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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

TRES CRENÇAS FUNDAMENTAIS

Por Mario Sales

 


No ensaio anterior eu discuti os aspectos operacionais do rosacrucianismo, os quais tornam o trabalho de AMORC mais próximo da ciência, por ser mais pragmático do que do esoterismo clássico, eminentemente intelectual e não prático.

Talvez quem tenha lido possa imaginar, já que estamos no século do equívoco, que isso significa que não creio em coisas não manifestas, coisas digamos assim demasiadamente sutis.

Em primeiro lugar isso nos leva, de novo, ao terreno das crenças, e como disse antes, embora não possamos viver sem crenças, mesmo que não demonstráveis, o que eu alegava é que estas não serviam para a construção de um conhecimento solido.

Como citei textos considerados sagrados, o fiz no interesse de mostrar que nós, em última análise, construímos nossa vida moral e às vezes intelectual, muitas das vezes em função de coisas que lemos ou ouvimos e nos tocam o coração, e não em fatos que presenciamos ou em vivencias nas quais a vida nos envolve.

Esta é uma das questões mais antigas da filosofia e em resumo, reflete a luta entre duas escolas de pensamento. 

Uma delas afirma que valores morais e certas compreensões estão em nós antes da experiência, a priori

A outra afirma que somos o resultado de nossas experiências, coisas que ocorrem conosco no convívio social e existencial, ou seja, uma estrutura mental e moral construída a posteriori.

Que ambas as influencias nos moldam, (valores íntimos, identificações quase imediatas com percepções de mundo, sem quaisquer necessidade de demonstração e, ao mesmo tempo, ocorrências externas a nós que nos atingem e determinam um forte impacto emocional em nossas posições pessoais), quanto a isso não existe dúvida.

A questão, cujo último sistema filosófico a trabalhar a questão foi o sartreano, não está em negar um destes dois aspectos, mas estabelecer qual prepondera sobre qual, quem é causa e quem é consequência.

Os defensores do aspecto da consciência falam que temos uma bagagem sim, que nos prepara para a vida fazendo que nos comportemos desta ou daquela forma diante das vicissitudes da existência. 

Os defensores do ponto de vista existencial, pensam que esses valores são resultantes dos eventos, e não seus intérpretes.

Místicos e esoteristas costumam alegar que esta discussão jamais terá solução enquanto trabalharmos com o pressuposto de que só se vive uma vez.

Sem o elemento reencarnacionista não chegaremos nunca a entender como podemos ter experiências inatas, que fazem alguns terem mais discernimento que outros, mais tolerância, mais, para usar uma palavra da moda, resiliência com os problemas do dia a dia, enquanto outros são tomados facilmente pela revolta, pelo ódio, e saem, como resposta ao sofrimento, imediatamente em busca de culpados, de outras pessoas que possam ser responsabilizadas pela dor que o atinge.

Homens esclarecidos intelectualmente sempre temem, de modo compreensível, que aceitar que a dor tem uma razão educativa e didática é render-se à um estado passivo, que resultará na inação, ou no estado pré iluminista de supor que a causa de todas as coisas não está em nós e em nossas escolhas, mas na graça divina, e que portanto, nada podemos fazer para evitar a ocorrência, permanência ou mesmo repetição dos problemas

É, entretanto, possível, aceitar as duas posições, ser capaz de compreender a inevitabilidade de certas ocorrências desagradáveis e saber que podemos fazer algo para melhorar nossa qualidade de vida.

Para isso, temos que trabalhar com conceitos não demonstráveis, com convicções íntimas, que se baseiam na evolução espiritual de cada um, e não em experiências testemunhadas ou vivenciadas, nesta vida.

E o principal desses pressupostos, destes conceitos não demonstráveis, é o reencarnacionismo. Sem saber, intimamente e não porque alguém nos disse, que tivemos e teremos outras vidas apara aprender e corrigir condutas, nada parecerá fazer sentido.

A dor, o fracasso, a morte, nos parecerão sempre injustas e tristes. Principalmente aquelas que sigam o padrão do Livro de Jó, que discute exatamente porque pessoas boas sofrem, e muito.

A religião às vezes não ajudará, principalmente aquelas que não consideram o reencarnacionismo como uma doutrina aceita.

A razão, cega para a realidade espiritual, dirá que essas ideias são absurdas e improváveis.

Aceito que são improváveis, porém continuam sendo reais, da mesma forma que muitas outras coisas são improváveis, ou de difícil demonstração, mas existem.

Estão nesta categoria fenômenos como a matéria e a energia escura, matematicamente prováveis, mas ainda não demonstráveis, ou subpartículas atômicas, cuja existência em aceleradores de partículas, são atestadas apenas por traços em filmes, cujo percurso é interpretado por especialistas em interpretar estas manchas no filme, cuja opinião é aceita pela comunidade científica.

Alguns físicos inclusive se queixam, entre eles nosso conhecido Marcelo Gleiser, que certas áreas, principalmente de astrofísica, trabalham com conceitos que não podem, pelo menos no momento, ser testados, e que, portanto, a priori, não são científicos.



Traços e rastros de partículas subatômicas pós colisão de átomos em aceleradores de partículas esperando ser interpretados pelos especialistas


No outro ensaio eu falava da noção junguiana de inconsciente coletivo, largamente aceita nos meios psicológicos ligados a esta escola, mas que obviamente, não foi e tão cedo poderá ser demonstrada, o que faz dela uma hipótese e apenas isso, mesmo que brilhantemente descrita e aparentemente pertinente.

Reencarnação, portanto, é uma condição si ne qua non para o mistico e o esoterista, independente de sua estirpe e tradição, trabalharem com a realidade. As outras duas condições são a crença na existência de Deus e do karma, a lei de ação e reação. Estes três são alguns pressupostos esotéricos e místicos que não podem ser demonstrados, e que portanto, não são científicos. Mesmo assim, repito, são fundamentais para a perspectiva mística do universo e podem sim conviver com uma atitude cética e prudente diante dos fenômenos considerados prováveis e evidentes.

É possível, pois, conciliar duas posturas diferentes, como crer e duvidar, sem que haja conflito interno.

Alguns cientistas que pensam dessa forma, quando questionados, respondem que crer em coisas improváveis e trabalhar baseado em provas não são atitudes necessariamente excludentes e que reservam dentro de si espaços para cada uma destas posições.

Quando crêem, crêem; quando duvidam, testam.

Talvez o que não tenha sido explicitado é que existe um grau de crença que não afeta a possibilidade de praticar o ceticismo científico, crenças que não interferem com o procedimento racional.

As três crenças que citei, a crença em Deus, na reencarnação e no karma, trazem conforto espiritual e psicológico e fortalecem nosso mundo interior.

O problema com as crenças não é o crer, em si, mas no que se crê, e acima de tudo, em deixar que a crença sobrepuje os fatos da existência. Aí mora o perigo, a semente do fanatismo e do obscurantismo.

Ao contrário de radicais da racionalidade, e eles existem, podemos sim trabalhar, enquanto pessoas racionais, com um certo grau de fé em valores não demonstráveis.

E aqueles que tem fé não devem arrogantemente supor que a ciência é sua inimiga e que o bom senso e o ceticismo devem ser banidos do trabalho de investigação da vida. Isto seria um retrocesso imperdoável e inútil, que só traria caos e sofrimento.

