sábado, 14 de maio de 2011

NÃO EXISTE LIVRE ARBÍTRIO

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Seguindo pensadores que não sabia à época que pensavam como eu, entre eles Espinosa e Schopenhauer, defendo esta tese para angústia de muitos de meus amigos que não suportam a idéia de falta de liberdade em suas decisões.
Esses amigos sempre me opõem o fato de que o Determinismo (que eles imaginam é a única opção ao Livre Arbítrio), tornaria a vida sem sentido e insípida. Não é bem assim. Estudo o assunto há alguns anos. Sei de outras alternativas a oposição Livre Arbítrio X Determinismo, como por exemplo o Compatibilismo[1], que como o nome diz tenta compatibilizar ambas as idéias. O Compatibilista pensa a liberdade como a ausência de coação externa e não a presença ou ausência de relação causa e efeito na decisão tomada. Até admitem que exista interligação entre tudo que acontece, mas  desde que no momento de tomar a decisão ninguém constranja o indivíduo, ela foi tomada livremente.
Interessante recurso intelectual mas não passa de um contorno da questão em si: pode existir uma decisão realmente livre?
Em minha humilde opinião, não.
Só que o Determinismo como foi proposto no passado é também uma definição insatisfatória.
No fundo minha teoria não é nenhuma das três citadas.
Minha tese pode ser chamada de Arbítrio Ponderado por Retroalimentação da Experiência (APRE), pois acredito na capacidade de arbítrio, embora não na sua liberdade.
É como na natureza, no funcionamento das glândulas e dos hormônios, só que aplicado ao fenômeno da escolha.


Nossas escolhas não podem prescindir da experiência, ou seja, da participação neurológica da memória e da evocação das informações que nos auxiliarão nas escolhas que faremos.
São estas lembranças, com as quais os fatos da existência nos alimentam, que tornam a nossa liberdade impossível, graças a Deus, pois elas nos permitem fazer a melhor escolha diante de nossas informações.
Quanto maior o nosso conhecimento e experiência mais prudente será nossa escolha, mas acertada nossa decisão, porque a memória nos trará a mente dados e mais dados que impedirão que repitamos, perdoem a vulgaridade da colocação, as mesmas bobagens do passado.

Não pode haver liberdade porque senão não haveria Evolução.
Justamente porque evoluímos e melhoramos nossa bagagem cultural, nossas decisões mudam, atreladas que são à nossas novas e antigas informações.
A cada informação, a cada conhecimento novo, somos retroalimentados com perspectivas que fundamentarão e direcionarão as nossas opções futuras.
Assim o futuro é bastante complexo pois está atrelado diretamente as decisões presentes, que irão nos direcionando, mais à esquerda, mais à direita, de acordo com a postura que tomemos no aqui e no agora.


Santo Agostinho


A idéia de liberdade está ligada a tentativa de Santo Agostinho de salvar a reputação do Todo Poderoso diante dos ataques dos Maniqueus, que argumentavam que existia o Mal e existia o Bem, e que o Universo era governado por duas forças antagônicas , duas divindades opostas que rivalizavam em poder.
Agostinho queria provar que: 1. Deus era Uno e 2. Deus não era e não poderia ser o autor do Mal já que Deus é só bondade.
Daí esta estratégia filosófica brilhante para a época, século IV, dizendo que Deus criou o Homem e lhe deu o Livre Arbítrio para que ele escolhesse e amadurecesse, e permitiu que escolhesse livremente entre o bem e o mal porque uma vez que lhe havia outorgado a Liberdade não a poderia retirar, tornando-se assim um Deus, paradoxalmente, não Onipotente.
A idéia de Agostinho era de que o erro era pecado sempre, e que o acerto era produto da graça de Deus.


