sexta-feira, 10 de abril de 2015

TEXTOS ESOTÉRICOS, FÉ E CIÊNCIA

por Mario Sales, FRC,SI,CRC 18°

Coronel Olcott ao centro

HPB

A Sociedade Teosófica (S.T.) foi fundada em Nova Iorque, E.U.A., em 17 de novembro de 1875, por um pequeno grupo de pessoas, dentre as quais se destacavam uma russa e um norte americano: a Sra. Helena Petrovna Blavatsky (HPB) e o cel. Henry Steel Olcott, seu primeiro presidente. Em 1878 o cel. Olcott e a Sra. Blavatsky partiram para a Índia. Em 3 de abril de 1905, foi estabelecida legalmente a sede internacional da S.T. no bairro de Adyar, na cidade de Chennai (antiga Madras), estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, onde permanece até hoje.
A essência da ST são as obras literárias de HPB e, entre estas, a Doutrina Secreta(DS).
Na DS, HPB não apresenta nenhuma demonstração ou comprovação de suas afirmações. Nem precisaria. 
A DS é um texto de fé.
Como já comentei, é preciso ao menos crer na possibilidade de realidade daquilo que ela relata, antes de se envolver com seu estudo.
Sua chamadas "revelações" só o são para determinado tipo de pessoas, os chamados esoteristas e iniciados.
Estes, no entanto, como mostraremos, não necessitam de nenhuma prova, de nenhuma evidência. Se reconhecem, em seus corações, a veracidade do que lêem, para eles isto já é prova suficiente.
Mesmo assim HPB desejava segundo suas próprias palavras, que seu texto supremo rivalizasse com textos científicos da época. Só que este propósito, já disse, e correndo o risco de ser cansativo repito, era e é descabido.
Os que acreditavam e acreditam no que ela diz não necessitam de provas para crer; e os que não crêem, jamais acreditarão em afirmações não demonstradas e/ou comprovadas.
Esoteristas têm uma complacência infinita com textos esotéricos, mas é preciso observar que existem, do ponto de vista esotérico, textos e textos.
Existem por exemplo, aqueles textos de características declaradamente religiosas, descrevendo um mundo além deste mundo, sua natureza, suas características.
São dessa forma o Bardo Todol, o Livro dos Espíritos, as visões de Svendenborg e os livros de Jacob Boheme.
Tais relatos não se propõem fundamentados em fatos do cotidiano, mas querem dar conta exatamente de algo além do cotidiano, crenças provenientes de interpretações e visões pessoais de seus autores com apoio e origem em tradições locais. Nenhum texto religioso tem qualquer intenção de ser científico de modo ortodoxo, e assim se consideram verdadeiros, independente de quaisquer demonstrações.
Existem sempre aqueles, no entanto, que querem transformar crenças dogmáticas em axiomas lógicos ou em base para o conhecimento de certeza, mesmo passados 24 séculos desde que os gregos distinguiram, com brilhantismo, os conceitos de doxa e epistéme.
Os cristãos católicos romanos, praticamente até o século XIX, impuseram suas interpretações do mundo e do real à sociedade ocidental e aos próprios cientistas, perseguindo alguns, matando outros, de modo a fazer prevalecer sua noção de verdade.
Do século IV até o século XIX DC, crenças religiosas autonomearam-se certezas, produto de reflexões. Nesta linha de trabalho, Universidades inteiras baseavam seus trabalhos intelectuais nos textos bíblicos, não em informações originadas no empirismo ou na matemática. O objetivo de um religioso tradicional sempre foi adequar o real à sua crença, ao contrário do cientista que adéqua sua crença ao que o real lhe informa.

Ludwig Feuerbach

Mesmo assim, as "certezas religiosas" entraram pelo século XX enfrentando o desafio da cientificidade, que desde o século XIX, com Feuerbach[1], Marx, Nietzsche e Augusto Conte romperam filosófica e psicologicamente o elo entre conhecimento religioso e laico. Ao final do século XIX, qualquer movimento que quisesse reputação deveria ser capaz de realizar a reunião destes dois mundos que se afastavam, em alta velocidade.


