domingo, 10 de abril de 2011

TODO RIO TEM UMA CORRENTE

por Mario Sales, FRC.: ,S.:I.:, M.:M.:


A maior garantia de liberdade possível é a de pensamento e imaginação. Não o corpo, mas a mente livre é o que garante a estabilidade do espírito e o respeito à individualidade humana. Estas são as conclusões a que chegou a humanidade após séculos de elaborações sobre a liberdade em si. Imaginar é ser livre.
Faço estas considerações pensando na matéria que foi publicada no jornal O Estado de São Paulo, no caderno Sabático, de nove de abril próximo passado.

Trata-se de uma resenha sobre a tradução do volume de ensaios do pensador franco-búlgaro Tzvetan Teodorov, A Beleza Salvará o Mundo,(frase extraída de um conto de Dostoievski, “O Idiota”), publicado pela editora Difel, onde o autor analisa a obra de três grandes escritores, (Oscar Wilde,inglês; Rainer Maria Rilke, alemão; e Marina Tsvetaeva, russa) a título de defender a tese de que “se cabe a nós decidir o que é verdadeiro e o que é ficção, também é nossa atribuição encontrar um caminho que conduza a um estado de plenitude num mundo sacudido pela obsessão materialista e a descrença”, no comentário de Antonio Gonçalves Filho.

Tzvetan Teodorov


Não há nenhuma conotação mística em seus comentários. Apenas uma ênfase na importância da Arte como atenuadora da Dor e fonte de sentido na existência. Por que a beleza de que fala a frase título não é a beleza cosmética, mas a beleza do espírito humano que se realiza em sua produção artística: seus romances, seus poemas, sua pintura, sua música.
Ao longo de seu artigo, Antonio Gonçalves Filho relembra que “Teodorov não prega o sacrifício pelo “belo ideal”. Para ele”, continua Gonçalves, “a arte seria a continuação do sagrado por outros meios, parafraseando o filósofo francês Marcel Gauchet” (professor do Centre de recherches politiques Raymond Aron na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em Paris).

Marcel Gauchet


Concordo.
A beleza proveniente da Arte é indiscutivelmente um atenuante num mundo caótico e às vezes, sem brilho.
É nestes momentos que encontramos a marca dos momentos importantes de nossa vida ou de nosso dia, pelo menos.
É o que acontece com a música. É ela, música, que atenua nossa monotonia e nos enriquece, de modo gratuito e generoso. Sabemos o que a música nos dá embora não possamos lhe dar nada.
Ela nos envolve e identifica certas emoções e épocas, lembranças, enfim. Nossa memória, via de regra, é orientada por certas canções e músicas que nos trazem as imagens marcantes de nosso passado recente ou distante.
Existe, no entanto, outras músicas, sem instrumentos a não ser nossa boca e sensibilidade, as poesias, que nos cercam com seus versos e nos inundam de prazer estético.


Marina Tsvetaeva

Viver não é uma experiência apenas prazerosa. Este é o mundo da dualidade. A Arte serviria de compensação às vicissitudes que a existência nos traz, e é nesse contexto que o livro de Teodorov trabalha.
Basta lembrar que Wilde foi preso por ser homossexual, Marina Tsvetaeva teve o marido fuzilado pelo governo comunista e viu a filha morrer de fome, tendo vivido sempre em extrema pobreza. Rilke sempre teve uma vida errante, tendo vivido sempre à custa de amigas, mas dos três talvez tenha sido o que tenha atravessado menor numero de dramas pessoais concretos.
Sua arte lhes trará sustento moral para atravessar seus dissabores, mas é preciso lembrar que, embora a arte compense a Dor, não quer se dizer com isso que a Dor seja fundamental a arte.
O prazer e o equilíbrio também produzem arte e basta lembrar Rodin, de quem Rilke foi secretário em Paris, em 1905 e 1906, artista consagrado, e ao que se sabe sem grandes crises pessoais, que teve grande influência na poesia do escritor alemão.Tudo isto, penso, tem a ver com a busca do equilíbrio pessoal na vida cotidiana.

