Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A COMPLETA ACEITAÇÃO

 

Por Mario Sales



Existem algumas reflexões, que por serem óbvias não se tornam mais fáceis de serem aceitas como verdadeiras.

Uma delas é sobre a Criação.

Acompanhem meu raciocínio: se Deus é tudo que existe, e está na Sua obra, como cada artista se faz presente em sua arte por completo, não existe uma parte do Universo manifesto que não seja manifestação do Altíssimo.

De forma que o corpo, a sexualidade, as vicissitudes da existência são manifestações do Divino, e por isso, igualmente divinas.

Atribuir o adjetivo de impuro a qualquer ato sob os céus, céus que foram criados pelo mesmo Deus, é achar que existe algo na Criação, ou seja, algo em Deus, que não é digno.

Dito de outra forma, para essas pessoas, uma parte de Deus é ruim e não é digna.

Um absurdo lógico, uma contradição, que só é possível em mentes limitadas pelo preconceito e pela ignorância.

E tudo parte da incompreensão do papel de Maya. Chamar o mundo invisível de puro e Maya de impuro; caracterizar a vida fora do corpo como real, e aquela dentro do corpo como uma “perigosa ilusão”, beira as raias do ridículo.

Supor que esta dimensão de existência é menos importante do que as outras segue a linha de pensamento que vê Deus como algo distante espacialmente falando, e não uma presença imanente e permanente. Supor que o local onde se dá a formação das almas, sua educação, seus exercícios no campo da misericórdia e do serviço é o mais baixo dos planos da Criação, é um equívoco atávico em textos esotéricos de várias épocas.

Correndo o risco de ser redundante, repito que Maya é uma área tão real como todas as outras dimensões de manifestação, pois a noção de realidade evoluiu com a evolução do pensamento esotérico.

Real não é aquilo que é palpável, nem para o Ocultismo e nem para a ciência. Real é aquilo do que temos consciência de existir, que percebemos como tal, não importa se é uma simulação de computador ou se estamos em meio a natureza.

Os estudos de neurofisiologia funcional demonstram que para nosso cérebro, a imagem de uma maçã e a maçã em si causam o mesmo impacto e desencadeiam as mesmas respostas orgânicas.

É real o que é real para nós. Portanto, tudo aquilo de que temos consciência é real para nós e tem a mesma densidade comparativamente de uma pedra, pedra esta que já foi antigamente um referencial de solidez e realidade.

Ou aceitamos a criação como ela é, inteira, e a consideramos como a única realidade que nos importa, enquanto nela estivermos, ou não usufruiremos de nosso direito de habitar este Universo e extrair das experiencias aqui vividas toda a gama de aprendizado que formos capazes de absorver.

Maya não é o problema. Confundir-se com Maya, sim.

Assistir um filme de cinema não é o problema, mas supor que os personagens fictícios do filme são reais, sim.

Não é por sabermos que a fantasia é uma ficção que não podemos nos divertir e aprender com ela.

Não é porque achamos certas coisas melhores e mais dignas do que outras que elas automaticamente assim serão. Nossa percepção modifica a realidade que testemunhamos, como o molho muda o sabor do macarrão.

Sem ausência de preconceitos, a completa aceitação do que é será sempre uma impossibilidade. Sem aceitar uma parte de Deus, nunca aceitaremos Sua presença em nós de forma completa.

sábado, 13 de novembro de 2021

QUANDO É NECESSÁRIO SER ESOTÉRICO


Por Mario Sales

 





“A Suprema Personalidade de Deus disse: Ao falar palavras cultas, você está lamentando pelo que não é digno de pesar. Sábios são aqueles que não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos. Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para um outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança. Ó filho de Kuntī, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar. Ó melhor entre os homens [Arjuna], quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e permanece estável em ambas as circunstâncias, está certamente qualificada para a liberação. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos. Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna decerto chegará ao fim; portanto, lute, ó descendente de Bharata. Aquele que pensa que a entidade viva é o matador e aquele que pensa que ela é morta não estão em conhecimento, pois o eu não mata nem é morto. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.”

Bhagavad Gita, capítulo 2, versículos de 11 a 20

 

 

A questão foi ventilada na reunião de ontem. Imagine que um individuo mentalmente desiquilibrado e impressionável lesse este trecho do Gita e entendesse que alguém que seja baleado, esfaqueado ou degolado, na verdade continua vivo, já que a alma é imortal.

Tal pessoa poderia supor que estaria autorizada por um livro sagrado a matar quem quer que fosse já que, segundo Krishna, ninguém morre.

Na India, Kali, energia companheira de Shiva, geralmente é representada como tendo vários braços, símbolo padrão da multiplicidade de poderes da deusa. Em um deles, ela segura uma adaga e no outro, a cabeça de um homem. Para o simbolista, a cabeça significa o orgulho, o ego, e “cortar a cabeça” refere-se a aumentar a humildade dos homens.

Mesmo assim, uma seita terrorista instalou-se no final da dominação inglesa, com o nome de filhos de Kali, que tinham por hábito cortar a cabeça de soldados ingleses como maneira de tornar real o era apenas simbólico.

Interpretações equivocadas, literais, seja por ignorância ou má fé, sempre aconteceram a partir dos textos sagrados ou profanos.

Profanos sim. Basta lembrar o uso dos textos de Nietzsche pelos nazistas como se o filosofo apoiasse suas insanidades.

Conhecer a verdade espiritual não implica “ler” sobre ela, mas compreendê-la com o coração.

Para isso é preciso, além de evolução moral e nobreza ética, maturidade psicológica e saúde mental.

Certos assuntos e temas, por fazerem abordagens delicadas, pertinentes a visão espiritualista, porém de interpretação peculiar e diferenciada, devem ser evitados pela grande maioria dos seres humanos.

Para eles, tais temas devem permanecer em segredo e só grupos de pessoas diferenciadas pelas virtudes acima citadas podem discuti-los.

Aí sim o esoterismo se impõe, esoterismo baseado na peculiaridade do ensinamento e não em uma informação especifica que precisa ser ocultada.

Um exemplo didático vem da filosofia.

Na Republica Platão ataca a Democracia, como uma forma equivocada de organizar o poder. A ideia de cada homem ter um voto nunca lhe pareceu sensata.

