quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

PENEIRANDO ESOTERISMO EM LIVROS DE FILOSOFIA E DISCUTINDO O EMPIRISMO COMO BASE DO CONHECIMENTO ROSACRUZ


Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Lê-se na página 15 de “Desejo, Paixão e Ação na Ética de Espinosa” de Marilena Chauí, o seguinte trecho:

"A palavra desejo tem bela origem. Deriva-se do verbo desidero, que por sua vez, deriva-se do substantivo sidus (mais usado no plural, sidera), significando a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, as constelações. Porque se diz dos astros, sidera é empregada como palavra de louvor – o alto – e, na teologia astral ou astrologia, é usada para indicar a influência dos astros sobre o destino humano, donde sideratus, siderado: atingido ou fulminado por um astro. De sidera, vêm considerare – examinar com cuidado, respeito e veneração – e desiderare – cessar de olhar (os astros), deixar de ver (os astros). Pertencente ao campo das significações da teologia astral ou astrologia, desiderium insere-se na trama dos intermediários entre Deus e o mundo dos entes materiais (corpos e almas habitantes de corpos). Os intermediários siderais, eternos e etéreos, exalam diáfanos envoltórios com que protegem nossa alma, dando-lhe um corpo astral que a preserva da destruição quando penetra na brutalidade da matéria, no momento da geração e do nascimento. Pelo corpo astral nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas e considerare é consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas."



Aqui Marilena, filósofa espinosista, não está fazendo uma palestra esotérica, mas descrevendo crenças e valores dos anos de 1600 as quais dominavam as concepções desde os mais cultos até o populacho. Por que ciência não era imaginar a partir da observação, experimentar, e confirmar ou não confirmar uma hipótese.
Sendo uma filósofa, embora não a conheça pessoalmente, sei que o faz apenas no intuito de relato histórico de um contexto social específico, sem que isso signifique crença.
Há também a busca pela etimologia da palavra em questão, desejo, que ela vai trabalhar nesta primeira parte do livro em função da noção de desejo em Espinosa.
E para entender um conceito, em filosofia, gostamos sempre de pesquisar e conhecer a palavra que o representa.
Existem fortes vínculos entre idéias e palavras, entre as “palavras e as coisas”, para lembrar um maravilhoso livro de Michel Foucault que também trabalha encantadoramente as crenças e o chamado conhecimento daquela época do século XVI e XVII e aonde reconhecemos muitas falas que ainda hoje ouvimos dentro de Lojas, Capítulos e Pronaoi como se fossem esoterismo, sendo que, na verdade, refletem crenças de 400 anos atrás.
É isto que me preocupa com os "modernos ocultistas". Existe uma resistência extrema a dar o passo em direção ao científico, ao positivismo, havendo sempre o perigo de retornarmos às superstições do passado pelo encanto que nos atrai em seu discurso romântico e enternecedor.
A noção de unidade do Universo, a sensação que atravessa todos os místicos da presença de Deus, é tão contemporânea hoje como há 600 ou 1000 anos atrás, mas as construções ideológicas e de crenças que tentam dar um corpo a esta noção de União de todas as coisas variam de época para época.
Precisamos nos libertar das formas do passado, sem pena.
Tradição não é o antigo, é o eterno, aquilo que transcende o tempo e os costumes e esta é a diferença entre misticismo e superstição.
Depois de todo o esforço de Harvey Spencer Lewis para modernizar os textos esotéricos que teve nas mãos para uma linguagem contemporânea, de forma a facilitar o acesso de todos os que o desejassem ao conhecimento tradicional, via de regra noto a facilidade com que frateres e sorores abandonam a racionalidade e a prudência das monografias e mergulham em crendices paralelas, chegando mesmo a fascinar-se por oradores menores, charlatães e embusteiros disfarçados de Grandes Esoteristas e acabam por levar para dentro dos corpos afiliados, absolutamente fascinados, sem nenhum critério, os discursos destes mesmos indivíduos como se fossem o último grito do Ocultismo.
Pão requentado servido como uma iguaria.
É triste.
A AMORC não merece isso. Não construímos todos nós uma escola de Tolerância e Respeito às diferenças para que se transformasse em ambiente permissivo e sem critério a quaisquer superstições travestidas de ciência.
Os monitores culturais das diversas regiões do Brasil e Portugal devem ficar atentos quanto à qualidade das palestras feitas dentro de ambiente oficial da Ordem, seus corpos afiliados, para que não pareça que estamos pregando o discurso de outros dentro de nossa casa.
Por isso escrevi Doutrina e Orientação anos atrás, que aqui no blog está dentro do livro "Dialogos Rosacruzes, 3° seminário, 1a parte", para mostrar que existe sim um corpo de conhecimento rosacruz específico, uma doutrina rosacruz, em suma, e não sei por que este termo, na época do ensaio, tinha sido transformado em uma palavra ruim dentro de determinada abordagem de marketing.
Não é. Doutrina quer dizer Corpo de Conhecimento e Doutrinar significar única e exclusivamente ensinar uma doutrina , e é isto que fazemos em nossas monografias, passamos e ensinamos um corpo de idéias e valores que constituem, no seu conjunto, a Doutrina Rosacruz. Em boa hora, segundo informação que me chega hoje, a Ordem publica um glossário de termos rosacruzes, como no reconhecimento tácito de que certos conceitos chaves precisam ser restaurados e reavivados na memória de nossos membros, dada a bruzundanga filosófica que testemunhamos hoje nos corpos afiliados.
Como eu comecei transcrevendo um texto de uma filósofa, ou melhor, uma professora de filosofia, mostrando historicamente a relação de um conceito com o nascimento de uma visão de mundo, aqui gostaria de transcrever o que nós esoteristas consideramos informação técnica:

