, respeitando a lei de causa e de efeito.
Comenius: Colocado desta forma, superar as causas da dor não parece muito difícil, desde que nos dediquemos a estudar com afinco todas as possibilidades de reação aos nossos atos, antes de praticá-los, seja em palavras, pensamentos ou atitudes. Isto leva a ordem e a disciplina de nossa existência o que, no entanto, não faz desaparecer o Acaso, pois o Acaso é Deus, e Deus está no Acaso.
Uma vez, portanto que nossa vida esteja organizada e adequadamente voltada para Deus, Ele ainda assim conversará conosco através dos Acontecimentos Imprevistos, a terceira maneira que o universo tem de nos orientar.
A primeira é o karma, e a segunda é a Dor.
E como compreendemos os dois, entenderemos também o Acaso e conviveremos em harmonia com ele, procurando ficar atentos aos seus avisos.
Bernardo: Assim, para um estudante rosacruz, viver não é sofrer, mas desfrutar a existência na carne da maneira mais agradável e relaxada possível, aproveitando os dias como oportunidades de crescimento e deleite. Na brilhante frase de Richard Bach em Ilusões, na vida só temos dois objetivos: ou estamos nos divertindo, ou estamos aprendendo.
Comenius: Esta afirmação não é desprovida de sentido seja qual for a situação em que o karma nos mergulhe. O fato de um indivíduo associar-se a Ordem Rosacruz já denuncia que este não será um ser humano comum, e as motivações que o manterão nesta encarnação aos poucos serão transmutadas e aperfeiçoadas em uma busca incessante de conhecimento, e não uma luta incessante pela sobrevivência, o que implica, aí sim, uma visão beligerante da existência, transformada em batalha e conflito.
Bernardo: A palavra chave para tudo isto é Opção. Podemos optar entre tipos diferentes de existência, relegando a segundo plano as coisas que nos tragam apenas sofrimento, e optando por aquelas que nos tragam conhecimento e bem estar.
Esta estratégia é a base da felicidade.
Rosacruzes não são seres perfeitos, nem indivíduos iluminados, à margem da existência, em uma palavra, intocáveis. São mulheres e homens normais, cheios de dúvidas e de defeitos humanos comuns, cujo aspecto externo é incapaz de denunciar o que vai em seus espíritos.
Se existe algo neles que os diferencia é a atitude interior positiva em relação a existência, esta infinita confiança de que a Vida não os ameaça, mas apenas lhes apresenta situações-problema para enriquecer e amadurecer seus espíritos.
Comenius: Esta é a nossa maior característica: para os rosacruzes, karma, Dor e Acaso, são partes importantes da vida, e não problemas ou dificuldades a serem removidas. Sem eles estaríamos cegos e desorientados, como um avião, voando em céu fechado por nuvens e sem instrumentos de radar para lhe guiar.
E mesmo que o alarme toque alto em nossas cabeças, sempre agradeceremos a Deus pela sua existência, já que sem ele não teríamos nenhum tipo de auxílio em nossas importantes Opções de Vida.


O MUNDO DOS ESPÍRITOS


Bernardo: Agora falemos dos espíritos. Na definição kardecista, todos somos espíritos, que ou estão no corpo, e por isto são entendidos como encarnados, ou fora dele e portanto são desencarnados. Não me parece que isto seja dito de maneira clara em qualquer parte da doutrina kardecista, mas é comum a conclusão de que todos os encarnados estão “vivos”, enquanto todos os desencarnados estão “mortos”.
Comenius: Esta afirmação não prosperaria entre os rosacruzes, pois todos estão familiarizados com técnicas de projeção astral. E embora nem todos nós sejamos capazes de projeções nítidas e fáceis, muitos de nós desenvolveram esta habilidade de maneira que é comum ao estudante de nossa ordem deslocar-se fora do seu corpo e, unido a ele apenas pelo cordão de prata, sair em missões de auxílio aos doentes, em visita a parentes distantes em dificuldades, ou mesmo para ajudar aqueles que saem do plano físico definitivamente, ajudando-os a fazerem a transição com mais segurança e conforto.
Bernardo: Digamos que um médium consiga ver um estudante em projeção. Provavelmente concluirá que se trata de mais um dos muitos habitantes do que os kardecistas chamam de “mundo dos espíritos”, quando na verdade estará diante de um desencarnado vivo. E se este indivíduo for uma pessoa minimamente sensata e der respostas que sejam consideradas pelo médium como inspiradoras, ver-se-á imediatamente alçado à condição de mestre do mundo espiritual, quando na verdade trata-se apenas de um ser humano comum, sensível, mas um ser humano como outro qualquer.


O MUNDO ESPIRITUAL É O MENTAL


Comenius: Por outro lado, como estabelecer, como é comum na literatura espírita, que existem casas, hospitais, cidades inteiras nos planos astrais, já que os planos astrais são o domínio do mental? Todos os rosacruzes sabem que , ao contrário do plano físico, no plano astral os pensamentos se transformam imediatamente em coisas, e portanto, como imaginarmos que o astral é, ele será. Nossas mentes que no plano físico precisam de algum tempo para materializar desejos através do poder da mente, no plano astral praticamente não encontram dificuldade alguma.
Bernardo: Assim, não há conflito nas visões de budistas, católicos, islâmicos, ou índios apaches americanos, quanto ao ambiente que encontrarão após a transição. Todos realmente encontram aquilo que esperavam encontrar em suas mentes , concepções estas que se projetam na matéria plástica do astral a qual aceita o molde da compreensão de cada um. Estas projeções dão conforto ao indivíduo que transita e condições de adaptação mais confortáveis do ponto de vista psicológico, porém são tão ilusórias quanto as ilusões do mundo da matéria.
Comenius: Usar o astral a nosso favor implica em sabê-lo uma ilusão, e não em acreditar que as coisas que encontramos lá são, em uma palavra, reais. Toda a literatura que dá esta impressão, sobre cidades e sobre escolas e hospitais apenas persevera de ilusão em ilusão. Não há um grave problema nestas crenças, mas isto denuncia o desconhecimento esotérico da plástica destes planos e de sua docilidade às nossas idéias.

