quarta-feira, 2 de março de 2011

HISTÓRIA, LENDA, MITO

Por Mario Sales FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Lá no fundo deste blog, no ano passado, publiquei em forma de vídeo uma propaganda que peguei da TV, acerca de um automóvel que é descrito por um tuaregue, um beduíno do deserto, como se fosse um monstro poderoso, com dotes fantásticos e impressionantes, mas que mesmo exagerando e pintando com cores fortes sua narração, ao fazer sua descrição fantasiosa estava sendo fiel ao que descrevia.
O que havia de peculiar era apenas o jeito que ele usava para fazer a descrição, baseada em imagens típicas de uma pessoa pouco objetiva, intelectualmente limitada, impressionável e supersticiosa.
Alguns dias atrás publiquei um outro trabalho especulativo, em que ponderava a semelhança entre o que se consagrou chamar de “Árvore da Vida” e um vórtice gigantesco de energia cuja imagem coloquei no texto.
As duas publicações se conectam porque defendem igualmente a tese de que o que hoje chamamos de Misticismo Esotérico é na verdade a descrição possível, exagerada e eivada de superstição de acontecimentos de dimensões magníficas, mas tão naturais quanto a água que pinga de uma torneira.
Pela beleza destes ensinamentos eles até hoje estão cercados de uma religiosidade às vezes, na minha opinião, excessiva, além dos inúmeros rituais e do segredo com que são guardados. Só que a meu ver, trata-se de matéria que necessita de muito mais estudo do que aqueles que os místicos podem fazer, e parafraseando outra citação, o Conhecimento Esotérico é importante demais para ficar apenas na mão de esoteristas.
Ao longo dos séculos, tudo que foi impressionante sofreu com a deturpação natural nas narrativas humanas e o que era história virou lenda e o que era lenda virou mito.
Isto não quer dizer que este mito não tenha um fundo de verdade, uma base sólida em que ele se apóia para alçar vôo na nossa imaginação. O que nos falta são dados objetivos e infelizmente estes são difíceis de encontrar.
Difíceis, mas não impossíveis. Existem acidentes muito promissores. Recentemente no Rio de Janeiro, aliás ontem, no mesmo dia em que a cidade fazia 446 anos, escavações de uma obra corriqueira perto do cais do porto encontrou o que parece ser um outro e antigo porto por baixo da terra. Pedras de época apareceram intactas e o entusiasmo dos arqueólogos foi tanto que as obras foram embargadas e a área foi declarada de importância histórica. Alguma coisa da história do Rio de Janeiro antigo , do tempo do império, talvez, aparecerá ali.
Já em CHRISTCHURCH, na Nova Zelândia, semana passada, depois de um terrível terremoto que quase destruiu a cidade, uma das mais tranqüilas do mundo, ao levantar a estátua destroçada no evento de um dos fundadores da cidade, foram encontrados dentro do pedestal uma garrafa com uma mensagem dentro e um tubo de metal, considerados verdadeiras cápsulas do tempo.


Assim, pode ser que ainda tenhamos confirmações arqueológicas de Atlântida, ou talvez de Lemúria e quem sabe de tecnologias revolucionárias esquecidas na poeira, e muito do que chamamos mito, súbito emirja acidentalmente do fundo da Terra.
O passado pode sim retornar, a qualquer momento.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A "ÁRVORE DA VIDA", NA VERDADE, NÃO É UMA ÁRVORE

"por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Foi Mestre Reginaldo Leite, meu estimadíssimo frater e amigo de Pernambuco, companheiro de longas conversas no Skype, quem me atiçou a curiosidade para a possibilidade de conexão entre a visão de Martinez de Pasqually e a cosmogênese na visão do Cabala, principalmente a Cabala Luriana.
Comentava ele a propósito de um curso que fará sobre "A Mística das Letras Hebraicas", que gostaria de encontrar uma ligação entre ambas as tradições e sugeriu-me um primeiro ponto: na transição da região da Imensidade Divina para a Imensidade Supraceleste, do Quadro Universal que está no Tratado da Reintegração, Martinez chama os espíritos que guardam o ponto de intersecção entre estes dois domínios de Espíritos Denários e lhes atribui o número 10. Diz ele que os ESPÍRITOS SUPERIORES DENÁRIOS, não foram chamados a participar da execução do plano divino. Estão imóveis, como que guardando a transição entre um e outro plano. Em um outro ensaio chamado, presunçosamente “Explicando o Quadro Universal”, eu dizia na época que esta imobilidade não inútil dos superiores denários significava que eles estavam fazendo o papel de transformadores da energia de criação de Deus, da mesma forma que transformadores elétricos impedem que a corrente de alta voltagem entre em nossa casa sem ter sido modulada para 110 volts. Imóveis, dizia eu, mas trabalhando. Frater Reginaldo deu um passo além. Ancorado em uma intuição e conhecimento únicos, dizia ele que eram 10 sephirot na Árvore da Vida, ou seja , a Árvore da Vida é denária, como os espíritos da junção supracitados. Haveria paralelismo? Não é preciso dizer que o que nos diverte, a mim e a meu querido frater, nestes contatos especulativos, como diria o Conselheiro Acácio, é especular.E eu penso com imagens. Imediatamente comecei a procurar imagens que mostrassem esta ligação entre uma e outra tradição.


