Por Mario Sales, FRC, SI
A estação espacial
Era 1999. O primeiro episódio da nova franquia de Star Trek,
(Jornada nas Estrelas), Deep Space Nine, que duraria sete temporadas, escrito
pelo roteirista Rick Berman, começava a ser exibido.
Seu título é “O Emissário” e foi dividido em duas partes.
Revi com prazer este episódio agora, já que toda a série
está disponível na Netflix
O enredo é básico para o desenrolar de toda a trama.
Benjamin Sisko (Avery Brooks), comandante e representante da
Federação de Planetas, assume a administração de uma ex estação espacial do
povo Cardassiano, que acabou de se retirar de um planeta chamado Bajor, em
órbita do qual a estação está.
Benjamin Sisko, vivido pelo ator Avery Brooks
Os Cardassianos subjugaram e dominaram política e militarmente
o povo bajoriano por décadas, e com sua saída e a retomada da autonomia do
planeta, a Federação é chamada a apoiar a transição, tecnológica e
militarmente.
O Comandante Sisko é um homem solitário e amargurado pela
lembrança da morte de sua esposa em uma batalha três anos antes, contra uma
nave Borg, que coincidentemente era liderada por um Jean Luc Picard abduzido e
transfigurado pelos Borgs em Locutus, destino do qual eventualmente seria salvo
pelos seus oficiais.
Neste ínterim, entretanto, ainda na situação de abduzido,
Locutus (Jean Luc) comanda um ataque a Terra e enfrenta a resistência de várias
naves da Federação, entre elas aquela aonde servia o atual comandante Sisko, juntamente
com sua esposa e seu filho adolescente, Jake.
Locutus
Durante o ataque, sua esposa é morta e ele escapa com o
filho por pouco.
Ao assumir Deep Space 9, Cisco é apoiado pela Interprise, capitaneada pelo mesmo Jean Luc Picard, já de volta ao seu estado humano normal, e o primeiro encontro de trabalho entre ambos, por causa disso, é tenso. A mágoa de Sisko com Jean Luc reflete mais a sua tristeza e seu luto do que uma raiva pessoal, já que ele lhe lembra aquilo que mais queria esquecer.
A cena da esposa soterrada pelos escombros e sem possibilidade
de ser retirada da nave, a qual explode pouco depois de ser evacuada, marca o
drama pessoal deste comandante viúvo, descrito nesse episódio.
O enredo então avança pelos problemas administrativos e políticos
da reconstrução da vida social de Bajor, pari passo com a reorganização e
adaptação à tecnologia cardassiana da estação pelos técnicos da federação.
Surgirão problemas de interação entre os homens e as
máquinas e entre bajoriano e humanos durante este período.
O destaque, no entanto, fica para o significado da
espiritualidade nesse processo.
A major Kira, adida bajoriana e segunda em comando na
estação alerta Sisko que o seu planeta está dividido depois da retirada
cardassiana, e que só uma coisa une a todos: a religião.
Jean Luc Picard
A líder espiritual do planeta, Ka Opaka, recusa-se a fazer a
ponte entre todos e se afasta, tornando-se reclusa.
Surpreendentemente, convoca Sisko para uma reunião através
de um de seus sacerdotes, que trabalha na estação espacial. Sisko atende seu
chamado e se reúne com ela em Bajor. Ela lhe fala sobre o destino de cada um, o
qual ela chama de Pah. E alerta Sisko de que seu Pah o trouxe aquele mundo, e
poderá fazer por ele mais do que ele supõe.
Neste momento, ela revela a ele que possui um objeto, parte
de um grupo de nove, mas dos quais sobrou apenas um, sendo que os outros oito
haviam sido roubados pelos Cardassianos, quando de sua violenta estada em
Bajor.
Este orbe remanescente está por isso mesmo, devidamente
escondido de todos, e ela mostra-o somente a Sisko.
Trata-se de um objeto semelhante a um pequeno peso de
ginástica, mas em posição vertical, que flutua dentro de um escaninho com
portas (que se fecham para ocultá-lo) e gira sobre si mesmo enquanto emite uma
hipnotizante luminosidade azul.