De parte a parte, existem excessos a serem contidos.

Devemos ser prudentes, orar e vigiar, principalmente vigiar a nós mesmos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A CHARLATANICE QUÂNTICA


Por Mario Sales




De onde vem o termo “quântico”, como adjetivo?
O que podemos afirmar é que sua introdução no imaginário popular se deu na primeira metade do século XX, quando os trabalhos de vários pesquisadores foram expostos pela detonação da primeira bomba nuclear.
Seu efeito devastador, as milhares de vidas calcinadas de modo súbito, levaram a imprensa e o publico em geral a tentar entender de onde havia surgido tamanho poder de destruição.
Na busca dessa explicação, jornais e revistas começaram a falar em uma linhagem de físicos que tinha em conjunto, construído o que seria batizado de física quântica ou mecânica quântica, no inicio do século XX.
Nomes como Rutheford(1871-1937), Bohr(1885-1962), Plank(1858-1947), Einstein(1889-1955) e Werner Heisemberg (1901-1976), fora o do diretor do projeto Manhatan, empreendimento secreto americano que teria levado à construção da primeira bomba nuclear, Julius Robert Oppenheimer (Nova Iorque, 22 de abril de 1904— Princeton, 18 de fevereiro de 1967), tornar-se-iam conhecidos de muitos curiosos, leigos, que queriam entender como, aparentemente de modo súbito, o mundo tinha entrado no período conhecido como a era nuclear.
E porque “nuclear”? Porque o que tinha acontecido nas duas cidades japonesas devastadas pela bomba, Hiroshima e Nagasaki, tinha a ver com a ruptura do núcleo do átomo, algo invisível, mas que uma vez provocado, mostrara sua ira de modo apocalíptico.
Quântico vem de quantum, termo em latim que significa “quantidade”. Mas quantidade de que?
Na Wikipedia encontramos o seguinte:
“A palavra “quântica” (do Latim quantum) quer dizer quantidade. Na mecânica quântica, esta palavra refere-se a uma unidade discreta que a teoria quântica atribui a certas quantidades físicas, como a energia de um elétron contido num átomo em repouso. A descoberta de que as ondas eletromagnéticas podem ser explicadas como uma emissão de pacotes de energia (chamados quanta) conduziu ao ramo da ciência que lida com sistemas moleculares, atômicos e subatômicos.”[1]









Um quantum, portanto, equivale a energia de um elétron, desde que o átomo de que ele faça parte esteja “em repouso”, já que se não o estivesse, estaria absorvendo energia e esta modificaria a quantidade de energia do elétron fazendo-o saltar de uma órbita atômica para outra.
Na verdade, átomos não são reproduções em miniatura das orbitas de corpos celestes. A não ser que a Lua, para dar um exemplo, aparecesse e desaparecesse de tempos em tempos, durante a sua orbita da Terra, ora aparecendo mais próxima, ora mais distante.
Como entre a Lua e a Terra, igualmente nos átomos, a distância entre a periferia com os elétrons e seu centro, seu núcleo, (daí o adjetivo “energia nuclear”) é formada apenas de vazio.
Ou pelo menos é o que nos parece, já que os campos gravitacionais que agem entre um e outro corpo celeste não são visíveis.
Só que eles estão lá. E as marés dos oceanos, que sobem e descem de nível, são as provas visíveis disso.
Foi, portanto, uma bomba que matou milhares de pessoas que fez as pessoas acordarem para a força do que é invisível e material.
Embora já se soubesse que outras coisas materiais, não espirituais, são invisíveis, como as bactérias, a ideia do invisível e impalpável atuando sobre o visível e palpável, de maneira trágica e espetacular, a um só tempo, só se tornou clara após a bomba.
O ruído físico e ético de sua explosão despertou a multidão de um torpor que fazia supor que o mundo era facilmente determinado, em que a separação entre o real e o irreal era simples e indiscutível.





De lá pra cá tudo mudou.
No mês que vem, no dia 6 de agosto, data da explosão em Hiroshima, completaremos setenta e cinco anos de nosso despertar.
E com isso melhoramos nossa percepção da complexidade da realidade. Melhoramos?
Não. Mudamos apenas o foco de nossa ignorância.
O que a física quântica nos trouxe? Perplexidade.
O comportamento das partículas sub atômicas, menores do que o átomo, é radicalmente diferente daquele das coisas chamadas “densas”, visíveis.
O mundo quântico é incerto, de comportamento misterioso, onde alguns elétrons desaparecem e reaparecem como se fossem para o nada e voltassem desse nada para a existência com naturalidade.
Isso não criou apenas humildade naqueles que estudaram e estudam este campo de modo profissional, os físicos. Não.
Deu também origem a uma nova classe de pessoas que a exemplo de Simão, o Mago, julgam ser possível usar determinado fenômeno em proveito próprio, na busca do lucro fácil, o chamado “charlatanismo quântico”.
Nesta sub área, onde não só as partículas discutidas, mas também a dignidade dos envolvidos, são muito pequenas, um sem numero de indivíduos propaga com uma certeza invejável, que são sabedores de maneiras pelas quais um mundo misterioso e incerto pode fornecer efeitos práticos para a vida pessoal, afetiva e profissional de muitos, principalmente daqueles que estão dispostos a desembolsar grandes quantias em dinheiro por livros, cursos de dois dias, ou vídeo aulas que prometem o paraíso na Terra para os seus consumidores.
A ponte que liga estas duas áreas da atividade humana, uma altamente matemática e séria e outra altamente desonesta e fantasiosa, como tudo na história do charlatanismo, é absolutamente sem consistência.
Não há, repito, não existe qualquer relação entre o campo da física quântica e possíveis técnicas de cura de doenças complexas, ou relação entre sucesso financeiro e pessoal e partículas subatômicas.
Mais.
Quem propõe estes vínculos, estas ligações, sabe muito bem disso. Mesmo assim, sem qualquer pudor, vende a ideia de que a física quântica é uma nova área para o esoterismo.
E apoia-se na própria natureza desse campo, que estamos apenas começando a descortinar, cheio de dúvidas e de situações contra intuitivas, incomuns e, em termos matemáticos, aí sim, extremamente esotéricas.
Ou seja, só dois tipos de pessoas podem desmascarar essa farsa. Físicos sérios, dedicados a mecânica quântica, ou céticos, de qualquer camada da sociedade.
Aliás, até físicos estão envolvidos nesta peça burlesca como é o caso de Amit Goswami, que viaja pelo mundo auto intitulando-se “ativista quântico”, seja lá o que este termo pomposo e vazio queira representar.
Vejam, defender posições pessoais e compreensões particulares do que é e o que significa esta nova área de conhecimento é legitimo, mas transformar esta cruzada em fonte de lucro pessoal, não.
Isto me lembra os antigos televisores que funcionavam com válvulas enormes aonde a energia fluía na geração da imagem captada para um bulbo a vácuo, chamado Tubo da TV. Meu pai, que não tinha formação em eletrotécnica ou no conserto de televisores, aprendeu em um curso por correspondência como fazer o reparo simples destes aparelhos.
E enquanto ele abria a parte de trás da televisão e testava aquelas válvulas enormes quanto ao seu desempenho, na intenção de trocar as que estivessem queimadas, minha mente de criança olhava fascinada para todo o interior do aparelho sem atinar qual a função de cada peça, mas absolutamente hipnotizada pelo conjunto, cujo deslumbre aumentava na proporção direta da minha ignorância sobre seu significado e função.
Algo muito antigo em nós, uma lembrança de tempos idos, ainda faz com que nos ajoelhemos diante do que não compreendemos, como se estivéssemos na presença do Altíssimo. 
E mesmo considerando o respeito que Deus nos provoca, tal infantilidade mental só nos envergonha.
Talvez nos falte a humildade de um cientista, que diante da natureza 
não se ajoelha, mas se encanta, embora o Universo e suas maravilhas o encham de humildade. 
O encantamento do sábio difere, pois, do fascínio infantil do ignorante diante do desconhecido.
Como diz o nome, ciência é conhecimento. Tomar ciência de alguma coisa é conhecer.
“A etimologia da palavra ciência vem do latim scientia ("conhecimento"), o mesmo do verbo scire ("saber") que designa a origem da faculdade mental do conhecimento.”[2]
Tudo o que acontece a nossa volta pertence apenas a duas categorias de fenômenos: os conhecidos e compreendidos (portanto científicos) e os ainda não compreendidos (também passiveis de se tornarem científicos) mas que, com o tempo e o esforço, tornar-se-ão tão corriqueiros quanto as válvulas misteriosas, hoje coisas do passado, desaparecidas, dos televisores antigos.
Nada perturba mais a mente do que permitir que ela aja sem controle e que a imaginação seja contaminada pela fantasia.
E a mente é o material de trabalho do psicólogo, do psicanalista e do místico.
Que a higiene que dispensamos ao nosso corpo se estenda aos nossos pensamentos e às nossas reflexões, até que possamos, finalmente, poder dizer que nos tornamos psicologicamente adultos.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

