Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

sábado, 16 de outubro de 2021

CORAÇÃO DE ESTUDANTE

 

Por Mario Sales



“Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade”

Do poema de Milton Nascimento e Wagner Tiso

 

Nina é uma nova amiga, soror iniciante na senda lá do Rio de Janeiro. Conversamos esta semana por pelo menos 3 hs, sem vídeo, explorando suas dúvidas acerca de vários temas e aspectos do esoterismo.

Lá pelas tantas, a soror questiona como é possível superar o coração de neófito e avançar no amadurecimento espiritual.

Milton Nascimento

Interessante questão, que eu discutiria com mais dois amigos 4 dias depois.

Opinei que não existe tal coisa como “um coração de neófito”, mas sim uma “cabeça de neófito”, com suas dúvidas habituais, incertezas e hesitações.

A razão, que nos ajuda em vários momentos, em outros nos bloqueia e nos faz tropeçar. Nesses momentos a razão, nossa cabeça, como sempre digo, não merece confiança.

Dúvidas sobre a senda, sobre decisões de ordem pessoal ou profissional, insegurança quanto a ir para lá ou para cá, essas são situações provocadas e mantidas pela razão, não pelo coração.

Talvez por causa do esforço iluminista no século XVIII, na tentativa de libertar o homem de uma vida supersticiosa e atada de forma angustiante à religião, a emoção tenha sido relegada ao plano das características do comportamento que precisavam ser postas sob a redoma do bom senso.

Como se isso fosse possível.

Uma reação a esse racionalismo excessivo foi praticamente imediata, com o advento do romantismo na literatura do século XIX, romantismo aqui como rebeldia específica ao cientificismo excessivo, numa demonstração clara de não aceitação da razão como única gerenciadora de todos os nossos comportamentos.

Na história da filosofia, (campo de saber que se inicia com os Jônios, na Grécia), este ir e vir da emoção como virtude ou vicio sempre aconteceu, principalmente quando, injustamente, associava-se a emoção apenas à um fenômeno romântico sexual, momento de perda da moderação e do bom senso.

A emoção era vista apenas como sinônimo da paixão, o páthos, a doença que envergonhava os homens gregos e lhes retirava a capacidade de manter seu autocontrole.



 Alcebíades chegando ao Banquete


No “Symposium”, ou “O Banquete”, diálogo famoso de Platão, a entrada de Alcebíades, apaixonado e bêbado marca a chegada do Caos emocional a um ambiente que, até aquele momento, primava pela moderação e por belos discursos acerca do tema, o Amor.

Ali se inicia o conceito de oposição entre a loucura do sentimento e o equilíbrio do ser intelectual e racional. Essas duas correntes, uma que faz um elogio daquilo que é racional e outra, que paradoxalmente, com argumentos racionais, defende a importância da emoção, seguem ao longo dos séculos debatendo e se hostilizando, em certos momentos.

Aos poucos fica claro que a emoção não é apenas e tão somente, o veículo do desejo sexual ou da ligação entre amantes. Ela é, como mostra Jean Jacques Rousseau, a área da sensibilidade, que muitas vezes nos surpreende com certezas inexplicáveis acerca de assuntos que a razão não consegue dar conta, seja pela profundidade do tema, seja com a velocidade que a emoção trabalha.

Jean Jacques Rousseau


Blaise Pascal, filósofo, físico, inventor, teólogo, e matemático francês talvez tenha sintetizado melhor que ninguém o assunto ao dizer que "O coração tem razões que a própria razão desconhece".

Blaise Pascal




Para os místicos, a importância da sensibilidade cardíaca é indubitável.

Por isso respondi para a soror que não existe tal coisa como coração de neófito, apenas cabeças de neófito.

São as crenças e as convicções acerca da vida, do mundo e de nós mesmos que nos tolhem a liberdade e a velocidade na evolução espiritual.

O coração romântico nada tem a ver com o coração que sente a vida em vez de pensá-la.

A paixão romântica, o páthos, a doença da alma, é tão intensa e perturbadora porque está em ressonância com a ânsia da vida por si mesma. Para a natureza, diz a biologia, a única função da paixão é levar a procriação, a continuação da existência das raças, não só a nossa, mas todas as raças sexuadas, de abelhas aos cães, do louva deus aos seres humanos.

A força do desejo, diz a Cabalá, da busca dos amantes uns pelos outros, não reflete carinho de um pelo outro, como supõem os ingênuos apaixonados, mas necessidade de aumentar, pela geração de novos seres, o número de corpos disponíveis para as almas que querem evoluir.




Este, entretanto, é apenas um dos níveis em que a força de vida que nos atravessa incessantemente, trabalha.

A alma tem cinco níveis e este é o mais básico, Nefesh, o nível do instinto, nem por isso menos sagrado.

Spencer Lewis lembrava que “todos os instintos foram colocados em nós por Deus. Portanto, todos os instintos são sagrados”.

É a mesma onda de vida, o mesmo fluxo, que nos conecta com toda a criação, e que nos faz sensíveis a conhecimentos que não estão em nós, mas que podemos acessar por esta conexão, da mesma maneira que os indivíduos que vemos na tela da tv não estão dentro do aparelho, mas extremamente longe dali, e o que ocorra é que este aparelho nos coloca em sintonia com as ondas projetadas do estúdio de origem daquelas cenas.

Pode-se dizer então que graças ao coração e sua ligação com o fluxo da vida, vemos coisas sem os olhos e sabemos de coisas sem conhecê-las.

Todos os dias, pelo noticiário televisivo, vamos a Paris, Moscou, Londres ou Washington sem ter que pisar nessas cidades.

Pela sensibilidade cardíaca estamos aqui e em Andromeda sem nunca termos saído do planeta.

E isto cria, com um material que é recebido, mas o cérebro é incapaz de processar, o que os pensadores do século passado classificaram de espaço subconsciente e que Jung, corretamente, identificou não como um manancial de doenças e recalques, como pensava Freud, mas um deposito de informações infinito, como a plataforma GOOGLE na Internet.

Nesse mar de possibilidades e dados, podemos navegar e dele extrair informações úteis acerca de quaisquer assuntos que possamos imaginar. Nossa razão, entretanto, não conseguirá decodificar coisas que não compreende por lhe faltarem as condições básicas de compreensibilidade, e tudo será transformado em impressões imprecisas, oníricas muitas vezes, já que no sonho tudo é permitido.

A razão é como um filtro para esta massa de dados que nos chega pela sensibilidade do coração. O filtro limita nossas possibilidades de acesso ao que nos chega e nossa consciência desse material só aumentará quando nossa razão for modulada para filtrar menos o fluxo que nos atravessa.

Esta complacência aumentada ao fluxo, que alarga os orifícios dos filtros, tem que ser gradual, ou a intensidade do fluxo poderia causar desconforto ao nosso sistema nervoso, ou mesmo desequilibrá-lo.

Sabemos muito, mas conscientizamos apenas aquilo que nosso cérebro consegue suportar.

Nossas limitações são neurológicas portanto, e é isso que faz com que nossa cabeça precise de tempo e esforço para estar apta a processar o conjunto gigantesco de dados que a sensibilidade nos traz.

Nossos corações são, portanto, nossa conexão com a sabedoria universal. Todos os corações são corações de mestre, nunca de neófito. Já a cabeça sempre será de neófito, nunca de mestre, já que pensa e, pensando, supõe-se a autora das coisas que apenas recebeu de outras fontes.

Somos, pois, seres conectados a uma vasta rede, da qual alguns de nós nem suspeitam a existência.

Outros saberão que ela existe, mas não sabem como acessá-la.

E existem aqueles que sabem acessá-la, parcialmente, enquanto os mais sábios assumem o papel de meros retransmissores desta rede, desaparecendo como indivíduos e ressurgindo como terminais de recepção.

Estes são os fatos.

Não existem, pois, como na canção, corações de estudante, mas somente, corações de mestres.

É isto que chamamos, no jargão da rosacruz, o Mestre Interior.



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

MESTRES

 

Por Mario Sales

 



Maravilhoso.

Este é o adjetivo adequado ao trabalho em pool de quatro lojas e um Capítulo Rosacruz, que de tão ativo deveria ser também uma Loja.

