terça-feira, 17 de setembro de 2013

LES BALISEURS DU DÉSERT (OS BALISADORES DO DESERTO)

Este é o segundo filme da Trilogia do Deserto, segundo informações passadas pelo frater Arnobio Alves, sufi, a José Marcelo, nosso correspondente em Pernambuco. Este é Les baliseurs du Désert de 1984 e o outro, que ainda não encontrei, é Le collier perdu de la Colombe (o colar perdido da pomba) de 1991, todos do cineasta tunisiano Nacer Khemir. O primeiro filme foi Baba Aziz, publicado aqui no blog no último domingo, à noite.
Quanto a compreensão, é possível configurar para ter legendas em português, nos botões abaixo, à direita, mas só no site do Youtube.
SINOPSE:
A aldeia é marcada por uma maldição. Abdesalem é nomeado por um velho sábio para investigar e desfazê-la, mas como ele tenta sondar o mistério, ele também encontra um final estranho, que curiosamente foi profetizado para ele. Agora, cabe ao Housin travesso e jovial quebrar a maldição. Housin exibe um comportamento igualmente estranho e passa o tempo falando em um poço vazio e roubar pequenos espelhos para criar um jardim mágico. A arquitetura fantástica da cidade, com uma estrutura semelhante a de um labirinto, um labirinto de vielas quase indistinguível do deserto ao redor da qual se levanta, parece feito sob medida para as alcaparras do Housin de pernas nuas, que finalmente descobre a natureza da maldição e como ela pode ser superada.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

CONSIDERAÇÕES SOBRE O PAPEL DO MAL

por Mario Sales,FRC,SI,CRC



No século IV AC, Agostinho em suas confissões cria o mais brilhante e mais popular argumento filosófico já construído: o do livre arbítrio.
Na intenção de eximir a Deus da responsabilidade sobre o Mal, que ele afirmava não ser harmônico com a noção de um Deus Amoroso, estabelece que a origem do mal são as más escolhas que fazemos, no gozo de nossa liberdade de decidir. E que se possuímos esta liberdade, ela nos foi dada pelo próprio Deus.
Portanto, Agostinho convenceu seus contemporâneos que um ser Onisciente tinha dado as suas criaturas a capacidade de fazer opções impossíveis de antecipar, de saber. De maneira enviesada, dizia, e todos aceitaram, que um Deus que sabe tudo, não saberia qual seria a escolha de seus seres. Mais: que um Deus que pode tudo, Onipotente, nada poderia fazer para impedir o erro de seus filhos.
Deus, segundo Agostinho, agiria contra sua própria natureza. O Deus de Agostinho, enfim, é um Deus incoerente.
A noção de Individualidade que vinha da cultura grega, base da cultura latina e de toda cultura ocidental, impregnou o pensamento deste bispo sagaz. A Individualidade, o fenômeno de um ser humano único, in-diviso (não dividido), independente do meio e diferenciado por uma personalidade e um modo de pensar, para os Europeus daquele século IV era, sociológica e filosoficamente, um avanço. Enquanto o Oriente milenar buscava a União entre Deus e o homem, a Fusão, a Yoga entre Criador e criatura, o Ocidente julgava avanço separa-los, de tal modo que Deus estivesse lá, alto no Céu, enquanto a Terra, seria o aqui-em-baixo, território do profano, da vida mundana.
Tudo, para ser compreendido e explicado, deveria ser decomposto e separado, e Agostinho começa por separar o Mal e principalmente, o homem que opta pelo Mal, de Deus.