Augusto Conte

Vemos assim algumas iniciativas que, sendo de fundo religioso, do mundo da crença, tentam travestir-se de empreendimentos científicos, do mundo da reflexão, quase como em uma tentativa de melhorar sua aceitação em um ambiente que pouco a pouco se tornava mais cético e materialista.
O lema da Escola Teosófica, "Não há Religião Superior à Verdade" , é um exemplo desta estratégia. [2]
O que a Escola de Adyar propõe é que suas informações são científicas, mas que serão refutadas pela ciência ortodoxa por puro preconceito.

Dr. Archibald Keightley

Na verdade,só um leigo acharia que a refutação científica é uma demonstração de preconceito. Não há maior demonstração de respeito por uma teoria científica do que a tentativa fundamentada e bem aparelhada de sua refutação pois tudo em ciência é refutado e refutável, todo o tempo, principalmente se for um postulado construído dentro de um modelo científico ortodoxo. É exatamente a refutabilidade de um postulado que o torna científico. O que não pode ser criticado e , eventualmente, refutado, não é um postulado científico, mas dogma. E os dogmas são assunto de religiões, não da ciência.
Na época que HPB publica a DS, 1888, esta abordagem epistemológica onde tudo é suspeito até prova em contrário ainda ganhava força e pelo que eu e Flavio vimos no chamado "Apêndice" do IIº Volume da DS,(que na verdade vem a ser maior em tamanho do que o texto principal do IIº Volume em si), a ciência era altamente especulativa e pouco calcada no experimentalismo.
Cética em relação a tudo que, mesmo de leve, lembrasse a religião, da qual agora, no século XIX, se afastava como o diabo da cruz, ainda era uma comunidade científica com poucas informações e muitas teorias e discursos.
Sendo isto o que havia na época, HPB achou que poderia entrar no debate científico da mesma maneira, com afirmações bombásticas e uma pena enfurecida e que, com isso, ocuparia um espaço no debate científico da época.
Não foi assim. Teosofia Blavatskyana não é, e nem nunca foi ciência, mas sim um saber fundamentado em crenças, em tradições culturais e em fé.
Sua mais importante contribuição ao esoterismo foi mostrar que existe sim uma cultura única por trás de todas as culturas, e que a aparente diversidade tem pontos de conexão que nos fazem ao menos suspeitar que sejam produto da mesma cultura, uma cultura planetária, que produziu pirâmides na América Central e nos desertos do Egito, bem com em regiões subaquáticas do Japão.
Ela tentou também pelo que lemos até agora, uma síntese de todos os símbolos de várias culturas, mas este esforço continua até hoje sem que se tenha chegado ainda a um consenso.


Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung também tinha a mesma ambição quanto aos símbolos humanos, e também não conseguiu seu intento. Eventualmente este tipo de síntese cultural será conseguida, mas falta-nos ainda tecnologia e informação para preencher os espaços em branco antropo-arqueológicos.

Dalai Lama

Isso não tira o mérito de HPB de ter tido a iniciativa.
Não havia à sua época uma visão planetária em relação à humanidade. Os povos eram heterogêneos e misteriosos uns para os outros. O tempo e o avanço das comunicações interplanetárias derrubaram muitos dos véus que existiam naquele século e como exemplo, o homem tibetano, (infelizmente graças a brutalidade e ao imperialismo chinês, que tornou o Dalai Lama um fugitivo e matou milhares de monges), foi trazido forçosamente ao convívio internacional.

Max Heindel

O trabalho e o esforço de HPB na DS, acredito, deve ser valorizado como a primeira tentativa de mostrar que o que chamamos esoterismo é na verdade o eco de outras culturas, de outras visões de mundo.
A DS, óbvio, não esgota o assunto, claro, já que é trabalho para muitas mentes, mas propõe uma linha de trabalho que está longe de ter sido adequadamente continuada pelos seus seguidores.


