UM EXERCÍCIO SOLITÁRIO, POÉTICO E FILOSÓFICO, BASEADO NO PRECEITO ROSACRUZ DA MAIS COMPLETA LIBERDADE (POSSÍVEL) DENTRO DA MAIS PERFEITA TOLERÂNCIA (POSSÍVEL). O MARTINISMO E O ROSACRUCIANISMO COMO REFLEXÃO.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
sábado, 27 de dezembro de 2025
PENDURANDO AS CHUTEIRAS
POR MARIO SALES
Como alguns
amigos mais chegados já sabem, este ano encerro 25 anos de colaboração com a
AMORC através de palestras. Um projeto de extrema complexidade me absorve no
momento de tal forma que não consigo pensar em mais nada, dos muitos e variados
temas que a vida esotérica nos apresenta.
Aliás a
tendencia na pratica esotérica é a progressiva especialização. Vamos ao longo
dos anos nos afeiçoando mais e mais a certa área do universo esotérico de
maneira que, eventualmente, esta se transforma no carro chefe de nosso esforço
intelectual.
No meu caso,
tal área é a CABALÁ HEBRAICA.
Em si já
comporta um enorme numero de conceitos e informações que deve me dar diversão e
trabalho até o final dessa atual existência. É pena que não consigamos levar
conosco as lembranças de uma encarnação. Isto me pouparia muito na próxima.
Pelo menos, como disse, minha diversão está garantida.
Provocado
pelo Grande Conselheiro do Nordeste, Paulo Dutra, um velho amigo, comecei e me
interessei em traduzir o texto Etz Chaim, “A Árvore da Vida”, de Hhayyin Bem
Joseph Vital, discípulo de Isaac Luria, e a isto tenho me dedicado nos últimos
dois anos. O livro foi traduzido para o inglês e publicado duas vezes, a
primeira em uma edição de capa preta e em quatro volumes, por dois editores
desconhecidos, os quais por mais que eu procure, não consigo identificar ou
levantar suas biografias: E.COLLÉ e H.COLLÉ.
O primeiro
volume chama-se “O Palacio de Adam Kadmon” e é este meu atual objeto de
trabalho.
Os três
volumes seguintes são: “O Palacio dos Pontos”, “O Palacio das Coroas e o
Palacio de Abba e Imma” e por ultimo “O Palacio de Zeir Anpin”, parte 1, o que
sugere que exista uma parte 2 a qual não tive acesso.
Já traduzi
para o português todos os 4 volumes, mas ai começou o drama de compreender, de
modo inequívoco, os estranhos e metafísicos conceitos descritos.
E nisso já
se passaram dois anos com um progresso lento e cuidadoso.
O que tem me
ajudado é a parceria fraterna com Flavio Bazzeggio, meu companheiro de estudo
já fazem 15 anos, que pacientemente ouve minhas queixas e duvidas e com isso
alivia o fardo do entendimento.
A outra
fonte de auxilio é uma outra edição primorosa de “O palácio de Adam Kadmon”,
feita por dois rabinos de Nova Yorque, Donald Wilder Menzi e Zwe Padeh, pela
editora JASON ARONSON INC, de Northvale, New Jersey, esta muito mais bem
cuidada e, para nossa alegria, repleta de gráficos que esclarecem os conceitos
de modo indelével.
Para minha
tristeza, ao pesquisar os autores para saber de outras traduções para os
volumes 2,3 e 4, encontrei a razão pela qual nenhum dos outros volumes veio a
luz. Ambos faleceram nos últimos anos, Zwe Padeh aos 82 anos, em 16 de julho de
2022, e Donald Wilder Menzi em 21 de novembro de 2012. Ambos pertenciam a West
End Synagogue, 190 Amsterdam Ave. Embora a sua tradução tenha sido em 1999,
provavelmente o trabalho de compreensão e publicação do segundo volume foi
interrompido no meio, já que 13 anos não é muito considerando o grau de
abstração desses ensinamentos.
Donald Wilder Menzi
terça-feira, 31 de outubro de 2023
ARREPENDIMENTO
07/05/2008
Ressinto-me das minhas
hesitações
Dos meus senões.
Nada mais.
Meus erros são meus
companheiros e mestres
Não me são hostis, nem me
ameaçam.
Não me temem e eu não os temo
Temos, eu e meus erros,
um relacionamento amável
Só me arrependo do que não
fiz
Por medo de falhar
Por insegurança ou timidez
Estes são meus pecados
Minhas omissões
indesculpáveis
Meus silêncios
injustificáveis
Minhas inoportunas crises de
consciência
Que bloquearam os meus gestos
E me roubaram momentos
Que me roubaram meu tempo,
minha vida.
EU NÃO
ACORDO QUANDO ABRO OS OLHOS
12/12/2007
I
Eu
não acordo quando abro os olhos
Só
acordo debaixo do chuveiro
Depois
de tomar café
e
ler, inteiro,
o jornal.
Este é meu normal.
Leio
jornal dormindo
Tomo
café dormindo
Olhos
abertos, dormindo,
Pensando,
mas dormindo.
Assim a manhã vai seguindo.
Olhos
abertos não são
Uma
cabal demonstração
De
que alguém está desperto.
É certo.
Vejo
pessoas do carro,
nas
ruas e nas casas,
passando
por mim,
nas
calçadas,
algumas
paradas.
Olhos nas placas, apáticas.
Estarão
despertas?
Ou
são apenas corpos que se deslocam?
Só
corpos?
Será
que sonham enquanto andam?
Caminharão dentro de seus sonhos?
II
Eu
não acordo quando abro os olhos
Só
acordo no batismo do banheiro
Ritual
com odor de sabonete.
O sabonete
é meu incenso, cheiro,
No
ar,
Na
iniciação do dia incipiente,
Com
água fria e café quente.
antes do banho e do despertar.
Quando
vejo as pessoas apáticas
no
mundo, nas calçadas,
percebo
que muitas não foram tocadas
Pelo
despertar/batismo das águas.
A
maioria apenas se desloca
E
se esbarra,
distraída
Em
seu sono particular.
Acho difícil alguém, assim, acordar.
sábado, 21 de outubro de 2023
TEMPO
Por Mario Sales
Quanto tempo faz que não escrevo.
O tempo não tem densidade, mas ocupa espaço, em nossas
mentes, em nossas vidas.
E na criação artística também, como o hiato entre o último
trabalho e o atual, aquele que estamos realizando, que está acontecendo letra após
letra, no meu caso específico, palavras que escorrem pelos dedos como a areia
da ampulheta, transformando-se em passado no mesmo momento em que surgem na
minha frente.
E se não forem revistas, corrigidas, editadas, permanecerão no
passado, aparentemente pétreo e congelado como todas as obras humanas
terminadas, acabadas, e que em seguida envelhecerão, ao longo dos anos, séculos,
submetidas a inclemente ação da entropia, que tudo desgasta e, finalmente,
apaga.