Oscar Wilde


Alguns místicos advogam que só através da religiosidade é possível um fortalecimento do caráter e do vigor espiritual que nos dê o alento para atravessar os problemas e as tribulações. Mas se esquecem de que a “Arte é a continuação do sagrado por outros meios”, bem como a vida cotidiana em si. O que nos leva a outra formulação: o profano é sagrado em si, tornado sagrado por nossos pensamentos e nossa conduta.
Não me parece que haja dúvida de que o estado de equilíbrio é dinâmico e que a beleza não está apenas nos olhos de quem a vê, mas também na interação com o que é contemplado. E o artista, inspirado pelo universo em seu trabalho, garante com a beleza que produz o estímulo necessário para ativar nossos melhores sentimentos e nossas melhores emoções.


Rainer Maria Rilke

É possível distinguir uma arte inspiradora de outra da qual não podemos dizer o mesmo, mas os critérios para essa separação são difíceis de estabelecer sem que se escorregue para o preconceito.
O que é certo é que a religiosidade é um assunto complexo demais para ficar apenas nas mãos da religião. É preciso que vejamos possibilidades de sagrado em tudo que vivenciemos, mesmo na arte e na expressão da beleza de cada ser humano tocado pelo dom de produzir prazer estético. Gerar beleza com a Arte é um trabalho abençoado, e seus produtores são, da mesma forma, pessoas abençoadas pelas quais devemos sentir uma imensa gratidão.
Não só pelo bem que nos fazem, mas pela generosidade de sua dádiva, tão universal quanto mais bela puder ser.
No fundo, como místico, creio que o que faz estas pessoas especiais não é o fato de que produzam beleza, mas o baixo grau de interferência entre a fonte de toda a beleza e aqueles que delas desfrutarão. Pois artistas como místicos e santos, são antes de tudo seres profundamente intuitivos e captam, antes de todos, as emissões constantes e ininterruptas do cosmos a nossa volta.
É a tradução destas emissões que os torna produtores de beleza, ou melhor, decifradores e retransmissores da beleza que está ao nosso redor. Por que fazer arte é deixar-se invadir pelo fluxo desta mesma beleza que nos atravessa de modo consciente, assistindo ao seu desfile por dentro de nós, e depois descrevendo este cenário contemplado com nossas possibilidades, sejam palavras, sejam instrumentos musicais.
O universo é, na minha humilde opinião, em última análise, o único produtor de toda a beleza que existe e nosso papel é não interferirmos com este fluxo para usufruir o melhor possível dele.
Nem toda a beleza que captamos conseguimos traduzir. Imaginem o que desfrutaríamos em prazer estético se o conseguíssemos. Enfim, o que não devemos é interromper este fluxo. As correntes têm suas próprias razões.

Viver é desfrutar de uma viagem em uma destas correntes. Fazer arte também. Cada vida é um rio com seu próprio fluxo, sua própria corrente, à qual devemos ficar atentos para que a viagem seja a mais frutífera e enriquecedora.
O artista é aquele que seguiu sua corrente pessoal, que não lutou contra ela, que percebeu que cada rio tem sua corrente própria e que a nossa nunca será a mesma daquele que está ao nosso lado.
O mapa de nosso percurso, o trajeto da corrente de nosso rio, está em nosso coração.
É nele, sejamos ou não místicos, que devemos, portanto, prestar atenção, para encontrar nosso destino. E este é o mais importante papel da arte: lembrar-nos da importância de nossos sentimentos para a realização de uma vida realmente bela.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O SÁBIO E A DÚVIDA