MÉDIUNS

Bernardo: Gostaria agora de tocar em um ponto delicado, qual seja, a viabilidade de ser um meio de transmissão, um médium, em termos kardecistas.
Este que talvez seja o dogma técnico mais importante do kardecismo, implica que um indivíduo seja capaz de transmitir a fala de outro indivíduo, em princípio no plano astral, de maneira a permitir o contato entre os que estão neste plano material com eles. Ora, sem querer afirmar que isto não seja possível, é preciso estabelecer algumas objeções a esta compreensão ingênua sobre os processos mentais.
Comenius: Em primeiro lugar, crer que um rádio seja incapaz de sofrer interferências de outras estações, ou que não possa ter sua transmissão prejudicada pela sua qualidade, seria um contra senso. Todos sabemos que tudo que depende de um outro elemento para se manifestar, como o escritor que depende de atores que interpretem seu texto, ou um compositor que depende de um cantor que interprete sua música, pode ter sua obra primitiva modificada pois estão sujeitos a dois tipos de possibilidades: ou sua obra é muito bem interpretada, tendo com isso até um certo aperfeiçoamento em relação ao original, ou será mal interpretada e terá sua beleza ou clareza primitiva perdida, prejudicada.
Como qualquer elemento que atravessa meios físicos diferentes, a transmissão será modificada em velocidade, direção ou expressão.
A água faz o raio de luz se curvar; a mente faz o texto original se modificar.
Porque seria diferente com um médium? Como controlar as modificações que este opera sobre as transmissões que julga receber?
Bernardo: Outra questão: quando fala por alguém , estará falando por um ser no astral, ou telepaticamente captando as informações que estão na mente daquele que o procura com o objetivo de comunicar-se com seu ente querido?
Comenius: A verdade é que o espiritismo kardecista, embora não tenha sido idealizado como tal, tornou-se uma religião. E toda religião possui dogmas, que se postos em discussão abalariam os fundamentos de sua estrutura. As religiões não permitem análises sobre as suas crenças, pois são crenças e não fenômenos sujeitos ao trabalho de investigação. Existe pouca liberdade investigativa, pouca flexibilidade interpretativa.
Por causa disto, não se olha para aquilo que está diante dos nossos olhos: os médiuns são seres humanos antes de médiuns, com defeitos e qualidades, em resumos, pessoas comuns.
Supor que suas crenças e valores, seus pensamentos e idéias de mudo não interferirão na qualidade e no teor de suas transmissões é imaginar que existam pessoas acima do bem e do mal e que suas mentes sejam transparentes como a mente dos santos.
Bernardo: Portanto, não há como garantir aquilo que é mais sagrado no trabalho do médium: a pureza e fidelidade das informações que retransmite. Posto isto, todas as informações que fundamentam o trabalho mediúnico estarão sob suspeita e não existe qualquer solidez nem operacional, nem mística para tomar este método como fundamento de qualquer conhecimento.
Serão ilusões sobre ilusões num castelo de cartas que, eventualmente, desabará.
Comenius: Apenas para encerrar estas considerações sobre características antagônicas entre o pensamento rosacruz e o pensamento kardecista, o qual respeitamos profundamente como opção filosófico-espiritualista, mas do qual temos uma série de diferenças como as aqui descritas, gostaríamos de insistir na importância que é comum observar entre os kardecistas quanto às informações colhidas através do trabalho mediúnico. São conselhos, sugestões, de natureza comportamental e espiritual, que se prestarmos atenção nada, absolutamente nada deixam a dever a qualquer conselho dado por uma pessoa equilibrada que esteja, para utilizar a terminologia kardecista, encarnado. Sua mais notável característica é: são sugestões ou conselhos dados aos encarnados por desencarnados, em princípio, “mortos”.
Talvez por isto, neste contexto, digamos, peculiar, aqueles conselhos ganhem um destaque ou uma importância que, aqui neste plano, não teriam; mas uma vez que procedem, segundo as informações colhidas, de outro plano dimensional, são consideradas muito importantes.
Bernardo: Ora, os rosacruzes sabem que todo conhecimento de confiança provém de apenas uma fonte: Deus, que dentro de nós manifesta-se através de nossa consciência. A este orientador interno, os rosacruzes chamam de Mestre Interior. Toda a nossa existência na Ordem é dedicada a aperfeiçoar nossa sensibilidade à orientação que este Mestre Interior pode nos dar e a aprender a sentir sua inspiração com o máximo de clareza. Aprendemos, nós rosacruzes, também, que ninguém, absolutamente ninguém pode, em nosso lugar, conseguir estas informações e orientações.
Comenius: Ou conseguimos estas informações por nós mesmos ou ninguém as conseguirá por nós. Isto confirma o ditado hindu que diz: “Só Shiva é guru.”, ou seja, só Deus pode nos orientar, junto com nossa consciência, no caminho mais adequado às nossas vidas.
Portanto, esteja desencarnado ou encarnado, nenhum indivíduo pode nos aconselhar melhor e mais profundamente do que nossa própria consciência, um trabalho e uma obrigação que nos foi dada por Deus e da qual não podemos abdicar.
Bernardo: Dito isto encerramos este seminário. Sei que muitos têm colocações a fazer e deixaremos isto para outra oportunidade. Que todos retornem a seus lares em paz profunda. Assim seja.
Todos respondem: Assim Seja.
E se retiram.