Assim, o tempo, conceito inefável, porém perceptível, nos atravessa,
modifica, transforma. Nele o invisível prova sua presença ostensiva no visível,
afetando o que se toca ou que se tocava e, hoje, não conseguimos mais.
Mesmo assim, sinto-me igual ao que era anos atrás, sem me
dar conta de quem é essa pessoa que surge diante de mim, no espelho, de manhã.
Aqui dentro de mim tudo está igual, e a memória resgata
instantes, eternizando-os, mesmo que envoltos na imaginação que inventa e
disfarça o passado a tal ponto que julgamos fato aquilo que está apenas em
nossas crenças do que foi, que julgamos ter sido de um modo e que, de modo
algum, corresponde ao que realmente aconteceu.
Já foi dito que a memória nos ilude, trapaceia com nossas
recordações e inventa passados.
Às vezes passados que gostaríamos que tivessem acontecido. Outras
vezes passados que escondemos, por não poder suportar, e que retiramos de
nossas vidas, alterando encontros, falas, sensações.
Ao lado, nos observando em silencio, o Tempo testemunha
nossas artimanhas, estratégias de defesa do ego e da sanidade. Só ele, por vezes,
permanece, incólume, intocado, silencioso e vital como o sangue que da mesma
forma, de modo imperceptível, flui por nossas artérias e nos mantém vivos sem
que nos apercebamos disso.
Muitas coisas fundamentais são discretas em nossa existência,
como se um pudor as proibisse de mostrar-se e atrapalhar a ilusão de estarmos
livres de quaisquer condições garantidoras da existências, como se existir
fosse um direito inalienável de todos nós que, mesmo alimentando essa crença,
caminhamos inexoravelmente para o esquecimento e para a morte física.
Sem considerar aspectos místicos e espirituais, a eternidade
só é garantida pela lembrança, pela memória que nossos amigos e companheiros de
existência guardam de nossa passagem por esse mundo, este percurso breve que
supomos absolutamente demorado, mas que, eventualmente, desaparece sob nossos
pés, lembrando-nos de modo, para alguns, súbito, da frase do filósofo que diz “tudo
que é sólido desmancha no ar”.
E o Tempo, testemunha e responsável por tudo isso, apenas
nos observa, passando por nós e fazendo com que passemos por ele.
Tudo o que nos resta é devolver ao Tempo seu olhar, como se
o encarássemos desafiadores em nossa inocência, em nossa impotência, diante de
sua inexorabilidade.
Pelo menos ao contemplá-lo nos damos conta de sua presença,
quem sabe até compreendamos que antes de nos ser hostil, ele, Tempo, também é
um prisioneiro de um modo de ser que mesmo que desejasse não conseguiria mudar.
Talvez até ele, se sonhasse, desejasse uma interrupção no
seu próprio movimento, um descanso entre eras que se sucedem, intermináveis.
Isso, no entanto, está proibido para ele, Sísifo universal,
escravo de sua própria natureza, de sua função na história da Criação.
Confesso que, pensando assim, o Tempo não suscita temor ou
angustia, mas até inspira uma certa ternura de nossa parte, porque tanto quanto
nós que ele teima em envelhecer e levar a aparente morte, ele não pode morrer.
Jamais terá repouso ou mesmo consciência de seu esforço.
Como um zumbi, continuará seu trabalho, de fluir e fluir,
indefinidamente, sem esperança de um dia ter o necessário repouso.
A eternidade, vista dessa perspectiva, é o inferno do Tempo.
Sinto uma sincera misericórdia por ele.
Ao que parece, o carcereiro está tão aprisionado quanto o
prisioneiro.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
A COMPLETA ACEITAÇÃO
Por Mario Sales
Existem algumas reflexões, que por serem óbvias não se tornam mais fáceis de serem aceitas como verdadeiras.
Uma delas é sobre a Criação.
Acompanhem meu raciocínio: se Deus é tudo que existe, e está
na Sua obra, como cada artista se faz presente em sua arte por completo, não
existe uma parte do Universo manifesto que não seja manifestação do Altíssimo.
De forma que o corpo, a sexualidade, as vicissitudes da existência
são manifestações do Divino, e por isso, igualmente divinas.
Atribuir o adjetivo de impuro a qualquer ato sob os céus, céus
que foram criados pelo mesmo Deus, é achar que existe algo na Criação, ou seja,
algo em Deus, que não é digno.
Dito de outra forma, para essas pessoas, uma parte de Deus é
ruim e não é digna.
Um absurdo lógico, uma contradição, que só é possível em
mentes limitadas pelo preconceito e pela ignorância.
E tudo parte da incompreensão do papel de Maya. Chamar o
mundo invisível de puro e Maya de impuro; caracterizar a vida fora do corpo
como real, e aquela dentro do corpo como uma “perigosa ilusão”, beira as raias
do ridículo.
Supor que esta dimensão de existência é menos importante do
que as outras segue a linha de pensamento que vê Deus como algo distante
espacialmente falando, e não uma presença imanente e permanente. Supor que o
local onde se dá a formação das almas, sua educação, seus exercícios no campo
da misericórdia e do serviço é o mais baixo dos planos da Criação, é um
equívoco atávico em textos esotéricos de várias épocas.
Correndo o risco de ser redundante, repito que Maya é uma
área tão real como todas as outras dimensões de manifestação, pois a noção de
realidade evoluiu com a evolução do pensamento esotérico.
Real não é aquilo que é palpável, nem para o Ocultismo e nem
para a ciência. Real é aquilo do que temos consciência de existir, que
percebemos como tal, não importa se é uma simulação de computador ou se estamos
em meio a natureza.
Os estudos de neurofisiologia funcional demonstram que para
nosso cérebro, a imagem de uma maçã e a maçã em si causam o mesmo impacto e
desencadeiam as mesmas respostas orgânicas.
É real o que é real para nós. Portanto, tudo aquilo de que temos
consciência é real para nós e tem a mesma densidade comparativamente de uma
pedra, pedra esta que já foi antigamente um referencial de solidez e realidade.
Ou aceitamos a criação como ela é, inteira, e a consideramos
como a única realidade que nos importa, enquanto nela estivermos, ou não
usufruiremos de nosso direito de habitar este Universo e extrair das
experiencias aqui vividas toda a gama de aprendizado que formos capazes de
absorver.
Maya não é o problema. Confundir-se com Maya, sim.
Assistir um filme de cinema não é o problema, mas supor que
os personagens fictícios do filme são reais, sim.
Não é por sabermos que a fantasia é uma ficção que não
podemos nos divertir e aprender com ela.
Não é porque achamos certas coisas melhores e mais dignas do
que outras que elas automaticamente assim serão. Nossa percepção modifica a
realidade que testemunhamos, como o molho muda o sabor do macarrão.