 "Denominado também de Corpo Astral, este mediador, composto de luz bipartida ou especificada (fluido nervoso)(??) e de luz bipartida volátil (fluido magnético)(???)  pode coagular ou dissolver, projetar ou atrair uma porção do fluido Universal. Ele possibilita ao Adepto influenciar toda a massa de Luz Astral, nela criando correntes e produzindo fenômenos surpreendentes , que a ignorância comum qualifica como milagres."

(“No Umbral do Mistério”, de  Stanislas de Guaita)




Não são palavras, mas informações (às vêzes incompreensíveis, como identifiquei com as interrogações), mas que se submetidas à verificação mostrarão resultados. É diferente de não experimentar, de não testar a informação, ou por preguiça, ou por falta de motivação. 
Uma vez ao final de uma palestra no Capítulo de minha cidade, um jovem que havia se mantido quieto todo o tempo durante minha fala aproximou-se delicadamente e me fez uma pergunta fulminante.
Após me ouvir falar contra os perigos da superstição dentro de um ambiente místico, questionou-me como separar um conhecimento dito esotérico de uma simples superstição.
Após responder eu tive que modificar o texto e acrescentei nas últimas linhas as considerações que fiz para ele sentado da escada da entrada do Capítulo.



E minha resposta foi: a diferença entre superstição e misticismo, no caso misticismo Rosacruz, é a possibilidade de que cada informação fosse passível de duas coisas das quais a superstição não é capaz: primeiro, estabilidade e universalidade quanto á sua reprodutibilidade: aquilo que verdadeiramente for uma técnica mística funciona aqui, na China, no Havaí, da mesma forma que em Nova Iorque, e qualquer um que aplique a técnica deve obter ao fim e ao cabo, resultados igualmente satisfatórios; segundo, verificabilidade: quando eu reproduzo uma técnica posso verificar sua antenticidade, pois se for apenas de uma superstição ou crendice, não poderá suportar o teste, não permitirá a verificação, e portanto, será apenas uma fantasia sem fundamento. O terceiro critério que na época não comentei com aquele rapaz, que Deus o abençoe pela perspicácia, foi que as técnicas místicas tem um caráter de eficácia cumulativo, tornando-se melhores e mais eficientes a medida que são usadas e a habilidade do usuário vai aumentando.