E ele explica que se em um navio precisamos de um capitão competente, não vamos consegui-lo fazendo uma eleição entre os marinheiros, absolutamente incapazes de julgar a competência técnica de um capitão. Se colocarmos o tema em discussão neste ambiente o eleito será o mais simpático aos interesses do grupo, o menos exigente talvez, mas não o mais tarimbado para o metier.

Para saber quem deve ser o melhor capitão, só outros capitães podem decidir entre um grupo de possíveis e habilitados candidatos.

A democracia é, portanto, terreno para demagogos, aqueles que discursam para a turba e que usam da retorica, a técnica de falar bem, para manipulá-la.

Para os manipuladores, não há interesse em que o mais preparado seja escolhido. Seu objetivo é apenas o poder.

Se considerarmos o que acontece hoje em nossos países, democráticos, vemos que o filosofo não estava enganado.

A partir desta constatação, que atitude devemos tomar? Acabar com o modelo de governo baseado em eleições? Banir a democracia de nossas vidas por causa de suas evidentes imperfeições?

As opções não são tão fáceis.

Além disso, precisamos decidir sobre o que colocaremos no lugar do sistema político que descartaremos.

Esta é a grande questão.

Como na parábola da assembleia dos ratos, sabemos que precisamos colocar um sino no pescoço do gato só que não temos ninguém que tenha coragem ou habilidade para fazê-lo.

Impasses metodológicos como estes são bem mais comuns do que parece.

Quando Krishna diz a Arjuna que Aquele que pensa que a entidade viva é o matador e aquele que pensa que ela é morta não estão em conhecimento, pois o Eu não mata nem é morto, ele parece autorizar qualquer desequilibrado a matar quem quer que seja já que ninguém pode ser realmente morto.

Estes assuntos devem ser tratados com pudor e prudência. Só os prudentes devem discuti-los para que ilações indevidas não brotem de uma leitura inadequada e de uma interpretação mais inadequada ainda.

Este é o drama da linguagem. Ler é um processo de dois movimentos: entender e interpretar.

É no segundo passo que mora o perigo.

A luta, como lembra o Dalai Lama, nunca foi entre o Bem e o Mal, mas sim entre o conhecimento e a ignorância.

Oremos, vigiemos, e guardemos sigilo das coisas que devem ser mantidas entre poucos.

domingo, 7 de novembro de 2021

QUANDO O ESOTERISMO É EXCESSIVAMENTE ESOTÉRICO

Por Mario Sales

A TÁBUA DE ESMERALDA,

 

Confesso que hesitei um pouco antes de escrever esse texto porque certas reflexões causam desconforto a algumas pessoas.

Só que quando discutimos assuntos que julgamos extremamente particulares, e compartilhamos nossas perplexidades, via de regra encontramos um sem-número de outras pessoas perplexas com as mesmas questões sem a capacidade de expressar o que sentem.

A palavra é o colchão aonde deitamos nossas ânsias de expressão, nosso mal-estar indefinido em relação a nossa vida e a vida de todos que nos acompanham nessa existência. Falar de nossos problemas, dar nomes ao que antes era um fantasma que rondava nossa cama a noite nos assustando, é desfazer uma assombração.

Nomear é esclarecer. Clarear é dar luz a algo que estava nas trevas. A luz do dia, todos os fantasmas desaparecem. Com a luz do sol, tudo fica mais claro e as incertezas se dissipam.

Não por outra, como está em Marcos, capítulo 5, versículo 9, ao praticar o exorcismo do rapaz possuído, o cristo antes de qualquer coisa pergunta ao demônio dentro dele qual é o seu nome. Ao que o demônio responde:

“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”

Penso que escrever é como exorcizar demônios, extrair o nome das coisas que nos atormentam e como vampiros, trazendo-as a luz, vê-las queimar e se desfazerem.

Como vampiros, sim, porque o que não é dito, suga em silencio nossas energias, anemiando nossa alma, nosso espírito.

Este enorme preambulo antecipa uma discussão sobre a importância de uma das áreas mais incensadas do esoterismo, com a qual nunca tive afinidade, mas da qual fui obrigado a falar e a qual fui levado a estudar por questões de ofício.

Muitos acham que o esoterismo é como um curso universitário, com disciplinas variadas, todas fundamentais à formação profissional e que serão estudadas separadamente, para que ao final nossa formação esteja completa. E que o correto é que ele estude todas essas disciplinas, independente de suas predileções pessoais.

Isso é verdade, em parte.

Primeiro porque o Esoterismo não é uma área de saber em um campo, mas o próprio campo, muito, muito vasto e dedicar-se toda uma vida ao seu estudo é insuficiente. Talvez a única razão pela qual a mortalidade física seja inadequada seja a ruptura de continuidade em nossos estudos pessoais e por mais que se diga que o essencial passa com a alma peregrina de uma encarnação a outra, a clareza cumulativa das informações, a elaboração dos conceitos, o conhecimento linguístico, são sim interrompidos por décadas para serem reiniciados já em outro conjunto de circunstâncias, em outra época, em outro corpo e cérebro.



Então, se é interessante que conheçamos pelo menos superficialmente todas as áreas de interesse do esoterismo, desde a simbólica, nas religiões e nas tradições iniciáticas, até os detalhes da meditação Zen, ou aspectos do Hinduísmo, nem tudo vai nos atrair da mesma forma ou nos fascinar do mesmo modo.

Existirão, com certeza, preferencias, áreas que estudaremos com mais prazer e que nos parecerão mais claras do que outras, bem como algumas nos parecerão entediantes e demasiadamente confusas para que possam gratificar nosso intelecto.

Acreditem ou não, uma frustração dessa ordem me invade quando leio sobre Alquimia.

Não conheço área menos clara, menos linear, e que não resiste nem mesmo àquele argumento comum, mas já gasto de que “o significado dos seus símbolos não está claro porque foi ocultado de proposito dos olhos de profanos”.

Tolice.