Sem ausência de preconceitos, a completa aceitação do que é
será sempre uma impossibilidade. Sem aceitar uma parte de Deus, nunca
aceitaremos Sua presença em nós de forma completa.
sábado, 13 de novembro de 2021
QUANDO É NECESSÁRIO SER ESOTÉRICO
“A Suprema Personalidade de Deus disse: Ao falar palavras cultas, você está lamentando pelo que não é digno de pesar. Sábios são aqueles que não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos. Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. Assim como a alma encarnada passa seguidamente, neste corpo, da infância à juventude e à velhice, da mesma maneira, a alma passa para um outro corpo após a morte. Uma pessoa sóbria não se confunde com tal mudança. Ó filho de Kuntī, o aparecimento temporário da felicidade e da aflição, e o seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Eles surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se perturbar. Ó melhor entre os homens [Arjuna], quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e permanece estável em ambas as circunstâncias, está certamente qualificada para a liberação. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que não há continuidade para o inexistente [o corpo material] e que não há interrupção para o existente [a alma]. Eles concluíram isto estudando a natureza de ambos. Saiba que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna decerto chegará ao fim; portanto, lute, ó descendente de Bharata. Aquele que pensa que a entidade viva é o matador e aquele que pensa que ela é morta não estão em conhecimento, pois o eu não mata nem é morto. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.”
A questão foi ventilada na reunião de ontem. Imagine que um
individuo mentalmente desiquilibrado e impressionável lesse este trecho do Gita
e entendesse que alguém que seja baleado, esfaqueado ou degolado, na verdade
continua vivo, já que a alma é imortal.
Tal pessoa poderia supor que estaria autorizada por um livro
sagrado a matar quem quer que fosse já que, segundo Krishna, ninguém morre.
Na India, Kali, energia companheira de Shiva, geralmente é
representada como tendo vários braços, símbolo padrão da multiplicidade de
poderes da deusa. Em um deles, ela segura uma adaga e no outro, a cabeça de um
homem. Para o simbolista, a cabeça significa o orgulho, o ego, e “cortar a
cabeça” refere-se a aumentar a humildade dos homens.
Mesmo assim, uma seita terrorista instalou-se no final da
dominação inglesa, com o nome de filhos de Kali, que tinham por hábito cortar a
cabeça de soldados ingleses como maneira de tornar real o era apenas simbólico.
Interpretações equivocadas, literais, seja por ignorância ou
má fé, sempre aconteceram a partir dos textos sagrados ou profanos.
Profanos sim. Basta lembrar o uso dos textos de Nietzsche pelos
nazistas como se o filosofo apoiasse suas insanidades.
Conhecer a verdade espiritual não implica “ler” sobre ela,
mas compreendê-la com o coração.
Para isso é preciso, além de evolução moral e nobreza ética,
maturidade psicológica e saúde mental.
Certos assuntos e temas, por fazerem abordagens delicadas,
pertinentes a visão espiritualista, porém de interpretação peculiar e
diferenciada, devem ser evitados pela grande maioria dos seres humanos.
Para eles, tais temas devem permanecer em segredo e só
grupos de pessoas diferenciadas pelas virtudes acima citadas podem discuti-los.
Aí sim o esoterismo se impõe, esoterismo baseado na
peculiaridade do ensinamento e não em uma informação especifica que precisa ser
ocultada.
Um exemplo didático vem da filosofia.
Na Republica Platão ataca a Democracia, como uma forma
equivocada de organizar o poder. A ideia de cada homem ter um voto nunca lhe
pareceu sensata.
E ele explica que se em um navio precisamos de um capitão
competente, não vamos consegui-lo fazendo uma eleição entre os marinheiros,
absolutamente incapazes de julgar a competência técnica de um capitão. Se
colocarmos o tema em discussão neste ambiente o eleito será o mais simpático aos
interesses do grupo, o menos exigente talvez, mas não o mais tarimbado para o
metier.
Para saber quem deve ser o melhor capitão, só outros
capitães podem decidir entre um grupo de possíveis e habilitados candidatos.
A democracia é, portanto, terreno para demagogos, aqueles
que discursam para a turba e que usam da retorica, a técnica de falar bem, para manipulá-la.
Para os manipuladores, não há interesse em que o mais
preparado seja escolhido. Seu objetivo é apenas o poder.
Se considerarmos o que acontece hoje em nossos países, democráticos,
vemos que o filosofo não estava enganado.
A partir desta constatação, que atitude devemos tomar? Acabar
com o modelo de governo baseado em eleições? Banir a democracia de nossas vidas
por causa de suas evidentes imperfeições?
As opções não são tão fáceis.
Além disso, precisamos decidir sobre o que colocaremos no lugar
do sistema político que descartaremos.
Esta é a grande questão.
Como na parábola da assembleia dos ratos, sabemos que
precisamos colocar um sino no pescoço do gato só que não temos ninguém que
tenha coragem ou habilidade para fazê-lo.
Impasses metodológicos como estes são bem mais comuns do que
parece.
Quando Krishna diz a Arjuna que Aquele que pensa que a
entidade viva é o matador e aquele que pensa que ela é morta não estão em
conhecimento, pois o Eu não mata nem é morto, ele parece autorizar
qualquer desequilibrado a matar quem quer que seja já que ninguém pode ser
realmente morto.
Estes assuntos devem ser tratados com pudor e prudência. Só
os prudentes devem discuti-los para que ilações indevidas não brotem de uma
leitura inadequada e de uma interpretação mais inadequada ainda.
Este é o drama da linguagem. Ler é um processo de dois
movimentos: entender e interpretar.
É no segundo passo que mora o perigo.
A luta, como lembra o Dalai Lama, nunca foi entre o Bem e o
Mal, mas sim entre o conhecimento e a ignorância.
Oremos, vigiemos, e guardemos sigilo das coisas que devem
ser mantidas entre poucos.
domingo, 7 de novembro de 2021
QUANDO O ESOTERISMO É EXCESSIVAMENTE ESOTÉRICO
Por Mario Sales
Confesso que hesitei um pouco antes de escrever esse texto
porque certas reflexões causam desconforto a algumas pessoas.
Só que quando discutimos assuntos que julgamos extremamente
particulares, e compartilhamos nossas perplexidades, via de regra encontramos
um sem-número de outras pessoas perplexas com as mesmas questões sem a
capacidade de expressar o que sentem.
A palavra é o colchão aonde deitamos nossas ânsias de
expressão, nosso mal-estar indefinido em relação a nossa vida e a vida de todos
que nos acompanham nessa existência. Falar de nossos problemas, dar nomes ao
que antes era um fantasma que rondava nossa cama a noite nos assustando, é desfazer
uma assombração.
Nomear é esclarecer. Clarear é dar luz a algo que estava nas
trevas. A luz do dia, todos os fantasmas desaparecem. Com a luz do sol, tudo
fica mais claro e as incertezas se dissipam.