Henrique José de Souza e sua esposa Helena Jeferson de Souza, a "parelha manúsica"


As rupturas dentro do movimento após sua morte, com Besant e Leadbeater em Adyar, Rudolph Steiner na Alemanha, com a Antroposofia, ou Max Heindel, teosofista americano de origem dinamarquesa, criador da Fraternidade Rosacruz, (uma escola que, apesar de seu nome grandiloqüente, na verdade tinha os dois pés fincados na tradição blavatskyana), ou a Eubiose em solo brasileiro, de Henrique José de Souza, nenhuma delas  produziu uma continuação do esforço real de HPB, que era catalogar o conhecimento esotérico em uma única obra e doá-la ao mundo.

Rudolph Steiner

Este esforço, ambicioso, já de per si mereceria aplausos e realmente não entendo a obsessão, a meu ver desnecessária, de HPB, em conseguir um status científico para este trabalho, o qual nunca foi produto da ciência, mas segundo ela mesma relatava, consequência de narrativas de três grandes mestres invisíveis a maioria dos mortais, da Fraternidade Branca, conceito e entidade apresentados ao mundo não iniciático também por ela.
Seu texto era e sempre será um texto esotérico notável, como outros que a precederam.
E o que é um texto esotérico? Vejamos.
Podemos a meu ver dividir os textos esotéricos em essenciais ou compostos. Os esotéricos compostos, por sua vez, podem ser de três tipos: magistas, místicos e, como já comentamos, os religiosos.
Os esotéricos essenciais são aqueles que não tem intenções outras a não ser reportar informações de outras eras e povos. Ele não ensina técnicas, ele não faz longas discussões sobre a natureza da divindade.
A DS é um texto esotérico essencial, sua função é revelar ao mundo a existência de um outro plano de existência, aonde energias desconhecidas atuam e desenvolvem transformações e evoluções paralelas a esta do mundo hodierno. A DS não oferece meios para se atingir este mundo. Apenas o aponta e diz: "-Está Lá", e ponto.

Agora vejamos os compostos, magistas, misticos e religiosos. Como exemplo de livros esotéricos Magistas eu cito Dogma e Ritual da Alta Magia de Eliphas Levi, o Tratado Elementar de Magia Prática de Papus, as narrativas sobre cabala prática, que infelizmente estão dispersas estrategicamente em monografias que ainda não foram reunidas em um tomo organizado. Ali são dados meios e fórmulas pelas quais conseguir certos efeitos que transcendem as leis deste Universo, na realidade ao nosso redor.
Os esotéricos místicos são aqueles que buscam a integração com Deus, seja qual for o nome que ele receba na tradição em questão, e visam ministrar ensinamentos que afastem a ilusão da distância entre o Todo Poderoso e o indivíduo que lê este texto. São exemplos o Bhagavad Gita, os Quatro Evangelhos Cristãos, e mesmo as Sutras Budistas se bem que em Budismo esta categoria, a de uma entidade superior, é desnecessária ao processo de Iluminação do praticante, mas as consequências são semelhantes. Neste tipo de livros esotéricos existe um forte componente didático. A intenção primordial é mostrar o caminho, ou melhor, um caminho que leve a fusão com a plenitude.
Já como textos esotéricos religiosos podemos relacionar o Corão, a Bíblia Judaica, no caso a Torah, ou os registros escritos do Kojiki e Nihon Shoki, nos séculos VII e VIII, que mais tarde transformar-se-ão na base da religião Xintoísta.
Talvez sobre estes textos possa se dizer que são as tábuas de cada nação, de que Nietzsche fala em Genealogia da Moral. Nestes escritos encontramos, via de regra, normas de comportamento e conduta que constituirão a ética de uma religião.