A IMPOSSIBILIDADE DO LIVRE ARBÍTRIO

Agostinho, no entanto, passou ao largo de certas questões.
Uma delas, a não percepção de que o homem comum tem importantes limitações de compreensão e percepção.
Entender um processo é conhecê-lo em todas as fases de sua execução e desenvolvimento.
A Vida é um processo altamente complexo, que não se resume a fecundação, nascimento, crescimento, envelhecimento e morte, mas também a interação com o meio material e humano que cerca e acompanha este indivíduo que percorre a existência no eixo do tempo.
Viver bem é compreender a Vida em todos ou quase todas as suas nuances. E quem pode dizer que é capaz dessa compreensão? Quem pode com segurança dizer que está de posse do segredo da existência? E por que não podemos dizer isso? Pela enorme quantidade de variáveis, a falta de estabilidade dos acontecimentos e dos relacionamentos sociais.
Descartes, no séc XV, onze séculos depois, percebeu esta impossibilidade lógica de saber tudo sobre tudo para qualquer ser humano por mais brilhante que fosse, e criou a noção de erro em substituição ao pesado conceito do pecado. Homens, disse ele, não pecam, porém erram, e o erro é reversível a partir do conhecimento. Não haveria necessidade de punição pelo erro, mas sim de correção. E corrigir era descobrir a forma certa de fazer aquilo em que antes havíamos falhado.
Mas isto é uma tautologia.
Vejam, é como a piada mística:
"Mestre, como fazer boas escolhas?"-"Experiência"
"E como conseguir experiência?"-"Más escolhas".
Sim, o erro , como a morte, são as únicas certezas.
Agostinho alegando que possuíamos liberdade de decidir sobre o certo e o errado, afirmava de forma paralela que o homem que escolhe sabe exatamente o que faz, que está a par de todas as consequências de seus atos. Que a sua educação, que seus traumas e inseguranças, não interferirão em suas decisões, as quais sempre serão uma opção clara entre o que é certo e o que é errado. Para Agostinho, ao contrário de Descartes, o homem não é uma vítima do erro, mas seu senhor. Ele , Agostinho, que teve uma vida pessoal desregrada, que casou com uma mulher que morreria jovem, em função de uma doença desconhecida, que teve um filho que também morreria jovem, aos 20 anos, por causa de uma febre; ele Agostinho, homem mundano que só tardiamente viria a se dedicar a vida monástica, achava que seus erros e sofrimentos foram causados por suas más escolhas, e que a morte de sua esposa e de seu filho, que lhe trouxeram dor e sofrimento, também foram uma opção sua, e não da Natureza.
Digo isso, porque só um ser tomado de uma impressionante soberba e orgulho, pode-se supor capaz de manter controle sobre todos os acontecimentos a sua volta.
Considerando que, no nível microscópico, os donos do planeta são os vírus e as bactérias, e que só nos últimos 100 anos começamos a ter alguma capacidade de resistir contra seus ataques com as vacinas e os antibióticos, é presunção e ignorância supor-se capaz de ser responsável por suas escolhas, quando muitas vezes, a natureza faz estas escolhas por nós.
Sim, fazemos escolhas, mas com certeza não são escolhas livres. Estamos sempre limitados aquilo que compreendemos e sabemos e que não é muito. Morcegos enxergam melhor que nós, cães ouvem melhor que nós, e um simples vírus invisível pode ser capaz de nos matar.
Nós, seres humanos, somos profundamente ignorantes de nosso meio ambiente, e por tabela, de nós mesmos. Nossa ignorância só é superada na maior parte do tempo, pela nossa estupidez em gerir as reservas de nosso mundo e as relações com nossos companheiros de planeta, sejam animais irracionais, sejam outros seres humanos.
Então como exigir de um ser que enxerga mal, ouve muito pouco, e quase nada compreende do seu meio ambiente, acurácia e capacidade de decisão consciente ilimitada?
Não, o ser humano ainda é um projeto em andamento, longe, muito longe da perfeição.
E de um ser imperfeito não se deve esperar decisões adequadas. Só o erro, repito, é a certeza de nossas existências. "Más escolhas, que geram experiência e, aí sim, após as más escolhas, boas escolhas."
Como Agostinho, todos nós cometemos enganos, exatamente porque não somos livres para decidir corretamente , já que estamos, todos, presos a nossa própria ignorância de momento, passível de ser diminuída com a experiência e o passar do tempo. O fato é que alguns sabem menos que outros, alguns ignoram mais que outros, mas todos ignoram muitas coisas sobre a vida e sobre si mesmos.
Somos todos ignorantes e o pouco que sabemos nos ajuda a viver com certa dignidade. Compartilhamos informações para que todos possam beneficiar-se das informações de todos. Precisamos uns dos outros para conseguirmos ser nós mesmos, e melhores a cada dia.
A Vida é complexa e cheia de percalços, mas ela e tudo que existe dentro dela, pertencem e foram criadas pelo mesmo Ser, pela mesma Inteligência. Só Ela detém todo o conhecimento, toda a sabedoria, de todas as coisas.
E um Ser de tamanho poder jamais poderia ser um tolo. E só um tolo suporia que seres limitados em todos os aspectos não cometeriam, involuntária e eventualmente, algum erro. 
Eis o que as pessoas chamam de Mal. 
Os erros involuntários e não os erros voluntários. 
Todos fazem o que quer que seja porque crêem , em sua limitada compreensão, que estão fazendo a coisa certa. 
O ambiente, a educação, a evolução espiritual de cada um determina suas escolhas e suas noções de Bem e de Mal, de Certo e Errado.
E assim como para um canibal é correto comer um inimigo que tenha demonstrado coragem na batalha, como forma de homenageá-lo, buscando ao devorá-lo, usufruir de sua nobreza e virilidade, da mesma forma o homem dito civilizado, olha com horror esta prática, e tem náuseas diante daquilo que outra cultura chama respeito.