UM ESTUDO SOBRE A ANSIEDADE


Este é um dos muitos ensaios que enviei para publicação em O Rosacruz, já fazem alguns anos. Como é protocolo que, uma vez que enviemos para a AMORC um determinado texto, abrimos mão da propriedade deste artigo que passa a ser da Ordem, não o publiquei no blog neste primeiro ano. Com sua publicação em O Rosacruz 275 (acima), verão de 2011, página 24, que chega às mãos dos Rosacruzes esta semana, sinto-me a vontade para trazê-lo para este espaço. Depois de todos estes anos percebi, relendo o texto, um erro de minha responsabilidade: a troca de posição de duas palavras que mudam o sentido de um parágrafo. São elas "visível" e "invisível". No texto que ora publico no blog foi feita a correção, que vai devidamente identificada por um sublinhado.


“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã.
E se você parar pra pensar,
Na verdade não há.”
Trecho de “Pais e Filhos”
de Renato Russo

Refletir sobre o óbvio é sempre difícil.
As coisas mais complexas de descrever são aquelas que julgamos conhecer tão bem que, aparentemente, supomos desnecessária uma explicação.
São intuitivas, no sentido que essa palavra – intuição – tem em filosofia.
Abrimos os olhos e lá estão elas, dadas gratuitamente pela percepção, sem a intermediação do intelecto.
É assim com o dia, que contemplamos sem considerar seu aspecto temporal ou astronômico, a posição do planeta no seu contínuo movimento de rotação, que permite o sol iluminar a nossa parte do planeta.
O dia sem considerações sobre ele é apenas isto: luz no lugar das trevas, cheiro de café (quando há café), pássaros cantando (quando existem pássaros), sem que pensemos sobre isso (café, pássaros, etc.); olhar e ver a natureza, assim, dada, sem pensar a natureza.
É claro que levamos apenas alguns segundos assim.
Intuir o mundo é um fenômeno fugidio, rápido.
Logo, viciados que somos em interpretar o mundo em vez de simplesmente contemplá-lo, começamos a pensar o mundo visível a nossa frente ou que atinge nossos outros sentidos além da visão.
O cheiro de café nos traz a imagem do alimento, a lembrança da fome, do horário, dos compromissos da manhã.
Já não estamos no período intuitivo da percepção: agora estamos pensando. E como coçar e pensar é só começar, o pensamento segue célere a nossa frente, via de regra, sem nenhum pudor.
Este é o mecanismo primário da ansiedade. Ela se baseia em um descompasso entre o fato e as considerações sobre o fato. Uma separação temporal, a perda da simultaneidade entre e refletir e agir.
Mais que isso: a ansiedade perverte a nossa percepção do presente.
Por duas maneiras antecipamos o futuro: por ansiedade ou por planejamento.
O planejamento é uma antecipação intelectual do futuro, mas planejamento não é ansiedade, é preparação.
O que diferencia o planejador e o ansioso é a carga emocional que ele coloca na antecipação.
Planejar é antecipar com prazer e calma, certo da distância no tempo entre o desejo e a realização do desejo e contando com esta distância, com este tempo.
Ansiar é antecipar com sofrimento, sem clareza entre o momento do desejo e da realização do desejo, sofrendo com esta confusão entre ambos os momentos, com perda da distinção clara de que o tempo é uma condição linear e sucessiva de presente e futuro.
Para o planejador o futuro virá normalmente após o presente.
Para o ansioso, só existe o futuro: o presente, para ele, está perdido.
É, portanto um sinal de sabedoria não se deixar dominar pela ansiedade.
O sábio permite que o fluxo do tempo siga seu rumo sem interrupções ou aumento de velocidade. Ele contempla o fluxo a sua frente impassível, como o homem sentado na margem do rio, olhando para águas aparentemente sempre iguais, mas que na verdade nunca são as mesmas.
O sábio conhece o segredo do fluxo: o presente não é estático, mas puro movimento, como o trecho do rio a sua frente. Embora o trecho do rio seja o mesmo, ele é pleno de mudanças. O aqui e agora é um processo em andamento.
Sábio é o indivíduo que sabe vivenciar o aqui - agora, intuitivamente.
Conhecida é a parábola budista sobre isso.
Em uma de suas caminhadas o Buda encontrou, perto de um rio largo, um sadhu, um homem de renúncia. Este, tendo reconhecido o mestre, perguntou-lhe:
-Veja Gautama, medito aqui neste local há 50 anos, em busca de autodomínio. Consegui grande poder e graças a este poder posso fazer grandes coisas. Veja.
E dizendo isso se levantou e caminhou sobre as águas do rio, até o outro lado e retornou sobre elas.
O Buda tudo contemplou com enfado e indiferença.
Então, quebrando o silêncio, disse:
-Você meditou 50 anos para poder fazer isto?
Perplexo e contrariado, o sadhu desafiou:
-Então me diga qual milagre você pode realizar maior que o que eu demonstrei?
Ao que Buda respondeu:
-Meus milagres são estes: quanto tenho fome como,quando tenho sede , bebo, e quando tenho sono, durmo.
E seguiu em frente seu caminho.
Qual de nós pode realizar tais milagres?
“Quando tenho fome, como.”
Comer, totalmente absorto pelo ato, em silêncio, atento aos sabores e aos odores do alimento, agradecido por estar sendo satisfeito, fascinado pelas cores, pela textura, pela temperatura das coisas que mastigamos. Sem preocupações, sem pressa. Não comer pela indução da propaganda, que estimula a alimentação desnecessária, mas como resposta ao desejo instintivo, nem mais, nem menos.
Qual de nós é assim?Qual de nós come assim?
“Quando tenho sono, durmo.”
Qual de nós tem um sono tranqüilo e sem horários? Dormimos por que precisamos ou porque temos que dormir.
Não dormimos porque não podemos ou porque não devemos, mas não por que não tenhamos sono.
Os ritmos sociais dirigem nosso ritmo biológico. O natural há muito tempo se afastou de nós.
Sim, as coisas simples e naturais são o milagre. Milagre da harmonia e da sincronia entre o biológico e o cósmico, que o intelecto e sua artificialidade desfizeram.
E assim surge o paradoxo: o mesmo intelecto, o mesmo poder de abstração, que nos permite elaborar e aperfeiçoar o real nos afasta e interfere na nossa percepção do real.
Ato e idéia do ato são hoje coisas distintas porque existe o pensamento, aquele que abstrai que retira do sólido sua substancia ou que infunde no sólido sua interpretação, seu significado.
O abstrato é o invisível.
E assim, mais uma vez, como o ar que nos dá a vida, o invisível sustenta o visível.
O visível é conseqüência do invisível.
Nossa educação é este invisível que molda nossa percepção do mundo. Muitas vezes, ela molda desejos em nós absolutamente falsos. É preciso que aprendamos a separar os desejos reais daqueles artificiais. Seria um primeiro passo na melhoria de nosso mundo visível e no aperfeiçoamento de sua operação. Mente educada mente tranqüila, sem ansiedade.
“Quando tiver fome, coma; quando tiver sede, beba; quando tiver sono, durma.”
Ritmos naturais.
Suaves.
Autênticos.
Sem ansiedade.
Sem receios.
Sem medo.
O medo, no entanto,faz parte da vida. Ele nos garante a prudência e a autopreservação. Quando, então, o medo se transforma em inimigo? Quando está distorcido pelo apego. Não é o medo, mas o medo de perder, alguém ou alguma coisa, que nos torna frágeis e inseguros.
O medo de perder é o pai da ansiedade. Ele nos induz ao erro e a precipitação.
O medo de perder, (com a ajuda de sua filha, a ansiedade) é o ladrão do presente.
Sem o medo de perder, surge à confiança no futuro, produto de um presente sólido e bem vivenciado.
Não há mais tanta necessidade de respostas. Podemos prestar mais atenção às perguntas. E como a resposta já está na pergunta, desaparece a dúvida, ou o medo da dúvida.
Sem a ansiedade, o tempo se dilata. Recuperamos o tempo roubado, e podemos analisar com calma a pergunta formulada.
Assim, a pessoa sábia, mostra sua sabedoria convivendo sem angústia com a dúvida. Quando diante de algo que não compreende ou que não conhece, apenas medita com tranqüilidade sobre a questão. Sabe que a resposta virá, pois sempre a informação vem aos pares: pergunta e resposta, dúvida e esclarecimento.
Sem a ansiedade, ela não se precipita em inventar histórias para preencher as lacunas de seu conhecimento. Aguarda firme, que as lacunas sejam preenchidas aos poucos, pelas peças que gravitam, naturalmente, para suas posições naquele mosaico.
Ela sabe agora, que está em harmonia com o Universo, que tudo é uma questão de tempo.
Tempo, entretanto, não é mais problema.