Deus me perdoe dizer isso, mas não fosse a pandemia não teríamos percebido o potencial de trabalhar em encontros on-line, unindo rosacruzes de diversas regiões do país e finalmente, integrando em ambiente fraterno em torno de reflexões comuns tantos buscadores sinceros e dedicados.

E se existem várias pessoas que podem ser citadas com palavras elogiosas, para não ser injusto, concentrarei minha homenagem nos mestres desses organismos, como o nome diz, os maiores servidores destes corpos afiliados.

Soror Gabriela Amparo, mestra do Capítulo Mogi das Cruzes; Frater Alessander Palma, mestre da Loja Florianópolis; Soror Jo Buran, mestra auxiliar da Loja Guarulhos; Frater Rodrigo Marinho, mestre da dinâmica Loja Recife, PE; Frater Paulo Pinheiro, abnegado mestre da Loja Curitiba; e a imprescindível Lourdes Lescano, patrimônio incalculável da Loja Guarulhos e AMORC-Brasil, no papel de Mestra de Cerimônias destes muitos eventos.

Todos os citados se encaixam na categoria de servidores da AMORC. E esta categoria é a mais comum entre nós. A fraternidade se sustenta neste trabalho discreto, anônimo, silencioso, somatório de muitas mentes e braços que se articulam como se fossem um só ser humano, uma só alma.

Nunca falamos disso, talvez por receio da vaidade, um dos mais poderosos demônios que nos combatem; mas cedo a tentação desta vez de tecer elogios a estes elementos fundamentais ao funcionamento e a existência desta que é a nossa casa, a nossa escola.

É prazeroso ver a alegria e a leveza com que esses mestres desempenham seu papel, sentindo-se recompensados pelo ato de produzir condições propicias ao compartilhamento do conhecimento e, quando pela graça de Deus é permitido, de sabedoria e espiritualidade entre todos os nossos membros.

Não esperam aplausos ou palavras de agradecimento. Sentem-se, de forma sincera, embaraçados quando isso ocorre. Sua paga é ver seus esforços sendo recompensados por eventos bem-sucedidos, testemunhando, de maneira inequívoca, a expansão da luz, como dizemos.

Eu conheci muitos servidores silenciosos, ao longo desses quarenta e oito anos de filiação.

Muitos já não estão neste plano. Pessoas da maior nobreza e dignidade, os quais, cada um a seu modo, considerando suas habilidades, fizeram a transição sem que recebessem nenhum galardão especial.

E nem por isso seu serviço teve menor importância ou menor valor estratégico.

A começar pela minha iniciadora, Angelica Stengel Colle, a responsável pela doação dos terrenos aonde está situada a Grande Loja, em Curitiba, cujo nome, curiosamente, não é citado no corpo do livro Historia da AMORC no Brasil, (fala-se em "familia Colle", e não em Angélica) texto fundamental para acompanhar o crescimento da fraternidade em nosso país.

Exemplos de colaboradores desconhecidos, no entanto, são muitos. E isso é o que nos mantém vivos enquanto instituição e organização.

Não podendo reverenciar um por um, deste momento histórico e de outros períodos, dirijo meus elogios e cumprimentos a estes seis mestres, que formam uma versão viva da estrela de Salomão, os dois triângulos que fundem o que está em cima com o que está em baixo.

Que seu trabalho continue abençoado.

Feliz a confraria que tem servidores deste calibre.

Feliz a Ordem que conta com colaboradores de nível espiritual tão alto e refinado.

domingo, 10 de outubro de 2021

PECULIARIDADES

 Por Mario Sales FRC

 

Não confunda compreensão com um vocabulário mais amplo. Os escritos sagrados são benéficos para estimular o desejo de realização interior, se uma estrofe de cada vez for assimilada lentamente. Caso contrário, o estudo intelectual contínuo pode resultar em vaidade, falsa satisfação e conhecimento não digerido.

Sri Swami Yukteswar Giri,

"Autobiografia de um Iogue Contemporâneo" de Paramahansa Yogaananda

Sociedade Histórica da Pensilvânia, Filadelfia

Na Sociedade Histórica Da Pensilvânia existe uma carta, entre outras, de Sir Isaac Newton (25 de dezembro de 1642 [calendário juliano] ou 4 de janeiro de 1643 no [calendário gregoriano] — Kensington, 20 de março de 1727  [calendário juliano] ou 31 de março de 1727 [calendário gregoriano]) para Robert Hooke, (18 de julho de 1635 — 3 de março de 1703) cientista experimental inglês do século XVII, seu adversário científico.

Nela, Newton cita uma frase de Bernardo de Chartres, filosofo platônico do século XII. A frase em questão é “se vi mais longe é porque estava nos ombros de gigantes”, (nanos gigantum humeris insidentes) numa alusão ao conceito de “descobrir a verdade a partir de descobertas anteriores. Não se trata de modo algum de uma citação vulgar. É talvez o mais importante conceito do trabalho científico.

Isaac Newton, físico e rosacruz

A ciência, como todos sabem, é a busca pelo esclarecimento das causas dos fenômenos naturais, perceptíveis ou não, muitas vezes, causas estas contrárias às percepções do senso comum.

De qualquer forma a ciência ortodoxa trabalha com o mundo manifesto. A ciência não lida com conceitos inefáveis ou espirituais. Não é sua função.

Tais investigações de natureza mais íntima são do campo do misticismo.

E por que faço esta distinção?

Já chego lá.

Vamos, didaticamente, acompanhar uma metáfora.

Robert Hooke


Imaginem um praticante de esportes de competição. Um atleta de corridas com obstáculos.

Com certeza será treinado desde muito jovem, logo se perceba nele tendencia e talento para esse tipo de disputa. Terá um técnico, alguém que lhe ensinará as técnicas e métodos necessários ao aprimoramento de seu desempenho; entretanto, o papel do técnico terminará aí.

No dia da competição, e mesmo durante os treinamentos, a solidão do atleta, onde ele tem apenas a companhia de seu próprio corpo, será total.

 


Bernardo de Chartres

 

Seu sucesso vai depender do seu esforço e disciplina pessoais e das condições em que estiver no dia da disputa.

Tudo que seu técnico poderá fazer na hora da competição será sentar-se, observar e torcer para que nada dê errado durante o evento. Não terá, no entanto, maneira nenhuma de interferir durante o desafio de seu pupilo pois neste momento, como foi dito, a solidão do competidor é absoluta e indiscutível.

Ao contrário do atleta solitário, em ciência e na cultura em geral, nós somos muitos, ao mesmo tempo. Precisamos uns dos outros todo o tempo, como fontes de informação ou de inspiração para o nosso próprio trabalho. Não existe solidão intelectual, solidão teórica.


Microscópio de Hooke


Somos, enquanto pesquisadores, como disse o filosofo Bernardo de Chartres, “anões nos ombros de gigantes”. Se isso vale para a literatura, para a ciência vale mais ainda, pois fazer ciência é acumular dados e evidencias empíricas e matemáticas que fortaleçam convicções antes baseadas apenas em especulação. A ciência não é uma experiencia solitária. Precisamos dos relatos dos acertos e dos erros daqueles que nos precederam e por isso os pesquisadores não são insubstituíveis, mas as suas anotações estas sim, são fundamentais. Até onde um for, antes de passar pela transição, se anotou seus passos e experimentos, poderá ser o ponto de partida daquele que vier depois.



 E é exatamente assim que a ciência, historicamente, tem avançado, num esforço coletivo, constante, de expansão do conhecimento a partir do trabalho, e do registro em anotações ou vídeo deste trabalho daqueles que nos precederam.

O cientista, assim como o intelectual, não conhece nem pode conhecer a solidão do atleta. Ao contrário do atleta que vive do aqui e do agora, do momento da glória ou do fracasso conseguido a duras penas e em função tanto de seu talento e esforço como de circunstâncias às vezes imprevisíveis, cientista e intelectual conversam com vivos e mortos, através dos textos, a herança de nossa cultura.

Esta metáfora visa estabelecer um paralelo entre a prática esotérica e a prática mística.

Quem me acompanha aqui no blog sabe que faço distinção entre estas duas coisas, dando ao termo esoterismo o significado de prática intelectual de consulta e leitura de textos antigos da tradição, e para misticismo reservo o significado de busca solitária do Deus interior.