Mas existe outra fonte do que chamamos Mal: o acaso desagradável. Outro conjunto de fatos imponderáveis e imprevisível, o acaso só pode ser antecipado pela Inteligência e Onisciência do Altíssimo. Nenhum de nós antecipa um acidente casual que nos mutile e nos cause dor e sofrimento. É diferente de, por exemplo, beber e dirigir de modo irresponsavelmente rápido em uma estrada e bater o carro solitariamente em uma árvore. Falo de um indivíduo que vem por uma estrada em baixa velocidade, dirigindo cuidadosamente e é vítima de uma motorista embriagado como o descrito. 
Qual a causa deste acontecimento trágico e imprevisível? O sofrimento que a vítima, dita inocente, da irresponsabilidade de outro, experimentará, não foi provocado voluntariamente por ela e mesmo assim ela deverá arcar com o peso deste acontecimento. Isto, com certeza, será considerado um mal. Pior: um mal inexplicável, com o qual este indivíduo e sua família deverão lidar. A irresponsabilidade do outro motorista nos dá a causa pela qual o evento ocorreu, mas não sua justificativa moral. A questão é: porque coisas ruins acontecem com pessoas boas? Existirá uma razão para isso? E se existir, devemos entender que o mesmo Deus que permite e implanta a beleza na Vida , permite e autoriza a existência do Mal nessa mesma Vida?
Foi isto que deixou Agostinho perplexo e o impeliu a achar uma justificativa lógica para a existência deste mal involuntário e incontrolável, tanto quanto imprevisível, fruto da ignorância e do acaso.
Mas, perguntaria eu ao orgulhoso Agostinho, quem somos nós para justificar os atos do Todo Poderoso? 
Como, em nossa já famosa ignorância, conseguiríamos entender as razões ocultas dos dissabores que todos nós, sem exceção, atravessamos? 
Mais ainda: e se o que julgamos serem coisas ruins e maléficas forem apenas os movimentos aleatórios de forças que não nos conhecem e que não nos escolhem, mas que, eventualmente, nos encontrarão e nos causarão algum impacto? 
Da mesma forma que o vento não conhece as árvores que arranca com sua força, ou o mar não se dá conta dos peixes que dizima em seus maremotos, ou a Terra não se dá conta das cidades que destrói em seus terremotos, a Vida não para diante de seres com os quais não se identifica e que são apenas parte de um conjunto de outros seres, e não seres especiais como eles mesmos (nós mesmos) se designam, mais uma vez, cheios de empáfia. Somos seres cheios de orgulho e egocentrismo. Temos-nos em alta conta, mas nossa fragilidade e limitações são patentes. E considerando a Imensidade de Deus, só a arrogância pode nos fazer querer explicá-lo ou adjetivá-lo, de Bom ou de Mal.
Deus não é Bom ou Mal. Deus é Deus. O Todo Poderoso, o Onisciente, Onipotente, Onipresente. Seus desígnios são e sempre serão misteriosos, mas se tornam mais claros quando retiramos nossa carga humana de sua avaliação. Se nos relacionarmos com os fatos da vida tentando classificá-los em Bons e Maus , nosso conhecimento não valerá uma rúpia.
Só começaremos a nos aproximar da Verdade quando não tentarmos fazer juízo de valor sobre o que nos acontece, não pensar em punição e recompensa, e como os budistas, acreditar que só o fato de estarmos vivos e experimentando a possibilidade de existir conscientes já é, em si, uma grande bênção; cada experiência é uma bênção, cada dia é uma bênção, cada problema nos abençoa com mais informações que imediatamente são repassadas ao Criador, na consumação do mais importante motivo de estarmos nessa Vida Terrena, a coleta de dados acerca de todas as coisas, de emoções ao odor das rosas, da noção de apego aos que amamos até o cheiro de terra molhada em uma manhã fria e enevoada na floresta.
Todas as impressões, sejam agradáveis ou desagradáveis, tragam-nos dor ou prazer, são informações importantes e como tal devem ser tratadas, dados que compartilhados e somados com todos os dados colhidos por todos os nossos semelhantes criam uma massa crítica de informações realmente precioso para uma Inteligência permanentemente sedenta de informações.
E o que somos? Seres energéticos mergulhados neste ambiente denso, protegidos por nossos escafandros de carne que nos permitem estar aqui, viver aqui, mesmo com todas as limitações que uma roupa tão pesada e uma densidade tão grande nos causa, nós, seres de energia pura,que brincamos e estudamos nos campos de Nosso Senhor.
Não podemos morrer ou ser feridos realmente neste campo de provas artificial, mas a experiência não seria satisfatória se o aquilo que nos acontece não parecesse real. Sem esse realismo, mesmo que cinematográfico, não conseguiríamos experimentar as emoções ligadas a esta peça de teatro, a este drama que chamamos "vida na carne".
Quanto ao Mal, sem o viés classificacionista, não saberemos dizer com certeza o que é.
O médico com o bisturi que se aproxima de um furúnculo infeccionado na pele de uma criança, deve parecer assustador e maléfico para o pobre menino. Em sua ignorância, não sabe que este é o procedimento que garantirá sua recuperação.
Sim, a informação e a cultura, às vêzes, aliás sempre, mudam nossa classificação das coisas. E o que antes nos parecia maléfico, é entendido como parte de um plano de aperfeiçoamento brilhante e muito bem amarrado.
Hoje não temos, como lembrava Steve Jobs em Stanford, como ligar os pontos de nossa existência. Só depois, mais a frente , compreenderemos as razões de certos acontecimentos que, à primeira vista, realmente nos parecem absolutamente perversos e sem sentido.
Para ver o desenho completo é preciso ligar os pontos, todos os pontos. E só quando tivermos todos os pontos poderemos fazê-lo. É preciso ter a certeza íntima que uma bela forma se esconde no final. E aguardar pacientemente, até que todos, absolutamente todos os pontos sejam reunidos.
Paciência e fé em um propósito universal não impedirão nosso sofrimento, mas com certeza, retirarão de nós qualquer chance de revolta ou desespero. E assim até o Mal terá seu papel na construção de determinado objetivo oculto, como a última cena de "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint Exuperie, quando o principezinho convoca a cobra para que o pique, condição para que ele se liberte do corpo e retorne ao seu asteróide natal.
Tudo tem seu papel, esta é a lição. Mesmo que não entendamos de início qual seja.
Paciência.



