sábado, 27 de dezembro de 2025

 

PENDURANDO AS CHUTEIRAS

POR MARIO SALES

 

Como alguns amigos mais chegados já sabem, este ano encerro 25 anos de colaboração com a AMORC através de palestras. Um projeto de extrema complexidade me absorve no momento de tal forma que não consigo pensar em mais nada, dos muitos e variados temas que a vida esotérica nos apresenta.

Aliás a tendencia na pratica esotérica é a progressiva especialização. Vamos ao longo dos anos nos afeiçoando mais e mais a certa área do universo esotérico de maneira que, eventualmente, esta se transforma no carro chefe de nosso esforço intelectual.

No meu caso, tal área é a CABALÁ HEBRAICA.

Em si já comporta um enorme numero de conceitos e informações que deve me dar diversão e trabalho até o final dessa atual existência. É pena que não consigamos levar conosco as lembranças de uma encarnação. Isto me pouparia muito na próxima. Pelo menos, como disse, minha diversão está garantida.

Provocado pelo Grande Conselheiro do Nordeste, Paulo Dutra, um velho amigo, comecei e me interessei em traduzir o texto Etz Chaim, “A Árvore da Vida”, de Hhayyin Bem Joseph Vital, discípulo de Isaac Luria, e a isto tenho me dedicado nos últimos dois anos. O livro foi traduzido para o inglês e publicado duas vezes, a primeira em uma edição de capa preta e em quatro volumes, por dois editores desconhecidos, os quais por mais que eu procure, não consigo identificar ou levantar suas biografias: E.COLLÉ e H.COLLÉ.

O primeiro volume chama-se “O Palacio de Adam Kadmon” e é este meu atual objeto de trabalho.

Os três volumes seguintes são: “O Palacio dos Pontos”, “O Palacio das Coroas e o Palacio de Abba e Imma” e por ultimo “O Palacio de Zeir Anpin”, parte 1, o que sugere que exista uma parte 2 a qual não tive acesso.

            

Já traduzi para o português todos os 4 volumes, mas ai começou o drama de compreender, de modo inequívoco, os estranhos e metafísicos conceitos descritos.

E nisso já se passaram dois anos com um progresso lento e cuidadoso.

O que tem me ajudado é a parceria fraterna com Flavio Bazzeggio, meu companheiro de estudo já fazem 15 anos, que pacientemente ouve minhas queixas e duvidas e com isso alivia o fardo do entendimento.

A outra fonte de auxilio é uma outra edição primorosa de “O palácio de Adam Kadmon”, feita por dois rabinos de Nova Yorque, Donald Wilder Menzi e Zwe Padeh, pela editora JASON ARONSON INC, de Northvale, New Jersey, esta muito mais bem cuidada e, para nossa alegria, repleta de gráficos que esclarecem os conceitos de modo indelével.

Para minha tristeza, ao pesquisar os autores para saber de outras traduções para os volumes 2,3 e 4, encontrei a razão pela qual nenhum dos outros volumes veio a luz. Ambos faleceram nos últimos anos, Zwe Padeh aos 82 anos, em 16 de julho de 2022, e Donald Wilder Menzi em 21 de novembro de 2012. Ambos pertenciam a West End Synagogue, 190 Amsterdam Ave. Embora a sua tradução tenha sido em 1999, provavelmente o trabalho de compreensão e publicação do segundo volume foi interrompido no meio, já que 13 anos não é muito considerando o grau de abstração desses ensinamentos.

The Tree of Life: The Palace of Adam Kadmon: 1

From Donald Menzi ...

Donald Wilder Menzi

 

 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

 

ARREPENDIMENTO

07/05/2008

Ressinto-me das minhas hesitações

Dos meus senões.

Nada mais.

 

Meus erros são meus companheiros e mestres

Não me são hostis, nem me ameaçam.

Não me temem e eu não os temo

Temos, eu e meus erros,

um relacionamento amável

 

Só me arrependo do que não fiz

Por medo de falhar

Por insegurança ou timidez

 

Estes são meus pecados

Minhas omissões indesculpáveis

Meus silêncios injustificáveis

Minhas inoportunas crises de consciência

Que bloquearam os meus gestos

E me roubaram momentos

 

Que me roubaram meu tempo, minha vida.

 

EU NÃO ACORDO QUANDO ABRO OS OLHOS

 

12/12/2007


I

Eu não acordo quando abro os olhos

Só acordo debaixo do chuveiro

Depois de tomar café

e ler, inteiro,

o jornal.