Descartes


Tivemos que esperar 12 séculos, até que Renée Descartes dissesse que não havia pecado, mas Erro, e que o Erro não demandava perdão, mas correção.
Errar é normal. Repetir o erro é possível, já que às vezes o conhecimento não foi absorvido plenamente da primeira vez. Eventualmente, entretanto, o indivíduo perceberá, pelo desconforto ou pelo sofrimento, que suas opções estão incorretas e fará novas opções, que o colocarão em um novo rumo de causa e efeito.
Descartes disse certa vez que tudo que fazemos é em busca da felicidade. Também acho, só que poderia se dizer que mesmo nossos erros buscam esta mesma felicidade. Ao percebermos nosso equívoco, recuamos e enveredamos por outra via, que agora nos parece mais adequada e capaz de nos dar uma melhor qualidade de vida.
Agir, às vezes Errar, perceber o Erro, corrigir o Erro e Aperfeiçoar a Ação.
Esta é a equação da Evolução humana, que graças a Deus, não é livre, mas escrava de nosso Conhecimento pregresso e absolutamente determinada por nossa Cultura.



[1] “O compatibilismo nada mais é que uma versão soft do determinismo, pois aceita a hipótese de que eventos (mentais e fisicos) são causados de modo necesssário e suficiente. No entanto, a noção de liberdade adotada é de ausencia de restrições ou coações e não de determinação causal. Compatibilistas podem definir o livre-arbítrio como emergindo de uma causa interior, por exemplo os pensamentos, as crenças e os desejos” 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Livre-arb%C3%ADtrio#Teorias_compatibilistas_e_o_princ.C3.ADpio_poderia-ter-agido-de-outra-maneira

sexta-feira, 13 de maio de 2011

PRECISAMOS DE MAIS OBJETIVIDADE



Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


Algumas pessoas tem náuseas ao ouvir a palavra Disciplina.
Quanto mais se vier acompanhada da palavra Ordem.
No estudo místico rosacruciano de AMORC, ou no Martinismo e mesmo na Maçonaria, organizar-se e seguir um programa de estudos é extremamente necessário.
No Martinismo e na Maçonaria é preciso organização para que possamos acumular um enorme número de informações, algumas pouco práticas, de natureza mais histórica; outras de utilidade na consecução de uma espiritualidade mais robusta. No Martinismo, por exemplo, pelo estudo de textos espiritualistas fortalecemos a prática da mais importante técnica teúrgica de todos os tempos: a prece.
No estudo das monografias de AMORC, no entanto, a organização no estudo, que conhecemos pela expressão SISTEMA E ORDEM, é muito mais crucial, já que existem dezenas de técnicas que precisam ser compreendidas e praticadas de maneira constante para que sejam dominadas em toda a sua extensão.




E isto demanda tempo, disciplina e cuidado.
Numa palavra: perseverança.
Só persevera quem tem noção clara de objetivos e que, por isso, pode dividir a caminhada em trechos, dedicando-se a cada trecho separadamente, concentrado-se em um aspecto do problema de cada vez.
O conhecimento sólido é o conhecimento cumulativo, aquele que se granjeia ao longo dos anos e se consolida graças a prática e a repetição.
Por isso os textos de AMORC são às vezes repetitivos se bem que apresentem o mesmo assunto de modos diferentes em instantes diferentes da vida do estudante rosacruz.




Técnicas rosacruzes, e este foi o nome que aprendi durante minha formação, são instrumentos para melhorar a qualidade de vida de quem as utiliza e devem ser manipuladas com a habilidade de quem as experimentou repetidas vezes e sabe de sua eficácia.
Precisam ser testadas e testadas e depois de dominadas, utilizadas repetidas vezes de forma a que sejam não o último recurso a que recorramos diante de uma demanda da existência, mas o primeiro instrumento que lancemos mão, uma vez que diagnostiquemos sua adequação ao problema.
Isto porque existem momentos em que a técnica mística não se faz necessária. Basta a nossa inteligência, nossa capacidade de trabalho e intelecto combinados para enfrentar a maioria das vicissitudes da vida.
Existirão, no entanto, situações mais difíceis onde a técnica diferenciada dos ensinamentos rosacruzes será extremamente vantajosa.Como também em casos não tão graves quanto arranjar uma vaga em um estacionamento de shopping particularmente cheio em alguns segundos, algo que parece banal, mas que é perfeitamente adequado à aplicação da visualização criativa.