Se muitas vezes o misticismo bebe do esoterismo, em nenhum momento se confundem.

Posso agora dizer que o esoterista é como o cientista, pois precisa dos textos anteriores para compreender outros textos, mas o místico é como o atleta, que está completamente só em seu esforço pessoal de busca íntima.

Ao contrário do esoterista que pode discutir com outros esoteristas o significado deste ou daquele trecho do livro que estuda, a busca mística é pessoal e intransferível e mesmo aqueles entre nós, místicos, que já receberam a bênção de ter um mestre pessoal, um Adepto, que o tenha aceitado como discípulo, sabem que o esforço pessoal é única e exclusivamente responsabilidade do discípulo e o Mestre só pode torcer para que ele, seu discípulo, seja bem-sucedido em seus desafios.

 



A nenhum Mestre verdadeiro é permitido interferir no desempenho de seus chelas, sob pena de enfraquecê-lo e impedir que este desenvolva as habilidades que aquele desafio lhe proporcionará.

Se alguém, generosamente, quiser descrever suas sensações e impressões acerca de sua busca pessoal e solitária pela iluminação, o fará no intuito de dar um depoimento sobre aspectos absolutamente particulares que serão específicos de sua própria existência.

A cada místico, em cada encarnação, caberá uma história de vida peculiar. Místicos não são produzidos em série. São absolutamente diferentes uns dos outros, seguem diferentes tradições, tem diferentes cor de pele, hábitos, idiomas e forma física. Alguns usam ternos, outros andam seminus. Uns são magros, outros obesos.

A única coisa que os une é a sede de Deus, a fome pela iluminação, e a solidão em que realizam essa busca ininterrupta, vida após vida.

Como eu disse acima, o sucesso ou o fracasso do místico, como o do atleta, dependem de treino, talento, mas também de circunstâncias nem sempre previsíveis, que ao fim e ao cabo representarão também testes de aperfeiçoamento e fortalecimento do buscador.

Dito isso, podemos entender que existem textos esotéricos e textos místicos.

Textos esotéricos são, sim, baseados em outros textos. São interpretações ou variações de documentos mais antigos sobre os quais o esoterista meditou.

Já textos místicos são depoimentos, narrativas de caráter pessoal, mas que serão compreendidas por aqueles que também estão na mesma senda e que buscam o Cálice Sagrado pelas mesmas veredas, solitária e diligentemente.

Textos místicos, ao contrário dos esotéricos, são, sempre, totalmente originais, como a vida daqueles que os inspiram, pois relatam experiencias de vidas que jamais se repetirão, que não poderiam se repetir já que dizem respeito apenas e tão somente aquele que faz o relato.

Nesse viés, Cristo não era cristão, Buda não era budista, e nem Maomé era Maometano.

Esses homens eram místicos que compartilharam experiencias pessoais. É apenas depois deles que surgem os esoteristas, comentando, por páginas e páginas, o provável significado dos atos e palavras daqueles iluminados.

Portanto, Místicos não podem ser compreendidos a partir dos livros que leram, nem da bibliografia que consultaram porque eles trazem um olhar original sobre tudo que foi escrito antes. No caso do Cristo, falamos do messias profetizado no Velho Testamento e, depois dele, na Última Ceia, criou-se uma “nova e eterna aliança”, que atualizou a anterior e modificou, de tal modo, a perspectiva do Divino, que foi criado um Novo Testamento.

O Cristianismo, o Budismo, o Islamismo e mesmo o Judaísmo, não estão nos seus livros, mas na sua vivência. Viver uma experiencia mística é algo peculiar e solitário como a competição de um atleta em uma corrida de obstáculos.

Se alguém quiser entender um texto místico, leia-o e medite em silencio sobre ele. Não tente dissecá-lo pois dissecar um ser vivo pressupõe matá-lo, antes de qualquer coisa.

Absorva-o em seu espírito e deixe que decante em sua alma. Não o digira, como faríamos com um alimento solido. Respire-o, inale-o, como fazemos com a fonte de toda a vida, o NOUS.

E não se preocupe em compreendê-lo com sua cabeça, mas com seu coração; nem tente dirigir a energia para aqui ou para lá, pois a energia vai para onde precisa ir.

Tudo isso faremos de modo solitário e pessoal.

Cada um respira do seu jeito.

Esta é a essência da vida: sempre igual, mas sempre diferente e peculiar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

QUEREMOS SABER

  

Por Mario Sales, FRC


ilustração referente ao texto de Carl Sagan 
chamado "Um Dragão na minha Garagem"

 

Certas coisas sabemos; outras, não.

Saber é conhecer com clareza e distinção aquilo que é conhecido. Não há necessidades de algum tipo de crença especial em algo que sabemos, porque saber é a ausência de dúvida acerca do que se sabe.

Assim, sabemos que um triangulo tem três lados, ou que um quadrado tem quatro.

Isto não depende de fé, mas de compreensão intelectual.

O mundo esotérico, por natureza, conduz-se em um jogo de velar e desvelar. De esconder alguma coisa que em princípio alguém, outra pessoa, quer descobrir.

O mundo esotérico, infelizmente, equivoca-se acerca de sua própria importância, fazem alguns séculos.

Um trauma que remonta ao período da inquisição, da perseguição a cientistas, belas mulheres e livres pensadores. Tudo isso passou, mas o trauma permaneceu. O esoterismo ainda se comporta como se muitos tivessem o único objetivo na vida de descobrir o que os ocultistas dizem ocultar.

E digo “dizem” por que em realidade, como já discuti em outro ensaio, “Crenças e Fatos”, não existem evidências abundantes das afirmações feitas nos livros esotéricos.

O esoterismo, no jogo dos saberes, não mostra suas cartas alegando que não pode fazê-lo, quando ao fim e ao cabo, ninguém, ou muito poucos, estão interessados em vê-las. Lembro a frase de Gerard Encausse, Pappus:

“Jogue nas mãos de um profano um texto esotérico. Ele, displicentemente, não o lerá. Se o ler, não o compreenderá. E se compreender, não acreditará.”

O ensino esotérico como preconizado por Spencer Lewis, baseado em experimentos de confirmação, no domínio de certas técnicas didaticamente ofertadas aos que as estudam, em monografias simples e diretas, foi aos poucos relegado a um plano secundário, e a ênfase em crenças e reflexões éticas aumentou.

As técnicas estão lá, os “experimentos”, ou visualizações mentais, ainda estão lá; mas salvo engano, corrijam-me se eu estiver equivocado, são tratadas hoje em dia como práticas não positivistas, mas exercícios de fortalecimento da fé.

Nessa hora, ficamos muito parecidos com uma religião, o que não somos, nem nunca fomos.

Dito isto, reitero meu pedido de alguns anos.

Em relação ao conhecimento esotérico, precisamos revisar nossos métodos didáticos e retomar a busca positivista de evidências de nossas afirmações.

Precisamos, antes de tudo, fazer um levantamento de nossos telepatas, de nossos telecinéticos, de nossos terapeutas. Precisamos recensear entre nós quais tem maior habilidade em projeções astrais, quais têm sonhos proféticos. Esses indivíduos devem ser convocados a discutir suas habilidades com seus colegas afins (fratres e sorores) que tenham habilidades semelhantes, de forma a construir um conhecimento comum e organizar meios de distribuir as informações práticas referentes a esses dons.

Temos condições, hoje, de fazer seminários virtuais acerca desses assuntos.

Temos também possibilidade de realmente saber quem, entre nós, domina e conhece tais habilidades e pode ensinar como fazê-lo.

Lemos frequentemente sobre feitos que nunca testemunhamos. Vivemos uma época de narrativas, como aqueles descritos na Doutrina Secreta, os quais Blavatsky chama de “fatos”, dos quais, entretanto, não dá nenhuma demonstração ou suporte empírico.

Lembro-me, que li em uma monografia, que durante uma simples convenção rosacruz, Spencer Lewis levitou no palco enquanto afirmava não estar em nenhum tipo de transe, demonstrando, para todos os presentes, suas afirmações.

Eu sigo seus passos.