Ka Opaka
Ka Opaka diz a Sisko que ele precisa resolver sozinho seus
problemas pessoais e deixa-o experimentar o Orbe, como é chamado. Abre a caixa
para espanto de Sisko que olha aquele objeto fascinado e sai da sala.
Sisko é então tomado por um estado de consciência alterada
em que revive o dia da morte da esposa, e perde durante o processo a noção de
tempo e espaço. Quando sai do transe, Ka Opaka retorna e diz a ele que este é
um dos efeitos do Orbe sobre quem o contempla, e que é seu Pah interpretar o significado
do Orbe.
O Orbe dentro de sua caixa
Numa demonstração de inexplicável confiança, Ka Opaka dá o
Orbe a Sisko dizendo que ele deve buscar “Os Profetas” através deles e achar
sua Morada, o “Templo Celestial”, seu destino pessoal, seu Pah.
Sisko leva o Orbe para a estação e pede a um velho amigo, um
ser simbiótico capaz de viver várias vidas em corpos de hospedeiros diferentes,
chamado Dax, agora na pele de uma bela moça, Jadzia Dax, que examine o Orbe e
tente entender seu mecanismo.
O episódio se desenrolará com outros acontecimentos, mas
para não me estender em demasia, salto para o momento em que, com a ajuda de
Jadzia, Sisko descobre aonde deve se dirigir para encontra essa região ou
dimensão, chamada na mitologia bajoriana de “templo Celestial”, a qual ele
começa a suspeitar, seja apenas uma vestimenta mitológica de fatos até aquele
momento inexplicáveis a luz da cultura daquele povo.
Sendo assim, ele e Jadzia, a bordo de uma nave auxiliar,
dirigem-se a uma região do espaço aonde uma grande concentração de neutrinos
denuncia uma atividade de campo intensa e, até aquele momento, invisível.
Para sua surpresa, quando se aproximam, a atividade dos
neutrinos aumenta exponencialmente e um Buraco de Minhoca tempo espacial se
abre a sua frente, para dentro do qual são lançados e que atravessam em grande
velocidade, saindo um pouco mais a frente, para sua surpresa, milhões de anos
luz distantes de onde estavam, no chamado quadrante gama. Mais espantosamente, percebem
que o Buraco de Minhoca é estável, que não foi um fenômeno natural, mas que é
artificial, que tem provavelmente 10000 anos de existência, período durante o
qual os nove orbes apareceram e que era produto de uma avançada tecnologia de
um povo, até aquele momento, desconhecido.
Dão meia volta na nave auxiliar e começam a retornar ao seu próprio
quadrante espacial, passagem permitida novamente pela abertura graciosa do
portal com a sua aproximação.
Só que dessa vez eles não conseguem atravessar e sair
simplesmente. A nave reduz sua velocidade e, espantosamente, pousa em algum
lugar. Perplexos eles saem da nave dentro de um bolsão atmosférico adequado a
vida humana, de aparecimento tão inexplicável quanto o próprio portal. Sisko sai da nave e se depara com uma paisagem sinistra e desolada, com abismos e
rios de lava correndo entre rochas disformes.
Já Jadzia, ao sair, depara-se com um local semelhante ao
paraíso, um lindo jardim com um sol agradável, cheio de árvores frutíferas.
Ambos, no mesmo espaço físico, se assim podemos chamar,
vivenciam experiências de interação ambiental absolutamente diversas, talvez
uma manifestação do estado interno psicológico de cada um. O deprimido viúvo e
a sábia criatura de centenas de anos experimentam o mesmo espaço tempo de modo
absolutamente desigual.
Súbito, um Orbe surge, semelhante aquele que Sisko e Jadzia
receberam para análise de Ka Opaka. Ele flutua sobre ambos até que captura
Jadzia enquanto Sisko é envolto por um estado de consciência alterada.