FRONTEIRAS



Por Mario Sales

“Gostaríamos de ver e temos medo de ver. Eis o limiar sensível de todo o conhecimento.”

Gaston Bachelard, “A Poética do Espaço”, 1ª edição brasileira, 1989

 
Bachelard

Deus me perdoe por dizer isso, mas este período de reclusão da quarentena por causa desta epidemia tem sido extremamente produtivo, intelectualmente falando.
Retomei minhas leituras e entre elas, Bachelard, pelo qual nutro admiração significativa desde que meu antigo professor, José Américo Mota Pessanha, o apresentou.
Este químico e epistemologista, que de modo tardio descobriu a poesia e glorificou a fenomenologia na intenção de conhecer melhor seus próprios sentimentos e o mundo que o cercava, alargou nossos horizontes, tornando-nos, nós, seus leitores, cúmplices de sua caminhada na direção da descoberta do númeno.
O númeno que na visão de Kant era inatingível e impossível de ser percebido; o númeno, essência da coisa, do objeto, do ser que contemplamos, tocamos e cheiramos, na sua manifestação, na sua apresentação diante de nós como fe-nômeno.
Fazer fenomenologia é retirar os véus que encobrem a verdade ao mesmo tempo que a tornam passível de ser percebida.
Nós esoteristas costumamos pensar o encoberto como um desafio ou um disfarce da coisa em si, do númeno, mas na verdade o fenômeno representa uma adaptação necessária a este meio denso, nós que também somos essências encobertas pelo corpo físico e por nossa mente, como o fogo dentro do lampião de vidro.
Para ir a um ambiente sem oxigênio, como no vácuo do espaço, ou aonde nossos pulmões não possam respirar, como o fundo do mar, nós nos protegemos com vestes especiais que garantem que nos mantenhamos vivos nestas regiões hostis a nossa sobrevivência. Tais vestes não são disfarces ou produtos de nossa vontade, mas sim consequências da necessidade de explorar novos ambientes, novas dimensões de existência.
Somos todos exploradores da realidade.
Como tal, certas estratégias se fazem obrigatórias para garantir a observação e o estudo sereno desta rica dimensão em que mergulhamos para aprender e, assim, evoluir.
Da mesma maneira, tudo a nossa volta e dentro de nós manifesta-se com um sem numero de camadas que lhe são acrescentadas pela necessidade de tornar este ente, coisa ou ser vivo, manifesto. 
Uma metodologia que aprofunda nossa capacidade de compreensão e entendimento da verdadeira natureza destes entes é a técnica fenomenológica. 
Por natureza, fenomenologizar a vida é despir o fenômeno de suas cascas e capas e além disso, despir-se, a nós mesmos, de pré-conceitos, e toda vez que limpamos nossa visão, tornamos melhor nossa percepção do mundo.
Os preconceitos são obstruções à uma visão clara e transparente e nos distorce a realidade, provocando equívocos os mais variados.
Na intenção de evitarmos esses dissabores, precisamos fenomenologizar nossa percepção do mundo, para conseguir transcender os limites e as fronteiras kantianas de nossa percepção.


Husserl


O ideal de Husserl de superar as barreiras que Kant descortinou ao analisar a forma como compreendemos o mundo, a mim me parece bastante complexa e mais um horizonte a ser perseguido do que uma conquista a ser comemorada. 
No entanto, repetindo Platão pela boca de Sócrates, quanto mais eu me afaste do erro, mais perto estarei da verdade e, portanto, diminuir meu círculo de equívocos só pode ser positivo.
Um místico precisa perseguir este ideal, não como uma decorrência de aspectos morais e éticos, mas como consequência do emprego da técnica filosófica.
Claro que falo a partir de meu próprio ponto de vista.
Aprecio a dignidade e a honra presente nos discursos morais de boa índole, porém hoje em dia, confesso, eles me cansam profundamente.
No melhor espírito científico, meu interesse hoje não é no “quê” fazer, mas sim no “como” fazê-lo.
Dizer a um indivíduo que seu comportamento deve ser nobre é simples e correto, porém em um mundo muitas vezes cheio de armadilhas, tentações e desafios como é possível ser digno de maneira segura, sem que nossa nobreza e bondade se transforme em fraqueza e fragilidade?
O desafio do místico contemporâneo, como lembrava Lewis, não é ser digno, nobre e santo em um mosteiro, isolado da sociedade, mas sim mergulhado na vida mundana e mesmo assim ser capaz de manter essa atitude voltada para a devoção ao Altíssimo, sem que sua conexão com as coisas espirituais possa ser um estorvo para aqueles com os quais convivamos, sem que nossa fé seja ostensiva ou constrangedora àqueles que não a têm.
Por isso é preciso convicção de seus valores, mas também bom senso, moderação e discrição ao vivenciar nossas crenças já que a catequese, seja de que crença for, pode afastar em vez de atrair pessoas para o caminho da espiritualidade.
Usar de métodos psicológicos ou filosóficos para compreender mais profundamente o mundo é mais palatável a maioria dos espíritos que lidam melhor com as coisas que podem compreender do que com aquelas que precisam sentir.
Sentir o mundo é um talento que nem todos possuem.
Sentir o outro também.
Por isso, quando interagimos, nós portadores dessa conexão com o Altíssimo comum aos místicos podemos e devemos manter nossa verdadeira natureza encoberta pelo bom humor e pela simplicidade, estratégias que tornam a convivência leve e agradável.
Dentro deste espírito, a fenomenologia é um método complexo, sim, mas interessante de estimular as pessoas a olhar o mundo de outra forma, uma forma ao mesmo tempo que mais qualificada, com menos adjetivos e mais substantiva.
A ausência de juízo provocada pela Epoché[1] Husserliana estimula a prudência na análise dos fenômenos e dos indivíduos com os quais dividimos esta experiência na carne.
É uma estratégia, elegante e eficaz.
Talvez com esta abordagem percebamos a responsabilidade que assumimos de conhecer as coisas como elas são, e não como gostaríamos que fossem, o que não só implica empenho mas também coragem.
Nosso maior receio sempre será abandonar posições psicológicas fáceis e confortáveis por outras que implicam esforço e trabalho mental. Nem todos estamos equipados para isso, digo, moralmente equipados.
A prática, entretanto, leva a perfeição.
Para aprender é preciso superar a preguiça e o medo.
Esta atitude será decerto, recompensadora.