Anseio que a Ordem recupere seu caráter positivista que a distingue no mundo esotérico.

Pelo menos para que nós, iniciados, possamos lidar com um saber constituído de solidas bases, e não de convicções que dependam de crença ou da fé.

Queremos saber, não crer, para citar Carl Sagan.

Não acho que seja pedir muito.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

CORPOS

por Mario Sales

 



A tradição esotérica é pródiga em oferecer classificações as mais variadas para a composição íntima do ser humano. A Sociedade Teosófica reconhece sete deles diferentemente dos 3 ortodoxos corpo, alma e espírito, alma e espírito esses que recebem conotações diferentes, desde a sinonímia entre ambos, como no catolicismo, ou o discernimento de que o individuo é a alma e espírito apenas uma energia, nous, (espírito, em grego) que alimenta a estrutura, como no rosacrucianismo da AMORC.

Nos sete corpos teosóficos também encontramos uma visão semelhante, ao considerar que, como em uma boneca russa matrioska, se sucedem, um como envoltório do outro, permitindo que o puro espírito habite em ambiente material.

Matrioska


A esse puro espírito, presença de Deus em nós, os teósofos chamam Atma, envolvido por uma camada também de caráter altamente elevado, mas mais próxima da personalidade, chamada Budhi.

Associada a estas duas, encontra-se o chamado Mental superior, ou Manas superior, que configura o ser em evolução, a partícula individual que aprende ao longo das encarnações. Para que possa se manifestar no mundo físico, entretanto, postulam os teósofos a existência de mais 4 corpos, que ao contrário do conjunto anterior, a Tríade, possibilita como o escafandro ao mergulhador, o mergulho na matéria densa.

Esses quatro corpos, chamado de o Quaternário, compõe-se de Manas Inferior, corpo Astral, corpo Etérico e Físico.

Se o Manas ou Mental superior encerra aspectos divinos do peregrino garantindo-lhe algo semelhante a uma individualidade sem ruptura com o Todo, o Manas ou Mental inferior diz respeito ao instinto e as necessidades básicas da sobrevivência, trazendo consigo também uma sugestão de individualidade só que com a impressão de separação e isolamento.

Ambos, Manas superior e inferior estão ligados por uma ponte, uma estrutura intermediária chamada Anthakarana, que garante a intercomunicação entre Deus no homem e o homem comum, aquele que precisa dar conta das obrigações sociais e biológicas.

De baixo pra cima, temos o corpo físico, que é o que é, sem necessidade de maiores explicações; está envolto por uma energia agregadora, o corpo etéreo, que lhe dá coesão e forma, estrutura energética essa envolta por outra, chamada corpo astral, para a qual ainda me falta uma compreensão adequada.

O corpo astral, e não o mental, para o esoterismo, é a sede das emoções. Não sei bem ainda se quando uma projeção é feita, é este o corpo que projetamos, pois a nomenclatura esotérica ainda aguarda uma normatização e um glossário de alto nível.

Penso que, se o mental inferior não é a sede das emoções, resta-lhe ser o que todos no meio lhe atribuem: uma ferramenta de criação de objetos, circunstâncias e eventos, cumprindo a determinação do Gênesis de termos sido criados “à Sua imagem e semelhança”.

Curioso também que na nomenclatura em sânscrito, o corpo astral seja nomeado como Prana, a energia da vida entre os Yogues, energia essa mais plausível como força de coesão estrutural. Tudo indica, no entanto, que as energias de coesão ligadas ao corpo etéreo manifestam-se na matéria pelas forças de coesão atômicas enquanto o Prana teria um papel semelhante ao sangue que circula nas artérias e veias físicas, levando energia através dos canais de acupuntura a todas as regiões do organismo.

O Corpo etérico em sânscrito é chamado de Linga Sharira[1] e é uma duplicata perfeita do corpo físico o que faz sentido se consideramos que ele é a energia de agregação da estrutura física.





[1] Linga sharira (em sânscrito: linga, significando modelo; e sharira, que provem da raiz verbal sri, significando apodrecer), ou duplo etérico, designa, na teosofia, o 2º princípio na constituição setenária do homem, que é levemente mais etéreo que o corpo físico (sthula sharira). Segundo a Teosofia, ele permeia todo o corpo humano, sendo um molde de todos os órgãos, artérias, e nervos.

Linga sharira também recebe outros nomes tais como corpo etérico, corpo fluídico, duplo etérico, fantasma, doppelganger, homem astral, etc. Após a morte física, este duplo etérico ainda permanece algum tempo com vitalidade, formando o que se chama de "espectro" ou "fantasma". Segundo Blavatsky, o duplo etérico desempenha um papel importante nos fenômenos espíritas, sendo a substância que forma os chamados "espíritos materializados" nas sessões espíritas.

Deve-se notar que na literatura teósofica original (como a escrita por Blavatsky) o termo "corpo astral" não tem o mesmo significado de que o termo utilizado em literatura teosófica posterior (como a de C.W.Leadbeater). Nas obras de Blavatsky o corpo astral não se refere ao corpo emocional mas ao duplo etérico linga sharira. Contudo, mais tarde, C.W. Leadbeater e Annie Besant (Adyar School of Theosophy), e a seguir a eles, Alice Bayley, equacionaram o astral com o princípio kama (desejo) e designaram-no por corpo emocional (um conceito não encontrado na Teosofia anterior). Da Wikipedia

domingo, 5 de setembro de 2021

TRADUÇÕES LATINAS EM HARTMANN

A todos os fratres e sorores interessados em textos esotéricos.


Comecei a tradução de um pequeno livro, publicado pela AMORC americana, chamado Esoteric Classics, com ensaios de Franz Hartmann, Spencer Lewis, Willian Q. Judge e Paul Sedir.

Entre os textos de Hartmann chama a atenção o terceiro, Rosicrucian Symbols, onde ele descreve vários símbolos rosacrucianos com inscrições em latim.

Senti grande dificuldade na tradução dessas citações e compartilho com vocês, caso possam me ajudar nesse trabalho.

São as seguintes:

ac monstrante viam
Omnibus in omnibus
In virtute tua.
Signatur ne perdatur
Aurora ab lacrymis
Dulce amarum
In odorem suavitatis
Virginei laus prima pudoris
Dimittit inanes.
Honori invincem
Plena sibi et aliis
Descendendo ascendendo
Altissimus obnumbrat
Jam mitius ardet
Parit in alieno
Blando se pace salutant
Ut gaudeas mero
Amara sed salubris
Qua forma placebit
Usque ad divisionem animae
Amat et castigat
Delectat et cruciat
Non possentibus offert
His ego sustentor
Nec mors separavit
Cogit in unum
Plorat et devorat
Non est qui redimat
Languexit in umbra
Unam tetigis se sat est
Transfixum suavius
Merger ne mergantur
Sequirtur deserta cadentem
Pharmacumnon venenum
Ad te levavi oculos
Ne merger
Erantibus una micat
Non commovebitur
In puritate pretium
Accipit in sua
Non est hac tutior umbra
Non habet redargutionem
Non extingquetur
Morientis sideris umbra
Desinit in lacrymas
Concussio firmat
Vulneratum vulnerat
Supereminet omnes
Currit in odorem
Calor elicit imbres
Ut surgat in ortum
A lacrymis candor
Mersa non mergitur
Emergere nuntiat orbem
Tulit proedeam tartari
Dulce refrigerium
Recta a recto
Dum calet
Gemit delectum suum
Acuitur in praeliam
Ad sidera sursum
Intima lustrat
Cupio dissolvi
Innixa ascendit
Curso completo
Cui honorem honorem
Illue iter quo ostendum
Hac duce tuta via est
Praesidium et decus
Ultima secunda
Veniunt ad lucem
Non mergitur, sed extollitur

Colaborações para mariosergiosales@gmail.com.

Grato

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

A LEI ESTÁ EM NOSSOS CORAÇÕES

 

Por Mario Sales,FRC



E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.

Jesus, no Evangelho de Marcos 2:27


 

O Shabat é sagrado.

No Zohar, ainda nos textos preliminares, antes da primeira parashat, da primeira parte ou porção, conhecida por Bereshit, existe uma longa digressão sobre a natureza sagrada do Shabat.