Se alguém se dedicar a estudar o método alquímico verá que provavelmente nem os próprios alquimistas tinham claro em suas mentes se estavam ou não fazendo o que deveriam.E muitos, muitos se dedicaram a este estudo pré-científico com seriedade, supondo que se envolviam em um caminho legitimo de ascensão espiritual ou cultural.Talvez, se não fosse pelo ensaio que estou traduzindo de um nobre e respeitado Frater alemão, o médico Franz Hartmann, não teria animo para escrever sobre esse assunto.Em um ensaio chamado “As Ordens Rosacruzes”, diz ele, comentando as reações na Europa aos manifestos Fama Fraternitatis e Confessio Fraternitatis:

“A crença na existência de uma organização secreta real de Rosacruzes, possuidores dos segredos de como fazer ouro de chumbo e ferro, e de prolongar a vida por meio da ingestão de algum fluido na forma de um medicamento, era universal; e charlatães e trapaceiros de todos os tipos vagavam pelo país e ajudavam a espalhar as superstições, muitas vezes vendendo compostos inúteis por preços fabulosos como sendo o "Elixir da Vida"; enquanto outros desperdiçaram suas fortunas e tornaram-se pobres, fazendo esforços inúteis para transmutar metais. Uma enxurrada de escritos apareceu, alguns conquistando e outros defendendo a Sociedade Rosacruz, que supostamente existia, mas da qual ninguém sabia de nada. Algumas pessoas, mesmo algumas bem-informadas, acreditavam na existência de tal sociedade; outros, negavam. Mas nem uma classe nem outra poderiam trazer quaisquer provas positivas de suas crenças. As pessoas estão sempre dispostas a acreditar no que desejam que seja verdade…”

Já suspeitava que estava diante de um dos grandes equívocos esotéricos de todos os tempos quando li e estudei “O Casamento Alquímico de Cristian Rosencreuzt”, obra inacabada, atribuída ao Círculo de Tübingen e a Johan Valentim Andrea, texto que mais parece uma colcha de retalhos esotérica do que uma narrativa em si. O autor tinha esta intenção e redigiu um texto que necessita da imaginação e participação ativa do leitor para ganhar algum sentido e corpo.O que obviamente, afasta o leitor apressado e pouco cuidadoso, mas também conduz ao equívoco.Equívoco, pasmem, que era desejado pela maioria dos escritores alquimistas, alegando que com isso, afastariam os não iniciados dos mistérios de sua “ciência”. Só que nunca houve ciência alguma.


O chamado método alquímico era absurdamente lento e complexo, ou extremamente rápido e perigoso, na maioria das vezes, de eficácia zero.Imaginem que você tenha um balão de vidro, com um pouco de líquido dentro, tampado hermeticamente com uma rolha de cortiça, e o coloque em fogo brando, por uma quantidade enorme de tempo.Qualquer estudante secundário sabe que a pressão dos gases liberados pelo aquecimento do líquido será tanta que o balão, eventualmente, explodirá.Isso era extremamente comum nos chamados “laboratórios alquímicos”.Os admiradores da Alquimia como um capítulo importante da história esotérica defenderão com certeza estes acontecimentos como produto de tempos heroicos em que a prática laboratorial não existia e que por serem ainda muito incipientes traziam inevitavelmente o risco e o erro nos procedimentos.Sim, pode ser. Só que praticas alquímicas se arrastaram até o início do século XX, época na qual certos procedimentos não poderiam mais ser atribuídos a ignorância de leis simples quanto ao comportamento dos gases sob aquecimento.É comum entre os seres humanos confundir o monge e seu hábito.Outra coisa. Já se sabiam dos efeitos dos gases submetidos ao calor naquela época. Se falamos em um laboratório semelhante ao que tinha Robert Boyle, irlandês, físico e químico do século XVII, época áurea do movimento alquímico, de forma alguma estamos falando da mesma coisa. Seria como comparar o laboratório do psiquiatra com o do seu paciente esquizofrênico. É de Boyle a lei de Boyle-Mariotte que diz que o volume de um gás varia de acordo com a pressão de forma inversamente proporcional, e as propriedades do ar e do vácuo.Mesmo esse fato sendo conhecido pelos químicos contemporâneos dos alquimistas, (Boyle morreu em 1691) os pesquisadores al-quimicos continuavam a explodir balões em seus “laboratórios”.


Robert Boyle

E agora uma afirmação que fará meus amigos e adversários ficarem embaraçados: na minha opinião, não existia nenhum método alquímico, mas alquimistas que seguiam uma sequência de passos em uma ordem muitas vezes arbitraria, considerando a dificuldade de saber qual seria o método verdadeiro.Se vocês ficaram surpresos com essa afirmação, basta recorrer a uma fonte não muito respeitada ainda, mas cujas elaborações são absolutamente fiéis as fatos, a WIKIPEDIA.

Lá encontramos o seguinte comentário

“Sobre a Interpretação dos textos alquímicos:

A própria palavra "hermético" sugere a dificuldade dos textos dos autores alquímicos.

Esta tem por causas:

1.Os autores se referirem às substâncias e processos por nomes próprios à Alquimia;

2.Haver vários processos (vias) de operação que não são explicitados;

3.A maioria das substâncias serem referidas com perífrases elaboradas;

4.A existência de muitas referências mitológicas e cultas;

5.O uso de palavras que, lidas em voz alta, produzem uma outra

6.O não apresentar partes de processos, referindo o leitor a outro autor;

7.O não apresentar as operações por ordem;

8.O enganar propositadamente o leitor.”(1)

 



Ou seja, estamos falando de uma época em que eram poucos, muito poucos os que sabiam ler, em qualquer língua. E por isso uma época em que os textos, organizados como livros, encadernados e passiveis de serem folheados eram mais raros ainda. Agora, acrescente-se a tudo isso um proposital arranjo de palavras que tornasse de difícil ou impossível interpretação aquilo que estava escrito, a tal ponto que a maioria dos chamados “textos alquímicos” não fossem textos, mas gravuras, símbolos que deveriam ser interpretados pelos que os contemplavam, interpretação esta que deveria trazer o real sentido do que queria ser transmitido.Partindo do princípio óbvio de que um único símbolo pode ter muitas interpretações, dá para imaginar a confusão que resultaria destas múltiplas leituras e contemplações.Mesmo assim, diante de tudo que foi exposto, até hoje vemos textos e mais textos tentando dar a ideia de que a alquimia, que foi um fenômeno tanto chinês, como árabe antes de ser ocidental, era sim um método de trabalho e estudo, muito claro, muito rigoroso e que levava a resultados iguais.