Enquanto brincava com a ajuda do Google de um lado e do Paintbrush do outro, com um sem número de imagens, comecei a ter um insight sobre a natureza da própria “Árvore da Vida”.
No espírito da mesma estratégia intelectual que me fez meses atrás dar tridimensionalidade ao Eixo Fogo Central Incriado, percebendo a partir daí que era Nous, o sustento da existência que a todos penetra, comecei a olhar para a Árvore da Vida e deslocá-la de posição.
Frater Reginaldo sempre lembra que em cada sephira da árvore temos um torvelinho de energia. Isto me fez extrapolar que a própria árvore poderia ser um torvelinho de energia também. Talvez um tornado energético de tal magnitude que a época em que foi descrito, chamar-se-ia, adequadamente de árvore.
Pensando nisso comecei a juntar imagens.
Primeiro: a “Árvore”


Escolhi este modelo de árvore e não outro por causa da evidencia das três colunas constituintes. Importava muito para o desenvolvimento do meu raciocínio visual que as três colunas componentes estivessem destacadas no arranjo.
Segundo: colocar a árvore no lugar dos Denários de Pasqually




Nessa imagem, a aparência de tubos pelos quais passa “alguma coisa” provavelmente nos dois sentidos , descendente e ascendente, é compatível com a idéia de que “Deus se vê no espelho de sua Criação”, ou melhor , de que há uma retroalimentação constante da Criação para o Criador , na forma de dados da experiência de todos os seres criados. Não só desce energia criadora mantendo e sustentando Maya, a grande Ilusão, palco das experiências das personalidades alma deste mundo, mas da mesma forma estas experiências e suas conseqüências são imediatamente reportadas a Fonte de Todas as coisas, alimentando-a. São três colunas de Luz que sobem e que descem da Imensidade Divina, mais ou menos como na representação abaixo:


Terceiro passo: pensar a “Árvore” tridimensionalmente. Deformei-a e levantei-a, da forma que se segue. A esta altura tinha me fascinado pela “Árvore” e esquecido do Quadro Universal de Pasqually. Ficou primeiro assim:




Neste momento, eu estava levantando a “Árvore” para ver suas colunas de uma perspectiva inferior, imaginando que por baixo seria possível ver os vórtices. Ficou dessa forma a visão inferior:


Pensando nestas espirais, me veio a mente o quarto passo: pensar a “A Árvore como uma espiral em si e elaborei o seguinte modelo:



Não é preciso muita imaginação para entender que a imagem acima lembra muito uma árvore, sem sê-lo. Padrões energéticos em uma época primitiva não encontrariam nem um vocabulário para descrevê-los, como demonstramos em “Explicando o Quadro Universal”, na referência ao Eixo Fogo Central Incriado, o qual recebeu este nome trocando-se Energia por Fogo, única imagem capaz na época de representar a idéia.
Agora, se esse modelo acima, um torvelinho de energia, era uma manifestação do processo criador na Terra, e se ele se reproduzisse em vários níveis, teríamos algo parecido com a imagem que se segue:




Cada um destes vórtices em posições compatíveis com as sephirot, rodopiando e emanando energia que recebem de níveis mais altos e passando para os níveis mais baixos, ao mesmo tempo recebendo esta energia dos níveis mais baixos e os repassado para os níveis mais altos , de Malkuth até Kether. Animado com minhas brincadeiras visuais, deformei o vórtice mais ainda esticando-o e para minha surpresa surgiu nada mais nada menos do que uma “ARVORE”. Prestem atenção:


E agora a explicação da razão porque usei aquele modelo e não outro do esquema da Árvore da Vida. Três “Colunas de Fogo”, três colunas de energia como vistas acima:




E na versão Vórtice de Energia ficariam assim:


Diga-me você que lê este trabalho: é ou não é uma “Árvore”?
Só falta agora colocá-lo no Quadro Universal.