 

Este é meu normal.

 

Leio jornal dormindo

Tomo café dormindo

Olhos abertos, dormindo,

Pensando, mas dormindo.

 

Assim a manhã vai seguindo.

 

Olhos abertos não são

Uma cabal demonstração

De que alguém está desperto.

 

É certo.

 

Vejo pessoas do carro,

nas ruas e nas casas,

passando por mim,

nas calçadas,

algumas paradas.

 

Olhos nas placas, apáticas.

 

Estarão despertas?

Ou são apenas corpos que se deslocam?

Só corpos?

Será que sonham enquanto andam?

 

Caminharão dentro de seus sonhos?

 

II

 

Eu não acordo quando abro os olhos

Só acordo no batismo do banheiro

Ritual com odor de sabonete.

 

O sabonete é meu incenso, cheiro,

No ar,

Na iniciação do dia incipiente,

Com água fria e café quente.

 

antes do banho e do despertar.

 

Quando vejo as pessoas apáticas

no mundo, nas calçadas,

percebo que muitas não foram tocadas

Pelo despertar/batismo das águas.

 

A maioria apenas se desloca

E se esbarra,

distraída

Em seu sono particular.

 


Acho difícil alguém, assim, acordar.

 


sábado, 21 de outubro de 2023

 

TEMPO

Por Mario Sales

 


Quanto tempo faz que não escrevo.

O tempo não tem densidade, mas ocupa espaço, em nossas mentes, em nossas vidas.

E na criação artística também, como o hiato entre o último trabalho e o atual, aquele que estamos realizando, que está acontecendo letra após letra, no meu caso específico, palavras que escorrem pelos dedos como a areia da ampulheta, transformando-se em passado no mesmo momento em que surgem na minha frente.

E se não forem revistas, corrigidas, editadas, permanecerão no passado, aparentemente pétreo e congelado como todas as obras humanas terminadas, acabadas, e que em seguida envelhecerão, ao longo dos anos, séculos, submetidas a inclemente ação da entropia, que tudo desgasta e, finalmente, apaga.

Assim, o tempo, conceito inefável, porém perceptível, nos atravessa, modifica, transforma. Nele o invisível prova sua presença ostensiva no visível, afetando o que se toca ou que se tocava e, hoje, não conseguimos mais.

Mesmo assim, sinto-me igual ao que era anos atrás, sem me dar conta de quem é essa pessoa que surge diante de mim, no espelho, de manhã.

Aqui dentro de mim tudo está igual, e a memória resgata instantes, eternizando-os, mesmo que envoltos na imaginação que inventa e disfarça o passado a tal ponto que julgamos fato aquilo que está apenas em nossas crenças do que foi, que julgamos ter sido de um modo e que, de modo algum, corresponde ao que realmente aconteceu.

Já foi dito que a memória nos ilude, trapaceia com nossas recordações e inventa passados.

Às vezes passados que gostaríamos que tivessem acontecido. Outras vezes passados que escondemos, por não poder suportar, e que retiramos de nossas vidas, alterando encontros, falas, sensações.

Ao lado, nos observando em silencio, o Tempo testemunha nossas artimanhas, estratégias de defesa do ego e da sanidade. Só ele, por vezes, permanece, incólume, intocado, silencioso e vital como o sangue que da mesma forma, de modo imperceptível, flui por nossas artérias e nos mantém vivos sem que nos apercebamos disso.

Muitas coisas fundamentais são discretas em nossa existência, como se um pudor as proibisse de mostrar-se e atrapalhar a ilusão de estarmos livres de quaisquer condições garantidoras da existências, como se existir fosse um direito inalienável de todos nós que, mesmo alimentando essa crença, caminhamos inexoravelmente para o esquecimento e para a morte física.

Sem considerar aspectos místicos e espirituais, a eternidade só é garantida pela lembrança, pela memória que nossos amigos e companheiros de existência guardam de nossa passagem por esse mundo, este percurso breve que supomos absolutamente demorado, mas que, eventualmente, desaparece sob nossos pés, lembrando-nos de modo, para alguns, súbito, da frase do filósofo que diz “tudo que é sólido desmancha no ar”.

E o Tempo, testemunha e responsável por tudo isso, apenas nos observa, passando por nós e fazendo com que passemos por ele.

Tudo o que nos resta é devolver ao Tempo seu olhar, como se o encarássemos desafiadores em nossa inocência, em nossa impotência, diante de sua inexorabilidade.

