IMAGINÁRIO DO MARIO
UM EXERCÍCIO SOLITÁRIO, POÉTICO E FILOSÓFICO, BASEADO NO PRECEITO ROSACRUZ DA MAIS COMPLETA LIBERDADE (POSSÍVEL) DENTRO DA MAIS PERFEITA TOLERÂNCIA (POSSÍVEL). O MARTINISMO E O ROSACRUCIANISMO COMO REFLEXÃO.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
sábado, 27 de dezembro de 2025
PENDURANDO AS CHUTEIRAS
POR MARIO SALES
Como alguns
amigos mais chegados já sabem, este ano encerro 25 anos de colaboração com a
AMORC através de palestras. Um projeto de extrema complexidade me absorve no
momento de tal forma que não consigo pensar em mais nada, dos muitos e variados
temas que a vida esotérica nos apresenta.
Aliás a
tendencia na pratica esotérica é a progressiva especialização. Vamos ao longo
dos anos nos afeiçoando mais e mais a certa área do universo esotérico de
maneira que, eventualmente, esta se transforma no carro chefe de nosso esforço
intelectual.
No meu caso,
tal área é a CABALÁ HEBRAICA.
Em si já
comporta um enorme numero de conceitos e informações que deve me dar diversão e
trabalho até o final dessa atual existência. É pena que não consigamos levar
conosco as lembranças de uma encarnação. Isto me pouparia muito na próxima.
Pelo menos, como disse, minha diversão está garantida.
Provocado
pelo Grande Conselheiro do Nordeste, Paulo Dutra, um velho amigo, comecei e me
interessei em traduzir o texto Etz Chaim, “A Árvore da Vida”, de Hhayyin Bem
Joseph Vital, discípulo de Isaac Luria, e a isto tenho me dedicado nos últimos
dois anos. O livro foi traduzido para o inglês e publicado duas vezes, a
primeira em uma edição de capa preta e em quatro volumes, por dois editores
desconhecidos, os quais por mais que eu procure, não consigo identificar ou
levantar suas biografias: E.COLLÉ e H.COLLÉ.
O primeiro
volume chama-se “O Palacio de Adam Kadmon” e é este meu atual objeto de
trabalho.
Os três
volumes seguintes são: “O Palacio dos Pontos”, “O Palacio das Coroas e o
Palacio de Abba e Imma” e por ultimo “O Palacio de Zeir Anpin”, parte 1, o que
sugere que exista uma parte 2 a qual não tive acesso.
Já traduzi
para o português todos os 4 volumes, mas ai começou o drama de compreender, de
modo inequívoco, os estranhos e metafísicos conceitos descritos.
E nisso já
se passaram dois anos com um progresso lento e cuidadoso.
O que tem me
ajudado é a parceria fraterna com Flavio Bazzeggio, meu companheiro de estudo
já fazem 15 anos, que pacientemente ouve minhas queixas e duvidas e com isso
alivia o fardo do entendimento.
A outra
fonte de auxilio é uma outra edição primorosa de “O palácio de Adam Kadmon”,
feita por dois rabinos de Nova Yorque, Donald Wilder Menzi e Zwe Padeh, pela
editora JASON ARONSON INC, de Northvale, New Jersey, esta muito mais bem
cuidada e, para nossa alegria, repleta de gráficos que esclarecem os conceitos
de modo indelével.
Para minha
tristeza, ao pesquisar os autores para saber de outras traduções para os
volumes 2,3 e 4, encontrei a razão pela qual nenhum dos outros volumes veio a
luz. Ambos faleceram nos últimos anos, Zwe Padeh aos 82 anos, em 16 de julho de
2022, e Donald Wilder Menzi em 21 de novembro de 2012. Ambos pertenciam a West
End Synagogue, 190 Amsterdam Ave. Embora a sua tradução tenha sido em 1999,
provavelmente o trabalho de compreensão e publicação do segundo volume foi
interrompido no meio, já que 13 anos não é muito considerando o grau de
abstração desses ensinamentos.
Donald Wilder Menzi
terça-feira, 31 de outubro de 2023
ARREPENDIMENTO
07/05/2008
Ressinto-me das minhas
hesitações
Dos meus senões.
Nada mais.
Meus erros são meus
companheiros e mestres
Não me são hostis, nem me
ameaçam.
Não me temem e eu não os temo
Temos, eu e meus erros,
um relacionamento amável
Só me arrependo do que não
fiz
Por medo de falhar
Por insegurança ou timidez
Estes são meus pecados
Minhas omissões
indesculpáveis
Meus silêncios
injustificáveis
Minhas inoportunas crises de
consciência
Que bloquearam os meus gestos
E me roubaram momentos
Que me roubaram meu tempo,
minha vida.