Por isso defendo a tese de que os rosacruzes devem retornar ao laboratório de onde nunca deviam ter saído.Temos hoje na AMORC, perdoem-me a sinceridade de artesão, discursos demais e ciência e empirismo de menos.
Spencer Lewis, aonde estiver, não deve estar satisfeito com isso.

ESPINOSA O APÓSTOLO DA RAZÃO

PORQUE ESPINOZA INTERESSA AOS ROSACRUZES


Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

Esta é uma questão que muitos podem ter se colocado, supondo que como este imaginário é meu, minhas recentes leituras e reflexões sobre Spinoza reflitam apenas um aspecto dos meus próprios interesses particulares, e mais nada.
Sim e não.



E óbvio que tenho simpatia pela sua abordagem e pela maneira lúcida como encara o comportamento humano, quanto a isso acredito que não há dúvida.
Porém existe outro motivo para que tanto eu como membro da AMORC e outros rosacruzes dediquem o seu precioso tempo ao estudo deste pensador ímpar.
A equação é a seguinte: como místicos, trabalhamos essencialmente com a nossa mente; dois são os aspectos mais importantes da mente, o pensamento racional e a imaginação. Dois pensadores são fundamentais ao aperfeiçoamento do ato de pensar e do ato de imaginar: o primeiro é Kant, o segundo Spinoza.



Kant com seu exímio e acurado trabalho de dissecação dos elementos constituintes do pensamento cria as condições para um pensamento eficaz e seguro. Se Descartes mostrou que sem um pensamento racional organizado não conseguiríamos senão erro e engano, foi Kant que mostrou como a mente funciona e como é possível melhorar a qualidade deste pensamento.
Quem conhece o que usa por dentro, usa melhor.
Já quanto a imaginação e a sensibilidade recebeu sua melhor compreensão através dos trabalhos de Espinosa.
Se é verdade que Espinosa achava, erroneamente a meu ver, como já discuti antes, que a imaginação em si e não um tipo  de imaginação determinado, fosse um perigo para o pensamento claro, mesmo assim foi por seu esforço que se caracterizou que uma imaginação descontrolada e mal orientada só é capaz de produzir superstições e preconceitos descabidos. Toda a sua obra é uma preocupação em esclarecer que a mente cartesiana, que alimenta pensamentos claros e distintos, é, ao mesmo tempo, tanto a mente que pensa com cuidado e metodicamente quanto a que está livre da superstição e da fantasia, do erro induzido por crenças infundadas, não correlacionadas à realidade material, ideias e convicções não compreendidas como resultado final de produções orgânicas e sociais, de fenômenos físicos e não espirituais.
Os rosacruzes trabalham amplamente com a Imaginação na prática da Visualização Criativa.