domingo, 8 de setembro de 2013

Baba Aziz - O PRINCIPE QUE CONTEMPLAVA A SUA ALMA

TEATRO, ENCARNAÇÕES E KARMA

por Mario Sales, FRC, SI, CRC





De  1964 até 1985, para falarmos apenas de uma parte de seu vasto trabalho, um ator brasileiro consagrado, Tarcísio Meira, viveu 23 personagens. Em uma sequência de trabalhos na TV e no cinema, ele foi conhecido pelos nomes de Betinho, Miguel, Edmundo Amarante, Eduardo, Juan Gallardo, Celso, Bob Ferguson, Sandro e Fernando de Aragón, João Coragem, Ciro Valdez, Rodrigo Soares, Hugo Leonardo Filho e Raul de Paula, Antonio Dias, D. Pedro I, Diogo Maia, Fernando Lucas, Juca Pitanga, Paulo Cesar, Theo Faron, Felipe de Alcantara Pereira Barreto, Paulo de Oliveira, Hermógenes e Capitão Rodrigo Cambará.
Nenhum deles é Tarcísio; nenhum, entretanto, deixou de ser.
Os erros e trapaças de cada personagem, suas pequenas ou grandes maldades, suas malícias, pertencem a história de cada papel, à qual o autor ofereceu seu suporte e talento para fazer parecer real.
Gengis Khan, Hitler, Jim Jones. Henrique VIII, da mesma maneira, são papéis de vilões, semelhantes a quaisquer folhetins fantasiosos que costumamos acompanhar.
A partir desta linha de raciocínio, coloquemos uma questão: deveremos responsabilizar o ator pelas atitudes de seus personagens, considerando que não somos nossas encarnações, mas vivenciamos personalidades ilusórias que nos ajudam a compreender certas noções emocionais e espirituais?
Somos, todos nós, emanações do Criador, puras, límpidas e imortais como ele. Não somos o Mario, o Alfredo, ou o Carlos, como Tarcísio Meira, o ator real, de carne e osso, não é Edmundo Amarante, João Coragem ou D.Pedro I, mas fingiu ser estas pessoas por motivos exclusivamente teatrais e dramáticos. Papéis que, vilão ou herói, o enriqueceram como profissional do Teatro e como ser humano.
A pergunta que me vem a mente, quando vejo alguns irmãos discutindo qual seria a situação kármica de Judas ou de Hitler a esta altura da eternidade é: será que personagens passados devem ser considerados como existindo mesmo depois do final de suas existências? Será que João Coragem tem ou teve existência para além do final da novela específica aonde apareceu? Cessando a novela, cessa o personagem. Cessando a ilusão (Maya), tudo que fazia parte dela se desvanece, e só continua nas gravações de época que, dependendo da qualidade, denunciam, ao serem vistas, sua própria antiguidade.
Se terminando uma novela, o personagem, não o ator que o interpretou, desaparece, é de se supor que terminando a encarnação, aquela personalidade vivenciada, não a essência imutável e divina dentro dela, desapareça também.
É como se Tarcísio Meira fosse aprisionado por João Coragem e não pudesse mais representar nenhum papel, coisa que aconteceu com Leonard Nimoy ao representar o Sr. Spock, marcante personagem de ficção científica, mas que, ao mesmo tempo, destruiu todas as suas possibilidades como ator dramático, tão marcado ficou por este papel em particular.
Nenhum ator vive eternamente o mesmo personagem, mesmo Nimoy, como nenhuma alma fica eternamente na pele de uma de suas encarnações dentre muitas.
Hoje vilões, amanhã heróis, somos todos atores no drama kármico e não somos eternamente julgados, como supõem alguns, pelos desempenhos de uma única vida.
A única razão para pensarmos assim é a confusão entre vida espiritual e vida material, que nos faz projetar valores ligados a este plano, naquele, cometendo dessa forma toda sorte de equívocos.
Pensamos em bem e mal como se fossem reais e não aspectos de uma mesma realidade, como a luz e a sombra que o objeto iluminado pela luz, projeta no solo.
É difícil para alguns entender que para o diretor da peça, não importa o papel que o ator desempenha, mas sim a competência com que o faz. Todo drama necessita, para ser encenado de personagens em oposição, que manifestem o aspecto polar e alternado da existência. Dramas tem que ter algozes e vítimas, maldades e bondades. Mas a rigor, como lembra Krishna no diálogo de Kuruksetra, ninguém mata ninguém, ninguém morre. A encenação de sofrimento e dor deve ser convincente e devemos entrar no personagem senão a atuação 
(playing, em inglês, a mesma palavra para brincando e  divertindo-se) não será satisfatória e enriquecedora e o diretor nos pedirá para ensaiar mais e melhor.
Karma é uma noção mais complexa do que supõem algumas vãs filosofias. 