Pelo menos ao contemplá-lo nos damos conta de sua presença, quem sabe até compreendamos que antes de nos ser hostil, ele, Tempo, também é um prisioneiro de um modo de ser que mesmo que desejasse não conseguiria mudar.

Talvez até ele, se sonhasse, desejasse uma interrupção no seu próprio movimento, um descanso entre eras que se sucedem, intermináveis.

Isso, no entanto, está proibido para ele, Sísifo universal, escravo de sua própria natureza, de sua função na história da Criação.

Confesso que, pensando assim, o Tempo não suscita temor ou angustia, mas até inspira uma certa ternura de nossa parte, porque tanto quanto nós que ele teima em envelhecer e levar a aparente morte, ele não pode morrer. Jamais terá repouso ou mesmo consciência de seu esforço.

Como um zumbi, continuará seu trabalho, de fluir e fluir, indefinidamente, sem esperança de um dia ter o necessário repouso.

A eternidade, vista dessa perspectiva, é o inferno do Tempo.

Sinto uma sincera misericórdia por ele.

Ao que parece, o carcereiro está tão aprisionado quanto o prisioneiro.

 

 

 

 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A COMPLETA ACEITAÇÃO

 

Por Mario Sales



Existem algumas reflexões, que por serem óbvias não se tornam mais fáceis de serem aceitas como verdadeiras.

Uma delas é sobre a Criação.

Acompanhem meu raciocínio: se Deus é tudo que existe, e está na Sua obra, como cada artista se faz presente em sua arte por completo, não existe uma parte do Universo manifesto que não seja manifestação do Altíssimo.

De forma que o corpo, a sexualidade, as vicissitudes da existência são manifestações do Divino, e por isso, igualmente divinas.

Atribuir o adjetivo de impuro a qualquer ato sob os céus, céus que foram criados pelo mesmo Deus, é achar que existe algo na Criação, ou seja, algo em Deus, que não é digno.

Dito de outra forma, para essas pessoas, uma parte de Deus é ruim e não é digna.

Um absurdo lógico, uma contradição, que só é possível em mentes limitadas pelo preconceito e pela ignorância.

E tudo parte da incompreensão do papel de Maya. Chamar o mundo invisível de puro e Maya de impuro; caracterizar a vida fora do corpo como real, e aquela dentro do corpo como uma “perigosa ilusão”, beira as raias do ridículo.

Supor que esta dimensão de existência é menos importante do que as outras segue a linha de pensamento que vê Deus como algo distante espacialmente falando, e não uma presença imanente e permanente. Supor que o local onde se dá a formação das almas, sua educação, seus exercícios no campo da misericórdia e do serviço é o mais baixo dos planos da Criação, é um equívoco atávico em textos esotéricos de várias épocas.

Correndo o risco de ser redundante, repito que Maya é uma área tão real como todas as outras dimensões de manifestação, pois a noção de realidade evoluiu com a evolução do pensamento esotérico.

Real não é aquilo que é palpável, nem para o Ocultismo e nem para a ciência. Real é aquilo do que temos consciência de existir, que percebemos como tal, não importa se é uma simulação de computador ou se estamos em meio a natureza.

Os estudos de neurofisiologia funcional demonstram que para nosso cérebro, a imagem de uma maçã e a maçã em si causam o mesmo impacto e desencadeiam as mesmas respostas orgânicas.

É real o que é real para nós. Portanto, tudo aquilo de que temos consciência é real para nós e tem a mesma densidade comparativamente de uma pedra, pedra esta que já foi antigamente um referencial de solidez e realidade.

Ou aceitamos a criação como ela é, inteira, e a consideramos como a única realidade que nos importa, enquanto nela estivermos, ou não usufruiremos de nosso direito de habitar este Universo e extrair das experiencias aqui vividas toda a gama de aprendizado que formos capazes de absorver.

Maya não é o problema. Confundir-se com Maya, sim.

Assistir um filme de cinema não é o problema, mas supor que os personagens fictícios do filme são reais, sim.

Não é por sabermos que a fantasia é uma ficção que não podemos nos divertir e aprender com ela.

Não é porque achamos certas coisas melhores e mais dignas do que outras que elas automaticamente assim serão. Nossa percepção modifica a realidade que testemunhamos, como o molho muda o sabor do macarrão.

Sem ausência de preconceitos, a completa aceitação do que é será sempre uma impossibilidade. Sem aceitar uma parte de Deus, nunca aceitaremos Sua presença em nós de forma completa.