Não por outra, como está em Marcos, capítulo 5, versículo 9,
ao praticar o exorcismo do rapaz possuído, o cristo antes de qualquer coisa
pergunta ao demônio dentro dele qual é o seu nome. Ao que o demônio responde:
“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”
Penso que escrever é como exorcizar demônios, extrair o nome
das coisas que nos atormentam e como vampiros, trazendo-as a luz, vê-las queimar
e se desfazerem.
Como vampiros, sim, porque o que não é dito, suga em
silencio nossas energias, anemiando nossa alma, nosso espírito.
Este enorme preambulo antecipa uma discussão sobre a importância
de uma das áreas mais incensadas do esoterismo, com a qual nunca tive
afinidade, mas da qual fui obrigado a falar e a qual fui levado a estudar por questões
de ofício.
Muitos acham que o esoterismo é como um curso universitário,
com disciplinas variadas, todas fundamentais à formação profissional e que
serão estudadas separadamente, para que ao final nossa formação esteja
completa. E que o correto é que ele estude todas essas disciplinas,
independente de suas predileções pessoais.
Isso é verdade, em parte.
Primeiro porque o Esoterismo não é uma área de saber em um
campo, mas o próprio campo, muito, muito vasto e dedicar-se toda uma vida ao
seu estudo é insuficiente. Talvez a única razão pela qual a mortalidade física seja
inadequada seja a ruptura de continuidade em nossos estudos pessoais e por mais
que se diga que o essencial passa com a alma peregrina de uma encarnação a
outra, a clareza cumulativa das informações, a elaboração dos conceitos, o
conhecimento linguístico, são sim interrompidos por décadas para serem reiniciados
já em outro conjunto de circunstâncias, em outra época, em outro corpo e
cérebro.
Então, se é interessante que conheçamos pelo menos superficialmente todas as áreas de interesse do esoterismo, desde a simbólica, nas religiões e nas tradições iniciáticas, até os detalhes da meditação Zen, ou aspectos do Hinduísmo, nem tudo vai nos atrair da mesma forma ou nos fascinar do mesmo modo.
Existirão, com certeza, preferencias, áreas que estudaremos com mais prazer e que nos parecerão mais claras do que outras, bem como algumas nos parecerão entediantes e demasiadamente confusas para que possam gratificar nosso intelecto.
Acreditem ou não, uma frustração dessa ordem me invade quando leio sobre Alquimia.
Não conheço área menos clara, menos linear, e que não resiste nem mesmo àquele argumento comum, mas já gasto de que “o significado dos seus símbolos não está claro porque foi ocultado de proposito dos olhos de profanos”.
Tolice.
Se alguém se dedicar a estudar o método alquímico verá que provavelmente nem os próprios alquimistas tinham claro em suas mentes se estavam ou não fazendo o que deveriam.E muitos, muitos se dedicaram a este estudo pré-científico com seriedade, supondo que se envolviam em um caminho legitimo de ascensão espiritual ou cultural.Talvez, se não fosse pelo ensaio que estou traduzindo de um nobre e respeitado Frater alemão, o médico Franz Hartmann, não teria animo para escrever sobre esse assunto.Em um ensaio chamado “As Ordens Rosacruzes”, diz ele, comentando as reações na Europa aos manifestos Fama Fraternitatis e Confessio Fraternitatis:
“A crença na existência de uma organização secreta real
de Rosacruzes, possuidores dos segredos de como fazer ouro de chumbo e ferro, e
de prolongar a vida por meio da ingestão de algum fluido na forma de um
medicamento, era universal; e charlatães e trapaceiros de todos os tipos
vagavam pelo país e ajudavam a espalhar as superstições, muitas vezes vendendo
compostos inúteis por preços fabulosos como sendo o "Elixir da Vida";
enquanto outros desperdiçaram suas fortunas e tornaram-se pobres, fazendo
esforços inúteis para transmutar metais. Uma enxurrada de escritos apareceu,
alguns conquistando e outros defendendo a Sociedade Rosacruz, que supostamente
existia, mas da qual ninguém sabia de nada. Algumas pessoas, mesmo algumas
bem-informadas, acreditavam na existência de tal sociedade; outros, negavam.
Mas nem uma classe nem outra poderiam trazer quaisquer provas positivas de suas
crenças. As pessoas estão sempre dispostas a acreditar no que desejam que seja
verdade…”
Já suspeitava que estava diante de um dos grandes equívocos esotéricos de todos os tempos quando li e estudei “O Casamento Alquímico de Cristian Rosencreuzt”, obra inacabada, atribuída ao Círculo de Tübingen e a Johan Valentim Andrea, texto que mais parece uma colcha de retalhos esotérica do que uma narrativa em si. O autor tinha esta intenção e redigiu um texto que necessita da imaginação e participação ativa do leitor para ganhar algum sentido e corpo.O que obviamente, afasta o leitor apressado e pouco cuidadoso, mas também conduz ao equívoco.Equívoco, pasmem, que era desejado pela maioria dos escritores alquimistas, alegando que com isso, afastariam os não iniciados dos mistérios de sua “ciência”. Só que nunca houve ciência alguma.
O chamado método alquímico era absurdamente lento e complexo, ou extremamente rápido e perigoso, na maioria das vezes, de eficácia zero.Imaginem que você tenha um balão de vidro, com um pouco de líquido dentro, tampado hermeticamente com uma rolha de cortiça, e o coloque em fogo brando, por uma quantidade enorme de tempo.Qualquer estudante secundário sabe que a pressão dos gases liberados pelo aquecimento do líquido será tanta que o balão, eventualmente, explodirá.Isso era extremamente comum nos chamados “laboratórios alquímicos”.Os admiradores da Alquimia como um capítulo importante da história esotérica defenderão com certeza estes acontecimentos como produto de tempos heroicos em que a prática laboratorial não existia e que por serem ainda muito incipientes traziam inevitavelmente o risco e o erro nos procedimentos.Sim, pode ser. Só que praticas alquímicas se arrastaram até o início do século XX, época na qual certos procedimentos não poderiam mais ser atribuídos a ignorância de leis simples quanto ao comportamento dos gases sob aquecimento.É comum entre os seres humanos confundir o monge e seu hábito.Outra coisa. Já se sabiam dos efeitos dos gases submetidos ao calor naquela época. Se falamos em um laboratório semelhante ao que tinha Robert Boyle, irlandês, físico e químico do século XVII, época áurea do movimento alquímico, de forma alguma estamos falando da mesma coisa. Seria como comparar o laboratório do psiquiatra com o do seu paciente esquizofrênico. É de Boyle a lei de Boyle-Mariotte que diz que o volume de um gás varia de acordo com a pressão de forma inversamente proporcional, e as propriedades do ar e do vácuo.Mesmo esse fato sendo conhecido pelos químicos contemporâneos dos alquimistas, (Boyle morreu em 1691) os pesquisadores al-quimicos continuavam a explodir balões em seus “laboratórios”.
Lá encontramos o seguinte comentário
“Sobre a Interpretação dos textos
alquímicos:
A própria palavra
"hermético" sugere a dificuldade dos textos dos autores alquímicos.