Assim, o estudante neófito lê sobre Nigredo, Rubedo e Albedo, com ou sem a quarta fase do Citrino, como se estivéssemos conversando sobre algo definido. Fala-se da importância do enxofre, do ouro e do mercúrio, da importância da coleta da água do orvalho em certas noites de lua cheia, mas essas coisas todas em uma ordem instável, que mudava ao sabor do autor.O próprio príncipe dos Alquimistas, Nicholas Flamel, escrivão, prestem atenção, copista e vendedor de livros, ou seja, de histórias, de narrativas, necessariamente não comprovadas, dizia em um de seus textos, “O Livro das Figuras Hieroglificas”, que “os termos "bronze", "titânio", "mercúrio", "iodo" e "ouro" e que as metáforas serviriam para confundir leitores indignos.”

 

Nicolas Flamel


Aliás, queria destacar o trecho “…as metáforas serviriam para confundir leitores…”. Se existe um laço entre os vários textos alquímicos, é este, foram feitos, na grande maioria, apenas para confundir, não para esclarecer.Muitos esoteristas, por ingenuidade ou insegurança, ao se depararem com algo que não faz o mínimo sentido, supõem que a falha está neles mesmos, que na verdade é a sua incapacidade interpretativa que os impede de ver o que está atrás daquela muralha sem sentido evidente.Cabe aqui a questão libertadora: E se esses textos incompreensíveis não fizessem nenhum sentido apenas e tão somente por que não tenham mesmo sentido nenhum?E se tudo não passasse de um equívoco? De supor que um arcabouço simbólico, que uma fala mitológica, refletisse não apenas símbolos de valores ou ideias, mas sim aspectos materiais como um equipamento laboratorial específico e práticas inúteis e demoradas que consumiriam dinheiro, tempo e até mesmo a sanidade de quem com elas se envolvesse?A simplicidade de espírito e o pouco arsenal crítico de certos esoteristas é espantoso, e não me refiro aos iniciantes, nem aos nossos contemporâneos, mas a personagens clássicos da literatura esotérica, que influenciaram, por exemplo, o imperator da Rosacruz no século XVII, o chanceler Francis Bacon.



Refiro-me a John Dee, místico e esoterista do século XVI, matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo, que foi ludibriado por um individuo inescrupuloso, que levou-o a práticas indignas alegando ter recebido “ordens angélicas”. O episódio é narrado assim:

“As primeiras tentativas de Dee não foram satisfatórias, mas em 1582 encontrou-se com Edward Kelley, que o impressionou extremamente com suas habilidades. Dee pôs Kelley a seu serviço e começou a devotar todas as suas energias a suas perseguições sobrenaturais. Estas "conferências espirituais" ou as "ações" eram conduzidas sempre após períodos de purificação, de preces e de jejum. Dee foi convencido dos benefícios que eles poderiam trazer à humanidade. (o caráter de Kelley é mais difícil de avaliar: alguns concluíram que agiu com completo cinismo, mas a desilusão ou a decepção consigo mesmo não estão fora de questão). Dee dizia que os anjos lhe ditaram muitos livros desta maneira, alguns em uma espécie de língua angélica ou enochiana.
Em 1583 Dee conheceu o nobre polonês Albert Laski, que convidou-o para lhe acompanhar em seu retorno a Polônia. Através de alguns sinais dos anjos, Dee foi persuadido a ir. 
Dee, Kelley e suas famílias foram para o continente em setembro 1583, mas descobriram que Laski estava falido e aquém dos favores da corte de seu próprio país. Dee e Kelley começaram uma vida nômade na Europa central, mas continuaram suas conferências espirituais, que Dee registrou meticulosamente. Tiveram audiências com o imperador Rodolfo II e com o rei Stefan I da Polonia, e tentaram convencê-los da importância de suas comunicações angélicas. Foram ignorados por ambos.
Durante uma conferência espiritual na Boêmia (que corresponde atualmente a parte da República Tcheca) em 1587, Kelley disse a Dee que o anjo Uriel ordenou que os dois homens compartilhassem suas esposas. Kelley, que nessa época estava se tornando um alquimista proeminente e era muito mais procurado que Dee, pode ter desejado usar isto como uma maneira de acabar com as conferências espirituais. A ordem provocou em Dee uma profunda angústia, mas ele não duvidou de sua autenticidade e aparentemente deixou que ela fosse em frente, mas pouco depois abandonou as conferências e não voltou a ver Kelley.”
Dee era uma autoridade em esoterismo e Alquimia, mas uma criança psicológica.
Acredito que dar importância a Alquimia, como se esta fosse um exercício de ciência prática e não uma tradição simbólica e eminentemente simbólica, seria no mínimo ingênuo.



Não existe densidade metodológica alguma em um procedimento que se baseia em textos os quais seus próprios autores admitem “foram feitos para enganar”.
Para encerrar essas reflexões, queria lembrar minha falecida e divertida mãe. Ela tinha o hábito de relatar pela manhã que havia sonhado algo muito importante. E antes que pudéssemos dizer alguma coisa, começava a descrever uma sequência de imagens desconexas e confusas que obedeciam apenas a logica onírica. Em seguida vinham as suas interpretações, absolutamente arbitrárias, que se baseavam no fato de que seus sonhos eram tão esotéricos que se prestavam a qualquer interpretação, inclusive aquela que ela elegia como verdadeira.
Esse é o problema com o Esoterismo que as vezes é esotérico demais.
Pode ser que não seja um texto obscuro por ser profundo, mas porque internamente não tenha mesmo nenhum sentido a ocultar, a não ser aquele que nossa imaginação e vontade eleja como verdadeiro.
E como na história, esoteristas precisam ter um olhar objetivo e inocente como a criança que, ao contrário de todos na festa, tem uma visão tão livre de pré-conceitos que pode dizer, sem receio de errar: “O Rei está nu.”