Friederich Nietzsche

O certo é que, seja qual for o tipo de texto esotérico, nenhum deles tem qualquer pudor científico, ou seja, afirmam-se como expressões da verdade independente de quaisquer demonstrações. Repetindo: o curioso é que principalmente textos esotéricos religiosos gostem de se apresentar como produto de reflexão e não da fé ou crença. As crenças são certezas, do tipo que só religiosos possuem. Cientistas ao contrário, vivem mergulhados na dúvida e por mais elegante que seja seu postulado ele estará sujeito a ser destronado se fatos novos surgirem no horizonte dos acontecimentos.
Esta é a verdadeira humildade científica, jamais supor que saiba tudo sobre todas as coisas pois esta onisciência seria o próprio fim da ciência em si.
A DS, equivocadamente, quer ser um livro de ciência desde suas primeiras páginas, quando na verdade poderia encaixar-se no modelo de livro esotérico essencial.
Suas narrativas são indemonstráveis, inverossímeis, e dependem, como eu disse , da crença de quem as lê; não há nem o conforto de um suporte matemático em suas afirmações.
Sim , por que a ciência ortodoxa também tem teorias e postulados indemonstráveis na prática, como por exemplo aquelas teorias referentes à natureza e dinâmica dos buracos negros. Ninguém, que se saiba, chegou perto de um o suficiente para confirmar as projeções teóricas sobre ele, mas estas projeções nascem e se sustentam em cálculos matemáticos complexos e rigorosos e da análise crítica criteriosa dos dados observacionais disponíveis. Não se trata de uma informação que surge de modo gracioso.
Antes de se tornar pública, foi objeto de análises e ataques sistemáticos e se for uma informação séria e bem fundamentada, passará por estes ataques incólume. Nada há de agressivo nisso, não é uma questão pessoal contra o cientista que propõe a tese. Isto é o método científico em funcionamento. Todo postulado científico, toda teoria é atacada de todos os modos possíveis , permanentemente, de forma a que, enquanto resistir a estes ataques teóricos, se mantenha como paradigma.
Portanto, como já disse, a DS em momento algum tem qualquer característica de proposta científica, antes de tudo porque lhe falta o cuidado demonstrativo que qualquer trabalho científico tem que ter. Ao ler a DS seja qual for nossa motivação para isso, estamos às voltas com uma narrativa que, (ao contrário das Estâncias deste desconhecido livro de Dizyan, que tem um forte caráter metafórico, poético e simbólico), compõe-se de um conjunto de afirmações de sua autora baseadas em textos que, de maneira ortodoxa, nem ela mesmo consultou. Indagada certa vez sobre o sem número de referências que cita, em como as teria consultado, relatou que apenas fechava os olhos e os textos vinham a sua mente e ela os redigia a partir desta visão.
Foi assim que HPB redigiu a DS.
É bom lembrar que eu e Flavio somos esoteristas rosacruzes. Por muitas vezes, por sermos esoteristas, dedicamo-nos a leitura de textos que descrevem o indescritível, mundos e visões improváveis, como a visão de Ezequiel, o trecho mais hermético da Bíblia Judaica e base do Misticismo Merkavah, a proto-cabala.
Bíblia ou a Torah, com certeza, não querem ser livros científicos, mas, isto sim, esotérico-religiosos segundo minha  própria classificação, os quais sustentam a fé judaica e outros tipos de fé, há séculos.
Suas afirmações são afirmações no contexto da fé, onde provas , se elas forem necessárias, como já disse, estarão no coração de quem a lê.
Na verdade, nenhum leitor de um texto esotérico religioso vai ao livro em busca de provas, mas sim de inspiração. Não lhe interessa se o que está ali é ou não demonstrável, mas sim se ao ler aquelas linhas seu ser se regozija e se rejubila e ele reconhece valores harmônicos com suas crenças. O que não quer dizer que não existam aqueles que por insegurança ou por ignorância do que signifiquem critérios científicos, queiram dourar a pílula da fé com o ouro da cientificidade, sem sucesso, já que um é óleo e o outro é água. Ou aceitamos a priori, como plausíveis e interessantes os fatos descritos na DS ou nem começaríamos a lê-la, quanto mais continuar neste esforço de leitura de um texto tão obscuro, e, no caso desta edição em particular, pessimamente traduzido por Raymundo Mendes Sobral. Portanto, a DS não é, e nem deveria tentar ser um texto de características científicas, mas sim, antes de qualquer coisa, um texto que demanda fé de quem o lê, nas coisas que ele afirma.