sábado, 7 de setembro de 2013

A PRÁTICA DO MISTICISMO E A SAÚDE MENTAL

por Mario Sales, FRC,SI,CRC





Um tema recorrente nas discussões sobre o ambiente místico ainda hoje em nossos dias é a qualidade mental dos membros de escolas místicas.
Talvez o assunto tenha uma particular gravidade e importância pelo histórico da prática ocultista que reunia pessoas fortemente impressionáveis com indivíduos ostensivamente manipuladores, cientes de sua capacidade de induzir os mais fracos de mente em condutas antiéticas sob as mais disparatadas justificativas, o que incluía o consumo de drogas e práticas de orgias, com a justificativa da busca por estados de consciência mais elevados.
Não sou um moralista, não me entendam mal. Estudei e criei admiração e respeito durante minha formação intelectual pela civilização grega, aonde a escala de valores comportamentais é em muitos anos luz diferente dos valores da cultura judaico cristã (vide o Livro Paidéia, de Werner Jaeger).
É claro, entretanto, que os seres humanos não tão complexos de se entender assim em seus comportamentos, mesmo os ocultistas, que no mais das vêzes são menos esotéricos e muito mais "humanos, demasiadamente humanos",do que gostariam de admitir.
E, se através de técnicas primárias de indução hipnótica e sugestão, levavam mentes despreparadas a satisfazer a sua luxúria ou sustentar materialmente seus caprichos materiais, não o faziam pela busca da santidade e nem queriam alcançar um nível especial de percepção, mas apenas e tão somente usar pessoas como se usam objetos para seu próprio deleite. Lembremos entretanto que só o conseguiam por encontrarem material mental fértil e abundante a sua volta.
Como Nietzsche perguntava, devemos também perguntar se a culpa de um crime está na força do criminoso ou na fragilidade da vítima.