domingo, 3 de abril de 2011

MENSAGEM

FERNANDO PESSOA

Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum

Nota Preliminar

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que se usou da simpatia e da intuição. Um dos fins da inteligência, no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.( o sublinhado é meu)

in Fernando Pessoa, Obra Poética, volume único,Editora Nova Aguilar,1987, RJ

PROF.CLAUDIO ULPIANO

Nos meus saudosos tempos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um nome rondava meus ouvidos sem que eu atinasse com clareza sua significação. Fosse por comentários elogiosos de outros alunos que o conheciam, fosse pelos comentários de seu irmão, Ivair Coelho, meu professor de Filosofia da Diferença, o nome de Claudio Ulpiano, tal qual uma lenda, permeava os corredores do IFCS-UFRJ e nos causava a curiosidade de saber quem era este professor que tanto entusiasmo causava em quem o tinha conhecido. Claudio era professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) no bairro de Vila Izabel, e da UFF(Universidade Federal Fluminense), em Niterói, RJ.
Graças a esta maravilhosa modernidade e aos recursos de informática, hoje, 26 anos depois, eu o conheço, face a face, em alguns vídeos do You Tube. Falando sobre um tema apaixonante , o pensamento Spinoziano, Claudio demonstra nesta gravação a sua didática e sua habilidade de facilitar àqueles que o ouvem a compreensão daquele que é tido como um dos mais interessantes e complexos pensadores de todos os tempos.
Basta assistir os vídeos abaixo para se compreender o que digo. A marca do verdadeiro mestre é a sua capacidade didática, que pode ser definida como a capacidade de tornar claro, a quem escuta, aquilo que é, em si, obscuro.
E isto, vocês verão, Claudio dominava. Digo dominava porque sua existência física terminou em 1999, aos 67 anos, mas sua obra como professor continua em sites como http://www.claudioulpiano.org.br/ aonde é possível assistir aulas suas e ouvi-lo pleno de energia intelectual.