Qual o sentido de toda minha especulação com imagens? Postular que Misticismo e Tradição são apenas a ciência de outra época, uma época em que contemplavam-se fenômenos tão fantásticos e fascinantes como aqueles que o Hubble e seus companheiros telescópios da atmosfera nos apresentam todos os dias nos jornais da manhã. Em minha humilde opinião, tudo que a Tradição nos traz são relatos toscos e deformados de fenômenos indescritíveis naquela época, ou mesmo na nossa, visões de Iniciados que, ao transmiti-las, lançaram mão das comparações possíveis no seu tempo. Não compreender isto, a meu ver, é procurar sentido no que não tem, tentar entender o objeto real por sua sombra, como os prisioneiros da Caverna de Platão, no diálogo A República. Descrições toscas não significam que sejam falsas. São apenas toscas por que não poderiam ser de outra forma e ao místico é demandado um esforço intuitivo hercúleo para ir além das sombras que a Tradição às vezes tem preservado por milênios, na esperança de algum dia a mensagem ser entregue a quem de direito.
Confesso que sou pragmático e que às vezes me faço a pergunta assassina do prazer: para que servirá este conhecimento, que importância ele pode ter para a vida cotidiana? Ainda não sei. Mesmo assim me divirto em tentar surpreender formas esquecidas, dissimuladas em representações ruins, porém possíveis numa época de poucas luzes.
Se alguém quiser me criticar pelo meu esforço chamando-o de descabido e delirante, defendo-me com as palavras da Tábua de Esmeraldas: "O que está em cima, está em Baixo, assim como o que está em Baixo, está em Cima", lembrando como Espinoza que não existem várias realidades, mas apenas uma em sucessivos níveis de refinamento ou densidade. O que não podemos e não devemos fazer é parar de pensar.
Este ainda é o nosso último direito e nossa inquestionável liberdade.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OS SÍMBOLOS ESTÁTICOS, OS DINÂMICOS E OS PRÉ-DINÂMICOS OU SUAVIZADOS

por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:, M.:M.:

Vimos no ensaio anterior (“O Navio, o Oceano e o Farol”) que podemos didaticamente dividir os símbolos em simples ou compostos, como também em estáticos e dinâmicos. Simples seriam os que fossem formados de uma única figura geométrica ou biológica e compostos os que combinassem vários elementos dos dois tipos descritos; e os estáticos aqueles que possuíssem características bastante rígidas, como principalmente os símbolos maçônicos (esquadros, compassos, malhos e cinzel, pedra bruta ou polida) em oposição a outros que incorporassem caráter mais dinâmico, como aquele que é mais conhecido como o símbolo do Ying e do Yang.
Mas o Diagrama do Taijutso Tu não é o único símbolo que podemos usar como exemplo de um símbolo dinâmico. A maioria das Mandalas indianas também o são e um antigo símbolo védico que tornou-se tristemente notório, exemplifica bem este dinamismo, a Suástica.


Longe de ser um símbolo eminentemente nazista como possa parecer, ela sofre de uma reputação proveniente de seu uso histórico mais recente. Da mesma maneira que a cruz foi apropriada como símbolo particular de certas linhas religiosas, a suástica, símbolo primitivamente indiano, tornou-se aparentemente propriedade do regime nazista. Só que não o é. Ela pertence a história do povo ariano que colonizou o norte da Índia milhares de anos antes da segunda Guerra mundial, como demonstra achados arqueológicos insuspeitos como o da foto abaixo.

Colar indo-ariano, escavado em Kaluraz, Guilan (cerca de 1000 dC, Museu Nacional do Irã).