Esta tem por causas:
1.Os autores se referirem às
substâncias e processos por nomes próprios à Alquimia;
2.Haver vários processos (vias)
de operação que não são explicitados;
3.A maioria das substâncias
serem referidas com perífrases elaboradas;
4.A existência de muitas
referências mitológicas e cultas;
5.O uso de palavras que, lidas
em voz alta, produzem uma outra
6.O não apresentar partes de
processos, referindo o leitor a outro autor;
7.O não apresentar as operações
por ordem;
8.O enganar propositadamente
o leitor.”(1)
Ou seja, estamos falando de uma época em que eram poucos, muito poucos os que sabiam ler, em qualquer língua. E por isso uma época em que os textos, organizados como livros, encadernados e passiveis de serem folheados eram mais raros ainda. Agora, acrescente-se a tudo isso um proposital arranjo de palavras que tornasse de difícil ou impossível interpretação aquilo que estava escrito, a tal ponto que a maioria dos chamados “textos alquímicos” não fossem textos, mas gravuras, símbolos que deveriam ser interpretados pelos que os contemplavam, interpretação esta que deveria trazer o real sentido do que queria ser transmitido.Partindo do princípio óbvio de que um único símbolo pode ter muitas interpretações, dá para imaginar a confusão que resultaria destas múltiplas leituras e contemplações.Mesmo assim, diante de tudo que foi exposto, até hoje vemos textos e mais textos tentando dar a ideia de que a alquimia, que foi um fenômeno tanto chinês, como árabe antes de ser ocidental, era sim um método de trabalho e estudo, muito claro, muito rigoroso e que levava a resultados iguais.
Assim, o estudante neófito lê sobre Nigredo, Rubedo e Albedo, com ou sem a quarta fase do Citrino, como se estivéssemos conversando sobre algo definido. Fala-se da importância do enxofre, do ouro e do mercúrio, da importância da coleta da água do orvalho em certas noites de lua cheia, mas essas coisas todas em uma ordem instável, que mudava ao sabor do autor.O próprio príncipe dos Alquimistas, Nicholas Flamel, escrivão, prestem atenção, copista e vendedor de livros, ou seja, de histórias, de narrativas, necessariamente não comprovadas, dizia em um de seus textos, “O Livro das Figuras Hieroglificas”, que “os termos "bronze", "titânio", "mercúrio", "iodo" e "ouro" e que as metáforas serviriam para confundir leitores indignos.”
Nicolas Flamel
Aliás, queria destacar o trecho “…as metáforas serviriam para confundir leitores…”. Se existe um laço entre os vários textos alquímicos, é este, foram feitos, na grande maioria, apenas para confundir, não para esclarecer.Muitos esoteristas, por ingenuidade ou insegurança, ao se depararem com algo que não faz o mínimo sentido, supõem que a falha está neles mesmos, que na verdade é a sua incapacidade interpretativa que os impede de ver o que está atrás daquela muralha sem sentido evidente.Cabe aqui a questão libertadora: E se esses textos incompreensíveis não fizessem nenhum sentido apenas e tão somente por que não tenham mesmo sentido nenhum?E se tudo não passasse de um equívoco? De supor que um arcabouço simbólico, que uma fala mitológica, refletisse não apenas símbolos de valores ou ideias, mas sim aspectos materiais como um equipamento laboratorial específico e práticas inúteis e demoradas que consumiriam dinheiro, tempo e até mesmo a sanidade de quem com elas se envolvesse?A simplicidade de espírito e o pouco arsenal crítico de certos esoteristas é espantoso, e não me refiro aos iniciantes, nem aos nossos contemporâneos, mas a personagens clássicos da literatura esotérica, que influenciaram, por exemplo, o imperator da Rosacruz no século XVII, o chanceler Francis Bacon.
Refiro-me a John Dee, místico e esoterista do século XVI, matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo, que foi ludibriado por um individuo inescrupuloso, que levou-o a práticas indignas alegando ter recebido “ordens angélicas”. O episódio é narrado assim:
“As primeiras tentativas de Dee não foram satisfatórias, mas em 1582 encontrou-se com Edward Kelley, que o impressionou extremamente com suas habilidades. Dee pôs Kelley a seu serviço e começou a devotar todas as suas energias a suas perseguições sobrenaturais. Estas "conferências espirituais" ou as "ações" eram conduzidas sempre após períodos de purificação, de preces e de jejum. Dee foi convencido dos benefícios que eles poderiam trazer à humanidade. (o caráter de Kelley é mais difícil de avaliar: alguns concluíram que agiu com completo cinismo, mas a desilusão ou a decepção consigo mesmo não estão fora de questão). Dee dizia que os anjos lhe ditaram muitos livros desta maneira, alguns em uma espécie de língua angélica ou enochiana.Em 1583 Dee conheceu o nobre polonês Albert Laski, que convidou-o para lhe acompanhar em seu retorno a Polônia. Através de alguns sinais dos anjos, Dee foi persuadido a ir.
Durante uma conferência espiritual na Boêmia (que corresponde atualmente a parte da República Tcheca) em 1587, Kelley disse a Dee que o anjo Uriel ordenou que os dois homens compartilhassem suas esposas. Kelley, que nessa época estava se tornando um alquimista proeminente e era muito mais procurado que Dee, pode ter desejado usar isto como uma maneira de acabar com as conferências espirituais. A ordem provocou em Dee uma profunda angústia, mas ele não duvidou de sua autenticidade e aparentemente deixou que ela fosse em frente, mas pouco depois abandonou as conferências e não voltou a ver Kelley.”
Dee era uma autoridade em esoterismo e Alquimia, mas uma criança psicológica.
Acredito que dar importância a Alquimia, como se esta fosse um exercício de ciência prática e não uma tradição simbólica e eminentemente simbólica, seria no mínimo ingênuo.

Não existe densidade metodológica alguma em um procedimento que se baseia em textos os quais seus próprios autores admitem “foram feitos para enganar”.
Para encerrar essas reflexões, queria lembrar minha falecida e divertida mãe. Ela tinha o hábito de relatar pela manhã que havia sonhado algo muito importante. E antes que pudéssemos dizer alguma coisa, começava a descrever uma sequência de imagens desconexas e confusas que obedeciam apenas a logica onírica. Em seguida vinham as suas interpretações, absolutamente arbitrárias, que se baseavam no fato de que seus sonhos eram tão esotéricos que se prestavam a qualquer interpretação, inclusive aquela que ela elegia como verdadeira.
Esse é o problema com o Esoterismo que as vezes é esotérico demais.
Pode ser que não seja um texto obscuro por ser profundo, mas porque internamente não tenha mesmo nenhum sentido a ocultar, a não ser aquele que nossa imaginação e vontade eleja como verdadeiro.
E como na história, esoteristas precisam ter um olhar objetivo e inocente como a criança que, ao contrário de todos na festa, tem uma visão tão livre de pré-conceitos que pode dizer, sem receio de errar: “O Rei está nu.”