sexta-feira, 1 de abril de 2011

SEMEADORES

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Agora há pouco acabo de chegar de um corpo afiliado Rosacruz da minha cidade, o Capítulo Suzano. Lá proferi uma palestra cujo tema é título da nossa convenção este ano “O Sagrado”, que pode ser lido nos ensaios de abril de 2010.
Minha filha logo me pergunta se tudo correu bem. Respondo que não sei, pois é impossível aquilatar os efeitos de um comentário no coração de todos que o escutaram.
Principalmente nos que não são rosacruzes.
Muitas vezes, como pude perceber em uma conversa depois da palestra, existem pessoas que passam anos namorando uma afiliação à Ordem sem nunca concretizarem este objetivo, por hesitação, por preguiça, mas na verdade porque as condições necessárias para que sua afiliação seja proveitosa e duradoura ainda não estão dadas.
Na Ordem não fazemos proselitismo. Sabemos que aqueles que quiserem fazer parte de nosso trabalho, farão parte , mais cedo ou mais tarde. Não precisamos convencer as pessoas a se tornarem rosacruzes. Aqueles que se tornarem membros desta nobre e milenar instituição tornar-se-ão membros de forma espontânea após convencerem a si mesmos de que querem fazê-lo. E até lá, seguirão um lento ritual interno de auto- convencimento que deverá redundar em um movimento em direção de nossos portais.
Só que é sempre uma decisão solitária.
Nenhum de nós, mesmo aqueles que organizam estes encontros com a finalidade de conquistar novas afiliações, podem acelerar este delicado processo de decisão.
É preciso respeitar o ritmo interno de cada um e até prefiro que seja assim. Principalmente se estamos falando de uma primeira filiação à Rosacruz. Aqueles que já foram rosacruzes em outras encarnações voltam a Ordem sempre que reencarnam com a naturalidade com que vestimos uma roupa antiga que acabou de ser lavada e passada.



Tudo é novo, mas no fundo não existe nenhuma novidade.
Por isso disse a minha filha que não sei o que aconteceu hoje a noite, pois como na parábola, nós, oficiais da Ordem, somos semeadores, e não nos é dado saber quais sementes florescerão.Tudo seguirá o processo normal , de acordo com o contexto Cármico atual do indivíduo que escuta a mensagem.
E só o Todo Poderoso pode saber o que acontecerá a partir daí.
O certo é que não devemos ter nenhuma ansiedade ao que acontece com nossas sementes.
O importante é semear e se uma em cem florescer nosso trabalho não terá sido em vão.
Nunca é, na verdade.

domingo, 27 de março de 2011

ANIVERSÁRIO

Dia 3 de março de 2011 o blog comemorou seu primeiro ano de vida. Neste período, surgiu um filho seu, o blog de poesia, www.poeticamariana.blogspot.com, já com 171 postagens; no Imaginário foram postados 156 artigos, entre ensaios e vídeos. As estatísticas de acesso pelo tipo de público abaixo são do próprio GOOGLE. A minha contagem de acesso já vai em 5500 acessos.


Brasil 4.650
Estados Unidos 422
Canadá 183
Portugal 130
Alemanha 28

Rússia 22
França 14
Eslovênia 14
Holanda 12
Itália 9
Acrescentem-se dois acessos de Moçambique e um de Angola, não contabilizados.
Das postagens, a estatística abaixo demonstra que em todo este ano Psicologia e Misticismo continua invicta como a postagem mais acessada.

PSICOLOGIA E MISTICISMO 13/08/2010 290 Visualizações de página
AMORC, POSITIVISMO E MISTICISMO 19/09/2010, um comentário 112 Visualizações de página
O GRANDE MESTRE, O FÓRUM E A PALAVRA PERDIDA 29/08/2010, um comentário 91 Visualizações de página
SUPERSTIÇÃO 03/03/2010  90 Visualizações de página
Finalmente, das páginas, a mais visitada, os textos Martinistas tiveram 360 visualizações este ano, seguidos dos textos Maçônicos, com 103 visualizações.Se estas publicações provocaram curiosidade e interesse em quem a leu, se motivaram debates e geraram discussões, externas e internas, que aprofundaram questões de natureza do misticismo e do esoterismo, parte do meu trabalho foi bem sucedido. Agradeço a todos.


TERCEIRA PARTE DO ESTUDO SOBRE OS SÍMBOLOS ESTÁTICOS E DINÂMICOS: AS OBEDIÊNCIAS PRECISAM RESPIRAR

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Existe um consenso entre os símbolos maçônicos, portanto: eles são símbolos excessivamente estáticos e geométricos, frutos de uma época em que simbolizar era uma arte tributária de valores rígidos: retidão, estabilidade, regularidade.Os símbolos que escapam a estes protocolos são geralmente quadros complexos cheios de detalhes, como o símbolo abaixo.