Não há dúvida, no entanto , que ninguém como os indianos souberam produzir símbolos, não só compostos como altamente dinâmicos. A profusão de mandalas produzidas pela arte religiosa hindu enche os olhos e enriquece nossa sensibilidade.
Tudo parte de um princípio simples: continente e conteúdo, periferia e centro, externo e interno. A partir daí a criatividade do artista determina até onde vai seu símbolo sempre atento ao fato de que um mandala deve induzir concentração perfeita até que o praticante atinja o estado de meditação e o mantenha.
Existe um jeito certo de contemplar o mandala.
É preciso que olhemos para seu centro e nos deixemos absorver por sua beleza de tal maneira e com tal persistência que a parte lateral do mandala desapareça de nossos olhos.
Embora complexos e variados , todo mandala tem a estrutura demonstrada abaixo:



A fase em que nos concentramos no ponto central é chamada de Dharana, Concentração, mas não é a primeira parte do processo. Existe em Yoga uma compilação, a mais antiga conhecida, que foi feita por Patânjali (Patanjali (em sânscrito: पतञ्जलि , Patāñjali) viveu entre 200 a.C. a 400 d.C.) dos conhecimentos da técnica.




Patânjali, metade cobra, metade homem


Foi baseada nos Vedas e Upanishad em aproximadamente 150 DC. Estes textos são chamados de Yoga Sutras.
Lá Patânjali descreve o Ashtanga Sadhana ou Caminho de 8 partes para atingir a Iluminação pelo Yoga.
A primeira e a segunda partes são normas de conduta chamadas Restrições e Prescrições, Yamas e Nyamas, coisas que não se deve fazer e coisas que se deve fazer.
A terceira e a quarta tratam especificamente da pratica física que compõe o sistema de exercícios para estímulo de glândulas e plexos nervosos, os Ásanas, posturas físicas, e os Pranayamas, técnicas respiratórias para controle do Prana, a energia Vital que entra no corpo pela Respiração; as últimas 4 partes referem-se a parte mais sutil do método e envolve a disciplina mental, ensinando como entrar em estado propício a Iluminação.
Juntos compõem o Yoganidra, e são a Abstração, Pratyahara, a Concentração, o Dharana, a Meditação, Dhyana e finalmente, o Samadhi , a Iluminação em Si.
Os mandalas são particularmente importantes nesta fase.
Para se concentrar a mente com perfeição é preciso abstrair-se de todo o resto que nos circunda, ou para falar do Mandala, é preciso tirar os olhos do Círculo, da periferia, e concentrar-se no centro, o ponto.



Para isto precisamos abstrair(pratyahara) , desviar a atenção do que não é importante, e concentramos-nos ( Dharana) no centro do mandala. Portanto a mais perfeita Abstração é o estado de Concentração. Do mesmo modo quando a mente está aquietada por uma concentração perfeita, o mais alto estágio de Dharana, atingimos o estado de Meditação, Dhyana. E finalmente, em meditação perfeita, Dhyana, atingimos um estado ainda mais refinado aonde nossa mente e a mente do Absoluto, da Totalidade se fundem e praticamos finalmente a Yoga (Fusão) com tudo que existe tornando-nos Iluminados (Samadhi).
Se Pratyahara e Dharana precisam ser praticados, Dhyana e Samadhy são estados em que se está ou não se está, dependendo da excelência de nossas fases anteriores.

Contemplar um símbolo como o Mandala é mergulhar no Fluxo da Consciência e deixar-se arrastar por ele, perdendo por instantes, os instantes da meditação, a noção do Eu e de Si Mesmo.
Personalidade, Sexo, Posição Social, tudo desaparece dentro de um torvelinho de consciência aonde nos tornamos apenas pura energia.
É uma experiência muito poderosa que se repetida por várias vêzes deixa reflexos em nosso intelecto e no nosso comportamento, mudando nossa perspectiva da realidade.


Terminada a prática, é comum em posição de lótus executar-se mais uma fase, para a qual as Oito Partes anteriores nos levam normalmente: a prática do Mantra.
O mais poderoso Mantra da tradição Hindu é o Om ou Aum, segundo Blavatsky formas diferentes de emitir o mesmo som.
A palavra mantra identifica um som repetido a exaustão, procurando desencadear na parte psíquica do indivíduo que o entoa o mesmo estado que o mandala a seu modo provocou. O mandala é uma das ferramentas auxiliares para se atingir, pelo método do Yoga, o estado de Samadhy. A outra ferramenta é o mantra.
O som Om em sânscrito é famoso, hoje, em todo mundo e é em sí um símbolo também muito dinâmico embora não tenha uma proposta arquitetônica de movimento. Porém seu desenho é de linhas curvas, com suavização nos seus contornos, mostrando um estado pré-dinâmico , mais flexível do que um símbolo de linhas extremamente retas como os símbolos maçônicos.