Eu sempre preguei em palestras e conversas que o Campo Mental é extremamente instável e sem referenciais claros como aqueles do mundo do Espaço-Tempo. Algo como a diferença entre o estado de Vigília e o estado Onírico.
Quem está acordado tem mais facilidade de se situar espaçotemporalmente; já em um sonho, presente, passado e futuro, alto e baixo se misturam de maneira tão complexa que muitas vêzes somos incapazes de estabelecer o significado de um sonho ou a razão de ele ter acontecido. Nos é difícil mesmo relembrá-lo por que como lembra Espinoza, a mente guarda melhor aquilo que é compreensível e não o que é absurdo.
Portanto ao entrar no campo mental, precisamos ter um pensamento claro, com idéias claras e distintas, imagens nítidas, e alguma forma de evitar olhar as emoções que possam estar em nós como adversárias desta clareza, mas sermos capazes de usar nossa paixão e nosso desejo para melhorar a intensidade e a força de nossa visualização.
Não são as emoções que nos perturbam, mas as emoções descontroladas; nem a vida do místico deve ser isenta de paixão, mas, pelo contrário, seu amor a vida deve ser incontestável, mesmo cônscio de que TUDO É ILUSÃO, o que não tira o valor e a beleza da experiência temporária na carne.
Filosofia pode ser também terapêutica, já que retira de nós lentamente, como se a carne desprendesse dos ossos, o preconceito e a ignorância.
Todo conhecimento nos alimenta, mas aprender a pensar com clareza e com lucidez nos fortalece.
É a “força que vem de dentro”, o discernimento, não erudição pura e simples, mas sagacidade, uma sagacidade fabricada pela Educação (aqui a educação psicológica, em todos os sentidos), esta energia poderosa que transforma o Mundo.
Por isso aos rosacruzes é solicitado que estudem a história da filosofia em um dos graus de seus trabalhos, para que sintam a sabedoria, a força e a beleza de poder entrar no Campo Mental sem ser vítima de sua instabilidade.
Só as mentes claras e lúcidas podem penetrar no campo da Visualização e usá-lo de maneira eficaz.
E para isso é necessário entender o mecanismo do pensamento e das paixões humanas.
Kant e principalmente Espinosa fizeram isto por nós.
Estudemos este autores, meditemos sobre sua obra.
Isto nos fortalecerá como místicos rosacruzes tanto quanto a nossa confiança no Cósmico.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

SCHOPENHAUER E KANT NA ANALISE DE ESPINOSA

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Schopenhauer aos 27 anos


Quem achou o meu último ensaio, desta minha fase espinosana como diz Reginaldo, mais ontológico do que lógico, na defesa de Spinoza das objeções de Kant, de certa forma está certo.
Só que precisamos lembrar de um livro precioso, o apêndice de “O Mundo como Vontade e Representação”, a obra de Schopenhauer, aonde ele faz, depois de um enorme arrazoado de desculpas, críticas ao solitário mestre da Razão Pura.

O Mundo como Vontade e Representação


Ao falar que Spinoza é o filósofo da paixão e do desejo enquanto Kant, por natureza, jamais poderia sê-lo, lembrava deste comentário espinosano de Schopenhauer, em que ele lembra que existe sim uma forma de perceber a coisa-em-si.
Para ele a coisa-em-si é incognoscível sim, mas experienciável, não através da mente, mas da autopercepção, dos sinais de nós mesmos que nos chegam através da vivência da força da vida em nós, que ele chamou Vontade, em suma, das informações que vem de dentro. Neste momento ele se comporta e pensa como um hinduísta: o mundo fora de nós, como o conhecemos, é uma Ilusão (Maya) e a verdade está na busca interior, que de forma indescritível, mas perceptível nos transforma; um enfoque mais orientalista do que este é impossível.

Deusa Maya, a Ilusão


O que há de estranho em Spinoza (como de resto em Schopenhauer) é sua identificação com uma linha de interpretação do mundo que pode ser revolucionária para este lado do planeta, mas que é bastante compreensível no outro lado, intolerável para o judaísmo da época, por razões tanto religiosas como sociológicas, mas em acordo com a doutrina cabalística, o misticismo judeu.
É bom ter estes fatos em mente antes de criticar este pobre místico do interior por sua paixão ao defender (desvario supor que Spinoza precise disso) a integridade do pensamento espinosano das restrições que lhe reserva Kant.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS OBJEÇÕES DE KANT A ESPINOSA

por Mario Sales FRC.:,S.:I.:,M.:M.:

“Outro importante filósofo leitor de Espinosa foi Immanuel Kant (1724-1804). Sobretudo por três motivos. O primeiro deles está vinculado a uma divergência com relação à definição de Deus. Na interpretação de Kant, se Deus não é Providência[1], não tem intelecto nem vontade. De acordo com Espinosa, Deus age apenas conforme as leis de sua própria natureza, portanto, não haveria lugar nem para o dever moral, nem para a liberdade, já que tudo ocorre por necessidade.
O segundo motivo está associado ao primeiro. Para Kant, só podemos conhecer a realidade enquanto fenômeno - o que nos é oferecido pela experiência sensível e inteligível, podendo ser percebido e organizado por meio das categorias à priori do pensamento: o espaço e o tempo; mas não podemos perceber a realidade (que ele chama noûmenon, a coisa em si), que não é dada à nossa sensibilidade e ao nosso pensamento. Ou seja, Deus é noûmenon; logo, não pode ser conhecido, embora a razão possa afirmar sua existência. Assim, segundo ele, tudo o que Espinosa diz sobre Deus não poderia de fato ser demonstrado. Logo, Espinosa seria um dogmático.
A terceira objeção kantiana é a de que Espinosa seja um orientalista, isto é, afirmaria as mesmas crenças das religiões orientais (hinduísmo, budismo, taoísmo). Tal opinião também era partilhada por outros dois grandes filósofos: Hegel (1770-183l) e Schopenhauer (1788-1860). Na visão deles, ao afirmar Deus como única substância, Espinosa estaria dizendo que a realidade de fato é a própria substância. Assim, nós e todas as outras coisas da natureza, seríamos apenas maneiras de ser da substância infinita, ou seja, modos imanentes a ela, sem realidade própria, individual. Portanto, nessa condição, os indivíduos seriam absorvidos no Todo e suas personalidades se apagariam, tal como ocorre nas experiências místicas orientais.”



Trecho do artigo “Espinosa uma referência provocativa e necessária”, Revista Discutindo Filosofia, São Paulo, p. 35 - 37, 01 jun. 2007, de Marcos Ferreira de Paula, Professor adjunto de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (2009), foi orientado pela filósofa Marilena Chauí. Na França, sob a direção do filósofo Laurent Bove, realizou estágio de pesquisa no ano de 2008 na Université de Picardie Jules Verne (Amiens). É membro do Grupo de Estudos Espinosanos desde 2003, revisor dos Cadernos Espinosanos (2007) e membro do Grupo de Estudos Spinoza & Nietzsche (2007). Suas investigações sobre a filosofia de Espinosa começaram já durante o mestrado em Sociologia, realizado na Universidade de São Paulo (2003), onde também concluiu sua graduação em Ciências Sociais (1999). Atualmente, além da atividade docente no curso de Serviço Social da Unifesp - Baixada Santista, desenvolve uma pesquisa de longa duração sobre o problema metafísico do amor intelectual na Ética de Espinosa, sob supervisão de Marilena Chauí.




As objeções de Kant ao pensamento espinosano são no mínimo curiosas. Para relembrar uma frase de Espinosa, se somos triângulos, Deus nos parece triangular e se somos círculos, Deus, para nós, com certeza será circular. Kant argumenta, segundo o artigo do prof. Marcos Ferreira de Paula em epígrafe, que se Deus não é providência, se não pode interferir na realidade a todo instante, sem se ater às limitações impostas pelo funcionamento da mecânica do Universo; se, em suma, seguir apenas as ações redundantes da necessidade, não deve , em sua concepção, ter intelecto ou vontade. O mestre de Konisberg, o decifrador da fisiologia do pensamento, do mecanismo da razão chamada “pura”, não poderia conceber um Deus que não fosse nada mais, nada menos, do que o Supremo Intelecto.
Como os triângulos e os círculos, a ingenuidade do grande pensador foi pensar que pensar representa tudo que existe.
E se não for assim?
E se o pensamento for como parece ser, um modo de perceber o mundo, mas não o único, nem o melhor?
E se, dadas as suas características, o ato de pensar como definiu tão bem o próprio Kant, em função de não poder ver ou perceber a não ser o fenômeno, a aparência dos corpos, em vez do noûmenon, a coisa em si, nos traga apenas as imagens e conclusões possíveis dentro de suas limitações?
Espinosa era antes de tudo, um homem de coragem, despido da teatralidade divertida de Nietzsche, mas tão sagaz e penetrante como filósofo quanto este. E foi com esta coragem que ele transcendeu os limites da visão religiosa que dominou o mundo até a publicação da Ética.