[1] Ludwig Andreas Feuerbach (Landshut, 28 de julho de 1804 — Rechenberg, Nuremberg,13 de setembro de 1872)

[2]
Este é o lema da Sociedade Teosofica, o qual foi traduzido do sânscrito –  Satyam nasti para Dharma. A palavra Dharma foi traduzida como religião, mas também significa, entre outras coisas, doutrina, lei, dever, direito, justiça, virtude. Portanto, em sentido amplo, o lema da S.T. afirma que não há dever ou doutrina superior a verdade.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A DOUTRINA SECRETA DE HELENA BLAVATSKY IIIº VOLUME

Novos comentários sobre a leitura

        por Mario Sales, FRC,SI,CRC 18°



"1.Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha pra dizer.
2.Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si, os traços que deixaram na cultura ou nas culturas.
3.Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele.
4.O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vêzes, descobrimos nele algo que sempre soubéramos ou acreditávamos saber, mas que desconhecíamos que ele o dissera pela primeira vez."

Ítalo Calvino in "Por que Ler os Clássicos", Ed. Compahia das Letras


Em uma dessas noites da Confraria do Vinho In Vino Veritas, aqui em casa, queixei-me das dificuldades da leitura da Doutrina Secreta, (DS) de Helena Petrovna Blavatsky (HPB). A pergunta a seguir era inevitável: "Mas porque então você está lendo?"
Melhor seria que Calvino, eminente escritor italiano do século XX, nascido em Cuba, e não eu, tivesse dado a resposta acima. Só que eu ainda não a conhecia.
Respondi, se me lembro bem, que me sentia na obrigação de conhecer as obras clássicas do esoterismo, se não todas pelo menos aquelas que puder digerir em uma encarnação.
Gosto de conversar sobre o que conheço, não de especular sobre que o que nunca contemplei. E em esoterismo como na vida social em geral, ouvimos discursos absurdos que traem o desconhecimento do assunto de quem fala.
É apenas por isso, por amor ao conhecimento fundamentado, que eu e Flavio continuamos a desbravar as florestas cerradas da DS da Editora Pensamento, agora lidando com o III° volume, "Antropogênese".
Supõe-se, ao ler este título, que HPB e seus mentores dedicar-se-ão, ato contínuo, a narrar a formação inicial do homem e da humanidade, bem como seu desenvolvimento.
No entanto, com inegável talento para o Caos descritivo, ela inicia o tomo estudando novamente as Estâncias de Dizyan, de I até XII.
Em um trecho anterior às "Estâncias", intitulado "Notas preliminares sobre as Estâncias Arcaicas e os quatro continentes pré históricos", na pág. 15, HPB alerta que realizou "...uma tradução a mais literal possível; mas algumas das Estâncias... ", continua ela, " ...são demasiado obscuras para que possam ser compreendidas sem uma explicação...", e por isso HPB se propõe a explicá-las "...versículo por versículo."
Se este projeto se mantivesse fiel a sua proposta, eu nada teria a comentar. Só que é exatamente pela ausência de uma linha lógica e encadeada de pensamento, (espargindo de modo anárquico e, às vêzes, desnecessário, milhares de informações pulverizadas, ao mesmo tempo, com o objetivo de demonstrar erudição), que o leitor desarmado sente-se atormentado com as frequentes quebras de estilo, tão bruscas e grosseiras ao longo da narrativa, que o livro cairia das mãos de qualquer leitor menos maduro com facilidade.
Nestas "Notas Preliminares...", HPB é, ao contrário, bem clara. Diz que "...no que concerne à evolução da Humanidade, a DS enuncia três novas proposições, que se acham em contradição formal com a ciência moderna [ciência de sua época, séc.XIX], e também com os dogmas religiosos correntes".
Segundo HPB, a DS "...ensina...(a) a evolução simultânea de sete grupos humanos em sete diferentes partes do globo;(b) o nascimento do corpo astral antes do corpo físico, servindo o primeiro de modelo ao segundo; e (c) que o homem nesta ronda, precede todos os animais - inclusive os antropóides - do Reino Animal."
Deduzimos, ingenuamente, que ela começaria o texto deste terceiro volume por aí, certo? Errado. Basta que olhemos o índice da parte I (Antropogênese) na página 7, para vermos que a coisa para HPB, não pode ser tão simples. Dos 26 tópicos enumerados ali, só o 25º fala especificamente de "grupos humanos em desenvolvimento"ou, como HPB prefere, de raças raiz.
Até chegar aí ela se demorará em considerações paralelas sobre símbolos do Oriente e do Ocidente, sem que fique clara a razão e a importância pela qual ela o faz.
É como se, subitamente, HPB perdesse o foco e se esquecesse do que estava falando. Não se trata de mudança de estilos literário como já ouvi comentarem. É perda de linha de raciocínio pura e simples.
E o que nos causou mais perplexidade foi que, na página 53 ela lança sem aviso números permutados ao texto, ao modo da Gematria e da Themurah.