Lá é dito que a razão da sacralidade deste período, que vai do pôr do sol na sexta feira até o pôr do sol no sábado, está no fato de que especificamente naquelas horas, as portas do céu estão abertas, e a inspiração divina flui livre para que os Justos, os Tzadikin, possam recebe-la.

Deve-se guardar, respeitar o Shabat, pois o Shabat é mais do que um dia e uma noite: o Shabat é uma porta dimensional, que é tão sutil e delicada, que será perturbada pela mínima manifestação de desarmonia, seja por ansiedade, indisciplina ou luxuria.

O que possa perturbar o vínculo com o sagrado deve ser evitado: as coisas da carne, os assuntos mundanos, o vinho, a voz elevada, a cólera, a exaltação.

É preciso comportar-se com pudor, temor e tremor, pois o Santo, Bendito Seja, estará atento aos nossos pensamentos e atitudes.

Em função disso, o trabalho deve ser suspenso, deve-se mergulhar em oração, meditando sobre a Torah, a lei, procurando a compreensão de seus segredos e de sua iluminação.

Esta é a tradição, estes são os parâmetros que qualquer judeu, fiel a sua fé, conhece e pratica.

Jesus era judeu. Jesus conhecia bem a Torah.

Mesmo assim relata o Evangelho de Marcos, capítulo 2:

“E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas.
E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?
Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam?
Como entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam?
E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.
Assim o Filho do homem até do sábado é Senhor[1].”

Peca aquele que vive por sua consciência, que transcende as regras e age de acordo com seu coração e sensibilidade?

Devemos guardar o sábado, mas o que é guardar o sábado?

Um conjunto de normas e proibições, um ritual rígido que, se esquecido, incorrerá em terríveis prejuízos espirituais?

Onde reside nossa santidade, dentro ou fora de nós?

Quem pode ver nossa pureza e nossa sinceridade a não ser HaShem, o Deus de nossos corações e de nossas compreensões? E onde está este Deus que tanto veneramos e adoramos senão dentro de nós mesmos?

Jesus sabia todas estas coisas e com seu gesto, incomum, simples e despreocupado, mostrou que ele estava em harmonia com estas simples verdades, que não fazia aquilo que a tradição mandava, mas sim o que seu coração ditava. E isto se chama a liberdade verdadeira ou a prisão da consciência.

Nossa consciência nos autoriza certos comportamentos em função de sua autoridade sobre nós, já que nossa consciência, nossa guardiã, é também a presença de Deus em nós.

Nós somos extremamente complexos.

Estamos vivos e a vida é extremamente dinâmica. Nenhum texto, por mais belo e sagrado, consegue nos definir ou circunscrever. Nenhum livro pode ser maior que a própria existência.

“A idéia de verdade é um modo, fundamentado em um método, de conferir estabilidade a determinados discursos, não uma instância neutra detentora da essência das coisas, mesmo porque não há essência nem coisas neutras senão na linguagem. As palavras dão identidade a coisas distintas; sob a palavra permanece a vida em sua pluralidade e potência; não é possível reduzir a vida a um discurso”[2]

Temos que ir além do discurso, além da lei, sem ferir a lei. E isto é possível.

Todas as regras e normas foram criadas para representar uma noção de valor, algo que ajudaria a criar Ordem no Caos. Nenhuma lei foi criada com o intuito de prejudicar quem quer que seja, no mundo religioso ou secular. As normas visam o melhor para o convívio de muitos, como boias de sinalização ou mesmo cancelas, que impedem os acidentes e as tragédias desnecessárias. Mas para quem foram feitas? Para aqueles que não possuem discernimento próprio, que são desprovidos de senso coletivo.

Não é preciso dizer a alguém altruísta da necessidade e conveniência de se preocupar com o bem da coletividade. Sua consciência fará isso sozinha. Este homem ou esta mulher estarão para além do bem e do mal, serão membros da elite espiritual da humanidade, que traz em si a marca de muitas vidas, de muitas encarnações. São as almas antigas, que socorrem e ensinam, que estudam a sabedoria de todas as tradições religiosas identificando as semelhanças entre elas ocultas nas palavras e nas convicções nacionalistas.

Estas almas sabem que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

Sabem que as portas do céu estão abertas todos os dias e que a chave para entrar por estas portas é a elevação espiritual e mental.

Não são os dias que são sagrados por si, mas são as pessoas que tornam seus dias sagrados, que fazem do seu cotidiano uma oração permanente, abençoando o mundo com suas simples presenças.

Deus está em nós, nós estamos nEle.

Assim, se percebermos que a luz já está em nós e permitirmos que ela se manifeste, não só santificaremos a noite de sexta feira, mas também a de quinta feira, como também as terças e os domingos pela manhã.

O céu aguarda ansioso nossa visita. Basta que nos deixemos levar pelos ventos da espiritualidade e subiremos mais alto que os pássaros e sem que percebamos estaremos conversando com os santos e com os anjos, enquanto os Iluminados, a nossa volta, nos revelarão os segredos do espírito e da evolução.

E voltaremos deste encontro encharcados de inspiração e êxtase, por termos passado alguns minutos na companhia daqueles que como nós, sabem que tudo que está a nossa volta é sagrado e que o mundo inteiro é nosso templo, nosso sanctum sanctorum, onde podemos vigiar e orar enquanto aprendemos as estratégias da misericórdia e do serviço.

Não, não precisamos de leis. Nossa lei está gravada a fogo em nossos corações, não em livros, não em textos; somos os filósofos de fogo, como nos classifica Blavatsky na Doutrina Secreta.

Somos os filhos da consciência, os buscadores incansáveis da luz e do Cálice Sagrado.

Somos os rosacruzes.


[1] Marcos 2:23-28

 [2] Viviane Mosé, in “Nietzsche Hoje” editora Vozes, 2ª reimpressão, 2019

sábado, 28 de agosto de 2021

INICIAÇÃO E TERMINAÇÃO

 

Por Mario Sales FRC




O que significa ser um “Iniciado”?

A expressão dá conta de alguém que recebeu uma informação, como a expressão diz, inicial, preliminar, acerca de uma área de conhecimento que se estende infinita em várias direções.

Não se trata pois, de um conjunto de normas ou dados que esgotem o assunto; antes, estamos falando de uma porta, de um portal, que atravessado apenas nos introduz em um imenso salão, em princípio mergulhado em trevas, a não ser pela chama fraca da vela cerimonial que trazemos nas mãos.

A vela, como já foi dito, não mostra tudo que existe neste gigantesco salão, mas nos dá uma ideia pálida de nossa enorme ignorância.

A escuridão do salão nos exige, imediatamente, três comportamentos: prudência ao caminhar, já que não enxergamos com clareza onde estamos indo; coragem para penetrar nas trevas sem receio; finalmente confiança de que as forças que nos trouxeram até aquele portal garantirão que nossa experiência seja segura, se bem que impactante.

Trata-se, portanto, de uma caminhada que começa. Abriram para nós uma passagem, cabe a nós agora continuar, avançar passo a passo e investigar, com auxilio da vela e às vezes, apenas do tato, o que nos circunda, que objetos estão guardados neste salão escuro.

Em alguns pedestais e suportes, no salão, encontraremos, já abertos, alguns livros. Outros estarão fechados. Ao lado de cada um, entretanto, encontraremos outras velas que iremos acendendo para facilitar a leitura e para melhorar nossa percepção do entorno.

A maneira como estes livros, abertos ou fechados, ou seja, de fácil ou de difícil compreensão, estão dispostos no salão tem uma razão de ser que só aqueles que assim os arranjaram conhecem.

Livro após livro, texto após texto, vela após vela, o salão que antes era só escuridão vai se tornando mais claro, com traços mais compreensíveis, sem em nenhum momento dar a perceber aonde estariam seus limites, suas paredes, seu final.

A investigação, independente disso, deve prosseguir.

Não iniciamos esta busca para ficarmos imóveis contemplando as trevas. O avançar nos traz outra vantagem: a possibilidade de supor uma certa arquitetura no salão, se bem que apenas supor, já que não conseguimos ter uma ideia do conjunto completa e acabada.

Esse não é o caminho do místico, mas do esoterista, o pesquisador dos mistérios arcanos.