 [1] (Wikipedia)Suspensão do juízo, também conhecida pelo termo grego epoché ou epokhé (εποχη), que significa 'colocar entre parênteses', é a atitude de não aceitar nem negar uma determinada proposição ou juízo. Opõe-se ao dogmatismo, em que se aceita uma proposição, suspendendo o termo.
Epoché cética
A suspensão do juízo caracterizava a atitude dos céticos gregos, especialmente Pirro. Para os céticos, a epoché era a única atitude capaz de levar à imperturbabilidade. Eles afirmavam que duvidar do caráter bom ou mau de todas as coisas leva o indivíduo a não aceitar nem rejeitar coisa alguma, tornando-se imperturbável.
Epoché fenomenológica
Na filosofia moderna, especialmente na obra de Edmund Husserl e outros fenomenologistas, o termo epoché adquire um significado diferente. Ao invés de efetivamente chegar a negar a existência, como faziam alguns sofistas, a epoché fenomenológica implica a "contemplação desinteressada" de quaisquer interesses naturais ou psicológicos na existência. Em outras palavras, a suspensão de juízo fenomenológica não põe em dúvida a existência, como no caso dos céticos, mas se abstém de emitir juízos sobre ela.


sexta-feira, 3 de julho de 2020

VAIDADE E SERVIÇO


Por Mario Sales

“Vaidade das vaidades, diz o pregador, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.”
Eclesiastes 1:2




Frater Newton Ponce Passini Judice, Soror Rosangela Judice, ambos de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro; Soror Lidia, Frater Noboro, Frater Eduardo Paulino, todos de Suzano, São Paulo; Soror Abadia Caparelli, Frater Carlos Alberto e Pedro Freire, todos do Rio de Janeiro, os dois últimos da Loja Tijuca, antiga sede da Grande Loja do Brasil; Frater Reginaldo Leite, do Recife; e Soror Diva Ogeda, de Guarulhos, São Paulo; Frater Agostinho, de Suzano; soror Angelica Stenghel Colle, da alta sociedade de Curitiba, residente do Rio de Janeiro até a transição.
Nomes que alguns reconhecerão; outros não.
No entanto são pessoas que dedicaram, de forma significativa, parte de suas existências a causa da AMORC.


ROSACRUZES

Jamais reivindicaram quaisquer emolumentos por seus serviços. Na lista acima, feita de queridos amigos e mestres, incluindo minhas duas iniciadoras em esoterismo, alguns ainda aqui, outros já fora deste plano, existem nomes de cabalistas e místicos tanto quanto de discretos zeladores e faxineiros de templos, e mesmo assim leitores vorazes de Jorge Adoum e Eliphas Levy.
Esses às vezes discretos trabalhadores, uns conhecidos e outros desconhecidos, serão, todos, esquecidos pelo tempo; alguns deixaram uma obra ligada a produção cultural da AMORC no Brasil, mas isto não garante a identificação de suas personalidades alma entre outros no panteão de seres humanos envolvidos neste gigantesco trabalho de construção da estrutura da AMORC em nosso país.
É sensato pensar que como aqui, na Bélgica, na Dinamarca, nos Estados Unidos ou Guatemala, Polônia e Hungria, Austrália e Japão, também encontraremos discretos trabalhadores que juntos formam a estrutura e o tecido que aquece o ideal rosacruciano em todo o planeta. Nenhum quer algum tipo de recompensa pessoal ou alardeia seus esforços como especiais diante de seus frateres e de suas sorores.
Sem pertencerem a uma religião, comportam-se como monges trapistas em seu silencio e humildade.
Às vezes penso que deveríamos dar mais atenção a estes obreiros, de alguma forma evidenciando seu esforço ou destacando sua importância para nós e para a instituição.
Depois percebo que é pura tolice.
Nem eles mesmos, provavelmente, quereriam tal coisa, se bem que se sentiriam felizes por este retorno.
Não insistiriam em qualquer atenção especial, com certeza. Não é do feitio do estudante rosacruz ser vaidoso.
Longe dos holofotes, seu trabalho é mais sereno, mais focado. E a sua recompensa está no trabalho bem feito, no crescimento de seu corpo afiliado e de sua ordem, pela qual e para a qual todos seus esforços convergem.
Meu lema sempre foi esse, eu não sou importante, nenhum de nós é importante, só a Ordem importa, e nela, todos nós somos importantes.
Só o serviço é importante. O resto é vaidade, somente vaidade.
E como lembra a iniciação: “Acautelai-vos contra a vaidade, ela é destruidora da luz.”

quinta-feira, 25 de junho de 2020

POR QUE NÓS, ROSACRUZES, NÃO SOMOS UMA RELIGIÃO?


Por Mario Sales

El Morya

Primeiro, essa é uma escola para ensinar aqueles que dela façam parte que todos, absolutamente todos , tem a capacidade adormecida, latente, de realizar o que se costuma chamar de milagres, tal como todos os grandes iniciados, já que o Deus que está em mim está em todos, seja o caso de altos iniciados ou do mais infame dos seres humanos.
Por que alguns então se comportam como canalhas? Porque estão confusos e esquecidos de suas origens divinas.
Mas Deus está lá, dentro deles, como está em mim e em você que lê esse texto. 
Qual a diferença entre uma escola esotérica e uma religião? Em uma religião contemplamos com assombro o poder manifesto de seres iluminados, homens e mulheres como nós, mas mais velhos espiritualmente, mais sábios, mais conscientes da presença de Deus neles.
Já os membros da escola rosacruz sabem que tem esse poder em si, e que ninguém pode lhes dar tal capacidade, mas cabe, isso sim, a cada membro da Ordem, desenvolver em si a habilidade dos mestres, aperfeiçoando pari passo a espiritualidade e a elevação que os caracteriza.
Diz Lewis em artigo de 1929: “…os rosacruzes mantêm a convicção que o maior bem do homem para si mesmo não pode advir de sua dependência de milagres realizados por outros, mas através de milagres que ele realiza por si mesmo em sua própria vida.”[1]
Não queremos o poder, mas ele virá, quando estivermos adequadamente preparados, quando estivermos prontos.