Emitido repetidas vêzes, induz a um estado de mono-tonia, que anestesia nossas percepções e aquieta nossa mente.
Mantras e Mandalas só tem uma finalidade: aquietar o turbilhão da mente. Yoga é uma técnica para conseguir isso, e em sânscrito diz-se que Yoga Chitta Nirodah, ou seja, a Fusão só é conseguida com a Cessação do Turbilhão Mental.
Desta forma levamos nossa discussão sobre símbolos a um nível mais alto, uma interação com o símbolo não só de natureza intelectual, mas mental, que deve ser transferida dos símbolos orientais, verdadeiras máquinas psicológicas para os símbolos ocidentais, reproduzindo aqui o caráter contemplativo inerente a prática oriental.
Se nos aprofundarmos nos símbolos ocidentais que contemplamos conseguiremos extrair sentidos antes insuspeitos e que só podem ser percebidos quando vamos além do próprio símbolo.
Como por exemplo o Pêndulo conhecido como Perpendicular ou Fio de Prumo, aquêle que simboliza a profundidade do estudo e da investigação do maçon. Embora a Maçonaria o valorize pelo seu caráter estático, pendendo do alto até embaixo na busca pela estabilidade representada na sua imobilidade, podemos especular que este estado de repouso que eventualmente é atingido pelo Fio de Prumo foi antecedido por uma oscilação a direita e à esquerda a qual é natural para todo objeto pendurado por uma pequena corda. E na análise deste símbolo, podemos enriquecê-lo trabalhando este aspecto tão desprezado em sua análise, o balanço que antecede a estabilidade.
Existe muito mais vida e movimento no Fio de Prumo quando ele não atingiu ainda a estabilidade, na qual se apresenta como se morto estivesse, imóvel, refém da força gravitacional. A busca acabou, o deslocamento terminou, a incerteza cessou na medida que cessou o movimento.
Só que a cessação da incerteza e da indefinição é a cessação da própria vida do Fio de Prumo ou Perpendicular e isto , que eu lembre, nunca é considerado na análise deste magnífico e dinâmico símbolo maçônico.


É como se matássemos o processo e trabalhássemos apenas com o produto final, como se tudo aquilo que acontecesse antes daquele evento perdesse importância.
Prumos, como também os Níveis em construção, são objetos com movimento, e na verdade, carregados daqui para lá em uma determinada obra jamais estão totalmente em repouso a não ser naqueles poucos instantes em que são chamados a dar seu julgamento sobre a perpendicularidade ou horizontalidade de determinada superfície. Uma vez que isto esteja verificado, cessa sua obrigação como aparelho e lá vai ele balançando na mão do mestre que o carrega.
Que podemos especular desta imagem? Que os instrumentos de um mestre têm movimento juntamente com o movimento de seu portador. Que a rigor, nem no momento em que estão atestando a estabilidade de uma superfície estão imóveis, posto que a Terra, abaixo de nossos pés, gira, e portanto, está também em movimento.


A gravidade nos engana. Não existe estabilidade estática mas sim uma estabilidade dinâmica, como o objeto que só levanta vôo e mantém sua altitude enquanto aquele que o gira preso em uma corda dá voltas em torno de si mesmo, forçando-o a manter-se no alto.


E já que toda estabilidade dinâmica é passageira, em suma, é uma estabilidade instável, nada justifica que roubemos aos símbolos mais dinâmicos entre os símbolos maçônicos, seu movimento interno natural, sua oscilação, sua busca, seu deslocamento.
Esta talvez seja uma maneira de revolucionar, outra palavra de movimento, o interior do pensamento maçônico, em muitas oportunidades avêsso a alterações de perspectivas tradicionais.