Ambientes esotéricos, com suas velas, seus incensos, seus discursos obscuros, sujeitos às interpretações mais variadas e díspares, podem induzir mentes menos elaboradas ao erro, a superstição e à fantasia.
E aqui, como admirador de Espinosa que sou, gostaria de fazer de novo uma distinção importante entre fantasia e imaginação. Para Espinosa, ambas, eram uma e a mesma coisa. O tempo, entretanto, passou, e a linguagem, bem como os conceitos, se aperfeiçoaram.
Hoje, portanto, enquanto imaginação é considerada uma qualidade positiva, base da criatividade artística e científica, a fantasia pode em certas ocasiões ser apenas e tão somente um delírio, uma fuga de uma realidade cotidiana indesejável, de forma a mergulhar o indivíduo em um estado de perda de vínculo com o mundo objetivo.
Na prática rosacruciana, na época de Spencer e Ralph Lewis, havia grande ênfase em manter a devida separação entre misticismo fantasioso e misticismo objetivo. As técnicas mentais (era assim que chamávamos) eram métodos que poderiam ser verificados, testados e repetidos por quaisquer pessoas que o desejassem fazer. Não havia o apelo a métodos obscuros, línguas estranhas ou pantomimas complexas como nos século XVIII, ou como na época de John Dee, no séc XV. Não. A técnica rosacruz, fortemente ancorada no uso da visualização criativa mental e da imaginação, conseguiu dar a prática mística um perfil minimalista, límpido, objetivo, prático e seguro, do ponto de vista psicológico e psiquiátrico.
Considerando a salada de informações esotéricas disponíveis à época e a forma com que eram transmitidas, foi uma abordagem metodológica revolucionária como só mentes avançadas e pragmáticas como a de Spencer Lewis poderiam elaborar.
E parte deste esforço de retirar a "lama ocultista" de cima da luz do misticismo foi consequência da história de problemas mentais provenientes de práticas inadequadas feitas por pessoas emocionalmente despreparadas para lidar com situações heterodoxas, para dizer de maneira a mais simples possível.
Hoje em escolas esotéricas sérias, procura-se por todos os modos evitar este equívoco ainda frequente, que vê identidade entre misticismo e práticas bizarras, esoterismo e exotismo, de maneira que as pessoas que participem dessas escolas possam se beneficiar se sua filiação e não, ao contrário, ser vítimas delas.
Por isso AMORC tem tanto cuidado (às vêzes excessivo) com o culto da personalidade entre membros.
Por isso existe a preocupação intermitente de manter controle sobre a natureza das práticas e palestras dentro de corpos afiliados.
Na maçonaria, muito menos mística e esotérica que a rosacruz, esta preocupação não existe e quase nenhuma atenção é dada a busca pelo mistério.
Aliás, a espiritualidade na Maçonaria não tem caráter místico, mas religioso.
E isto é compreensível. O viés místico é extremamente complexo, exige a assunção de uma série de pressupostos psicológicos, como a mudança de olhar sobre o lugar do Sagrado, se ele está ou não está separado de nós; sobre a Onipresença divina ser apenas um conceito ou uma realidade; e a compreensão sobre a Tábua de Esmeralda, que diz que "O que está em cima está em baixo",e depois continua "e o que está em baixo está em cima". Religiosos prestam atenção na primeira parte da frase; místicos, na segunda.
Maçons são religiosos. Acham que existe um Deus, que Ele é o Criador de todas as coisas.
Místicos rosacruzes são ou buscam ser o próprio Deus manifesto, vivenciando esta união a cada segundo de seus dias. Não param seus afazeres para orar. Estão permanentemente em oração e comunhão, mesmo em meio às suas obrigações mundanas.
Mas voltemos ao tema.
Precisamos ter cuidado com nossos frateres e sorores, um cuidado de pai para filho ou filha. Certas informações esotéricas são ocultas por uma simples razão: nem todos compreenderiam seu significado e poderiam, inadvertidamente, dar-lhes um sentido inexistente, fantasioso, psiquiatricamente patológico.
Um exemplo disso é o lidar com seres na maioria das vêzes invisíveis. O que eu não vejo, pode ou não estar lá, onde eu acho que está. O mais prudente é não se preocupar com isto a não ser que, por sua própria vontade, estes seres queiram tornar-se visíveis. E acreditem, é nessa hora que é importante ter uma mente equilibrada. Tais visões não costumam ser experiências muito tranquilas. Não à toa a primeira frase de qualquer anjo, no texto bíblico, ao se tornar visível a algum profeta era "Não temais."
Por causa disso, a mais importante lição que recebi de meu mestre foi a de que a prática mística esotérica não pode prescindir de bom senso e objetividade. Na época em que recebi este ensinamento, eu ainda vivia caminhando nas nuvens, sonhando com poderes paranormais, fascinado com tudo que pudesse ter ao menos uma aparência esotérica. Não dava atenção a necessidade de comprovação, das afirmações fantásticas que colhia de livros os mais variados, principalmente os de Eliphas Levi.