Bergson dizia que todo homem tem duas filosofias: a sua e a de Espinosa. E tinha razão. Em filosofia, como na História, deveríamos marcar os acontecimentos em AE e DE, antes e depois de Espinosa. Esta primeira objeção de Kant, portanto, não é filosoficamente falando, suficientemente livre, enquanto reflexão, dos entulhos e crenças bíblicas que impediram que o ser humano não só pensasse, mas antes de tudo sentisse seu Deus com seu coração.
A originalidade de Espinosa foi a fonte aonde ele procurou os fundamentos de seu sublime texto.




Espinosa, não à toa, é o filósofo dos sentimentos.
Dito isso, ouso arriscar a tese de que o nobre Bento de Amsterdã não apenas escreveu seus livros com seu intelecto, mas, antes de tudo, descreveu de forma intelectual os seus sentimentos mais profundos.
Alguém que tenha a capacidade de não tentar colocar rótulos no Incognoscível, com certeza tocou às Suas vestes, roçou os Seus Sagrados Pés.
E toda vez que isto ocorre, não estamos falando de raciocínios e textos, mas de descrições de experiências, do relato de uma vivência, tão marcante e profunda que se torna uma marca indelével em nossa existência.
A humildade e a aversão deste singular pensador ao luxo e a coisas humanas são conhecidas.
Não era uma humildade forjada, mas sim a expressão sincera de um estado de paz interior semelhante ao estado de bem aventurança dos Iluminados. Sua beatitude não religiosa era tão marcante que se refletia em seu comportamento tanto quanto em seus textos.



Bachelard, autor de "A luz de uma Candeia"

Gastón Bachelard, o maravilhoso escritor francês, dizia que um filósofo não tem nenhuma obrigação com sua obra, no sentido existencial, que uma coisa é o pensador e outra seu pensamento.
Na contramão desta afirmação está a vida de Spinoza. Tão rigoroso e digno foi em sua prática cotidiana quanto em seu esforço de síntese reflexiva.
Era um homem bom e provavelmente, não ao lê-lo, mas ao compreendê-lo, esperaríamos que, ao encontrá-lo pela frente, estaríamos diante de um homem forte e “de ombros largos” (que em grego se diz Platão) e não este homem discreto, com um paletó surrado, absolutamente satisfeito com sua condição terrena e aparentemente sem ambições materiais.
Kant estava errado. O fato de Deus não parecer ter intelecto no entender de Spinoza apenas demonstra a coerência deste pensador, que sempre advogou o equívoco de querer interpretar o Desconhecido através de parâmetros pessoais.
Quanto a estar sujeito às necessidades, isto em nada desdiviniza o Criador, a julgar pelo raciocínio mais óbvio de que, como lembrava Spencer Lewis, se os instintos e as necessidades de cada ser humano estão em nós e funcionam de modo automático, foram colocadas em nós pelo próprio Criador e, portanto, todo instinto e toda necessidade básica humana é tão sagrada quanto Aquele que a colocou em nós.