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Alquimia

sábado, 16 de outubro de 2021

CORAÇÃO DE ESTUDANTE

 

Por Mario Sales



“Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade”

Do poema de Milton Nascimento e Wagner Tiso

 

Nina é uma nova amiga, soror iniciante na senda lá do Rio de Janeiro. Conversamos esta semana por pelo menos 3 hs, sem vídeo, explorando suas dúvidas acerca de vários temas e aspectos do esoterismo.

Lá pelas tantas, a soror questiona como é possível superar o coração de neófito e avançar no amadurecimento espiritual.

Milton Nascimento

Interessante questão, que eu discutiria com mais dois amigos 4 dias depois.

Opinei que não existe tal coisa como “um coração de neófito”, mas sim uma “cabeça de neófito”, com suas dúvidas habituais, incertezas e hesitações.

A razão, que nos ajuda em vários momentos, em outros nos bloqueia e nos faz tropeçar. Nesses momentos a razão, nossa cabeça, como sempre digo, não merece confiança.

Dúvidas sobre a senda, sobre decisões de ordem pessoal ou profissional, insegurança quanto a ir para lá ou para cá, essas são situações provocadas e mantidas pela razão, não pelo coração.

Talvez por causa do esforço iluminista no século XVIII, na tentativa de libertar o homem de uma vida supersticiosa e atada de forma angustiante à religião, a emoção tenha sido relegada ao plano das características do comportamento que precisavam ser postas sob a redoma do bom senso.

Como se isso fosse possível.

Uma reação a esse racionalismo excessivo foi praticamente imediata, com o advento do romantismo na literatura do século XIX, romantismo aqui como rebeldia específica ao cientificismo excessivo, numa demonstração clara de não aceitação da razão como única gerenciadora de todos os nossos comportamentos.

Na história da filosofia, (campo de saber que se inicia com os Jônios, na Grécia), este ir e vir da emoção como virtude ou vicio sempre aconteceu, principalmente quando, injustamente, associava-se a emoção apenas à um fenômeno romântico sexual, momento de perda da moderação e do bom senso.

A emoção era vista apenas como sinônimo da paixão, o páthos, a doença que envergonhava os homens gregos e lhes retirava a capacidade de manter seu autocontrole.



 Alcebíades chegando ao Banquete


No “Symposium”, ou “O Banquete”, diálogo famoso de Platão, a entrada de Alcebíades, apaixonado e bêbado marca a chegada do Caos emocional a um ambiente que, até aquele momento, primava pela moderação e por belos discursos acerca do tema, o Amor.

Ali se inicia o conceito de oposição entre a loucura do sentimento e o equilíbrio do ser intelectual e racional. Essas duas correntes, uma que faz um elogio daquilo que é racional e outra, que paradoxalmente, com argumentos racionais, defende a importância da emoção, seguem ao longo dos séculos debatendo e se hostilizando, em certos momentos.

Aos poucos fica claro que a emoção não é apenas e tão somente, o veículo do desejo sexual ou da ligação entre amantes. Ela é, como mostra Jean Jacques Rousseau, a área da sensibilidade, que muitas vezes nos surpreende com certezas inexplicáveis acerca de assuntos que a razão não consegue dar conta, seja pela profundidade do tema, seja com a velocidade que a emoção trabalha.

Jean Jacques Rousseau


Blaise Pascal, filósofo, físico, inventor, teólogo, e matemático francês talvez tenha sintetizado melhor que ninguém o assunto ao dizer que "O coração tem razões que a própria razão desconhece".

Blaise Pascal




Para os místicos, a importância da sensibilidade cardíaca é indubitável.

Por isso respondi para a soror que não existe tal coisa como coração de neófito, apenas cabeças de neófito.

São as crenças e as convicções acerca da vida, do mundo e de nós mesmos que nos tolhem a liberdade e a velocidade na evolução espiritual.

O coração romântico nada tem a ver com o coração que sente a vida em vez de pensá-la.

A paixão romântica, o páthos, a doença da alma, é tão intensa e perturbadora porque está em ressonância com a ânsia da vida por si mesma. Para a natureza, diz a biologia, a única função da paixão é levar a procriação, a continuação da existência das raças, não só a nossa, mas todas as raças sexuadas, de abelhas aos cães, do louva deus aos seres humanos.

A força do desejo, diz a Cabalá, da busca dos amantes uns pelos outros, não reflete carinho de um pelo outro, como supõem os ingênuos apaixonados, mas necessidade de aumentar, pela geração de novos seres, o número de corpos disponíveis para as almas que querem evoluir.




Este, entretanto, é apenas um dos níveis em que a força de vida que nos atravessa incessantemente, trabalha.

A alma tem cinco níveis e este é o mais básico, Nefesh, o nível do instinto, nem por isso menos sagrado.

Spencer Lewis lembrava que “todos os instintos foram colocados em nós por Deus. Portanto, todos os instintos são sagrados”.

É a mesma onda de vida, o mesmo fluxo, que nos conecta com toda a criação, e que nos faz sensíveis a conhecimentos que não estão em nós, mas que podemos acessar por esta conexão, da mesma maneira que os indivíduos que vemos na tela da tv não estão dentro do aparelho, mas extremamente longe dali, e o que ocorra é que este aparelho nos coloca em sintonia com as ondas projetadas do estúdio de origem daquelas cenas.

Pode-se dizer então que graças ao coração e sua ligação com o fluxo da vida, vemos coisas sem os olhos e sabemos de coisas sem conhecê-las.

Todos os dias, pelo noticiário televisivo, vamos a Paris, Moscou, Londres ou Washington sem ter que pisar nessas cidades.

Pela sensibilidade cardíaca estamos aqui e em Andromeda sem nunca termos saído do planeta.

E isto cria, com um material que é recebido, mas o cérebro é incapaz de processar, o que os pensadores do século passado classificaram de espaço subconsciente e que Jung, corretamente, identificou não como um manancial de doenças e recalques, como pensava Freud, mas um deposito de informações infinito, como a plataforma GOOGLE na Internet.

Nesse mar de possibilidades e dados, podemos navegar e dele extrair informações úteis acerca de quaisquer assuntos que possamos imaginar. Nossa razão, entretanto, não conseguirá decodificar coisas que não compreende por lhe faltarem as condições básicas de compreensibilidade, e tudo será transformado em impressões imprecisas, oníricas muitas vezes, já que no sonho tudo é permitido.