Sem uma orientação prévia, de repente, lê-se na linha seguinte: "A Cabala nos ensina que estes Sephirot eram números ou emanações da Luz Celeste" e acrescenta a este trecho um parênteses inexplicável "(20612:6561)".
Flavio e eu nem nos olhamos, tamanha nossa perplexidade. Continuamos a ler na esperança de que mais a frente surgisse uma explicação. Mas nada acontecia.
Que significariam estes números? Porque e para que foram colocados ali? Por que os dois pontos entre ambos?
Fui para a internet e após pesquisar um pouco achei em um site, www.nova-acropole.pt/a_lexaritmos, o que nos pareceu ser a razão de ser destes números.
Ao que parece esses Lexaritmos são parte de um código usados em diversas culturas para ocultar de profanos conhecimentos sagrados. Por que trazê-los ao texto naquele momento continuou sendo um mistério para nós.
Este aspecto, a codificação do que já é esotérico de per si, talvez mereça um post a parte.
O que tanto eu quanto Flavio notamos foi a falta de senso de momento no texto e no contexto para o aparecimento destes números.
Este episódio mostra o que falei acima: em certos momentos as mudanças de direção da DS são tão bruscas que mostram apenas perda de linha de raciocínio e não mudança de estilo literário, como alguns eufemicamente dizem. Já vi alguns esoteristas atribuírem o fenômeno, reconhecido por outros, ao fato de que três grandes mestres segundo consta usavam HPB como veículo de suas próprias idéias. O que em si, seja ou não um fato, não melhora o problema da compreensibilidade do texto em questão.
Após todas estes questionamentos, muitos podem indagar qual a motivação que nos faz continuar a leitura deste texto. Além do comentário de Calvino em epígrafe , a resposta é simples: somos dois rosacruzes, e já que é assim, somos extremamente curiosos.
Perguntamos-nos todas as quartas feiras porque um texto tão confuso tornou-se um clássico; tentamos identificar aonde o texto está confuso devido à uma tradução inadequada de Raymundo Mendes Sobral, aonde são erros de impressão da própria editora Pensamento e aonde existem indícios de que o texto foi adulterado por terceiros, ainda em Adyar, leia-se Ane Besant e Leadbeater, no período imediatamente em seguida a morte de HPB.
Não é possível que este livro seja um clássico do esoterismo apenas pela simplicidade intelectual de seus leitores que julgaram ao longo de décadas o conteúdo pelo volume de informações ou, por reverência inexplicável, abstiveram-se de analisar criticamente o texto em questão, mesmo que suas colocações sejam inverossímeis, já que como qualquer texto esotérico religioso ele só pode ser avaliado no terreno da fé.
É preciso crer que o que HPB narra é real, não só para ela, para se continuar a leitura. Ou pelo menos deixar em suspenso, como bons fenomenologistas husserlianos, a decisão sobre o que é ou não verdade em seus relatos, até que mais dados estejam disponíveis.
Antes de tudo, por sermos esoteristas rosacruzes , é preciso conhecer o texto, ir ao texto, com coragem, mas com humildade, sem no entanto, em nenhum momento, eximir-se de pensar aquilo que estamos lendo.
Como quando conceitos cabalisticos são alterados sem pudor. Na página 55, e convenhamos, isto não deve ser atribuído a HPB, mas aos seus tradutores, uma das obras fundamentais do Cabala Judaico, o Sepher Yetzirah, é traduzido para o português como "Número da Criação". Ora, de acordo com Arieh Kaplan, minha referência em textos fundamentais de Cabala, no livro "Sêfer Ietsirá" , O Livro da Criação, ed. Sêfer, 3a edição revisada, set de 2005, o trecho 1:1 do Yetzirah, em outra forma de grafar, diz que  "...E criou o Universo com três livros (Sefarim), com texto (Sefer), com número (Sefar) e com comunicação (Sipur). Portanto traduzir Sefer (texto ou livro) como se fosse Sefar (número) é uma falha grosseira de tradução que nesta versão da DS, para mim e para Flávio, hoje, já não surpreende.
Nessa hora sempre aparece a "turma do deixa disso" que argumenta que se trata de uma vertente interpretativa diferente, mas não errônea. Este argumento não se sustenta mais, hoje. Traduções melhores, a internacionalização do conhecimento do hebraico e a melhoria do conhecimento histórico, tiram este debate da sombra cinza aonde querem colocá-lo. Trata-se de um erro de tradução, puro e simples, sobre o qual HPB não tem nenhuma responsabilidade.
Continuaremos a ler e criticar o texto, mas também a estudá-lo na sincera intenção de entendê-lo.
Infelizmente aqui não podemos contar com o contraponto das traduções iniciadas em 2012 e disponíveis em: http://www.filosofiaesoterica.com/userfiles/A_DOUT_SEC_1_PASSO_A_PASSO_04_02_2015.pdf ,as quais não alcançaram ainda este trecho em que estamos trabalhando.
O que nos consola é que existe um genuíno interesse em restaurar as informações da DS, tanto por teósofos como por não teósofos, curiosos, como os rosacruzes.
Nenhum esforço é em vão. Em breve teremos resultados.