A segunda objeção de Kant é risível. Alegando a nossa incapacidade de conhecer o Altíssimo, já que somos limitados em nossa percepção da coisa em si, Kant conclui que as afirmações de Spinoza são indemonstráveis e, portanto, dogmáticas.
Ora, se Spinoza é dogmático ao não definir os contornos de Deus ou ao postular a existência de uma substância única e infinita, da mesma maneira Kant o seria ao negá-lo por motivos intelectuais, já que Kant pensa o pensar, enquanto Espinosa descreve o sentir.
O que é o Dogma? Aquilo que não posso demonstrar racionalmente, aquilo que não permite discussão.
Como discutir o Desconhecido? É impossível.
Só que não é impossível senti-lo, reconhecê-lo dentro de nós mesmos, como demonstraria Schopenhauer na introdução de "O Mundo como Vontade e Representação", o que estabelece a diferença entre o método espinosano e o kantiano.
Enquanto Kant pensa Deus e o classifica de impensável, mas possível e provável, Espinosa sente-O em suas entranhas e reconhece-O em seu próprio corpo e em outros corpos, em Sua própria obra.
Espinosa não é o filósofo do pensamento, mas sim o filósofo da paixão e do desejo. Não pensa o Divino enquanto humano, mas descreve a Divindade de nossa própria humanidade.
Isso, um intelectual como Kant não seria capaz de fazer. Se há duas coisas que faltam a Kant, e isto todos concordam, é paixão e desejo.
Não se trata de um defeito, mas de sua natureza.
No enfoque mais espinosano possível, não se deve criticar ou sofrer com isso, mas compreender.
Se Kant olhava o mundo através de um espelho, Espinosa usava Lentes, e as movimentava, aumentando ou não a imagem ao seu bel prazer. Não há dúvida que DE, depois de Espinosa, nossa visão da realidade melhorou.




A terceira e última objeção Kantiana é de que Espinosa era um Orientalista. Isto não é uma objeção, mas uma constatação, a qual foi também percebida por Hegel e Schopenhauer, a qual em nada tira de seu trabalho profundidade ou refinamento.
Para nós místicos, o Ocidente ainda tem muito a aprender com o Oriente, principalmente quanto à técnicas não intelectuais, mas mesmo assim, e talvez até por causa disso, mais eficientes, de percepção do Real e do Divino.
Isto, no entanto, já é tema para outro ensaio
.

[1] Divina Providência, ou simplesmente Providência, é um termo teológico que se refere ao poder supremo, superintendência, ou ação de Deus sobre eventos na vidas das pessoas por toda a história. É a influência de Deus no futuro, onde ele decide o que irá acontecer no futuro e significa que nada acontece sem que Deus permita.

domingo, 1 de janeiro de 2012

FANTASIA E IMAGINAÇÃO EM ESPINOZA


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:

"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."  (Albert Einstein)

Primeiro é preciso deixar claro que a única intenção de Benedito ou Bento de Spinoza, o nome que adotou após ter sido banido pelos rabinos em uma cerimônia em tudo semelhante à uma excomunhão católica, era melhorar a qualidade do pensamento em sua época e nas épocas vindouras. E para ele, segundo comenta Will Durant, o maior inimigo deste pensamento adequado e correto não era o erro, como em Descartes, mas a superstição.



Numa época marcada por crendices, sua intenção era propor que, na busca por um pensamento que trabalhasse apenas com idéias claras e distintas, primeiro nos livrássemos das fantasias e atrelássemos nossa reflexão à experiência, não no sentido experimental positivista ainda, mas deixando para trás quaisquer outras possibilidades de usar o entendimento.
Desta forma estas fantasias, (que ele caracterizou para minha tristeza como "Imaginação", mas que, na verdade, tenho certeza, queria dizer superstição), que não tem fundamento em experiências concretas, seriam a fonte do erro e da perturbação do intelecto.
No Tratado da Reforma do Entendimento, parágrafo 84, como descrito na tradução de Ciro Mioranza da Editora Escala, encontramos o seguinte trecho:
“Assim, portanto, distinguimos entre a idéia verdadeira e as outras percepções e mostramos que as idéias fictícias, falsas, e outras, têm sua origem na imaginação, isto é, em certas sensações fortuitas e (por assim dizer) desprovidas de ligação, que não procedem do próprio poder da mente, mas de causas externas, segundo o corpo recebe movimentos variados, seja dormindo, seja desperto. Ou se isso agradar, que se entenda aqui por imaginação o que se quiser, contanto que seja algo de diverso do entendimento e onde a alma se revista da condição de paciente. Com certeza, pouco importa o modo de entendê-la, uma vez que saibamos que a imaginação é algo de vago e com a qual a alma sofre e que saibamos como libertar-nos dela com a ajuda do entendimento.”
Note-se que ele engloba na palavra imaginação, tão cara aos místicos rosacruzes, por motivos sabidos, todos os tipos de divagações inconseqüentes somadas a capacidade e abstração orientada.
A arte rosacruz de uso da imaginação, com esse comentário, é considerada apenas um delírio inconseqüente , uma fantasia que compromete a racionalidade, que prejudica os homens e não os auxilia em nada.
Qualquer rosacruz entende que isto é falso.