EU NÃO
ACORDO QUANDO ABRO OS OLHOS
12/12/2007
I
Eu
não acordo quando abro os olhos
Só
acordo debaixo do chuveiro
Depois
de tomar café
e
ler, inteiro,
o jornal.
Este é meu normal.
Leio
jornal dormindo
Tomo
café dormindo
Olhos
abertos, dormindo,
Pensando,
mas dormindo.
Assim a manhã vai seguindo.
Olhos
abertos não são
Uma
cabal demonstração
De
que alguém está desperto.
É certo.
Vejo
pessoas do carro,
nas
ruas e nas casas,
passando
por mim,
nas
calçadas,
algumas
paradas.
Olhos nas placas, apáticas.
Estarão
despertas?
Ou
são apenas corpos que se deslocam?
Só
corpos?
Será
que sonham enquanto andam?
Caminharão dentro de seus sonhos?
II
Eu
não acordo quando abro os olhos
Só
acordo no batismo do banheiro
Ritual
com odor de sabonete.
O sabonete
é meu incenso, cheiro,
No
ar,
Na
iniciação do dia incipiente,
Com
água fria e café quente.
antes do banho e do despertar.
Quando
vejo as pessoas apáticas
no
mundo, nas calçadas,
percebo
que muitas não foram tocadas
Pelo
despertar/batismo das águas.
A
maioria apenas se desloca
E
se esbarra,
distraída
Em
seu sono particular.
Acho difícil alguém, assim, acordar.
sábado, 21 de outubro de 2023
TEMPO
Por Mario Sales
Quanto tempo faz que não escrevo.
O tempo não tem densidade, mas ocupa espaço, em nossas
mentes, em nossas vidas.
E na criação artística também, como o hiato entre o último
trabalho e o atual, aquele que estamos realizando, que está acontecendo letra após
letra, no meu caso específico, palavras que escorrem pelos dedos como a areia
da ampulheta, transformando-se em passado no mesmo momento em que surgem na
minha frente.
E se não forem revistas, corrigidas, editadas, permanecerão no
passado, aparentemente pétreo e congelado como todas as obras humanas
terminadas, acabadas, e que em seguida envelhecerão, ao longo dos anos, séculos,
submetidas a inclemente ação da entropia, que tudo desgasta e, finalmente,
apaga.
Assim, o tempo, conceito inefável, porém perceptível, nos atravessa,
modifica, transforma. Nele o invisível prova sua presença ostensiva no visível,
afetando o que se toca ou que se tocava e, hoje, não conseguimos mais.
Mesmo assim, sinto-me igual ao que era anos atrás, sem me
dar conta de quem é essa pessoa que surge diante de mim, no espelho, de manhã.
Aqui dentro de mim tudo está igual, e a memória resgata
instantes, eternizando-os, mesmo que envoltos na imaginação que inventa e
disfarça o passado a tal ponto que julgamos fato aquilo que está apenas em
nossas crenças do que foi, que julgamos ter sido de um modo e que, de modo
algum, corresponde ao que realmente aconteceu.
Já foi dito que a memória nos ilude, trapaceia com nossas
recordações e inventa passados.
Às vezes passados que gostaríamos que tivessem acontecido. Outras
vezes passados que escondemos, por não poder suportar, e que retiramos de
nossas vidas, alterando encontros, falas, sensações.
Ao lado, nos observando em silencio, o Tempo testemunha
nossas artimanhas, estratégias de defesa do ego e da sanidade. Só ele, por vezes,
permanece, incólume, intocado, silencioso e vital como o sangue que da mesma
forma, de modo imperceptível, flui por nossas artérias e nos mantém vivos sem
que nos apercebamos disso.
Muitas coisas fundamentais são discretas em nossa existência,
como se um pudor as proibisse de mostrar-se e atrapalhar a ilusão de estarmos
livres de quaisquer condições garantidoras da existências, como se existir
fosse um direito inalienável de todos nós que, mesmo alimentando essa crença,
caminhamos inexoravelmente para o esquecimento e para a morte física.
Sem considerar aspectos místicos e espirituais, a eternidade
só é garantida pela lembrança, pela memória que nossos amigos e companheiros de
existência guardam de nossa passagem por esse mundo, este percurso breve que
supomos absolutamente demorado, mas que, eventualmente, desaparece sob nossos
pés, lembrando-nos de modo, para alguns, súbito, da frase do filósofo que diz “tudo
que é sólido desmancha no ar”.
E o Tempo, testemunha e responsável por tudo isso, apenas
nos observa, passando por nós e fazendo com que passemos por ele.