O que importa, enfim, é não estudarmos o rosacrucianismo como um conhecimento meramente teórico.
Nenhuma Ordem Esotérica que eu conheça tem maior prazer e dedicação aos estudos teóricos do que a Rosacruz, só que sempre este conhecimento estará atrelado ao desenvolvimento de uma mudança de caráter e compreensão fundamental a aplicação de técnicas objetivas ao cotidiano.
Se a Maçonaria procura intervir no social para melhorar a homem, o rosacrucianismo procura modificar o homem para que este intervenha neste social.
Todo pensamento e prática rosacruciana é, nesse sentido, humanista e centrada no homem, no indivíduo.  
E uma das condições mais importantes para o desenvolvimento de uma personalidade sólida, pronta para os desafios da existência, é a disciplina, sistema e ordem na vida e no acúmulo de informações e habilidades.
Para isto é fundamental objetividade. Muita objetividade.Tem que estar claro para o estudante que habilidades ele deseja desenvolver durante a sua afiliação, e concentrar-se nisso, já que saber tudo e dominar todo o Universo do conhecimento Esotérico é praticamente impossível.
Tenho notado que bons rosacruzes embora dominem satisfatoriamente várias técnicas, tendem a se especializar em algumas delas, as quais, por motivos kármicos, executam com maior destreza.  Existe pois uma especilaização natural entre os mpisticos rosacrucianos.
Fico muito preocupado quando converso com um frater ou uma sóror no qual diviso uma fascinação e um encantamento com assuntos esotéricos vagos e imprecisos.
Principalmente se esse frater ou esta sóror tem já alguns anos de Ordem.
Na sua falta de clareza de objetivos, na sua falta, portanto, de objetividade, antecipo que fará pouco progresso como místico ou como esoterista.
Não que na minha opinião o estudante rosacruz não deva se comportar como um enciclopedista e ter interesse em várias áreas do conhecimento esotérico. O que me preocupa é quando este conjunto de informações não parece trazer uma melhoria real a sua qualidade de vida, transformando-se em um peso a mais em sua existência, uma erudição inútil e pedante e não uma alavanca para desfazer os obstáculos que, eventualmente, todos enfrentamos.
É preciso usar as monografias de forma exaustiva, usando-as como bússola e programa de estudos, recorrendo a outras leituras apenas no intuito de enriquecer o que está ali delineado.
É preciso ter um rumo e um método definidos no estudo das coisas esotéricas. Assuntos muito subjetivos  devem ser estudados com muito cuidado e diligência.
É preciso, enfim, ter muita objetividade no estudo de assuntos subjetivos de forma que ao entrar em um terreno instável como este das habilidades esotéricas da mente nos comportemos do modo mais científico possível, e não nos tornemos presas das areias movediças do mundo mental.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

COMPENSAÇÕES

Por Mario Sales, frc.: ;S.:i.:; M.:M.:


"o nada é o tambor
que marca o ritmo do TUDO
como pode ouvir-se um canto
sem que o resto fique mudo ?"
Trecho do meu Poema “Intimidade”

É comum que não gostemos dos períodos inexpressivos. Eles nos abatem e nos entediam. Sempre repito, entretanto, aos meus amigos, que existem dois tipos de bênçãos: as positivas e as negativas.
As positivas são quando coisas boas nos acontecem enquanto as negativas são compostas das coisas ruins que não nos acontecem e que só podemos dimensionar contemplando a dor alheia.
Os fatos da vida rodopiam descontrolados como carrinhos de bate-bate de parques de diversão. Podemos evitar os impactos, mas eventualmente algum choque ocorrerá.
Tudo está interligado, todos os carros estão no mesmo espaço em que concordamos entrar, por pura diversão e para apurar nossa habilidade.