sábado, 28 de março de 2015

DESCREVER O GERAL PELO PARTICULAR

por Mario Sales, FRC,SI,CRC 18°






Talvez o grande problema de escrever sobre temas esotéricos e místicos, e principalmente restringir estes comentários à apenas algumas tradições específicas ( a rosacruz, a maçonaria e o martinismo) seja criar um nicho tão específico que poucos, muito poucos se interessem por ele.
Na verdade isto não é um problema, apenas uma característica de trabalhos esotéricos. São esotéricos exatamente por serem diferenciados e personalizados. Não poderia ser de outra forma. Quem quiser falar sobre todas as coisas não conseguirá falar sobre nada porque ninguém consegue falar sobre tudo.
É preciso escolher um local no oceano, da largura de seu corpo, no máximo, e ali mergulhar o mais fundo que se puder.
Todo estudo profundo, para ser profundo, precisa ter muito bem delimitado o ponto no qual se aprofunda. E o estranho é que a coluna que desce neste oceano de saber , mesmo sendo restrita a um pequeno espaço, se percorrida até regiões abissais nos revelará aspectos comuns a todas as regiões daquele oceano, transformando um estudo vertical possível em algo semelhante a um vôo horizontal por sobre as águas deste oceano.
Em si, este conceito também é esotérico, que o Todo esteja em todas as suas partes, e nada é tão didático como a água para demonstrar este conceito.
Como a água, em toda a parte, é essencialmente a mesma, mostrando apenas alterações circunstanciais de salinidade, temperatura e pressão, também a profundidade vertical mostrará características e peculiaridades que em muito se assemelharão aquelas encontradas na perspectiva horizontal.
Aquele que cuida de seu quintal, descobre o Infinito, dizia um famoso escritor baiano.
É preciso escrever sobre um restrito espaço do Universo, mas de forma tão fiel às suas características que possamos ver o Infinito e o Eterno dentro de uma garrafa.

Espero que meu Blog seja como esta garrafa.