Depois que recebi esta orientação, da maneira como os mestres gostam de fazê-las, como uma sugestão mental, minha visão da prática mística mudou radicalmente. A partir daí, comecei a olhar textos muito belos mais sem nenhuma base de comprovação como apenas textos muito belos, e não fundamentos de conhecimento.
Não que com isso eu os tachasse de balelas, mas usava com eles o que depois vim a conhecer como técnica fenomenológica de Edmund Husserl, deixando-os entre aspas, sem estabelecer sobre eles nenhum julgamento de valor. O que antes eu lia como a descrição de fatos, passaram a categoria de textos simbólicos, que tinham importância pela sua beleza e não pelas suas afirmações.
A primeira e mais marcante mudança é que desapareceu minha ansiedade pela manifestação de dons especiais como a telepatia, telecinesia, etc. Passei a prestar mais atenção na vida cotidiana, nos acontecimentos mais simples, no tom de voz das pessoas, no convívio com os amigos e com a sociedade.
Se estes dons tivessem que ser desenvolvidos, eles o seriam naturalmente, dentro do contexto de uma vida comum, no momento que Deus Todo Poderoso julgasse, em sua sabedoria e conhecimento infinitos, que fosse a hora adequada para isso.
Livre desta ansiedade, os dons começaram a se  manifestar. Senti grande aumento de minha capacidade intuitiva; comecei a perceber em mim a capacidade de ler mentes, nada que se assemelhasse aos telepatas do cinema, mas o suficiente para que eu tirasse as conclusões mais corretas sobre as pessoas com quem me relacionava. Descobri e passei a verbalizar em palestras o conceito de que a manifestação de dons esotéricos não acontece com fundo musical ou com sons incidentais, mas nas situações mais banais, em um supermercado, em uma feira, ou tomando banho.
A capacidade de fantasiar descontroladamente de certas pessoas é tão grande certas vêzes que chegam a supor que fenômenos místicos manifestem-se de modo sempre cinematográfico e grandioso. Descobri que nada disso é real. A vida é simples e os dons se manifestam com simplicidade, como respirar ou ouvir um som. Passam naturalmente a fazer parte de nossos sentidos sem que sintamos nada em especial por causa disso.
Ninguém fica arrepiado de emoção ao respirar, ou ao ouvir o som de um trem ao longe. Respirar e escutar são fenômenos naturais e como tal, não trazem nenhum assombro. E era isto que meu mestre havia me ensinado: que a vida era despojamento, e embora a arte procurasse embelezar a existência, a beleza do existir já estava em si, sem nenhum acréscimo, ou nada que se retirar.
Só pela harmonização com o real, com o cotidiano, podemos contemplar esta beleza de que falo.
Observar com atenção os acontecimentos é o segredo. Prestar atenção em todos, e eu digo TODOS os fatos que desfilam a nossa frente.
Pessoas com uma mente descontrolada, fantasiosa, distorcem a realidade todo o tempo e é como se estivessem cegas. O esoterismo não pode e não deve ser um agravador desta situação.
Por isso defendi em um antigo ensaio, Psicologia e Misticismo, até hoje um dos mais acessados do blog, que todos os que desejassem praticar misticismo deveriam estar atentos a sua saúde mental, e se necessário, recorrerem aos préstimos de um psicólogo ou mesmo de um psiquiatra, na intenção de organizar sua mente e seus pensamentos. Não queria com isso dizer que estas pessoas sofressem de algum distúrbio mental, a priori, mas sim que deveriam estar atentas ao fato de que quanto mais embaçado o vidro, menos a luz será capaz de atravessá-lo, e a mente é a nossa lente, o nosso vidro, através da qual a luz de Deus chega até nós.
Uma mente, não doente, mas imatura, também necessita de educação adequada antes de entrar no meio místico. Isto garantirá que usufrua do conhecimento dos milênios e da tradição esotérica de maneira muito mais rica e de modo mais objetivo.
Sim , objetivo. Nós, como sempre falo, que lidamos com a subjetividade, precisamos de muita objetividade para fazê-lo, e quando olharmos para o céu nossos pés devem estar colocados bem firmes no solo abaixo de nós, para que a visão do infinito sobre nossa cabeça não nos provoque vertigens.
Não se pratica misticismo para piorar nossa condição mental, mas pelo contrário, para melhorarmos como pessoas.
E melhoramos na razão direta do desenvolvimento de bom senso, moderação e no aumento da nossa cultura.
Diz-se no Oriente, que quando recebemos um visitante, este deve ser tratado como se fosse o próprio Shiva que nos visitasse.
Imagine então se for Shiva em pessoa que visita nossa mente. Esta deve estar adequadamente arrumada para recebê-Lo em todo Seu esplendor, em toda Sua Glória.
Contemplar a luz sem o devido preparo pode ser enlouquecedor e por isso é bom que o façamos gradualmente.
Esta é, e sempre foi, a estratégia da prudência.