(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Alquimia
sábado, 16 de outubro de 2021
CORAÇÃO DE ESTUDANTE
Por Mario Sales
Nina é uma nova amiga, soror iniciante na senda lá do Rio de
Janeiro. Conversamos esta semana por pelo menos 3 hs, sem vídeo, explorando
suas dúvidas acerca de vários temas e aspectos do esoterismo.
Lá pelas tantas, a soror questiona como é possível superar o
coração de neófito e avançar no amadurecimento espiritual.
Milton Nascimento
Interessante questão, que eu discutiria com mais dois amigos
4 dias depois.
Opinei que não existe tal coisa como “um coração de
neófito”, mas sim uma “cabeça de neófito”, com suas dúvidas habituais,
incertezas e hesitações.
A razão, que nos ajuda em vários momentos, em outros nos
bloqueia e nos faz tropeçar. Nesses momentos a razão, nossa cabeça, como sempre
digo, não merece confiança.
Dúvidas sobre a senda, sobre decisões de ordem pessoal ou
profissional, insegurança quanto a ir para lá ou para cá, essas são situações
provocadas e mantidas pela razão, não pelo coração.
Talvez por causa do esforço iluminista no século XVIII, na
tentativa de libertar o homem de uma vida supersticiosa e atada de forma
angustiante à religião, a emoção tenha sido relegada ao plano das
características do comportamento que precisavam ser postas sob a redoma do bom
senso.
Como se isso fosse possível.
Uma reação a esse racionalismo excessivo foi praticamente
imediata, com o advento do romantismo na literatura do século XIX, romantismo
aqui como rebeldia específica ao cientificismo excessivo, numa demonstração
clara de não aceitação da razão como única gerenciadora de todos os nossos
comportamentos.
Na história da filosofia, (campo de saber que se inicia com
os Jônios, na Grécia), este ir e vir da emoção como virtude ou vicio sempre
aconteceu, principalmente quando, injustamente, associava-se a emoção apenas à
um fenômeno romântico sexual, momento de perda da moderação e do bom senso.
No “Symposium”, ou “O Banquete”, diálogo famoso de Platão, a
entrada de Alcebíades, apaixonado e bêbado marca a chegada do Caos emocional a
um ambiente que, até aquele momento, primava pela moderação e por belos
discursos acerca do tema, o Amor.
Ali se inicia o conceito de oposição entre a loucura do
sentimento e o equilíbrio do ser intelectual e racional. Essas duas correntes,
uma que faz um elogio daquilo que é racional e outra, que paradoxalmente, com
argumentos racionais, defende a importância da emoção, seguem ao longo dos
séculos debatendo e se hostilizando, em certos momentos.
Aos poucos fica claro que a emoção não é apenas e tão
somente, o veículo do desejo sexual ou da ligação entre amantes. Ela é, como
mostra Jean Jacques Rousseau, a área da sensibilidade, que muitas vezes nos
surpreende com certezas inexplicáveis acerca de assuntos que a razão não
consegue dar conta, seja pela profundidade do tema, seja com a velocidade que a
emoção trabalha.
Jean Jacques Rousseau
Blaise Pascal
Para os místicos, a importância da sensibilidade cardíaca é indubitável.
Por isso respondi para a soror que não existe tal coisa como coração de neófito, apenas cabeças de neófito.
São as crenças e as convicções acerca da vida, do mundo e de nós mesmos que nos tolhem a liberdade e a velocidade na evolução espiritual.
O coração romântico nada tem a ver com o coração que sente a vida em vez de pensá-la.
A paixão romântica, o páthos, a doença da alma, é tão
intensa e perturbadora porque está em ressonância com a ânsia da vida por si
mesma. Para a natureza, diz a biologia, a única função da paixão é levar a
procriação, a continuação da existência das raças, não só a nossa, mas todas as
raças sexuadas, de abelhas aos cães, do louva deus aos seres humanos.
A força do desejo, diz a Cabalá, da busca dos amantes uns
pelos outros, não reflete carinho de um pelo outro, como supõem os ingênuos apaixonados,
mas necessidade de aumentar, pela geração de novos seres, o número de corpos
disponíveis para as almas que querem evoluir.
Este, entretanto, é apenas um dos níveis em que a força de vida que nos atravessa incessantemente, trabalha.
A alma tem cinco níveis e este é o mais básico, Nefesh, o
nível do instinto, nem por isso menos sagrado.
Spencer Lewis lembrava que “todos os instintos foram
colocados em nós por Deus. Portanto, todos os instintos são sagrados”.
É a mesma onda de vida, o mesmo fluxo, que nos conecta com
toda a criação, e que nos faz sensíveis a conhecimentos que não estão em nós,
mas que podemos acessar por esta conexão, da mesma maneira que os indivíduos
que vemos na tela da tv não estão dentro do aparelho, mas extremamente longe
dali, e o que ocorra é que este aparelho nos coloca em sintonia com as ondas
projetadas do estúdio de origem daquelas cenas.
Pode-se dizer então que graças ao coração e sua ligação com
o fluxo da vida, vemos coisas sem os olhos e sabemos de coisas sem conhecê-las.
Todos os dias, pelo noticiário televisivo, vamos a Paris,
Moscou, Londres ou Washington sem ter que pisar nessas cidades.
Pela sensibilidade cardíaca estamos aqui e em Andromeda sem
nunca termos saído do planeta.
E isto cria, com um material que é recebido, mas o cérebro é
incapaz de processar, o que os pensadores do século passado classificaram de
espaço subconsciente e que Jung, corretamente, identificou não como um
manancial de doenças e recalques, como pensava Freud, mas um deposito de
informações infinito, como a plataforma GOOGLE na Internet.
Nesse mar de possibilidades e dados, podemos navegar e dele
extrair informações úteis acerca de quaisquer assuntos que possamos imaginar.
Nossa razão, entretanto, não conseguirá decodificar coisas que não compreende
por lhe faltarem as condições básicas de compreensibilidade, e tudo será
transformado em impressões imprecisas, oníricas muitas vezes, já que no sonho
tudo é permitido.
A razão é como um filtro para esta massa de dados que nos
chega pela sensibilidade do coração. O filtro limita nossas possibilidades de
acesso ao que nos chega e nossa consciência desse material só aumentará quando
nossa razão for modulada para filtrar menos o fluxo que nos atravessa.
Esta complacência aumentada ao fluxo, que alarga os
orifícios dos filtros, tem que ser gradual, ou a intensidade do fluxo poderia
causar desconforto ao nosso sistema nervoso, ou mesmo desequilibrá-lo.
Sabemos muito, mas conscientizamos apenas aquilo que nosso
cérebro consegue suportar.
Nossas limitações são neurológicas portanto, e é isso que
faz com que nossa cabeça precise de tempo e esforço para estar apta a processar
o conjunto gigantesco de dados que a sensibilidade nos traz.