Gostaria de destacar apenas um detalhe deste maravilhoso símbolo rosacruz do século XVII, o Collegium Fraternitatis, que está do lado esquerdo do quadro, exatamente na metade da altura lateral.




Trata-se de uma representação da Arca de Noé, pousada sobre o Monte Ararat, hoje em território turco.





Provavelmente, seu papel é representar a preservação de uma herança para além das catástrofes e rupturas na linha evolutiva da humanidade, tais como a destruição de Lemúria, de Atlântida, e quaisquer outras que possam ocorrer e que provocam um estranho recomeçar da cultura humana, esquecida de seu passado, transformando-o em lenda. Este tem sido o papel dos rosacruzes ao longo de milênios: preservar as lembranças e as técnicas de outras eras, um tempo em que a ética e a técnica eram parte de um mesmo conhecimento e religião e ciência não eram coisas separadas e antagônicas, mas parte de uma mesma sabedoria.
Símbolos complexos que guardam em si muitas informações e que precisam ser decifrados em detalhes não envelhecem, nem enrijecem com o passar do tempo.
Preservam sua estética e sua força e não se rendem aos aspectos simplistas da simbologia geométrica.
Já aqueles que são simples em demasia podem trazer em si o vírus da imobilidade, ou mesmo do erro, na suposição de que representam a vida e, como vimos em outro ensaio (Os símbolos estáticos os dinâmicos e os pré-dinâmicos ou suavizados), falarem, de fato, de coisas mortas.
Uma linha reta, uma pedra, um ângulo, nos propõem conceitos rígidos demais, militares demais, e por isso, incompatíveis com a vida, falsos ideais de perfeição matemática que não dizem respeito à realidade instável da Biologia e da Psicologia humanas.
As Lojas Maçônicas sofrem com esta, digamos assim, nefasta herança estética. Talvez na época em que foi idealizado, este conjunto simbólico tivesse um arrojo e um significado avançado para sua época. Hoje, no entanto, o mundo é extremamente mais veloz em suas modificações e tornam-se necessários símbolos mais adequados, que açambarquem a gama variada de possibilidades da existência.



Pedras e cinzéis são de pouca expressividade hoje em dia.
Nós maçons precisamos de outros símbolos, ou pelo menos de novas estratégias na utilização de nossos símbolos.
Só posso ir até aqui, porque como rosacruz aprendi a respeitar juramentos secretos de uma iniciação e como maçon jurei não discutir aspectos internos da ordem ou de uma reunião em Loja publicamente.
Entretanto, respeitando este segredo, posso dizer a quem me compreender que os rituais maçônicos estão enrijecidos como os símbolos da própria Ordem. Seu rigor formal, sua incapacidade operacional de permitir o livre fluxo de posições e idéias, a não ser em situações absolutamente bem delimitadas, pode ser um excelente método de disciplina do comportamento em um debate elegante, mas carecem do dinamismo que o fluxo das idéias possui.


Que quero dizer com isso? Que nenhuma Ordem está acima de seus símbolos e, se estes símbolos são excessivamente estáticos, eles desencadeiam comportamentos com forte tendência ao mesmo tipo de imobilidade que eles possuem, e, óbvio, lentidão.
Ora, nos primeiros graus pode ser que isto até seja necessário. Ultrapassando o terceiro grau, no entanto, é preciso liberar os maçons de amarras ritualísticas excessivamente rígidas e permitir-lhes um espaço de debates dentro da realidade de seu grau. Não se trata de indisciplina ou perda de ritualismo. O ritual poderá permanecer como envoltório do trabalho em Loja, como introdução e como encerramento da reunião, mas o coração do encontro deve ser pleno de liberdade e velocidade para que as pessoas presentes possam transformar este congraçamento fraterno na prática mais dinâmica possível de troca de idéias.
Os IIr.: me compreenderão.
Monte Ararat, Turquia