A razão é como um filtro para esta massa de dados que nos chega pela sensibilidade do coração. O filtro limita nossas possibilidades de acesso ao que nos chega e nossa consciência desse material só aumentará quando nossa razão for modulada para filtrar menos o fluxo que nos atravessa.

Esta complacência aumentada ao fluxo, que alarga os orifícios dos filtros, tem que ser gradual, ou a intensidade do fluxo poderia causar desconforto ao nosso sistema nervoso, ou mesmo desequilibrá-lo.

Sabemos muito, mas conscientizamos apenas aquilo que nosso cérebro consegue suportar.

Nossas limitações são neurológicas portanto, e é isso que faz com que nossa cabeça precise de tempo e esforço para estar apta a processar o conjunto gigantesco de dados que a sensibilidade nos traz.

Nossos corações são, portanto, nossa conexão com a sabedoria universal. Todos os corações são corações de mestre, nunca de neófito. Já a cabeça sempre será de neófito, nunca de mestre, já que pensa e, pensando, supõe-se a autora das coisas que apenas recebeu de outras fontes.

Somos, pois, seres conectados a uma vasta rede, da qual alguns de nós nem suspeitam a existência.

Outros saberão que ela existe, mas não sabem como acessá-la.

E existem aqueles que sabem acessá-la, parcialmente, enquanto os mais sábios assumem o papel de meros retransmissores desta rede, desaparecendo como indivíduos e ressurgindo como terminais de recepção.

Estes são os fatos.

Não existem, pois, como na canção, corações de estudante, mas somente, corações de mestres.

É isto que chamamos, no jargão da rosacruz, o Mestre Interior.



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

MESTRES

 

Por Mario Sales

 



Maravilhoso.

Este é o adjetivo adequado ao trabalho em pool de quatro lojas e um Capítulo Rosacruz, que de tão ativo deveria ser também uma Loja.

Deus me perdoe dizer isso, mas não fosse a pandemia não teríamos percebido o potencial de trabalhar em encontros on-line, unindo rosacruzes de diversas regiões do país e finalmente, integrando em ambiente fraterno em torno de reflexões comuns tantos buscadores sinceros e dedicados.

E se existem várias pessoas que podem ser citadas com palavras elogiosas, para não ser injusto, concentrarei minha homenagem nos mestres desses organismos, como o nome diz, os maiores servidores destes corpos afiliados.

Soror Gabriela Amparo, mestra do Capítulo Mogi das Cruzes; Frater Alessander Palma, mestre da Loja Florianópolis; Soror Jo Buran, mestra auxiliar da Loja Guarulhos; Frater Rodrigo Marinho, mestre da dinâmica Loja Recife, PE; Frater Paulo Pinheiro, abnegado mestre da Loja Curitiba; e a imprescindível Lourdes Lescano, patrimônio incalculável da Loja Guarulhos e AMORC-Brasil, no papel de Mestra de Cerimônias destes muitos eventos.

Todos os citados se encaixam na categoria de servidores da AMORC. E esta categoria é a mais comum entre nós. A fraternidade se sustenta neste trabalho discreto, anônimo, silencioso, somatório de muitas mentes e braços que se articulam como se fossem um só ser humano, uma só alma.

Nunca falamos disso, talvez por receio da vaidade, um dos mais poderosos demônios que nos combatem; mas cedo a tentação desta vez de tecer elogios a estes elementos fundamentais ao funcionamento e a existência desta que é a nossa casa, a nossa escola.

É prazeroso ver a alegria e a leveza com que esses mestres desempenham seu papel, sentindo-se recompensados pelo ato de produzir condições propicias ao compartilhamento do conhecimento e, quando pela graça de Deus é permitido, de sabedoria e espiritualidade entre todos os nossos membros.

Não esperam aplausos ou palavras de agradecimento. Sentem-se, de forma sincera, embaraçados quando isso ocorre. Sua paga é ver seus esforços sendo recompensados por eventos bem-sucedidos, testemunhando, de maneira inequívoca, a expansão da luz, como dizemos.

Eu conheci muitos servidores silenciosos, ao longo desses quarenta e oito anos de filiação.

Muitos já não estão neste plano. Pessoas da maior nobreza e dignidade, os quais, cada um a seu modo, considerando suas habilidades, fizeram a transição sem que recebessem nenhum galardão especial.

E nem por isso seu serviço teve menor importância ou menor valor estratégico.

A começar pela minha iniciadora, Angelica Stengel Colle, a responsável pela doação dos terrenos aonde está situada a Grande Loja, em Curitiba, cujo nome, curiosamente, não é citado no corpo do livro Historia da AMORC no Brasil, (fala-se em "familia Colle", e não em Angélica) texto fundamental para acompanhar o crescimento da fraternidade em nosso país.

Exemplos de colaboradores desconhecidos, no entanto, são muitos. E isso é o que nos mantém vivos enquanto instituição e organização.

Não podendo reverenciar um por um, deste momento histórico e de outros períodos, dirijo meus elogios e cumprimentos a estes seis mestres, que formam uma versão viva da estrela de Salomão, os dois triângulos que fundem o que está em cima com o que está em baixo.

Que seu trabalho continue abençoado.

Feliz a confraria que tem servidores deste calibre.

Feliz a Ordem que conta com colaboradores de nível espiritual tão alto e refinado.

domingo, 10 de outubro de 2021

PECULIARIDADES

 Por Mario Sales FRC

 

Não confunda compreensão com um vocabulário mais amplo. Os escritos sagrados são benéficos para estimular o desejo de realização interior, se uma estrofe de cada vez for assimilada lentamente. Caso contrário, o estudo intelectual contínuo pode resultar em vaidade, falsa satisfação e conhecimento não digerido.

Sri Swami Yukteswar Giri,

"Autobiografia de um Iogue Contemporâneo" de Paramahansa Yogaananda

Sociedade Histórica da Pensilvânia, Filadelfia

Na Sociedade Histórica Da Pensilvânia existe uma carta, entre outras, de Sir Isaac Newton (25 de dezembro de 1642 [calendário juliano] ou 4 de janeiro de 1643 no [calendário gregoriano] — Kensington, 20 de março de 1727  [calendário juliano] ou 31 de março de 1727 [calendário gregoriano]) para Robert Hooke, (18 de julho de 1635 — 3 de março de 1703) cientista experimental inglês do século XVII, seu adversário científico.