Nossos corações são, portanto, nossa conexão com a sabedoria
universal. Todos os corações são corações de mestre, nunca de neófito. Já a cabeça
sempre será de neófito, nunca de mestre, já que pensa e, pensando, supõe-se a
autora das coisas que apenas recebeu de outras fontes.
Somos, pois, seres conectados a uma vasta rede, da qual
alguns de nós nem suspeitam a existência.
Outros saberão que ela existe, mas não sabem como acessá-la.
E existem aqueles que sabem acessá-la, parcialmente, enquanto
os mais sábios assumem o papel de meros retransmissores desta rede,
desaparecendo como indivíduos e ressurgindo como terminais de recepção.
Estes são os fatos.
Não existem, pois, como na canção, corações de estudante,
mas somente, corações de mestres.
É isto que chamamos, no jargão da rosacruz, o Mestre Interior.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
MESTRES
Por Mario Sales
Maravilhoso.
Este é o adjetivo adequado ao trabalho em pool de quatro
lojas e um Capítulo Rosacruz, que de tão ativo deveria ser também uma Loja.
Deus me perdoe dizer isso, mas não fosse a pandemia não
teríamos percebido o potencial de trabalhar em encontros on-line, unindo
rosacruzes de diversas regiões do país e finalmente, integrando em ambiente
fraterno em torno de reflexões comuns tantos buscadores sinceros e dedicados.
E se existem várias pessoas que podem ser citadas com
palavras elogiosas, para não ser injusto, concentrarei minha homenagem nos
mestres desses organismos, como o nome diz, os maiores servidores destes corpos
afiliados.
Soror Gabriela Amparo, mestra do Capítulo Mogi das Cruzes; Frater
Alessander Palma, mestre da Loja Florianópolis; Soror Jo Buran, mestra auxiliar
da Loja Guarulhos; Frater Rodrigo Marinho, mestre da dinâmica Loja Recife, PE;
Frater Paulo Pinheiro, abnegado mestre da Loja Curitiba; e a imprescindível Lourdes
Lescano, patrimônio incalculável da Loja Guarulhos e AMORC-Brasil, no papel de
Mestra de Cerimônias destes muitos eventos.
Todos os citados se encaixam na categoria de servidores da
AMORC. E esta categoria é a mais comum entre nós. A fraternidade se sustenta neste
trabalho discreto, anônimo, silencioso, somatório de muitas mentes e braços que
se articulam como se fossem um só ser humano, uma só alma.
Nunca falamos disso, talvez por receio da vaidade, um dos
mais poderosos demônios que nos combatem; mas cedo a tentação desta vez de
tecer elogios a estes elementos fundamentais ao funcionamento e a existência
desta que é a nossa casa, a nossa escola.
É prazeroso ver a alegria e a leveza com que esses mestres desempenham
seu papel, sentindo-se recompensados pelo ato de produzir condições propicias ao
compartilhamento do conhecimento e, quando pela graça de Deus é permitido, de
sabedoria e espiritualidade entre todos os nossos membros.
Não esperam aplausos ou palavras de agradecimento. Sentem-se,
de forma sincera, embaraçados quando isso ocorre. Sua paga é ver seus esforços
sendo recompensados por eventos bem-sucedidos, testemunhando, de maneira inequívoca,
a expansão da luz, como dizemos.
Eu conheci muitos servidores silenciosos, ao longo desses quarenta
e oito anos de filiação.
Muitos já não estão neste plano. Pessoas da maior nobreza e
dignidade, os quais, cada um a seu modo, considerando suas habilidades, fizeram
a transição sem que recebessem nenhum galardão especial.
E nem por isso seu serviço teve menor importância ou menor
valor estratégico.
A começar pela minha iniciadora, Angelica Stengel Colle, a
responsável pela doação dos terrenos aonde está situada a Grande Loja, em
Curitiba, cujo nome, curiosamente, não é citado no corpo do livro Historia da AMORC no Brasil, (fala-se em "familia Colle", e não em Angélica) texto fundamental para acompanhar o crescimento da fraternidade em nosso país.
Exemplos de colaboradores desconhecidos, no entanto, são
muitos. E isso é o que nos mantém vivos enquanto instituição e organização.
Não podendo reverenciar um por um, deste momento histórico e
de outros períodos, dirijo meus elogios e cumprimentos a estes seis mestres,
que formam uma versão viva da estrela de Salomão, os dois triângulos que fundem
o que está em cima com o que está em baixo.
Que seu trabalho continue abençoado.
Feliz a confraria que tem servidores deste calibre.
Feliz a Ordem que conta com colaboradores de nível espiritual tão alto e refinado.
domingo, 10 de outubro de 2021
PECULIARIDADES
Por Mario Sales FRC
Não confunda compreensão com um
vocabulário mais amplo. Os escritos sagrados são benéficos para estimular o
desejo de realização interior, se uma estrofe de cada vez for assimilada
lentamente. Caso contrário, o estudo intelectual contínuo pode resultar em
vaidade, falsa satisfação e conhecimento não digerido.
Sri Swami Yukteswar Giri,
"Autobiografia de um Iogue
Contemporâneo" de Paramahansa Yogaananda
Sociedade Histórica da Pensilvânia, Filadelfia
Na
Sociedade Histórica Da Pensilvânia existe uma carta, entre outras, de Sir Isaac
Newton (25 de dezembro de 1642 [calendário juliano]
ou 4 de
janeiro de 1643 no [calendário
gregoriano] — Kensington, 20 de
março de 1727 [calendário
juliano] ou 31 de março de 1727 [calendário
gregoriano]) para Robert Hooke, (18 de julho de 1635 — 3 de março de 1703) cientista experimental inglês do século XVII, seu
adversário científico.
Nela, Newton cita uma frase de Bernardo de Chartres, filosofo platônico
do século XII. A frase em questão é “se vi mais longe é porque estava nos
ombros de gigantes”, (nanos gigantum humeris insidentes) numa alusão ao conceito de
“descobrir a verdade a partir de descobertas anteriores. Não se trata de modo
algum de uma citação vulgar. É talvez o mais importante conceito do trabalho
científico.
Isaac Newton, físico e rosacruz
A ciência, como todos sabem, é a busca pelo esclarecimento das causas dos
fenômenos naturais, perceptíveis ou não, muitas vezes, causas estas contrárias
às percepções do senso comum.
De qualquer forma a ciência ortodoxa trabalha com o mundo manifesto. A
ciência não lida com conceitos inefáveis ou espirituais. Não é sua função.
Tais investigações de natureza mais íntima são do campo do misticismo.
E por que faço esta distinção?
Já chego lá.
Vamos, didaticamente, acompanhar uma metáfora.
Robert Hooke
Imaginem um praticante de esportes de competição. Um atleta de corridas
com obstáculos.
Com certeza será treinado desde muito jovem, logo se perceba nele
tendencia e talento para esse tipo de disputa. Terá um técnico, alguém que lhe
ensinará as técnicas e métodos necessários ao aprimoramento de seu desempenho;
entretanto, o papel do técnico terminará aí.