Kekulé

Imaginar, com habilidade e determinação, não é a mesma coisa que “sonhar de olhos abertos”. E fantasiar de modo inconseqüente também não pode ser relacionado a Imaginação de modo genérico .
Faltou a Spinoza, e isto estou seguro, distinguir a imaginação criativa de uma imaginação desorientada, descontrolada.
A força mais poderosa do mundo, Spinoza suspeitou corretamente, é a Imaginação. Só que não percebeu (ou pelo menos não escreveu sobre isso) que essa mesma Imaginação, hoje talvez o bem mais precioso do conjunto de commodities disponíveis no mercado mundial, só se torna prejudicial quando sem um foco, sem um objetivo, ou consequência de medos e crendices.


O que Spinoza combatia, e eu também combato, é a mente dominada pela superstição e por pensamentos e idéias não fundamentados, seja pelo raciocínio lógico ou pela experiência sólida. Segundo Spinoza, a imaginação só reage a coisas sensíveis, e talvez dever-se-ia dizer que deveria reagir apenas a coisas sensíveis, consciente de à quais corpos estaria reagindo, e não mergulhando em temores infundados porque inconsciente do papel da experiência na construção de seus receios. Lembremos do que ele diz neste mesmo texto do Tratado da Reforma do Entendimento, no parágrafo 82:
“... porque a imaginação é afetada unicamente pelos corpos.”



Existe outro modo de utilizar o poder imaginativo. 
E este modo é amplamente conhecido e praticado pelos místicos rosacruzes, mas também é base para os avanços da tecnologia e principalmente, da ciência.
A imaginação precisa ser aperfeiçoada, não tratada como um problema em si.
Sem a imaginação, hoje sabemos, o intelecto estaria preso em suas próprias limitações.
Ao contrário do que Spinoza supunha, não é a imaginação o problema, mas a fantasia sem fundamentação, a imaginação sem rédeas, aquela semelhante as miragens do deserto, que nos faz ver coisas inexistentes, que nos ilude e confunde.
Já a imaginação a serviço do pensamento lógico é um instrumento poderoso para ultrapassar as margens do universo intelectual, pois o conhecimento não avançaria se nos baseássemos apenas no que conhecemos.
Se na época de Spinoza, como agora, a fantasia e a superstição eram inimigas de um pensamento correto, hoje continuam sendo, mas separadas conceitualmente da imaginação, que não é a vilã do pensamento correto, mas sua principal auxiliar.
Foi imaginando e depois tentando descrever imagens matematicamente, que Einstein elaborou duas teorias que modificaram a visão da física; foi sonhando que tanto Descartes como Kekulé (Friedrich August Kekulé von Stradonitz) elaboraram grandes sínteses intelectuais, o primeiro uma linha de raciocínio fundamental ao pensamento moderno (o ceticismo metodológico) e o outro, a estrutura hexagonal do Benzeno. Ao contrário do que possa parecer, a imaginação é como uma lâmina e é o seu uso e não ela em si que determina sua utilidade ou perigo para o pensamento racional.
Negar à imaginação este papel é privar o pensamento do único elemento mental conhecido, além dele mesmo, para compreender a realidade de maneira mais profunda.