Alfred P Sinnett


E não é o poder que importa, como ninguém costuma pensar em seu braço direito ou em seu nariz pois eles sempre estiveram lá. O que importa é a habilidade deste braço, sua expertise em tocar um instrumento, em produzir a beleza em um quadro, em uma escultura, ou mesmo em um texto.
Da mesma maneira, como Mestre Morya lembra em carta a Sinnett, é preciso romper essa “ilusão contra a qual os estudantes de ocultismo, pelo mundo todo, sempre foram advertidos pelos seus professores – o desejo ardente pelos fenômenos. Como a sede pela bebida e pelo ópio, ela cresce de forma gratificante.” (e descontrolada).
Existe, entretanto, outra razão para as pessoas não acreditarem que tenham esse poder e preferirem a religião ao esoterismo: seguir alguém em vez de assumir sua própria herança divina é uma forma de fugir as responsabilidades.
Como dizia o tio do Homem Aranha, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. E é mais cômodo não ter responsabilidades, orar para que Deus ou algum santo faça por nós aquilo que é nossa obrigação.
Por isso a religião, um meio legitimo de manifestar nossa espiritualidade, é ao mesmo tempo, uma forma de bloqueá-la, de recusar a herança de nosso Deus comum, o Deus de nosso Coração e de nossa Compreensão.
Continua Lewis: “Dependa ou coloque sua fé cega nos poderes de outra pessoa e você vai se tornar um escravo em vez de um mestre.”[2]


[1] Publicado em “The Mystic Triangle”edição de maio de 1929, e republicado em “O Rosacruz”, no 1º trimestre de 2005.(pág.48)
[2] idem

terça-feira, 16 de junho de 2020

TEMOS DE CARREGAR A NOSSA PRÓPRIA CRUZ


Por Mario Sales





Esses dias de reclusão têm sido produtivos, intelectualmente. A sociedade teosófica, da mesma forma que a AMORC, tem feito Lives, de segunda a domingo, com grupos de estudo de 7 temas diferentes. O tema das segundas trabalha as Cartas dos Mahatmas, um conjunto de missivas de Ku-Thu-Mi, Morya e Hilarion, entre os anos de 1870 a 1900 entre diversas pessoas, entre as quais, parentes de Blavatsky, que recebem a primeira delas, e depois um editor chamado Alfred Percy Sinnet, um amigo seu, Alan Octavian Hume, e o próprio coronel Olcott, fundador juntamente com Blavatsky da Sociedade Teosófica.
O interesse dos Altos iniciados com esta correspondência, que viria a publico apenas nas primeiras décadas do século XX, a partir de 1939, portanto após a morte de Sinnet e de todos os citados, era estratégica, e visava dar a conhecer ao mundo ocidental, sua existência, seus trabalhos e a natureza complexa de sua instituição, a assim chamada Grande Loja Branca.
As cartas foram objeto de controvérsia, e Blavatsky foi mesmo acusada de forjá-las por um perito de uma sociedade de pesquisas inglesa, cujo relatório, devastador na época, em 1885, foi objeto de retratação pela própria instituição que o produziu, 101 anos depois, em 1986. Após a revisão feita por um segundo investigador ficou esclarecida a má intenção do primeiro investigador, seus graves erros de investigação, que trouxeram grande sofrimento moral à “velha senhora”.  
Uma coisa que salta aos olhos nas cartas é a preocupação dos Mestres ou Mahatmas (Grandes Almas) de deixar claro sua natureza eminentemente humana. Em todas as ocasiões possíveis, procuram afastar de si todo estereótipo de seres divinos e anormais, deixando claro que eram e são apenas seres humanos como todos nós que atingiram pelo tempo e esforço uma condição física, mental e espiritual diferenciada, superior a nossa, mas a qual todos que tiverem o mesmo percurso poderão e deverão atingir. A preocupação em afastar de si o manto de santos como são conhecidos os seres elevados espiritualmente pelos católicos e cristãos, é constante nas cartas.
Ku-Thu-Mi é um dos mestres envolvidos mais diretamente nesta correspondência. Junto com Morya, mestre pessoal de Blavatsky, ele fomenta a criação da sociedade teosófica, com ela e Olcott.
Não por coincidência, K-H, como é conhecido, é também o Hierofante da Ordem Rosacruz.



KU-THU-MI


A palavra hierofante tem o significado de “sacerdote que, nas religiões de mistérios do Egito e da Grécia antiga, notadamente em Elêusis, instruía os futuros iniciados”.
Ou seja, trata-se do responsável espiritual por nossa Ordem. Daí a importância destas cartas para a maioria dos rosacruzes como uma oportunidade objetiva de conhecer o pensamento de nosso mais elevado dignitário.
Ordens como a AMORC são associações voltadas a transmissão do conhecimento da tradição, e a levarmos em conta o esforço para desfazer equívocos em relação a natureza deles mesmos, reafirmando sua condição humana, os Mestres como Ku-Thu-Mi não fundaram escolas como se funda religiões, ou seja, jamais chamaram para si quaisquer aspectos de caráter devocional, deixando claro que o Universo tem leis, como a Lei do Karma, e que a prosperidade, a felicidade e o sucesso de cada individuo estão diretamente ligados a suas ações no mundo, pelas quais serão cobrados ou abençoados por sua responsabilidade.
Não há no ensinamento das escolas esotéricas o culto a personalidades que fariam por nós nosso trabalho, como é comum ver nas religiões.
Aliás, escolas esotéricas não são religiões, mais centros de formação de mentes mais lucidas, evoluídas e aperfeiçoadas de forma que os membros destas escolas  tornam-se lideres sociais como também espirituais.
Nas cartas, Ku-Thu-Mi e Morya são bastante críticos em relação a todas as religiões, inclusive ao cristianismo, não como instituições, mas como organizações. A fé como manifestação de devoção a Deus é um fenômeno nobre e digno, e se sincero, representa uma manifestação de evolução espiritual e mística.
                    



HUME   

SINNET
                                           
O problema surge quando alguém tenta organizar esta fé em uma estrutura hierárquica e organizada, aonde rituais repetitivos e padronizados substituem a espontaneidade da livre manifestação do contato com Deus. Estas tentativas de organização da fé são as diversas manifestações religiosas, que implicam em uma estrutura, ao fim e ao cabo, de poder, e que resultam muitas vezes, na distorção daquilo que dizem representar.
Exemplo histórico disso é o massacre dos Cátaros, na França, ou a perseguição contra esoteristas feita pela Igreja Católica com a Inquisição, que levou apenas e tão somente ao massacre de pessoas inocentes que tinham como um único defeito pensarem de modo diferente daqueles que detinham poder politico e militar por trás de suas crenças.
Lavoisier, Cagliostro, e o próprio Cristo, foram mortos em função da singularidade de seus pensamentos e atitudes, em situações e contextos diferentes, mas pelo mesmo grave pecado de pensar com suas próprias cabeças e seguirem seu coração.
Nas cartas os Mestres deixam claro que a finalidade de escolas esotéricas era a divulgação do conhecimento da tradição, sem preconceito de classe, cor ou religião, já que todos os seres humanos fazem parte da mesma espécie e merecem receber, de acordo com sua capacidade, acesso a este conhecimento.
Nenhuma escola esotérica deve ceder à tentação de transformar-se em um grupo religioso, perigo constante para aqueles que lidam com assuntos espirituais.