Na verdade a questão é semelhante ao Mandala. O que o Mandala ensina é que devemos desprezar o periférico para podermos ver perfeitamente o centro.Da mesma maneira, para se enriquecer a simbologia de um símbolo maçônico é preciso ir ao seu interior e ali descobriremos novas possibilidades, livres das distrações do aspecto periférico de símbolos e da ilusão de sua aparente estabilidade pétrea.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O NAVIO, O OCEANO E O FAROL

por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Símbolos são expressões de uma língua muito particular, o verdadeiro idioma universal, aliás, planetário, para ser menos pretensioso, além de atemporal e transcultural.
São manifestações complexas e sintéticas de uma narração em que uma imagem determina inúmeras compreensões. Sempre digo a minha filha menor que o bom escritor é aquele que é um bom descritor e que uma idéia é tão poderosa quanto a sua riqueza de cores, contrastes e paisagens.
Por isso a qualidade desses símbolos depende tanto da habilidade em representar uma determinada compreensão do mundo em um pequeno conjunto de traços, geralmente de caráter geométrico, ou seja, matemático. E a habilidade em decifrá-los depende em muito da capacidade de abstração geométrica do interpretador.
Essa geometria é composta de peças imóveis (quadrados, triângulos, círculos) associada ou não a alguns elementos biológicos (águias, leões, serpentes).
Citando a WIKIPEDIA: “A Semiótica (do grego semeiotiké ou "a arte dos sinais") ou Semiologia, nas ciências da linguagem, conforme sua origem (americana ou européia) é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ambos os termos são derivado de "Semeion", que significa "signo", havendo desde a antiguidade uma disciplina médica chamada de "semiologia".

Ferdinand de Saussure

Mais abrangente que a lingüística, a qual se restringe ao estudo dos signos lingüísticos, ou seja, do sistema sígnico da linguagem verbal, esta ciência tem por objeto qualquer sistema sígnico - Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Culinária, Vestuário, Gestos, Religião, Ciência, etc.

Charles Sanders Peirce

Surgiu, de forma independente, na Europa e nos EUA. Mais frequentemente, costuma-se chamar "Semiótica" à ciência geral dos signos nascidas do americano Charles Sanders Peirce e "Semiologia" à vertente européia do mesmo estudo, as quais tinham metodologia e enfoques diferenciados entre si[1].
Na vertente européia o signo assumia, a princípio, um caráter duplo, composto de dois planos complementares - a saber, a "forma" (ou "significante") e o "conteúdo" (ou "significado") - logo a semiologia seria uma ciência dupla que busca relacionar uma certa sintaxe (relativa à "forma") a uma semântica (relativa ao "conteúdo").
Ferdinand de Saussure (1857-1913) é considerado pai da semiologia, a vertente européia do estudo dos signos, por ser o primeiro autor a criar essa designação e a designar o seu objeto de estudo. Segundo este, a existência de signos - «a singular entidade psíquica de duas faces que cria uma relação entre um conceito (o significado) e uma imagem acústica (o significante) - conduz à necessidade de conceber uma ciência que estude a vida dos sinais no seio da vida social, envolvendo parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral. Chamar-lhe-emos semiologia. Estudaria aquilo em que consistem os signos, que leis os regem.»
A concepção de Saussurre relativamente ao signo distingue o mundo da representação do mundo real. Para ele, os signos (pertencentes ao mundo da representação) são compostos por significante - a parte física do signo - e pelo significado, a parte mental, o conceito.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Semi%C3%B3tica#Ferdinand_de_Saussure
Quanto a este último comentário da citação, existe um exemplo famoso que descreve o conceito através de um símbolo: o cachimbo de Renée Magritte, abaixo do qual ele escreve, em francês (Magritte era Belga) que aquilo “não era um cachimbo”, insinuando o fato de que tratava-se apenas de uma pintura de cachimbo e não o cachimbo real.

Místicos também buscam a compreensão de mensagens ocultas em imagens como as descritas acima, geométricos ou com formas de animais, simples ou compostos, aonde idéias e discursos inteiros estão acondicionados.
Exatamente como embrulhos, símbolos místicos precisam ser desembrulhados. Para usar a imagem e o conceito de Ferdinand de Saussure, desembrulhamos o significado do papel do significante.
Estabeleçamos, a título de didatismo, que existam dois grandes tipos de símbolos místicos: os símbolos simples e os símbolos compostos.
Símbolos simples seriam aquêles compostos apenas de um único simbolo geométrico, seja ele plano ou sólido (por exemplo, um quadrado, um triângulo, um cubo ou uma esfera). Composto seria o símbolo que fosse formado por mais de um elemento geométrico ( por exemplo, um círculo com um quadrado dentro e dentro deste quadrado uma imagem qualquer, como um triângulo ou mesmo uma cruz).
Interpretar um símbolo simples, como o nome diz, não é menos complexo, como possa parecer, do que interpretar um símbolo composto.