No dia da competição, e mesmo durante os treinamentos, a solidão do
atleta, onde ele tem apenas a companhia de seu próprio corpo, será total.
Bernardo de Chartres
Seu sucesso vai depender do seu esforço e disciplina pessoais e das
condições em que estiver no dia da disputa.
Tudo que seu técnico poderá fazer na hora da competição será sentar-se,
observar e torcer para que nada dê errado durante o evento. Não terá, no
entanto, maneira nenhuma de interferir durante o desafio de seu pupilo pois
neste momento, como foi dito, a solidão do competidor é absoluta e
indiscutível.
Ao contrário do atleta solitário, em ciência e na cultura em geral, nós
somos muitos, ao mesmo tempo. Precisamos uns dos outros todo o tempo, como
fontes de informação ou de inspiração para o nosso próprio trabalho. Não existe
solidão intelectual, solidão teórica.
Microscópio de Hooke
Somos, enquanto pesquisadores, como disse o filosofo Bernardo de Chartres, “anões nos ombros de
gigantes”. Se isso vale para a literatura, para a ciência vale mais ainda, pois
fazer ciência é acumular dados e evidencias empíricas e matemáticas que
fortaleçam convicções antes baseadas apenas em especulação. A ciência não é uma
experiencia solitária. Precisamos dos relatos dos acertos e dos erros daqueles
que nos precederam e por isso os pesquisadores não são insubstituíveis, mas as
suas anotações estas sim, são fundamentais. Até onde um for, antes de passar
pela transição, se anotou seus passos e experimentos, poderá ser o ponto de
partida daquele que vier depois.
O cientista, assim como o intelectual, não conhece nem pode conhecer a solidão
do atleta. Ao contrário do atleta que vive do aqui e do agora, do momento da
glória ou do fracasso conseguido a duras penas e em função tanto de seu talento
e esforço como de circunstâncias às vezes imprevisíveis, cientista e
intelectual conversam com vivos e mortos, através dos textos, a herança de
nossa cultura.
Esta metáfora visa estabelecer um paralelo entre a prática esotérica e a
prática mística.
Quem me acompanha aqui no blog sabe que faço distinção entre estas duas
coisas, dando ao termo esoterismo o significado de prática intelectual de
consulta e leitura de textos antigos da tradição, e para misticismo reservo o
significado de busca solitária do Deus interior.
Se muitas vezes o misticismo bebe do esoterismo, em nenhum momento se
confundem.
Posso agora dizer que o esoterista é como o cientista, pois precisa dos
textos anteriores para compreender outros textos, mas o místico é como o
atleta, que está completamente só em seu esforço pessoal de busca íntima.
Ao contrário do esoterista que pode discutir com outros esoteristas o
significado deste ou daquele trecho do livro que estuda, a busca mística é
pessoal e intransferível e mesmo aqueles entre nós, místicos, que já receberam
a bênção de ter um mestre pessoal, um Adepto, que o tenha aceitado como
discípulo, sabem que o esforço pessoal é única e exclusivamente
responsabilidade do discípulo e o Mestre só pode torcer para que ele, seu
discípulo, seja bem-sucedido em seus desafios.
A nenhum Mestre verdadeiro é permitido interferir no desempenho de seus
chelas, sob pena de enfraquecê-lo e impedir que este desenvolva as habilidades
que aquele desafio lhe proporcionará.
Se alguém, generosamente, quiser descrever suas sensações e impressões
acerca de sua busca pessoal e solitária pela iluminação, o fará no intuito de
dar um depoimento sobre aspectos absolutamente particulares que serão
específicos de sua própria existência.
A cada místico, em cada encarnação, caberá uma história de vida peculiar.
Místicos não são produzidos em série. São absolutamente diferentes uns dos
outros, seguem diferentes tradições, tem diferentes cor de pele, hábitos,
idiomas e forma física. Alguns usam ternos, outros andam seminus. Uns são
magros, outros obesos.
A única coisa que os une é a sede de Deus, a fome pela iluminação, e a
solidão em que realizam essa busca ininterrupta, vida após vida.
Como eu disse acima, o sucesso ou o fracasso do místico, como o do
atleta, dependem de treino, talento, mas também de circunstâncias nem sempre
previsíveis, que ao fim e ao cabo representarão também testes de
aperfeiçoamento e fortalecimento do buscador.
Dito isso, podemos entender que existem textos esotéricos e textos
místicos.
Textos esotéricos são, sim, baseados em outros textos. São interpretações
ou variações de documentos mais antigos sobre os quais o esoterista meditou.
Já textos místicos são depoimentos, narrativas de caráter pessoal, mas
que serão compreendidas por aqueles que também estão na mesma senda e que
buscam o Cálice Sagrado pelas mesmas veredas, solitária e diligentemente.
Textos místicos, ao contrário dos esotéricos, são, sempre, totalmente
originais, como a vida daqueles que os inspiram, pois relatam experiencias de
vidas que jamais se repetirão, que não poderiam se repetir já que dizem
respeito apenas e tão somente aquele que faz o relato.
Nesse viés, Cristo não era cristão, Buda não era budista, e nem Maomé era
Maometano.
Esses homens eram místicos que compartilharam experiencias pessoais. É
apenas depois deles que surgem os esoteristas, comentando, por páginas e
páginas, o provável significado dos atos e palavras daqueles iluminados.
Portanto, Místicos não podem ser compreendidos a partir dos livros que
leram, nem da bibliografia que consultaram porque eles trazem um olhar original
sobre tudo que foi escrito antes. No caso do Cristo, falamos do messias
profetizado no Velho Testamento e, depois dele, na Última Ceia, criou-se uma
“nova e eterna aliança”, que atualizou a anterior e modificou, de tal modo, a
perspectiva do Divino, que foi criado um Novo Testamento.
O Cristianismo, o Budismo, o Islamismo e mesmo o Judaísmo, não estão nos
seus livros, mas na sua vivência. Viver uma experiencia mística é algo peculiar
e solitário como a competição de um atleta em uma corrida de obstáculos.
Se alguém quiser entender um texto místico, leia-o e medite em silencio
sobre ele. Não tente dissecá-lo pois dissecar um ser vivo pressupõe matá-lo,
antes de qualquer coisa.
Absorva-o em seu espírito e deixe que decante em sua alma. Não o digira,
como faríamos com um alimento solido. Respire-o, inale-o, como fazemos com a
fonte de toda a vida, o NOUS.
E não se preocupe em compreendê-lo com sua cabeça, mas com seu coração;
nem tente dirigir a energia para aqui ou para lá, pois a energia vai para onde
precisa ir.
Tudo isso faremos de modo solitário e pessoal.
Cada um respira do seu jeito.
Esta é a essência da vida: sempre igual, mas sempre diferente e peculiar.






