O místico não caminha em busca de nada.

Ele apenas se senta e acalma seu coração, sua ansiedade. O místico busca dentro de si, não em textos, não nos livros. Ele vasculha suas próprias trevas internas e consulta suas emoções para transcendê-las e chegar ao estado de identificação com o Eterno.

Não há salão algum a investigar, não existe vela nenhuma a acender.

O que o místico faz é voltar seu olhar para dentro, é ouvir no silencio de seu ser a melodia das esferas.

Nada impede que os dois movimentos, a busca interna e a externa, se complementem e se auxiliem. Pelo contrário, para que os livros que estão fechados possam ser abertos, compreendidos, a investigação interior é fundamental.

Se de fato a caminhada no salão escuro do mundo esotérico não tem fim, prepararmo-nos para ela despertando em nosso interior as habilidades necessárias é um processo que deve ser completado para que a própria caminhada se torne mais segura e efetiva.

É preciso terminar, dentro de nós, a busca e a transformação.

Transformados, poderemos prosseguir não mais orientados pelas chamas externas dos textos, mas pelo brilho de nossos olhos, que lançarão luz em qualquer direção que olharmos.

Se cada texto nos trazia mais luz ao seu modo e por sua leitura, agora não precisaremos mais dos textos, pois teremos luz própria.

Ou seja, após a iniciação, mister se faz completar a terminação, o encerramento de um estado de consciência em prol de outro, mais elaborado, mais inspirado.

Místicos devem pensar e agir como místicos, até para que escapem do esoterismo meramente literário, pouco profundo, intelectualista.

Sem os olhos de ver, as páginas se sucedem uma após outra sem que nada aconteça, sem que nenhum insight verdadeiro nos desperte do sono dogmático.

Pelo contrário, muitas vezes o que ocorre é a troca de um dogma por outro.

O estudo esotérico só é possível quando a tradição que preservamos não se tornar âncora, mas vento.

Velas enfunadas, nosso barco navegará rápido em direção ao destino que a bússola divina nos determinará. Só que agora, nossa intuição desperta estará no timão, antecipando tempestades, recifes ou calmarias, antecipando e evitando as intempéries que só atrapalham a boa navegação.

E tudo isso apenas porque dentro de nós terminamos a transformação que nos habilitou a este desempenho, esforço que todos os místicos têm como missão primordial empreender.

Bons ventos soprem sobre aqueles que não procrastinarem essa transformação.

Bons e fortes ventos.

sábado, 19 de junho de 2021

ASSOMBRO







No jogo de cabra-cega /o menino e a menina /inventaram nova regra/ (eles pensam ser novinha) / mas é muito, muito velha: / a perna corre e não foge; / o olho vendado enxerga./ E os dois, de namorinho, / brincam é de pega-pega.
Elza Beatriz , In “Coleção Novo Caminho”,
livro de alfabetização ,Ed.Scipione




Trabalha rápida a mente
numa resposta coerente ,
elegante
uma postura distante
que disfarce a perplexidade ,
oculte a verdade ,
de mim , dela , de todos ,
em toda parte .
(Pisca a mensagem
na minha frente
embaraçadora ,
surpreendente .)
(Que fazer do amor
suposto morto
que ressurge
perturbador e novo ,
neo-paixão ,
avassaladora ?
Como reabrir
a caixa de pandora ,
já fechada
a custa de sobre-humano esforço,
para conter o gesto insano ,
o engano ? )
Pudesse dizer , convicto :
meus impulsos são todos meus ,
tudo controlo em meu espírito ,
as pulsões , pura ilusão ;
o Id e a fantasia ,delírio .
Agarrar nas mãos o vento ,
mergulhar no vazio sem medo ,
não sentir aceso o incenso ,
tocar o próprio pensamento ,
recusar a umidade da água ,
ou a lágrima que vem com a tristeza
ter sobre a paixão alguma certeza ,
ser pura razão , nenhum sentimento .
(Ainda pisca , persistente ,
uma mensagem a minha frente ;
aqui , meio dormente ,
começo a digitar respostas , lentamente .)
Supomos sempre saber
para onde vai nosso navio
temos bússola , carta de navegação ,
radares , orientação ;
mas nada antecipa o maremoto ,
nada nos previne do furacão .
Mesmo a razão de um Titanic ,
sucumbe ao Iceberg da paixão .
Súbitas são as mudanças
no clima das relações humanas .
Meteorologista das emoções , atento ,
o poeta lê , nos astros dos olhos , o tormento ,
vê nas palavras , a velocidade do vento ,
sente o odor , no ar a sua volta , do desejo .
Assim mesmo ,
cercado de tanto cuidado e esmero ,
seu coração ,na proa do barco , vai estar ,
para que seja o primeiro a ver o mar .
É o coração , o melhor sensor da altura das ondas ,
das variações das marés , da profundidade das sondas ,
ele lê com clareza o relevo do fundo ,
e antecipa com precisão satisfatória , num segundo ,
a presença de obstáculos ocultos na escuridão ,
o perigo que ronda toda navegação .
Aqui parado neste imaginário tombadilho ,
vejo o mar de emoções a minha volta e reflito ,
na beleza da noite , da viagem e do perigo .
(Agora , as coisas se acalmam ,
minha sala torna-se novamente quieta ,
fecha-se minha pequena janela ,
apenas eu , meu texto[que é dela ],
o silêncio novamente se aquieta.)

segunda-feira, 31 de maio de 2021

A JORNADA MÍSTICA ATRAVÉS DA CIENCIA

 

 

Por Mario Sales



Técnico Michael Anderle (esquerda, com óculos) e co-investigador principal Richard J. Davidson (centro vestindo jaqueta) e Antoine Lutz (direita) preparam o monge budista Matthieu Ricard para um teste de ressonância magnética funcional (fMRI) com a instalação do MRI sendo feita no  Centro Waisman na Universidade de Wisconsin-Madison em 4 de junho de 2008. 
Ricard é um participante de longa data em um estudo de pesquisa em curso liderado por Davidson que monitora a atividade cerebral de um sujeito e o impacto da meditação sobre a regulação da dor. Davidson é diretor do Laboratório Waisman para Imagens e Comportamento Cerebral (WLBIB) e o Professor William James e Vilas de Psicologia e Psiquiatria.

 