Nela, Newton cita uma frase de Bernardo de Chartres, filosofo platônico do século XII. A frase em questão é “se vi mais longe é porque estava nos ombros de gigantes”, (nanos gigantum humeris insidentes) numa alusão ao conceito de “descobrir a verdade a partir de descobertas anteriores. Não se trata de modo algum de uma citação vulgar. É talvez o mais importante conceito do trabalho científico.

Isaac Newton, físico e rosacruz

A ciência, como todos sabem, é a busca pelo esclarecimento das causas dos fenômenos naturais, perceptíveis ou não, muitas vezes, causas estas contrárias às percepções do senso comum.

De qualquer forma a ciência ortodoxa trabalha com o mundo manifesto. A ciência não lida com conceitos inefáveis ou espirituais. Não é sua função.

Tais investigações de natureza mais íntima são do campo do misticismo.

E por que faço esta distinção?

Já chego lá.

Vamos, didaticamente, acompanhar uma metáfora.

Robert Hooke


Imaginem um praticante de esportes de competição. Um atleta de corridas com obstáculos.

Com certeza será treinado desde muito jovem, logo se perceba nele tendencia e talento para esse tipo de disputa. Terá um técnico, alguém que lhe ensinará as técnicas e métodos necessários ao aprimoramento de seu desempenho; entretanto, o papel do técnico terminará aí.

No dia da competição, e mesmo durante os treinamentos, a solidão do atleta, onde ele tem apenas a companhia de seu próprio corpo, será total.

 


Bernardo de Chartres

 

Seu sucesso vai depender do seu esforço e disciplina pessoais e das condições em que estiver no dia da disputa.

Tudo que seu técnico poderá fazer na hora da competição será sentar-se, observar e torcer para que nada dê errado durante o evento. Não terá, no entanto, maneira nenhuma de interferir durante o desafio de seu pupilo pois neste momento, como foi dito, a solidão do competidor é absoluta e indiscutível.

Ao contrário do atleta solitário, em ciência e na cultura em geral, nós somos muitos, ao mesmo tempo. Precisamos uns dos outros todo o tempo, como fontes de informação ou de inspiração para o nosso próprio trabalho. Não existe solidão intelectual, solidão teórica.


Microscópio de Hooke


Somos, enquanto pesquisadores, como disse o filosofo Bernardo de Chartres, “anões nos ombros de gigantes”. Se isso vale para a literatura, para a ciência vale mais ainda, pois fazer ciência é acumular dados e evidencias empíricas e matemáticas que fortaleçam convicções antes baseadas apenas em especulação. A ciência não é uma experiencia solitária. Precisamos dos relatos dos acertos e dos erros daqueles que nos precederam e por isso os pesquisadores não são insubstituíveis, mas as suas anotações estas sim, são fundamentais. Até onde um for, antes de passar pela transição, se anotou seus passos e experimentos, poderá ser o ponto de partida daquele que vier depois.



 E é exatamente assim que a ciência, historicamente, tem avançado, num esforço coletivo, constante, de expansão do conhecimento a partir do trabalho, e do registro em anotações ou vídeo deste trabalho daqueles que nos precederam.

O cientista, assim como o intelectual, não conhece nem pode conhecer a solidão do atleta. Ao contrário do atleta que vive do aqui e do agora, do momento da glória ou do fracasso conseguido a duras penas e em função tanto de seu talento e esforço como de circunstâncias às vezes imprevisíveis, cientista e intelectual conversam com vivos e mortos, através dos textos, a herança de nossa cultura.

Esta metáfora visa estabelecer um paralelo entre a prática esotérica e a prática mística.

Quem me acompanha aqui no blog sabe que faço distinção entre estas duas coisas, dando ao termo esoterismo o significado de prática intelectual de consulta e leitura de textos antigos da tradição, e para misticismo reservo o significado de busca solitária do Deus interior.

Se muitas vezes o misticismo bebe do esoterismo, em nenhum momento se confundem.

Posso agora dizer que o esoterista é como o cientista, pois precisa dos textos anteriores para compreender outros textos, mas o místico é como o atleta, que está completamente só em seu esforço pessoal de busca íntima.

Ao contrário do esoterista que pode discutir com outros esoteristas o significado deste ou daquele trecho do livro que estuda, a busca mística é pessoal e intransferível e mesmo aqueles entre nós, místicos, que já receberam a bênção de ter um mestre pessoal, um Adepto, que o tenha aceitado como discípulo, sabem que o esforço pessoal é única e exclusivamente responsabilidade do discípulo e o Mestre só pode torcer para que ele, seu discípulo, seja bem-sucedido em seus desafios.

 



A nenhum Mestre verdadeiro é permitido interferir no desempenho de seus chelas, sob pena de enfraquecê-lo e impedir que este desenvolva as habilidades que aquele desafio lhe proporcionará.

Se alguém, generosamente, quiser descrever suas sensações e impressões acerca de sua busca pessoal e solitária pela iluminação, o fará no intuito de dar um depoimento sobre aspectos absolutamente particulares que serão específicos de sua própria existência.

A cada místico, em cada encarnação, caberá uma história de vida peculiar. Místicos não são produzidos em série. São absolutamente diferentes uns dos outros, seguem diferentes tradições, tem diferentes cor de pele, hábitos, idiomas e forma física. Alguns usam ternos, outros andam seminus. Uns são magros, outros obesos.

A única coisa que os une é a sede de Deus, a fome pela iluminação, e a solidão em que realizam essa busca ininterrupta, vida após vida.

Como eu disse acima, o sucesso ou o fracasso do místico, como o do atleta, dependem de treino, talento, mas também de circunstâncias nem sempre previsíveis, que ao fim e ao cabo representarão também testes de aperfeiçoamento e fortalecimento do buscador.

Dito isso, podemos entender que existem textos esotéricos e textos místicos.

Textos esotéricos são, sim, baseados em outros textos. São interpretações ou variações de documentos mais antigos sobre os quais o esoterista meditou.