Autor: John Willian Waterhouse The Lady of Shalott, de 1888.

Não passaremos incólumes pela existência, mas competiremos pela condição de intocados temporários com outros, comparando quantas vezes outros são objeto de violentos impactos neste espaço onde parecemos como bolas de bilhar na mesa, a se chocarem umas contra as outras.
Quem tem mais bênçãos negativas?
Quem consegue o período mais tranqüilo por mais tempo?
A maldição chinesa é: “que tua vida seja cheia de novidades”.

de Pino Daeni
Compreendo bem isso.
Só há um espaço em que o novo é desejado e define a qualidade da vida: a criação artística.
Acredito que a Arte, como a Meditação, queima Karma.
Quem produz beleza deve ser imediatamente perdoado de todos os seus erros.
Esta deveria ser a Lei das Compensações.

domingo, 8 de maio de 2011

ULZANA , OSAMA, OBAMA

Por Mario Sales, FRC.:, S.:I.:,M.:M.:



Pode ser puro delírio, não importa. No Imaginário, é permitido imaginar.
Nesta semana em que o planeta atravessa o impacto do final de uma caçada de quase 10 anos a um terrorista que levará para o túmulo a marca de ter conseguido atingir um alvo americano em solo americano, burlando a antes propalada inviolabilidade do território mais defendido do mundo depois de Israel, venho descobrir traços premonitórios na arte cinematográfica.
Sou cinéfilo assumido.
Acredito que tenha sido o responsável por introduzir na Morada do Silêncio a abordagem cinematográfica na explicação de conceitos místicos.
Hoje a vida do cinéfilo é extremamente mais fácil.

Robert Aldrich

Todos os filmes de todas as épocas podem ser conseguidos a um toque de mouse. Mesmo assim a produção internacional é gigantesca e toda uma vida não seria suficiente para ver tudo que foi feito, de boa ou má qualidade, em todo o mundo.O estranho é descobrir novos títulos em áreas antes supostamente conhecidas como a produção de farwest americano, ainda mais com atores do calibre de Burt Lancaster.
É nesse perfil que se enquadra A VINGANÇA DE ULZANA, filme de 1972, direção de Robert Aldrich (1918-1983), cuja sinopse é a seguinte: uma tropa da cavalaria americana parte em busca de um grupo de índios liderados por Ulzana, que deixaram sua reserva e iniciam uma jornada de saques, estupros e crimes por onde passam.


Ou seja, terroristas da época.
Bom, sem contar o final, que para um cinéfilo é sacrilégio, atentem para a semelhança do nome do Vilão fictício com o do Vilão real, que 29 anos depois entraria para a história tragicamente, e 39 anos depois seria derrotado e morto em seu esconderijo no Paquistão. E o trabalho que o vilão da ficção dá ao exército americano é proporcionalmente igual ao que o vilão da vida real causou.
Repito, pode ser delírio, mas delirar não é crime. Ulzana sai da reserva e se volta contra os americanos. Osama sai do Paquistão para lutar no Afeganistão onde antes foi treinado pelos americanos para lutar contra os soviéticos, os chamados mujahedin que em 1985 se reúnem no Paquistão para formar uma aliança contra a invasão russa.
E é no mínimo curioso que 29 anos antes de Obama conseguir derrotar Osama, a saga de Ulzana já estava nas telas.