Jadzia e Sisko sendo sondados por um Orbe antes de Jadzia ser levada de volta da Fenda espacial para a estação
O Orbe levará Jadzia em segurança até a estação espacial
Deep Space Nine, enquanto Sisko começa uma estranha conversação com os seres
que, agora se revelam habitantes daquela fenda espacial.
Eles não se revelam como formas. Para que Sisko os
compreenda, assumem ao falar a forma de pessoas que fazem parte das memórias de Sisko, sua
esposa mais jovem, seu filho conversando com ele no holodeck da nave que os
trouxe a estação no início do episódio, ou mesmo na forma de Ka Opaka ou Jean
Luc Picard. Eles falam como se cada um fosse parte do outro e a frase e o
pensamento de um geralmente são completados por outro personagem.
Cisco está mergulhado nesta estranha experiência de
interação, mas percebe o que ocorre e entra no jogo deste estranho primeiro
contato com o povo da fenda espacial, que ele ainda não sabe, tem parâmetros de
compreensão absolutamente distintos dos parâmetros epistemológicos e psicológicos
humanos.
Esta é talvez a cena mais forte do filme. Sisko precisa
conversar com rostos que não são aqueles de seus interlocutores, mas apenas
máscaras, personas de seu próprio universo psicológico interior.
É durante este estranho colóquio que ele percebe a mais
impressionante diferença daquele povo: eles não conhecem o conceito de tempo
linear já que vivem em uma percepção de tempo circular ou eonica, como chamavam
os gregos.
Desta forma, durante a conversação, esforçam-se para
compreender o que é tempo linear, o que é porvir, futuro, e o que é passado,
aquilo que não volta mais.
Para eles tudo isso é novo e complexo já que tudo que
existe, existiu ou existirá, para eles, é um presente eterno.
Sisko esforçar-se-á para explicar o que significa viver com
uma compreensão linear da vida, e a natural impossibilidade humana de voltar fisicamente ao
que já aconteceu.
Neste momento, eles o questionam sobre suas lembranças pessoais
que contemplam telepaticamente, nas quais o episódio de maior sofrimento para
ele, o dia da morte de sua esposa, é revisitado com frequência.
E quando eles o questionam ele diz que aquilo já passou, que
é apenas uma lembrança, ao que retrucam que não é apenas uma lembrança, mas uma
vivencia, da qual ele não se liberta, e que ele experimenta seguidas vezes,
como em um looping, como em um círculo vicioso. Eles perguntam: "Se isto não existe mais, porque voce vive aqui, porque voce existe aqui?"
Esta é a natureza psicológica dos traumas.
Eles são experiências que são revisitadas pela vítima de
maneira descontrolada e constante, de maneira que aquele que vinha em um curso
linear de vida e crescimento para neste ponto e fica ali, rodando em círculos,
sem poder se libertar daquele momento, daquela emoção, daquela memória.
E então os habitantes da fenda argumentam com Sisko que
aquele comportamento não é linear. Ou seja, no seu processo de compreensão da
natureza da psicologia humana e da sua peculiar relação com o tempo, percebem
que, como no caso de Sisko, o que para eles era seu modo natural de ser, para
seres lineares era uma denúncia de doença e trauma mental.
Sisko desaba em lágrimas ao perceber a profundidade desta
descoberta aparentemente tão simples.
E ali, sua recuperação psicológica se completa e ele
consegue superar a perda da esposa.
O episódio segue, mas o que me interessa acaba aqui.
É talvez um dos mais fascinantes filmes de ficção científica
que eu assisti, e que há anos eu não revisitava.
Teve forte impacto sobre mim. Eu mesmo estava paralisado, há
mais ou menos um ano, por uma desagradável experiência que atravessei no meu
ambiente profissional.
Percebi o quanto de circularidade em minha mente e em meus
pensamentos este trauma existencial havia me atirado.
E como o comandante Benjamin Sisko, em uma catarse, começo a
ir em frente e voltar a um tempo psicológico linear.
Tudo na arte, do teatro ao cinema e à música, pode sim ser
terapêutico.
Uma experiência enriquecedora que eu quis compartilhar.
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