LEWIS

Lewis, nosso primeiro imperator para o atual ciclo de atividades da rosacruz, também tinha esta preocupação.
Em um texto chamado “Perguntas e respostas rosacruzes”, publicado em português pela Grande Loja, à época conhecida como Grande Loja do Brasil, cuja 2ª edição tenho em mãos, de maio de 1983, tem como primeiríssima questão, na página 164, a pergunta: “Constituem os rosacruzes um culto religioso?”; pergunta a qual responde, enfaticamente, da seguinte forma:
“Os rosacruzes não constituem um culto, religioso ou de qualquer outra espécie. Constituem uma fraternidade de homens e mulheres, como qualquer outra fraternidade ou irmandade. Os membros da organização”, continua ele, “pertencem a todas as denominações religiosas e não se lhes pede que mudem suas crenças religiosas de modo algum. Portanto,” conclui, “a organização não é um culto.”
Tamanho cuidado não era exagerado.



Os equívocos de interpretação humanos são notórios e mentes simples e pouco elaboradas tendem a compreender de modo errôneo os fenômenos que testemunham ou as ideias que lhes são apresentadas.
Para muitas pessoas, é quase impossível separar religião e esoterismo, já que ambos, pelo menos em princípio, visam o crescimento espiritual humano.
Por motivos óbvios, as religiões não são espaços democráticos. Não existe ali possibilidade de reflexão livre sobre os mistérios e seus cânones.
Quem entra em uma religião concorda tacitamente que aceita os dogmas desta crença e se dispõe a conduzir sua vida dentro dos parâmetros estabelecidos pelas autoridades desta seita.
Escolas esotéricas, como esclarecido pelo próprio Ku-Thu-Mi, em suas cartas, devem ser associações de livres pensadores que terão oportunidades de estudar e compreender as verdades ocultas da natureza e eventualmente superar as limitações da ignorância, prestando reverencia apenas e tão somente, como dizem os rosacruzes, ao Deus de seu coração, Deus de sua compreensão. Não há santos nem demônios em escolas esotéricas. Ninguém erra ou acerta por influência de espíritos do bem ou do mal.
Não existem Íncubus ou Súcubus que nos induzam ao pecado. Cada homem e cada mulher é responsável, pela lei do Karma, sobre seus atos, pela maior ou menor misericórdia que demonstram aos seus companheiros de espécie, e aos outros seres deste mundo, chamados animais, e que, no mais das vezes tem um comportamento mais nobre que o nosso.
Escolas esotéricas, ao contrário das religiões, não transferem a responsabilidade dos indivíduos para seres invisíveis e fantasmagóricos.
Cada um deve responder por seus atos; cada um é senhor de suas ações e aprenderá com seus erros.
Por isso o cuidado dos fundadores de escolas esotéricas de deixar claro que estas não são nem visam tornar-se religiões, já que estamos falando de instituições completamente diferentes.
A Ordem Rosacruz não é, portanto, uma ordem cristã, ou budista, ou maometana, ou mesmo judaica.
Não faria o menor sentido esta adjetivação, mesmo que aspectos destas tradições religiosas sejam exaltados, quando assim mereçam, em nossos textos.
Entretanto, estamos no ocidente do planeta, aonde o discurso religioso cristão tem uma força cultural mais evidente.
Sendo membro de uma seita cristã, os Metodistas, Spencer Lewis teve um cuidado redobrado de separar a Ordem Rosacruz de qualquer simbolismo que pudesse associá-la a uma prática religiosa de natureza cristã.
Talvez o símbolo mais sagrado dos rosacruzes, já definido no próprio nome da Ordem, seja o mais delicado neste aspecto, uma vez que a cruz é, no Ocidente e mesmo no Oriente, símbolo do cristianismo, pelo fato de seu fundador ter morrido desta forma.
Em vários textos e discursos, Lewis deixa claro que para os rosacruzes, a cruz tem um significado diferente daquele que tem para os cristãos.
Chega ao detalhe de referir que a cruz como símbolo é um fenômeno transcultural, estando presente em várias civilizações, entre elas a civilização egípcia, de onde se origina, tradicionalmente, nossa ordem.
Lá, segundo nossa tradição rosacruz, a cruz venerada como símbolo era cruz ansata, cuja forma representava um homem de braços abertos. Seu papel como hieróglifo era simbolizar a eternidade e dessa forma aparece nos escritos dos papiros nas mãos dos deuses. ( Manual Rosacruz, Editora Renes, sexta edição, página 66)

CRUZ ANSATA


A cruz rosacruz não é a cruz cristã, não simboliza a morte, mas a vida.
A cruz rosacruz, segundo Lewis, nada tem a ver com a cruz da religião ocidental, mesmo que os rosacruzes reconheçam a beleza da mensagem de Jesus.
Não temos como rosacruzes que rezar para nossa cruz como os cristãos rezam para a sua, pois não somos religiosos embora estejamos como místicos imbuídos de intensa religiosidade.
A cruz rosacruz é um símbolo como qualquer outro e serve tão somente como elemento de foco para nosso pensamento no momento de nossa meditação.
Toda a força que buscamos está dentro de nós e não em um símbolo externo, e os símbolos servem como as letras, apenas, para nos guiar na busca de uma informação ou de uma compreensão sintética dos valores espirituais.
O próprio Lewis, no Manual acima citado, sobre o aspecto dubio no Ocidente da cruz, escreve:
“Se a cruz e outros símbolos confundem os sábios contemporâneos, não é de admirar que em épocas passadas houvesse muitos que nada viam nesses símbolos senão sinais de natureza indefinida.” (página 67, Idem)



Portanto, da mesma forma que me causou incômodo, a mim que não sou cristão, mas hinduísta, como também, como soube depois, a um outro frater budista, a substituição, na capa de uma edição de O Rosacruz, do  tradicional triangulo de vértice para baixo no altar do Sanctum Celestial, pela face do Cristo, imagem que analisei aqui no blog com o ensaio “Desconforto” (https://imaginariodomario.blogspot.com/2010/12/desconforto.html), senti de novo o mesmo em relação a uma imagem recente em que uma Columba de mãos postas, parece rezar para uma cruz rosacruz, numa atitude que, salvo engano, lembra mais um ato religioso que esotérico.