Talvez o Inconsciente Coletivo Junguiano não seja apenas a compilação da cultura humana atual, mas desrespeite até os falsos (como todo rosacruz aprende no 2° grau de neófito) limites de tempo e espaço.
Precisamos prestar mais atenção à ficção.
Desde Julio Verne estamos avisados que a fantasia pode ser muitas vezes uma profecia disfarçada.

sábado, 7 de maio de 2011

A ALQUIMIA DA PEDRA 2

Uma estratégia possível para consolidação das Lojas Maçônicas

Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:


Vimos no ensaio anterior que os maçons, historicamente, têm um perfil operacional, não reflexivo.
Entediam-se com discussões teóricas, mas gostam da convivência social e da beneficência.
Lojas não podem, portanto, ser locais de reflexão essencialmente abstrata.
A debandada de membros entediados e desmotivados tem certa razão de ser. Falta-lhes um objetivo maçônico para continuar, falta-lhes, digamos assim, uma maçonaria objetiva.
Se as raízes de uma árvore são verdes, seus frutos serão verdes. Não vermelhos.
A maçonaria nasce com um grupo de construtores, de operários da pedra e da arquitetura material.
É isso que somos. Frutos verdes de uma raiz verdes.
Frutos de pedra de uma árvore cujas raízes são também de pedra.
Frutos de pedra precisam de uma catedral para construir senão perdem sua razão de ser.
Porque insisto tanto nisso?
Para concluir que Lojas maçônicas que não possuam um projeto atrelado à Loja, estão fadadas a inexpressividade operacional.


Alguns supõem que as Lojas da Ordem Maçônica são clubes de serviço. Não são. São muito mais do que isso. São núcleos de liderança espiritual e humanística.
E é preciso o envolvimento coletivo em projetos objetivos para que a noção de solidariedade e camaradagem se aprofundem e se solidifiquem. Para que os maçons modernos entendam o que os maçons primitivos aprenderam: que o trabalho em conjunto fortalece vínculos, que o objetivo comum torna a amizade forte como a pedra, e que em mentes ocupadas pelos problemas ligados à construção da estrutura material de Catedrais, como de Hospitais, de Creches ou de Asilos para Idosos não tem espaço para o orgulho, para a vaidade e para o tédio.
O veneno que corrói todas as Ordens de passado operativo tem um nome: o ócio.
Precisamos de metas, objetivos com início, meio e fim, planejados para consumir esforços de todos por anos, e que ao fim e ao cabo, ainda necessitem do trabalho de todos para se manter ao longo dos anos seguintes.
Esta é uma diretriz para estancar a sangria que as Lojas em todo o Mundo tem sofrido; mais: é a única maneira, na minha humilde opinião, para aumentar a qualidade dos quadros de cada Loja, de forma que os graus na Ordem sejam associados a maior competência e participação no projeto externo da Loja, e não apenas números às vezes destituídos de um significado maior.

Estamos em paz faz tanto tempo que estamos nos tornando fracos e sem reflexos, que estamos nos esquecendo dos perigos que geraram nosso amor ao segredo e nossos cuidados e palavras de passe.
Precisamos pelo menos recuperar a memória do que somos, de onde viemos, para que possamos fortalecer nosso presente e garantir nosso futuro.

Peço a todos que considerem estas palavras como prova de carinho e preocupação por uma Ordem que possui uma nobre história e que merece de todos as outras nobres e tradicionais Ordens a mesma atenção que quatrocentos anos atrás tiveram com os Rosacruzes, muitos dos quais foram abrigados em suas fileiras e protegidos da intolerância política e religiosa de outros tempos.
Os Rosacruzes são os zeladores da tradição.
Por isso, como rosacruz, acredito que aqueles que nos protegeram da Guerra não devem ser vítimas da Paz.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A ALQUIMIA DA PEDRA

por Mario Sales, FRC.:; S.:I.:; M.:M.:

Retirar pedras de lugar, e pedras grandes, não é fácil.
Maçons são como rochas.
A Ordem Maçônica surgiu como uma associação de construtores de igrejas. Os maçons, simbolicamente, portanto, são as pedras que sustentam o templo, o material que constrói e dá solidez ao sagrado.
Por isso, ainda hoje lembram aquelas primeiras guildas que se reuniam para comer e beber após um estafante dia de trabalho, de trabalho físico não espiritual e muito menos intelectual.
Faço estas considerações para concluir que, fora honrosas exceções como José Castelani e Nicola Aslan, e até Rizzardo Del Camino, os maçons não foram feitos para a reflexão filosófica.
Gostam de pensar que sim.
Gostam de se imaginar filósofos e pensadores.
Só que este não é o fato.
Não que isto os diminua, que isto deponha contra a Maçonaria. Não.