A saúde mental é um bem precioso que deve ser preservado com o mesmo carinho com que se preserva a saúde física. Cuidemos para que dentro de nossa Ordem, ao reconhecermos um irmão que precisa de mais elaboração e maturidade, saibamos aconselhá-lo a procurar, se necessário, auxílio profissional, evitando que práticas nobres e santas, expostas às vêzes, num instante psicológico inadequado, possam ser responsáveis pela piora da qualidade de vida dessas pessoas.

sábado, 24 de agosto de 2013

AS TREVAS

por Mario Sales, FRC, SI, MM CRC

“Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio. Lamento todos os meus pecados. Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos para preencher o vazio da noite, na qual espero por Ti. Deixa-me virar um nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, a fim de permanecer na doce escuridão da fé pura. Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade. Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória. Tua claridade é minha escuridão. Eu não conheço nada de Ti por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para te conhecer. Se eu Te imaginar, estarei errado. Se Te compreender, estarei enganado. Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco. A escuridão me basta.”

Thomas Merton: "A Escuridão Me Basta" Lembrado por Fernando Luiz.




Um dos muitos slides produzidos por Mestre Reginaldo Leite, acima , à direita.



Mais uma vez recorramos a nossa imagem preferida, a sala de projeção de cinema.
A condição "sine qua non" para a projeção é que a sala esteja às escuras, completamente, de forma que a luz possa se propagar e gerar o filme na tela a nossa frente.
Toda vez que penso nisso, lembro do ensinamento do Ain Sof do Cabala de Isac Luria.
Se Deus era e é Tudo, está em Toda Parte, como poderia ele criar algo? Luria conclui que Deus, ao criar, não se expande, mas se contrai, abrindo dentro de si uma esfera tridimensional, como um buraco em uma rosquinha donuts, para que dentro desta esfera de ausência possa manifestar a Sua Divina presença, sob a forma do Universo Criado. Nessa esfera de ausência não há Luz , somente a Luz que Deus projetará, como o raio de luz que sai do projetor de cinema, na sala de projeção, e que passa sobre nossas cabeças.



Este raio, no Cabala Judaico, chama-se Kav. É ele que, saindo de Deus, o Incognoscível, por ser o Sem Forma, Sem Contorno, vai projetar no espaço criado pela retração de Deus, o que chamamos de Criação.
Costuma-se dizer que Kav desce até o centro da Esfera aberta pela retração, o Tzim Tzum. Mas isto também é um preconceito, que lembra mais uma vez Aristóteles (o que está em cima é superior e o que está embaixo inferior).
Kav pode ter vindo de qualquer direção. Dos lados da esfera. entrando lateralmente, ou da região inferior, subindo até o centro. O que se sabe é que o raio caminhou até o centro onde explodiu em miríades de partículas de Luz, e projetou a Imagem da Criação, esta ilusão em que estamos mergulhados e onde realizamos nossos experimentos kármicos, misturando aqui termos indianos com o Cabala, bem ao estilo da Doutrina Secreta de Blavatsky.
O que indagamos é: de onde veio Kav, o Raio de Luz da Criação? De outra estrutura luminosa?
Se lembrarmos de nosso elemento de comparação didático, a sala de projeção, veremos que o projetor, em si, não brilha.
É uma estrutura de metal. Dentro dele, a Luz é produzida por uma energia que o percorre e causa a incandescência do filamento de uma lâmpada, esta sim, a parte do projetor que provoca, atravessando uma lente, a emanação e expansão do raio de luz da máquina em questão para a Tela da sala de projeção.
Do mesmo modo, não há necessidade de que Deus fosse Luz para que produzisse um raio de Luz, que é o que se considera habitualmente como lógico.
Como ele não tem forma, e a forma é um atributo da Luz, é provável que Deus também, em Si, não seja Luz, embora seja perfeitamente capaz de produzi-la.
Tal como o projetor de cinema.
Ele tem a capacidade de produzir, por mecanismos próprios, a Luz que projeta, mas não é, ele mesmo, a Luz, Kav, que projeta.
Deus, relembremos, não tem forma.
Não pode ser visto, pois não é um ser manifesto.
Só seu pálido reflexo, a criação, pode ser percebido. Conhecemos o Criador por sua Obra, e mesmo assim, sua imagem, em tudo refletida, é parcial e imperfeita. Ele é o Transcendente, o Incognoscível, ou como gostava de dizer Pasqually, a Imensidade; mas Deus não é Luz.
"A Luz, (utilizada na Criação), é um atributo do Ser", ou melhor, a Luz é uma ação desencadeada pela capacidade operacional do Ser, como o projetor, objeto metálico e não Luminoso, que é capaz de produzir um raio de luz poderoso.
Nós surgimos da Luz de Deus, como o filme surge da Luz do Projetor; mas assim como o projetor em si não é Luz , embora produza Luz, Deus, provavelmente, também não é Luz em Si, embora seja capaz de produzi-la.
Imanifesto, Deus, o Ain Sof, é Invisível.
É O Obscuro, O Oculto, aquele que se Oculta nas Trevas do Desconhecido.
É na Escuridão que podemos ver a imagem do filme projetado à nossa frente.
É da escuridão que surge a Luz do projetor.
Na Criação, do mesmo modo, somente nas trevas do Tzim Tzum pode manifestar-se a Luz, Kav, e gerar a Imagem do Universo Material conhecido e desconhecido .
E da mesma maneira, das Trevas aonde reside O Oculto, O Invisível, surge a Luz que cria o Visível. Viemos, como o filme do cinema, de uma luz que é projetada do interior de algo não luminoso.
E se levarmos a frente esta especulação, da mesma maneira que o projetor não é um ser vivo em si, mas produto da Inteligência de um ser humano e controlado por outro ser humano, o projecionista, também a Luz de Deus em Si pode ser entendida, não como o próprio Deus, mas, como lembra o catecismo rosacruz, "um atributo do Ser", não o próprio Ser.
Somos Luz , mas viemos do interior das Trevas.
Todos somos filhos das Trevas, embora sejamos feitos de Luz, sem que isto tenha  nenhuma implicação de valor ou significado simbólico.
Trata-se somente de uma dedução comparativa e baseada em tudo que a Tradição nos diz.
Filhos da Luz, Luz esta produzida dentro das Trevas.

Esta é, segundo a Tradição, nossa verdadeira Origem.