O autor pode, acredito, ter visto beleza na imagem, devocionalidade, e sem nenhuma preocupação, usou-a provavelmente de boa-fé, na intenção de simbolizar um ato de espiritualidade.
O problema reside na confusão entre religiosidade e religião, entre cristianismo e rosacrucianismo.
Parece um preciosismo, mas precisamos, a meu ver, separar as coisas em seus devidos campos, não por antagonismo, mas por cuidado, deixando claro que o espaço das ordens esotéricas está aberto a todos, sejam ou não membros de uma denominação cristã.
Acredito, repito, que este equívoco também tenha a ver com o fato da AMORC proteger e abrigar uma Ordem, frequentada por rosacruzes, que se denomina cristã, a Ordem Martinista.
Como exaustivamente venho repetindo, entretanto, Martinismo não é Rosacrucianismo. E, não podem ser confundidos um com o outro.
São duas nobres tradições, com discurso e jargão próprios, definidos, mas além disso, com uma perspectiva esotérica particular a cada uma.
Por não se definir como eminentemente cristã, a Rosacruz é, em princípio, um espaço mais amplo e mais tolerante a outras linhas de pensamento, além de ser mais antiga e tradicional.
Quanto a Cruz, sigamos a tradição cristã: cada um deve carregar a sua.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

NÃO, NÃO MELHORAREMOS


Por Mario Sales




Então o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo.
E virou-se Moisés e desceu do monte com as duas tábuas do testemunho na mão, tábuas escritas de ambos os lados; de um e de outro lado estavam escritas.
E aquelas tábuas eram obra de Deus; também a escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas tábuas.
E, ouvindo Josué a voz do povo que jubilava, disse a Moisés: Alarido de guerra há no arraial.
Porém ele respondeu: Não é alarido dos vitoriosos, nem alarido dos vencidos, mas o alarido dos que cantam, eu ouço.
E aconteceu que, chegando Moisés ao arraial, e vendo o bezerro e as danças, acendeu-se-lhe o furor, e arremessou as tábuas das suas mãos, e quebrou-as ao pé do monte;
E tomou o bezerro que tinham feito, e queimou-o no fogo, moendo-o até que se tornou em pó; e o espargiu sobre as águas, e deu-o a beber aos filhos de Israel.
E Moisés perguntou a Arão: Que te tem feito este povo, que sobre ele trouxeste tamanho pecado?
Então respondeu Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que este povo é inclinado ao mal;
E eles me disseram: Faze-nos um deus que vá adiante de nós; porque não sabemos o que sucedeu a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra do Egito.
Então eu lhes disse: Quem tem ouro, arranque-o; e deram-mo, e lancei-o no fogo, e saiu este bezerro.
E, vendo Moisés que o povo estava despido, porque Arão o havia deixado despir-se para vergonha entre os seus inimigos,
Pôs-se em pé Moisés na porta do arraial e disse: Quem é do Senhor, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi.
E disse-lhes: Assim diz o Senhor Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa; e passai e tornai pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu vizinho.
E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés; e caíram do povo aquele dia uns três mil homens.


Exodo, 32: 14-28

Seria ingênuo se supuséssemos inevitável pós pandemia de 2020 um upgrade positivo da humanidade.
A desgraça do ser humano é se esquecer.
Sua capacidade de não usar as oportunidades de mudança em seu proveito é notável.
Não será um esquecimento rápido, as sequelas permanecerão por algum tempo. O luto e o impacto de perdas, emocionais e econômicas ainda por meses.
Tudo, entretanto, passa. E até para que a vida se torne suportável, o esquecimento se inicia.






Lenta, mas decisivamente, pouco a pouco as atrocidades e tristezas vão desaparecendo da memoria e da mesma maneira que a chacina dos judeus na segunda guerra, ou as milhares de mortes do khmer vermelho, nos anos 50 e 60 do século XX, ou a tragédia da guerra da Bósnia nos anos 90, tudo parecerá distante e estranhamente difícil de crer que tenha acontecido.
Como o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque em 2001.
O tempo, já se disse, é um ácido altamente corrosivo, que destrói sem piedade lembranças, certezas e convicções.
Somos capazes de esquecer qualquer coisa, até de que Deus, no qual deveríamos depositar nossa confiança e reverência, pois vemos e ouvimos seus sinais, está ao lado, na montanha, da qual o profeta retornará com seus desígnios impressos na pedra, não no papel.
Temo que novamente, quando o profeta retornar, encontre-nos de novo nus e dançando em volta do bezerro do momento, tenha ele a forma e a natureza que tiver.
Não, não melhoraremos depois de tudo.
Estaremos diferentes sim, mas melhores em nossa capacidade de amar e ter empatia pelo próximo, isso ainda levará algum tempo.


terça-feira, 12 de maio de 2020

O ISOLAMENTO E O FOCO


Por Mario Sales


São João da Cruz
SALMO 88

Ó, SENHOR, meu Deus e Salvador, dia e noite, na Tua presença, eu clamo a Ti.
Ouve a minha oração; escuta o meu grito pedindo socorro.
Pois as aflições que caíram sobre mim são tantas, que já estou perto da morte.
Sou como aqueles que estão para morrer; já perdi todas as minhas forças.
Estou abandonado no meio dos mortos; sou como os soldados mortos jogados nas covas;
Sou como aqueles que foram completamente esquecidos por Ti e que não tem mais a Tua proteção.
Tu me atiraste no mundo dos mortos, lá no fundo, na escuridão.
A Tua ira pesa sobre mim, e as Tuas ondas me esmagam.
Tu fizeste com que os meus amigos me abandonassem e olhassem com nojo para mim. Sou como o preso que não pode escapar.
Tenho sofrido tanto que quase já não enxergo. Ó Senhor Deus, dia após dia eu te chamo e levanto as mãos em oração.
Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam?
Será que no mundo dos mortos se fala do Teu amor?
Será que naquele lugar de destruição se fala da Tua fidelidade?
Será que naquela escuridão são vistos os Teus milagres?
Será que na terra do esquecimento se pode ver Tua fidelidade?
Ó Senhor Deus eu Te chamo pedindo ajuda; todas as manhãs eu oro a Ti.
Por que me rejeitas, ó Senhor? Por que Te escondes de mim?
Desde moço tenho sofrido e estado perto da morte; ando esgotado com o peso dos Teus castigos.
A Tua ira e o Teu furor caem sobre mim; os teus ataques terríveis acabam comigo.
O dia todo eles me cercam como uma enchente; eles me rodeiam por todos os lados.
Tu fizeste com que os meus queridos e meus vizinhos me abandonassem, e agora tenho como companhia a escuridão.