Tudo o que nos resta é devolver ao Tempo seu olhar, como se
o encarássemos desafiadores em nossa inocência, em nossa impotência, diante de
sua inexorabilidade.
Pelo menos ao contemplá-lo nos damos conta de sua presença,
quem sabe até compreendamos que antes de nos ser hostil, ele, Tempo, também é
um prisioneiro de um modo de ser que mesmo que desejasse não conseguiria mudar.
Talvez até ele, se sonhasse, desejasse uma interrupção no
seu próprio movimento, um descanso entre eras que se sucedem, intermináveis.
Isso, no entanto, está proibido para ele, Sísifo universal,
escravo de sua própria natureza, de sua função na história da Criação.
Confesso que, pensando assim, o Tempo não suscita temor ou
angustia, mas até inspira uma certa ternura de nossa parte, porque tanto quanto
nós que ele teima em envelhecer e levar a aparente morte, ele não pode morrer.
Jamais terá repouso ou mesmo consciência de seu esforço.
Como um zumbi, continuará seu trabalho, de fluir e fluir,
indefinidamente, sem esperança de um dia ter o necessário repouso.
A eternidade, vista dessa perspectiva, é o inferno do Tempo.
Sinto uma sincera misericórdia por ele.
Ao que parece, o carcereiro está tão aprisionado quanto o
prisioneiro.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
A COMPLETA ACEITAÇÃO
Por Mario Sales
Existem algumas reflexões, que por serem óbvias não se tornam mais fáceis de serem aceitas como verdadeiras.
Uma delas é sobre a Criação.
Acompanhem meu raciocínio: se Deus é tudo que existe, e está
na Sua obra, como cada artista se faz presente em sua arte por completo, não
existe uma parte do Universo manifesto que não seja manifestação do Altíssimo.
De forma que o corpo, a sexualidade, as vicissitudes da existência
são manifestações do Divino, e por isso, igualmente divinas.
Atribuir o adjetivo de impuro a qualquer ato sob os céus, céus
que foram criados pelo mesmo Deus, é achar que existe algo na Criação, ou seja,
algo em Deus, que não é digno.
Dito de outra forma, para essas pessoas, uma parte de Deus é
ruim e não é digna.
Um absurdo lógico, uma contradição, que só é possível em
mentes limitadas pelo preconceito e pela ignorância.
E tudo parte da incompreensão do papel de Maya. Chamar o
mundo invisível de puro e Maya de impuro; caracterizar a vida fora do corpo
como real, e aquela dentro do corpo como uma “perigosa ilusão”, beira as raias
do ridículo.
Supor que esta dimensão de existência é menos importante do
que as outras segue a linha de pensamento que vê Deus como algo distante
espacialmente falando, e não uma presença imanente e permanente. Supor que o
local onde se dá a formação das almas, sua educação, seus exercícios no campo
da misericórdia e do serviço é o mais baixo dos planos da Criação, é um
equívoco atávico em textos esotéricos de várias épocas.
Correndo o risco de ser redundante, repito que Maya é uma
área tão real como todas as outras dimensões de manifestação, pois a noção de
realidade evoluiu com a evolução do pensamento esotérico.
Real não é aquilo que é palpável, nem para o Ocultismo e nem
para a ciência. Real é aquilo do que temos consciência de existir, que
percebemos como tal, não importa se é uma simulação de computador ou se estamos
em meio a natureza.
Os estudos de neurofisiologia funcional demonstram que para
nosso cérebro, a imagem de uma maçã e a maçã em si causam o mesmo impacto e
desencadeiam as mesmas respostas orgânicas.
É real o que é real para nós. Portanto, tudo aquilo de que temos
consciência é real para nós e tem a mesma densidade comparativamente de uma
pedra, pedra esta que já foi antigamente um referencial de solidez e realidade.
Ou aceitamos a criação como ela é, inteira, e a consideramos
como a única realidade que nos importa, enquanto nela estivermos, ou não
usufruiremos de nosso direito de habitar este Universo e extrair das
experiencias aqui vividas toda a gama de aprendizado que formos capazes de
absorver.
Maya não é o problema. Confundir-se com Maya, sim.
Assistir um filme de cinema não é o problema, mas supor que
os personagens fictícios do filme são reais, sim.
Não é por sabermos que a fantasia é uma ficção que não
podemos nos divertir e aprender com ela.
Não é porque achamos certas coisas melhores e mais dignas do
que outras que elas automaticamente assim serão. Nossa percepção modifica a
realidade que testemunhamos, como o molho muda o sabor do macarrão.
Sem ausência de preconceitos, a completa aceitação do que é
será sempre uma impossibilidade. Sem aceitar uma parte de Deus, nunca
aceitaremos Sua presença em nós de forma completa.
