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sábado, 3 de agosto de 2019

PALAVRAS



Por Mario Sales



Infelizmente quando falamos, falamos com nossa boca.
Os que nos ouvem, ouvem-nos com seus próprios ouvidos. Por causa desta simples constatação, não é possível uma comunicação sem equívocos, sem enganos, sem mal-entendidos.
As palavras são seres de comportamento instável.
Se estão sós, comportam-se através de suas significações.
Quando acompanhadas, assumem conotações que as modificam, as enriquecem e multiplicam seu sentido ou sentidos.
Nesse aspecto, palavras e pessoas são idênticas. As influências dos que nos circundam nos modificam e seria triste e lamentavelmente limitante não termos os outros para mudar nossas compreensões, desafiar nossos padrões, contestar nossas crenças.
Vivemos para modificar os outros, nos modificar e sermos modificados.
A modificação não é, necessariamente, evolução, mas toda evolução é, com certeza, uma mudança.
Portanto, se nos voltarmos para o papel do diálogo, do falar e do ouvir, da mesma maneira encontramos este confronto de contrastes entre narrativas, descrições, interpretações, que ao se encontrarem, aí sim, necessariamente se modificam e se adaptam.
Existe a nossa fala, na nossa privacidade, nos nossos solilóquios. E existe outra fala, a fala possível diante do outro, aquele que nos intimida ou inspira, que nos motiva ou constrange, se bem que, certas vezes o que nos inspira também nos embaraça ao mesmo tempo.
Esta é a descrição do complexo fenômeno do diálogo, que julgamos ingenuamente tão simples e que esconde sutilezas e mistérios tão profundos.
Somos incapazes de acompanhar em tempo real a alquimia dos sentidos da nossa fala e das nossas compreensões. E assim, diante do desconhecido, devemos nos recolher a nossa humildade e aceitar nossa incapacidade de manter sob controle todas as coisas que nos sucedem, ou que sucedem ao nosso discurso, à nossa fala.
Nossas palavras, uma vez pronunciadas, não são mais nossas; pertencem aos ouvidos de outros, das pessoas que nos ouviram e sabe lá o que e como compreenderam do que dissemos.
Imagine então nossas ideias, descritas por nossas palavras. O que sabem os outros de nossas crenças?
O que de fato conseguimos transmitir das imagens que vão em nossa mente, dos conceitos e valores que abraçamos?
Existe entre nós hinduístas uma prática chamada o ensinar pelo silêncio.
Certos mestres são capazes de ensinar apenas com sua presença, sem pronunciar qualquer som, qualquer silaba. Isso é belo e transcendente.
Quem sabe será o próximo passo da evolução? Quem sabe, no futuro, como os amantes e os apaixonados, saberemos o que vai no coração do outro sem necessidade de diálogos ou explicações, mas apenas pela percepção do olhar do outro, ou por uma contração na pele?
Isso, no entanto, dependerá de avançarmos no relacionamento entre todos nós, de forma a que nos amemos da mesma forma, todos nós, membros da raça humana.
E o amor, o verdadeiro, não é algo dado, mas uma conquista, uma mudança e uma evolução, a manifestação de um estado de refinamento que ainda não temos, mas tenho esperança, conheceremos um dia, todos nós, mergulhados neste contexto de relacionamentos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

LEMBREMOS DE HERÁCLITO


Por Mario Sales




Heráclito de Éfeso

A Ordem Rosacruz AMORC tem como um de seus ensinamentos o axioma de que “o mundo é dual em essência e triplo em manifestação”, afirmação que estabelece a inevitabilidade das oscilações de todas as coisas entre dois polos, um que chamaríamos de bom, positivo, e outro mau, negativo.
Nesse ponto o esoterismo ocidental é extremamente mecânico, estático.
O símbolo taoista das Clavículas de Fu-Hi tem mais fidelidade aos fatos, tais como são. Essa oscilação, além de constante, como os batimentos do coração, é ininterrupta.





De qualquer forma, oscilação lenta ou rápida, a verdade é que os polos são ilusões temporárias. Tanto o polo positivo, (de alegria e felicidade), como o polo negativo, (de tristeza e dor), são temporários e passageiros.
Daí não fazer sentido a afirmação de outro nobre rosacruz, Renée Descartes, de que “tudo que o homem faz é em busca da felicidade”.
A felicidade como meta, é inalcançável, escorre pelas mãos como a água. Da mesma forma que a tristeza.
O que nos resta de verdade é desenvolver equanimidade, um estado de equilíbrio que resista a estas oscilações.
É o que eu tenho chamado de serenidade, uma meta alcançável com esforço e treino.
Não por outra razão, budistas, especialistas em equilíbrio mental, pregam como solução para a dor, o desapego.
Como o pêndulo de um velho relógio, dor e prazer alternam-se de maneira permanente, e se desenvolvemos o desapego, tanto ao bem, como ao mal, mais rapidamente um ou outro polo se desfaz, acaba, passa.
Eu não me enganei: apego ao mal. Existem pessoas que insistem em ficar agarrados à aspectos ruins da vida, focados na sombra e não na luz. É uma espécie de vício, tão ruim quanto a mentalidade de poliana de que tudo está bem e vai ficar bem.
A verdade é que não vai. Pelo menos por um tempo.
A disputa entre otimistas e pessimistas é vã.
A ação no mundo, verdadeiro diferencial de maturidade, não prescinde de condições adequadas ou favoráveis.
Barcos fortes e estáveis avançam mais devagar em meio as tempestades e mais rápidos em dias de sol e mar tranquilo.
De qualquer forma, avançam.
E é assim que as coisas são, “duais em essência”.
Parte do crescimento espiritual é compreender isso, e adaptar-se, já que a adaptação, como lembrava Charles Darwin, é a chave da sobrevivência.
A felicidade não pode ser um objetivo na vida já que ninguém deseja que o coração pare em diástole ou em sístole.
O coração precisa continuar a se expandir e a se contrair, assim como os pulmões, assim como o dia precisa alternar com a noite.
Querer a felicidade é querer o sol em nossas cabeças permanentemente, é um desejo descabido, se olhado de forma sensata.
Não, não estamos aqui para sermos felizes embora possamos sim nos divertir.
Como lembra o símbolo taoísta, existe um pequeno bem germinando dentro de todo mal, e um pequeno mal germinando dentro de todo bem.
Nada, absolutamente nada é isso ou aquilo.
Tudo está em fluxo e oscilação, sempre e sempre.
Não nos esqueçamos de Heráclito de Éfeso, (535 a.C. - 475 a.C.): nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio, duas vezes.
O resto é silencio.