Bíblia Sagrada, Ed Paulinas, nova tradução na linguagem de hoje,2006

Estamos todos, por causa da pandemia deste ano, aprisionados em nossas casas, impedidos de ver uns aos outros, a não ser por artifícios tecnológicos que nos permitem ver-nos sem tocar-nos.
Achamos que isto nos constrange, que nos angustia e tortura. Foi inevitável na minha cabeça a comparação com os sofrimentos de outro prisioneiro, que seria mais tarde o guia dos que estão isolados da sociedade, não por algum constrangimento externo, mas por opção e perfil pessoal.
Falo de São João da Cruz, o guia da vida monástica, aquele que ao escrever sobre a vida retirada inspirou e ainda inspira monges e freiras.
Nem de longe nosso isolamento pode ser comparado às dificuldades físicas que acompanharam este monge, em 1577.
Eis um resumo: “Na noite de 2 de dezembro de 1577, um grupo de carmelitas contrários às reformas invadiram a casa de João em Ávila e o prenderam. Ele havia recebido ordens de alguns superiores contrários às suas ideias a deixar Ávila e voltar para sua casa original, mas ele se recusou alegando que seu trabalho havia sido aprovado pelo núncio espanhol, uma autoridade superior, o que resultou em sua prisão. Ele foi levado para um mosteiro em Toledo, que era, na época, o mosteiro carmelita mais importante em Castela, abrigando provavelmente uns 40 frades. João foi acusado de desobedecer às ordens de Placência e, apesar de seus argumentos, acabou sendo condenado à prisão. Encarcerado no mosteiro, João foi mantido sob um regime brutal que incluía uma surra de chicote em público ao menos uma vez por semana e um isolamento completo numa cela minúscula (3m x 2m) que mal abrigava seu corpo. Com exceção das raras ocasiões nas quais recebia permissão para utilizar uma lamparina, João era obrigado a subir num banco para conseguir ler seu breviário utilizando a luz que escapava do cômodo vizinho através de um buraco na parede. Ele não podia trocar de roupas e era alimentado apenas com pão, água e restos de peixe salgado. Foi neste período que João compôs grande parte de seu famoso poema "Cântico Espiritual" (além de outros menores) em papel fornecido por um outro frade que era encarregado de vigiar sua cela. João finalmente conseguiu escapar nove meses depois, em 15 de agosto de 1578, através de uma pequena janela que existia na cela vizinha depois de conseguir soltar as dobradiças da porta de sua cela.”
Meu computador vara a noite produzindo palavras e textos de forma ininterrupta, limitado apenas pela minha disposição e lucidez. Ao contrário de João, que nem papel conseguia com facilidade, isto não me torna mais produtivo. É impressionante que naquelas condições, “João compôs grande parte de seu famoso poema "Cântico Espiritual" (além de outros menores) em papel fornecido por um outro frade que era encarregado de vigiar sua cela.”
Existem relatos em várias partes da literatura que atestam o papel inspirador da miséria física na elaboração da boa literatura espiritual, se bem que, a história do misticismo sugere que iluminados não são escritores ou mesmo descritores de suas próprias percepções elevadas. Suas vidas são um doar-se tão constante que qualquer interrupção para registrar seus princípios éticos e espirituais seria como uma represa em um fluxo por natureza ininterrupto em direção ao oceano cósmico.
Outros que ao contemplarem as suas águas límpidas e seu ritmo inexorável o descrevam. A natureza do iluminado é fluir e permitir em si mesmo este fluxo.
Cristo, Buda, Isaac Luria e mesmo Sócrates tiveram seus evangelistas e relatores, que os imortalizaram em textos até hoje vigorosos e admirados, como em um desdobramento compulsório da presença e passagem desses iluminados pelos locais aonde passaram.
De qualquer maneira, não são condições materiais ideais que promovem o bom trabalho intelectual, mas um determinado estado de espírito que requer concentração e determinação, em uma palavra, foco.
Tudo que me dá conforto me distrai. Não sou favorável ao faquirismo, esclareço, mas a vida espartana tem seu valor psicológico, no sentido de reduzir todos os fatores que possam dificultar a manutenção estável de nossa concentração.
Patânjali, o codificador do Yoga, descreveu o Ashtanga Sádhana, o Caminho de oito partes. Os quatro últimos formam um conjunto de fases ascendentes até o estado de despertar da consciência, temporário ou definitivo, o Samadhi. A concentração, Dharana, é o segundo desses quatro passos, e antecede o estado meditativo, Dhyana. O primeiro desses últimos 4 passos é Prathyahara, a Abstração, retirar a atenção das coisas a nossa volta para alcançar um estado de foco adequado em um único ponto. Tudo que não seja este ponto é seu adversário, seu inimigo, luta contra ele e contra a estabilidade de nossa atenção. São a periferia da Mandala à frente do meditador, a mesma periferia que deve tornar-se cada vez mais difusa e invisível, até que desapareça por completo e reste apenas o centro do mesmo Mandala, tão somente o centro, o nosso verdadeiro foco. Aí sim, passamos ao período de ascensão gradual, aonde a perfeição de um estado leva a outro. Perfeita abstração é igual a concentração. Perfeita concentração é igual ao estado de Meditação. Perfeito estado meditativo, é igual a despertar da consciência, mergulhar no todo, esquecer-se de si mesmo.
É possível fazer alguma coisa nesse estado de abandono, de ausência de identidade pela identificação com o Altíssimo? Experiências como a de São João sugerem que sim. Sem conforto, com fome, cansado, sendo açoitado uma vez por semana, ainda assim com pedaços de papel conseguidos a duras penas, São João da Cruz escreve e cria sua obra mística que depois iria aperfeiçoar. Só consegue escapar nove meses depois, o mesmo tempo necessário a geração da criança no ventre de sua mãe, como numa reprodução simbólica da maternidade. O que nasce aqui, no entanto não é corpo, mas espírito; não é a carne, mais a alma, e junto com ela um diário desta gestação resumido no chamado “Cântico Espiritual”, sua obra do cárcere.
Tudo que nos dá conforto, nos distrai, nos prende ao mundo dos sentidos, fortalece em nós a ideia de que “sim, somos o corpo”, e não que “estamos no corpo”, temporariamente. Não é a matéria que nos prejudica, mas a distração que ela nos causa, impedindo o foco correto no espirito, que não implica, como demonstra a historia de João da Cruz, na inação, na aceitação passiva das circunstancias adversas, mas que pode sim ser ambiente propicio ao surgimento da beleza.
Quem já teve a curiosidade de estudar as diversas fases de formação do feto sabe que a forma final que a criança apresenta no dia do parto foi o resultado de mudanças progressivas que atravessam fases algumas das quais em nada nos lembraria um ser humano. Olhos esbugalhados e afastados, cabeças gigantescas em relação ao corpo, proporções que vão se ajustando ao longo das semanas até que a criança está pronta para a aventura for a do útero.
Processos que em momento algum podem ser interrompidos, cumulativos, com um único objetivo: a preparação do corpo para a vida em ambiente aéreo, respirando não líquido, mas ar.
Assim também o espírito atravessa processos preparatórios à iluminação, fases nas quais o foco é apenas um: a evolução. Todas as experiências visam apenas a Ascenção da consciência aos níveis que a atraem desde que chega a este mundo, arrastada pela imensa saudade da Unidade que já conhecera antes desta experiência de aparente autonomia e independência.
O mesmo João da Cruz que encontrou forças e foco para resistir a esta gestação moral nestes nove meses entre 1577 e 1578, descreveu com brilhantismo em sua obra literária a Noite Negra da Alma, o momento mais escuro que o espírito atravessa antes da iluminação, a angustia comparável a do corpo no canal do parto, na hora de sua expulsão do corpo de sua mãe.
Antes protegido, aquecido, mergulhado em líquido, o feto é trazido a um meio ruidoso, ofuscado por uma luz desconhecida, e tem seus pulmões inflados de modo súbito pelo processo de respiração.
Sair do estado material para o espiritual é da mesma maneira um brusco salto qualitativo, após um longo acumular quantitativo, um salto que, mesmo aparentemente súbito, apenas continua e coroa um processo que começou muito, muito tempo antes.
A evolução lembra mais cangurus do que cisnes em um lago. Não deslizamos ao longo das vidas, saltamos de existência em existência, de nível para nível, na escada espiralada da evolução.
O desconforto e o sofrimento nos afetam e entristecem, como entristeceu o próprio rei David do salmo 88, em epígrafe. Mas isto não significa que não possa ser um estímulo e uma oportunidade de melhorarmos nosso foco espiritual privados que estamos das distrações habituais.
Continuemos trabalhando porque eventualmente tudo passará, porque tudo, absolutamente tudo passa.
E não percamos a chance de usarmos este período desconfortável a nosso favor.
Tudo faz parte de nosso próprio processo de desenvolvimento, mesmo que leve nove meses, como em uma gravidez normal.