Só que os nichos de ação de cada grupo devem ser compreendidos para não cometermos equívocos e exigirmos do arqueiro que domine a arte da espada, ou ao espadachim que seja hábil no manejo da catapulta.
Cada um tem seu papel neste exército e o papel do maçon não é refletir ou pensar. É agir.
Também não quer dizer que dentro de uma Loja Maçônica não encontremos vários Irmãos que não queiram se dedicar a reflexão filosófica ou ética.
Só que esta não é a natureza da Ordem Maçônica.
Embora como Rosacruz eu ame a reflexão e a busca do Cálice Sagrado dentro do meu coração, o “Hole Graal” da mitologia britânica, como maçon reconheço que é necessário que algum grupo cuide da construção do ambiente físico em que serão feitas as preces que prepararão o espírito para este encontro com o Sagrado.
Esta é a função da Maçonaria.



Mesmo assim, todos os Veneráveis mestres devem insistir em propor aos seus Irmãos questões de caráter moral e ético pois a Maçonaria, como Ordem de construtores sociais, deve ser uma escola de líderes, e líderes devem saber como liderar, devem saber que para liderar primeiramente devem ser capazes de liderar sua própria língua, devem ser capazes de influenciar multidões com discursos que possuam valor moral, com imagens claras, e antes de tudo isso, precisam ter o desembaraço de manifestar com coragem e convicções suas idéias e destacar-se em uma multidão apática e sem rumo como pessoas seguras de seus pontos de vista, ao ponto de poderem catalizar transformações importantes para este grupo.
Na educação desses líderes maçons é preciso que exista um currículo mínimo. O problema é que não existe consenso sobre que currículo mínimo é este.
As lojas funcionam de modo mais ou menos improvisado neste campo, com um protocolo formal rígido, mas sem a mesma rigidez para o conteúdo educacional.
Trabalha-se pelo método de tentativa e erro, experimentando-se aqui e ali maneiras de atingir o coração desses Irmãos com alguma provocação que os mobilize, que os faça pedir a palavra e opinar com paixão e convicção.
Às vêzes parece pura perda de tempo.
Paciência. Uma hora as pedras se encaixam.
É preciso polir e polir até que esse encaixe seja perfeito.
Trabalhemos com paciência e calma.
O que importa é que ao final tenhamos uma construção sólida.
Esta é a Alquimia da Pedra.

domingo, 1 de maio de 2011

FUNDAMENTANDO A INTUIÇÃO

por Mario Sales, FRC.:; S.:I.:; M.:M.:

Vejam só como são as coisas. A gente começa conversando sobre uma interessante intervenção de um leitor defendendo uma linha de pensamento de um pensador alemão e acaba caindo na discussão da tridimensionalidade do Tzimtzum.
Foi esse o percurso que nos últimos dias me levou a pedir socorro ao meu frater e Mestre de Cabala (se bem que ele, humildemente, goste de se identificar apenas como um estudante do assunto) frater Reginaldo Leite.