Assisti com atenção a palestra do Frater Régis Reis para o programa Luz que Vem do Leste, do Capítulo rosacruz AMORC de Mogi das Cruzes.
O tema (A Jornada Mística Através da Ciência) parecia propor uma relação de interesse entre ambos os campos. Foi com satisfação, no entanto, que o palestrante, um docente e físico, confirmou minhas afirmações de sexta feira passada, quando de minha intervenção na Loja Recife com o Tema Fatos e Crenças: no momento, pelo menos, Misticismo e Ciência são campos separados sem possibilidade de interação.
Eu diria que Ocultismo e Ciência não têm possibilidade de diálogo já que separo Misticismo (conjunto de práticas em busca do contato com o Deus Interior) do Ocultismo (conjunto de técnicas para intervenção de modo incomum no real, popularmente conhecidas como Magia).
E a impossibilidade de diálogo entre ambas é a falta de tecnologia capaz de mensurar as variáveis envolvidas na atividade ocultista. Ciência precisa de dados e medidas que possam ser estudadas, colocadas em uma tabela, e que permitam uma reprodução dos experimentos com certa facilidade. Nada disso é possível no Ocultismo, já que lida com energias ainda não mensuráveis, independente de serem visíveis ou invisíveis. Aliás a visibilidade das coisas há muito deixou de ser critério para sua classificação como reais ou ilusórias.
Hoje, com a melhoria dos aparelhos, trabalhamos com muitas realidades invisíveis ao olho desarmado, mas possíveis de serem acompanhadas com o auxílio destes aparelhos.
Um exemplo banal é a microscopia, ótica ou eletrônica, que nos revela cada dia mais a intensa atividade do mundo biológico e não biológico microscópico.
Aprendemos nas últimas décadas que o tamanho não tem importância na avaliação da força e poder de ação dos diversos seres do Universo, sendo que o muito pequeno guarda às vêzes capacidade destrutiva significativa, mesmo sendo imperceptível aos nossos sentidos. Os vírus são o melhor exemplo.
Paripasso a isso, outras manifestações naturais não podem ser detectadas. A aura não pode ser medida, ou visualizada, a não ser por pessoas conhecidas como “videntes”, o que torna seu estudo extremamente subjetivo e impossibilita a colheita de dados sobre o fenômeno. Os canais de acupuntura também não são visíveis, o que desencadeia um sem-número de teorias descabidas sobre o funcionamento, indiscutível, das agulhas de acupuntura em diversas situações médicas.
Existe uma outra fisiologia a ser explorada, mas faltam instrumentos.
E é isso que impede a conversa ou mesmo a fusão entre práticas ditas ocultas e as científicas.
Como já disse outras vezes, o que hoje chamamos conhecimento esotérico já deve ter sido ciência em outras épocas. A ruptura cultural entre civilizações mais antigas e desenvolvidas do planeta e a nossa explicam o caráter de mistério que envolve esse conhecimento.
Frater Régis na sua fala ao programa citado fez uma excelente colocação. Indagado sobre se existiria meios de tornar a ciência mais próxima do misticismo e este mais próximo da ciência respondeu que esta estratégia seria o conhecimento. O acúmulo de informações e cultura técnica poderá tornar mais fácil tanto para os cientistas perceberem no Ocultismo algum mérito que mereça ser investigado, quanto facilitar aos ocultistas entender a importância do método científico no trabalho esotérico.
A idéia infantil de que a ciência tenha algo contra o mundo esotérico é uma falácia. O que a Ciência combate é o charlatanismo, esteja ele no mundo esotérico ou não. Existe charlatanismo até na ciência e isto precisa ser combatido, não em função de qualquer razão moral, mas porque o charlatanismo prejudica a qualidade do conhecimento, pervertendo-a, destruindo a confiabilidade e solidez que os conceitos em ciência devem ter.
Apenas isso. Aliás, como a ciência combate os charlatães dentro de seu próprio campo, também os ocultistas deveriam combater os charlatães do meio esotérico. E eles são muitos.
O palestrante em sua fala fez esta advertência. O que a ciência combate não é o misticismo, mas a mistificação, tão bem interpretada pela passagem bíblica de Simão o Mago que achava poder comprar a técnica que provocou o surgimento das “línguas de fogo” sobre as cabeças dos apóstolos, como relatado em Atos dos Apóstolos, 2, 3-4.
Honestidade não é uma virtude, apenas. Ela sustenta o conhecimento científico, lhe dá confiabilidade e garante melhores resultados. A honestidade em ciência é boa para o sucesso da pesquisa.
Da mesma maneira, não há lugar no Ocultismo para cartomantes de esquina, para usar uma expressão jocosa. Ocultismo precisa ser feito de maneira séria, para que evolua de Oculto para Revelado.
Todos julgaram que isso aconteceria com a Parapsicologia e seus procedimentos de investigação sistemática da telepatia, da telecinesia, e de outras manifestações incomuns relatadas nos textos esotéricos.
Por alguma razão não houve progressos ou se aconteceram, não houve impacto importante no modo de pensar dos cientistas. As pesquisas, no entanto, continuam. Algumas universidades tem investigado o funcionamento da mente em estados de meditação, com eletroencefalogramas de monges budistas durante suas praticas mentais. É o caso de Matthieu Ricard (nascido em 1946) um monge budista que reside no Monastério Shechen Tennyi Dargyeling
 no Nepal. Phd em Genetica Molecular do Instituto Pasteur, Mattthieu é uma prova de que a ciência não tem, em princípio, qualquer ojeriza a práticas incomuns, muito pelo contrário. O que a ciência quer, e o que todos nós queremos, é estudar de modo objetivo a natureza desses fenômenos, chamados de Esotéricos.
Não há dúvida de que existem inimigos destas investigações, radicais de parte a parte. Mentes obtusas foram distribuídas democraticamente entre todos os países, raças, religiões e sexos, infelizmente, mas estes não falam pela Ciência, ou pelo Campo do Ocultismo como aliás ninguém fala.
Nenhum planeta fala pelo Universo.
Existem vários tipos de Ocultistas e Cientistas.
Independente das opiniões deste ou daquele individuo, a investigação prosseguirá, porque o que caracteriza a ciência é a curiosidade. E em algum momento alguém conseguirá uma tecnologia que permita o salto qualitativo na investigação dos fenômenos ditos esotéricos, da mesma maneira que os holandeses 
Hans Janssen e seu filho Zacharias, seguidos de Antonie van Leeuwenhoek, no século XVI, deram ao mundo os instrumentos para conhecer o mundo do muito pequeno com microscópios e depois outro holandês, Hans Lippershey, em 1608, o do muito distante, com os telescópios, estes aperfeiçoados por Galileu Galilei, dez anos depois.
Faltam-nos as ferramentas
.
Quando os óticos ou físicos nos apresentarem maneiras de contemplar as energias muito sutis teremos dado apenas o primeiro passo na compreensão deste outro campo, o campo das chamadas “energias ocultas”. Depois disso muito tempo ainda decorrerá para que absorvamos a real importância desta descoberta, da mesma forma que entre a luneta de Galileu e o Telecopio James Webb, que sobe, se Deus quiser, em outubro próximo, quatrocentos e vinte anos se passaram.
O conhecimento científico é assim, lento, cuidadoso.
Exatamente por isso, pelo cuidado com que é tecida e construída a obra cientifica, todos querem o status de “científicos”. Infelizmente, as pessoas comuns gostam mesmo é dos produtos da ciência, não dos cientistas, nem das perguntas que eles fazem.
Acho muito banal a incapacidade de compreensão do papel da ciência expressado em um dos textos clássicos do Esoterismo Ocidental, a Doutrina Secreta.
E, justiça seja feita, não é Blavatsky, a redatora do texto como ela se nomeia, que deve ser responsabilizada por esta postura hostil a ciência. Ku-Thu-Mi deixa claro que é dele a antipatia por alguns comportamentos científicos da época.
O erro do Mestre é dar a entender que a ciência é contra o Ocultismo. Ou que a Verdade seja objetivo da Ciência, como diz em várias passagens.
Não. O objeto de trabalho da Ciência é a dúvida, não a Verdade. Cientistas não creem na “Verdade”, só em consensos temporários acerca das explicações dos fenômenos. Novas evidencias podem, eventualmente, modificar esses consensos. E assim o conhecimento evolui.
O Ocultismo evoluiu também, embora muitos não entendam isso. Ninguém em sã consciência montaria hoje um laboratório alquímico, não porque não acredite em pressupostos do simbolismo alquímico, mas porque, como prática, a Alquimia não faz mais sentido.
Ela foi uma prática datada pelo nível de conhecimento da época. Ajudou na construção da pesquisa química, mas ninguém apostaria suas fichas em balões aquecidos até a explosão como se isso levasse a qualquer resultado significativo.
Ela não estava errada ou certa, teve seu papel histórico, mas hoje é apenas obsoleta.
Não precisamos, da mesma forma, de um novo Ocultismo, mas sim de uma outra leitura e perspectiva do Ocultismo como o conhecemos.
Precisamos esclarecer quais áreas do cérebro estão envolvidas na produção dos fenômenos telepáticos, quais as condições que permitem a telecinesia, a invisibilidade etc., e isso demanda experimentos, investigações objetivas, com resultados testados, com o rigor que caracteriza o trabalho da ciência séria.
Minha aposta, entretanto, é que não virá da neurociência o primeiro movimento de validação cientifica das práticas esotéricas e ocultistas, mas da ótica. Primeiro precisamos ver que existem sim outras energias em nosso corpo e na natureza.
E isso depende da ótica, quem sabe de outro holandês, que nos permita contemplar o invisível de maneira mais clara. Aí, e só aí, começará a “jornada mística através da ciência”, como diz o título do programa de ontem.
Aguardemos.

sábado, 29 de maio de 2021

A MARCA DE CAIM

 

Por Mario Sales


 



“Então disse Caim ao Senhor: É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar, me matará. O Senhor, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse.”

Gênesis 4:13-15

E eu, que já era Caim e levava a marca na fronte, imaginara naquele instante exato que o sinal não era um estigma infamante, mas antes um distintivo e que minha maldade e infelicidade me faziam superior a meu ai, superior aos homens bons e piedosos…Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo!