Já textos místicos são depoimentos, narrativas de caráter pessoal, mas que serão compreendidas por aqueles que também estão na mesma senda e que buscam o Cálice Sagrado pelas mesmas veredas, solitária e diligentemente.

Textos místicos, ao contrário dos esotéricos, são, sempre, totalmente originais, como a vida daqueles que os inspiram, pois relatam experiencias de vidas que jamais se repetirão, que não poderiam se repetir já que dizem respeito apenas e tão somente aquele que faz o relato.

Nesse viés, Cristo não era cristão, Buda não era budista, e nem Maomé era Maometano.

Esses homens eram místicos que compartilharam experiencias pessoais. É apenas depois deles que surgem os esoteristas, comentando, por páginas e páginas, o provável significado dos atos e palavras daqueles iluminados.

Portanto, Místicos não podem ser compreendidos a partir dos livros que leram, nem da bibliografia que consultaram porque eles trazem um olhar original sobre tudo que foi escrito antes. No caso do Cristo, falamos do messias profetizado no Velho Testamento e, depois dele, na Última Ceia, criou-se uma “nova e eterna aliança”, que atualizou a anterior e modificou, de tal modo, a perspectiva do Divino, que foi criado um Novo Testamento.

O Cristianismo, o Budismo, o Islamismo e mesmo o Judaísmo, não estão nos seus livros, mas na sua vivência. Viver uma experiencia mística é algo peculiar e solitário como a competição de um atleta em uma corrida de obstáculos.

Se alguém quiser entender um texto místico, leia-o e medite em silencio sobre ele. Não tente dissecá-lo pois dissecar um ser vivo pressupõe matá-lo, antes de qualquer coisa.

Absorva-o em seu espírito e deixe que decante em sua alma. Não o digira, como faríamos com um alimento solido. Respire-o, inale-o, como fazemos com a fonte de toda a vida, o NOUS.

E não se preocupe em compreendê-lo com sua cabeça, mas com seu coração; nem tente dirigir a energia para aqui ou para lá, pois a energia vai para onde precisa ir.

Tudo isso faremos de modo solitário e pessoal.

Cada um respira do seu jeito.

Esta é a essência da vida: sempre igual, mas sempre diferente e peculiar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

QUEREMOS SABER

  

Por Mario Sales, FRC


ilustração referente ao texto de Carl Sagan 
chamado "Um Dragão na minha Garagem"

 

Certas coisas sabemos; outras, não.

Saber é conhecer com clareza e distinção aquilo que é conhecido. Não há necessidades de algum tipo de crença especial em algo que sabemos, porque saber é a ausência de dúvida acerca do que se sabe.

Assim, sabemos que um triangulo tem três lados, ou que um quadrado tem quatro.

Isto não depende de fé, mas de compreensão intelectual.

O mundo esotérico, por natureza, conduz-se em um jogo de velar e desvelar. De esconder alguma coisa que em princípio alguém, outra pessoa, quer descobrir.

O mundo esotérico, infelizmente, equivoca-se acerca de sua própria importância, fazem alguns séculos.

Um trauma que remonta ao período da inquisição, da perseguição a cientistas, belas mulheres e livres pensadores. Tudo isso passou, mas o trauma permaneceu. O esoterismo ainda se comporta como se muitos tivessem o único objetivo na vida de descobrir o que os ocultistas dizem ocultar.

E digo “dizem” por que em realidade, como já discuti em outro ensaio, “Crenças e Fatos”, não existem evidências abundantes das afirmações feitas nos livros esotéricos.

O esoterismo, no jogo dos saberes, não mostra suas cartas alegando que não pode fazê-lo, quando ao fim e ao cabo, ninguém, ou muito poucos, estão interessados em vê-las. Lembro a frase de Gerard Encausse, Pappus:

“Jogue nas mãos de um profano um texto esotérico. Ele, displicentemente, não o lerá. Se o ler, não o compreenderá. E se compreender, não acreditará.”

O ensino esotérico como preconizado por Spencer Lewis, baseado em experimentos de confirmação, no domínio de certas técnicas didaticamente ofertadas aos que as estudam, em monografias simples e diretas, foi aos poucos relegado a um plano secundário, e a ênfase em crenças e reflexões éticas aumentou.

As técnicas estão lá, os “experimentos”, ou visualizações mentais, ainda estão lá; mas salvo engano, corrijam-me se eu estiver equivocado, são tratadas hoje em dia como práticas não positivistas, mas exercícios de fortalecimento da fé.

Nessa hora, ficamos muito parecidos com uma religião, o que não somos, nem nunca fomos.

Dito isto, reitero meu pedido de alguns anos.

Em relação ao conhecimento esotérico, precisamos revisar nossos métodos didáticos e retomar a busca positivista de evidências de nossas afirmações.

Precisamos, antes de tudo, fazer um levantamento de nossos telepatas, de nossos telecinéticos, de nossos terapeutas. Precisamos recensear entre nós quais tem maior habilidade em projeções astrais, quais têm sonhos proféticos. Esses indivíduos devem ser convocados a discutir suas habilidades com seus colegas afins (fratres e sorores) que tenham habilidades semelhantes, de forma a construir um conhecimento comum e organizar meios de distribuir as informações práticas referentes a esses dons.

Temos condições, hoje, de fazer seminários virtuais acerca desses assuntos.

Temos também possibilidade de realmente saber quem, entre nós, domina e conhece tais habilidades e pode ensinar como fazê-lo.

Lemos frequentemente sobre feitos que nunca testemunhamos. Vivemos uma época de narrativas, como aqueles descritos na Doutrina Secreta, os quais Blavatsky chama de “fatos”, dos quais, entretanto, não dá nenhuma demonstração ou suporte empírico.

Lembro-me, que li em uma monografia, que durante uma simples convenção rosacruz, Spencer Lewis levitou no palco enquanto afirmava não estar em nenhum tipo de transe, demonstrando, para todos os presentes, suas afirmações.

Eu sigo seus passos.

Anseio que a Ordem recupere seu caráter positivista que a distingue no mundo esotérico.

Pelo menos para que nós, iniciados, possamos lidar com um saber constituído de solidas bases, e não de convicções que dependam de crença ou da fé.

Queremos saber, não crer, para citar Carl Sagan.

Não acho que seja pedir muito.