Frater Reginaldo

Como comentei em um ensaio anterior, durante as conversações com Fernando, leitor do blog, acabei especulando a tridimensionalidade do Tzimtzum.
Mas foi uma digressão a partir da intuição, já que não tenho o conhecimento e os anos de leitura de Mestre Reginaldo para fundamentar certas afirmações. E não é que era isso mesmo?
O prestativo frater, segundo me contou hoje em um interessantíssimo telefonema from Recife, diz que ficou até 1 hora da manhã de hoje revisando seus textos e lá pelas tantas encontrou a seguinte passagem no livro “A Doutrina Secreta do Cabala”, de Leonora Leet, editora Madras, 2007, no capítulo “Uma Síntese da Cosmologia Kabbalística e Quântica”: “Saiba que, antes que as coisas emanadas fossem emanadas e as coisas criadas fossem criadas, a luz divina e pura preenchia toda a existência (...) Depois, Ein Sof contraiu-se em um ponto central com Sua luz no meio."

"Ele contraiu essa luz e depois se removeu para os lados, envolvendo em um círculo o ponto no centro (...) Essa contração, eqüidistante ao redor do ponto no centro, formou um vazio de forma que o vácuo era esférico por todos os lados em igual medida (...) Depois, uma linha reta desceu da luz do Ein Sof.”
(o sublinhado é meu) “Essa exposição de Chayim Vital no Etz Chayim deixa claros os principais estágios do Tzimtzum: o estabelecimento inicial de um ponto central de luz limitada, a retração eqüidistante a ele para formar uma fronteira esférica, e a entrada dentro dela de uma forma diferente da luz infinita circundante seguindo uma trajetória linear.”
Em seu sempre bem vindo e erudito telefonema, Mestre Reginaldo relata que Isaac Luria nunca escreveu uma linha sequer, após sua iluminação através de longa meditação em uma caverna aonde estudou o Torá.


Chain Vital

Foi Chayin Vital quem redigiu seus ensinamentos e os publicou em um livro chamado Etz Chayin, em português Árvore da Vida.





Em
http://www.chabad.org.br/tora/cabalaterapia/biografia_cabalistas/cab014.html  lemos um texto de Moshe Miller que diz: “ Rabi Chaim Vital (às vezes mencionado como Rabi Chaim Vital Calabrês, pois sua família era da Calábria, Itália), nasceu em 5303 (1543 EC). Rabi Chaim é famoso principalmente por ter registrado e editado os ensinamentos de Rabi Yitschac Luria, embora ele próprio fosse também um notável cabalista e escritor.”
Diz Mestre Reginaldo que este trecho do Etz Chayn deixa clara a correção conceitual de que, no Tzimtzum cabalístico Luriano, a imagem é de uma esfera que abre dentro de si um espaço também esférico e permite assim o espaço conceitual para a criação como a conhecemos.
Existe profundidade, largura, comprimento.
Curioso que este trecho revela um aspecto pouco discutido aqui pelos trópicos, já que o Etz Chaim não tem tradução para o português que eu saiba (se alguém souber me avise porque tanto eu como Mestre Reginaldo agradecemos).
O livro em que Reginaldo encontrou esta citação, da professora Leonora Leet, é um extenso trabalho de busca de compatibilização entre a Cabala e a Mecânica Quântica.


Ela compara detalhadamente a descrição das fases da Cabala Luriânica na formação do Universo, o Big Bang de Luria, digamos assim, com o consenso científico atual dos físicos de partículas, o Big Bang científico.


Denomina o ponto inicial onde a Luz que desce do Ain Sof até o meio do espaço conceitual da Criação como o mesmo centro de expansão postulado pelos cosmologistas, o momento zero de tudo. E começa a passear por létpons e hádrons com uma familiaridade muito peculiar, o que parece estranho a primeira vista, já que a Dra Leonora Leed é PHD em língua Inglesa por Yale, e não em física.



Quem se interessar, poderá adquirir o livro em português (eu vou fazer isso), já que foi, como vimos, publicado pela Madras.
Boas leituras.
PS: Eu sou do tempo em que haviam apenas elétrons, prótrons e neutrons. De lá para cá tudo mudou. Abaixo a descrição desta miríade de partículas moderna.