Demian, Herman Hesse

 

O esoterismo é um campo de conhecimento muito curioso.

Grande parte dos esoteristas acreditam como uma questão de dogma que o nome de seu campo deve ser a senha para seu comportamento.

Por isso, ser esoterista é acreditar que o segredo deve ser preservado a todo custo.

O que exatamente está sendo mantido em sigilo é discutível e incerto, mas primeiramente, devem ser ocultados os textos internos das ordens iniciáticas, e tornar-se membro de uma delas, AMORC, outras denominações de cunho rosacruciano e a Maçonaria, é aprender a não revelar estes textos passados entre os membros de forma velada.

Talvez a quebra deste axioma tenha começado pela maçonaria. Embora dentro de seus templos alardeasse sua esotericidade, a maioria de seus textos foram entregues ao publico profano através de livrarias que se especializaram em publicar livros e mais livros sobre assuntos maçônicos. Os autores realmente importantes da Maçonaria não hesitaram, mesmo tendo jurado segredo, em revelar com erudição e entusiasmo, conhecimentos que, a priori deveriam ficar dentro dos templos. Nada disso foi punido, ninguém foi chamado às falas, pelo contrário, ganharam notoriedade entre seus pares, foram alçados a categoria de sumidades em assuntos maçônicos, convidados para palestras aqui e ali e, óbvio, ganharam algum dinheiro vendendo deus textos, disputados pelas tais livrarias acima citadas.

A AMORC vem em segundo lugar. Tem afirmado ao longo de décadas que seu estudo é reservado apenas aos membros regulares, porém grande quantidade ou quase toda a informação delicada e secreta já foi publicada e é consumida avidamente por leitores leigos, não iniciados, em todo o mundo.

A coleção Renes, editora carioca, patrocinou a edição de dezenas de títulos daquilo que intitulou “Biblioteca Rosacruz”, alguns deles, como os de autoria de Raymond Bernard, com revelações acerca dos Mestres Ascencionados da Fraternidade Branca que no passado seriam consideradas transgressões do segredo.

É curioso o fato que se interpelamos algum irmão mais antigo sobre este paradoxo a resposta invariavelmente é de que Raymond Bernard podia fazer estas revelações, e até descrever em detalhes rituais secretos ocorridos em locais privados chamados por ele Mansões da Rosacruz, sem que isso lhe acarretasse nenhuma punição. E podia porque “deveria” ter permissão para isso.

Se colocarmos na balança as revelações feitas por este ilustre Frater com o que um membro ordinário e comum da Ordem quisesse revelar, na minha modesta opinião, nada poderia chegar aos pés das descrições que estavam em seus livros em termos de, digamos assim, informação reservada. Mesmo assim esses livros continuam a ser publicados e lidos por quem quer que os compre, em qualquer livraria ou sebo que os venda, sem nenhuma restrição, sem necessidade de ser ou não membro da Ordem ou mesmo ter tido qualquer iniciação mais profunda nos conhecimentos ditos esotéricos.

Se todos podem ler sobre coisas tão delicadas como difíceis de crer, o que realmente temos a ocultar?

Por que dizemos que somos uma ordem discreta ou secreta como querem os mais conservadores?

Ou mantemos este discurso com uma intenção meramente de marketing, visando dourar a pílula para atrair os curiosos interessados, ou dizendo com outra metáfora, passando verniz em um velho cajado de madeira?

Tocar neste tema as vezes fere ainda algumas sensibilidades. Para o bem de nossa Ordem, entretanto, não deveríamos ter assuntos proibidos, a não ser, coisa que não acredito, que tenhamos receio em discutir nossos assuntos abertamente, como é nossa tradição. Frater Charles Parucker, nosso antigo Grande Mestre da Língua Portuguesa, gostava de repetir um mantra: a Ordem Rosacruz AMORC era baseada na mais completa liberdade, dentro da mais completa tolerância.

E ele vivia esse lema.

Jamais o vi usar sua autoridade como algo ameaçador ou sua posição de modo intempestivo.

Era um homem extremamente sério, mas também bondoso e sua força entre nós estava centrada na sua personalidade ao mesmo tempo reservada e cordial.

Nosso tema não é esse, entretanto. Falávamos do segredo.

A terceira Ordem a considerar, se bem que não podemos classificá-la desse modo, é a Sociedade Teosófica. Pela natureza de seu trabalho, jamais defendeu uma posição de sigilo quanto aos seus ensinamentos, mesmo tendo mantido, enquanto Blavatsky estava conosco, alguns pequenos grupos de estudo mais avançados, que estudavam com HPB pessoalmente. Em relação a isso, talvez o motivo de não existir proibição de discussão pública dos conhecimentos teosóficos fosse o fato de que os livros de Blavatsky são tão obscuros e as vezes confusos que só isso representava um obstáculo a sua compreensão e interpretação, livros secretos em si mesmos, que não poderiam ser compreendidos a não ser com muito esforço e persistência intelectual, coisa que a esmagadora maioria dos seres humanos não possui.

Desde os primórdios em Adyar, na Índia, a ST tem produzido e publicado seus textos e dentro do possível, multiplicado suas representações em volta do planeta na intenção de dar a mais ampla divulgação a estes mesmos textos, para o maior número possível de pessoas.

Ou seja, Maçonaria e AMORC querem ser sociedades discretas ou secretas, mas de forma persistente publicam seus chamados segredos para que qualquer um possa lê-los e conhecê-los. A Sociedade Teosofica, ao contrário, quer ser lida, embora só tenha conhecido uma grande expansão de interesse em seu trabalho nos últimos anos, realizando uma profecia de Blavatsky de que seus ensinamentos só ganhariam importância 100 anos após sua morte.

Então, de novo, que segredo é este, fisicamente falando, que guardamos? Existe, em algum lugar, um manual de Magia repleto de palavras mágicas que um maçon, um rosacruz ou um teosofista pudesse usar para realizar atos milagrosos e transcendentais? Isso eu posso responder, sem quebrar nenhum juramento: não existe.

Existe alguma informação facilmente usável que não poderá ser jamais contemplada por um profano?

Também creio que não.

Na maçonaria contemporâneo, o grau de conhecimento ocultista está perto de zero. AMORC me passou, ao longo de quarenta e sete anos de afiliação, duas técnicas realmente poderosas, das quais uma está amplamente descrita para leigos não iniciados em um texto que se encontra em sebos hoje em dia, chamado “Princípios rosacruzes para o Lar e para os Negócios”.

Spencer Lewis não tinha medo de contar o que sabia. Mais do que isso, queria contar. Sabia que nenhum segredo realmente importante do ocultismo pode ser violado apenas pela revelação de seu aspecto formal.

Ele sabia, como eu sei, que nenhum objeto tem poder algum que não lhe seja dado pelo seu manipulador.

E o poder do indivíduo vem de sua evolução espiritual e de sua intuição que não podem ser desenvolvidas de modo rápido e fácil.

Sim, os textos estão aí, mas como se estivessem escritos em línguas extintas que poucos de nós saberiam traduzir. Embora pareçam fáceis e acessíveis escondem em seu interior tantos pressupostos simbólicos que são para poucos e não para todos.

Repito o que sempre digo: não existe risco algum de profanação daquilo que é verdadeiramente esotérico, principalmente se estiver em forma literária, já que, como lembrava Papus, “se o não iniciado conseguir um texto esotérico primeiramente não terá interesse em ler; se o ler, não o compreenderá; e se compreender, não acreditará.”

Interesse, capacidade de entendimento e aceitação, três condições que não são frequentes entre os seres humanos. Usando uma metáfora de Herman Hesse em seu livro “Demian”, só os que tem a “marca de Caim” terão essas três virtudes juntas em si, mesmo que não tenham sido jamais iniciados em qualquer ordem esotérica tradicional.

Porque são esses homens que fazem as Ordens existirem, não ao contrário. São homens fadados a buscarem por eles mesmo, dentro de si, sem recorrer a outros recursos senão sua introspecção e consciência.

É neles que devemos nos concentrar, já que serão os responsáveis por transmitir adiante a “sagrada luz que nos foi confiada.”