É a mesma coisa que escrever sobre um determinado tema excessivamente genérico.
É mais fácil escrever sobre a “Natureza do comportamento das nuvens na produção de chuvas em altas temperaturas no Gabão” do que escrever um ensaio sobre, digamos, “A Verdade”.
Ou seja, símbolos compostos podem ser de-compostos, progressiva e metodicamente, e podemos nos divertir encontrando os muitos significados ocultos dentro de suas muitas partes.
Símbolos simples, ao contrário, podem siginificar um sem número de coisas, como no caso de um simples ponto, o qual pode representar O Uno, O Todo, Aquele ou aquilo que não tem Dimensão, O Centro de Tudo, etc.
O Ponto

Neste caso, dos símbolos simples, é necessário que ele seja acompanhado de um direcionamento, um sub símbolo explicativo, ou um sub conjunto de símbolos, ou seja, um texto, que o complemente.
São raros os símbolos simples capazes de sózinhos expressarem seu sentido desejado ou imaginado pelo seu autor sem a necessidade de uma intervenção elucidativa, no caso um texto auxiliar.
Podemos citar como representantes deste tipo entre os símbolos geométricos a cruz com braços iguais, que sempre significará a interseção do que está no alto com o que está em baixo e, entre os biológicos, o leão como símbolo de força e realeza.


Se por exemplo a cruz não tiver braços de mesmo comprimento, embora o símbolo cruz não seja monopólio do Cristianismo, assemelhar-se-á a cruz cristã e passará a ter significados religiosos os mais variados.
De qualquer maneira, muito importantes para o trabalho místicos como agregadores de conceitos, os símbolos esotéricos trazem em seu bojo uma enorme gama de significados éticos, espirituais e emocionais.
Gostaria de destacar a tradição simbólica maçônica para concluir esta revisão.

Ali encontramos uma profusão de símbolos baseados nos instrumentos de trabalhos dos pedreiros, os quais foram recrutados como símbolos místicos com rara sagacidade. Na lista encontramos as três Jóias Móveis da Loja Maçônica, o Esquadro,a jóia do Venerável, o Nível, a jóia do 1° Vigilante, e o Prumo, a jóia do 2° Vigilante.

O simbolismo destes elementos, como por exemplo a Justiça, Equidade e retidão para o Esquadro; a Igualdade, representada pelo Nível, segundo Ragon, citado por Jules Boucher ; e o “ emblema da busca em profundidade da verdade, representada pelo fio de prumo ou Perpendicular, por causa de sua verticalidade, símbolo do 2° Vigilante, expressam em seu conjunto valores, idéias, mas principalmente metas e horizontes.
Porque metas? Porque os símbolos, principalmente os maçônicos, são notórios pela falta de dinamismo interno, pela seu perfil estático, inerte: pedras,polidas ou não, cinzéis, colunas, etc.

Quando falamos em retidão, também sofremos com esta representação estática, como se fosse possível a seres biológicos comportarem-se como entidades geométricas.
E isto, o bom senso nos diz, é impraticável. Pois todos os homens têm em sua vida, uma evolução não retilínea, mas sinuosa, com altos e baixos, viva, em síntese. Só os seres mortos são retilíneos, equilibrados. Vida é desiquilíbrio, instabilidade e não estabilidade.
Nenhuma existência neste mundo de contradições e contrastes pode ser reta como uma régua e nenhum ser humano terá sempre gestos retos como o ângulo de um esquadro, pois somos mais que pedras , somos almas mergulhados em corpos, sujeitos a um sem número de forças que nos deformam e formam, dia após dia.

Comparando, se cada símbolo deve servir de guia para nossas vidas e para nosso comportamento, como os símbolos maçônicos guiam os passos de um maçon, é importante deixar claro aos aprendizes que estão chegando a Ordem que esses mesmos símbolos são estáticos como Faróis, impertigados na praia ou na rocha sólida, lançando sua luz sobre o Oceano da Vida , mas nós, os navios que procuramos sua luz e que precisamos de sua orientação, balançamos violentamente neste Oceano, sem nunca repousar, sem nunca encontrar uma posição definitiva.
Isto é a Vida Real: movimento, instabilidade, ebulição.



Por isto símbolos estáticos devem ser sempre entendidos como intenções, mas não como realidades factíveis, da mesma maneira que o quadro do cachimbo de Magrite não é um cachimbo de verdade.

sábado, 5 de fevereiro de 2011