UM EXERCÍCIO SOLITÁRIO, POÉTICO E FILOSÓFICO, BASEADO NO PRECEITO ROSACRUZ DA MAIS COMPLETA LIBERDADE (POSSÍVEL) DENTRO DA MAIS PERFEITA TOLERÂNCIA (POSSÍVEL). O MARTINISMO E O ROSACRUCIANISMO COMO REFLEXÃO.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
domingo, 2 de novembro de 2014
CAMADAS
por Mario Sales, FRC,SI,CRC gr.18°
Lá pelas tantas do artigo "O Inimigo Interno",
mencionei que especialistas do pensamento também podem se equivocar e defender
tiranias, regimes de exceção, levados por um romantismo aparentemente
inexplicável.
Isto pode ter causado estranheza naqueles que ainda crêem que
a razão é o melhor instrumento de compreensão e intervenção no Mundo
da Vida (o "Lebenswelt" de Jürgen Habermas).
Não é.
Há décadas, a razão está sob suspeita.
E tudo começou ao final da 2a Grande Guerra.
Os pais do pensamento filosófico moderno e contemporâneo, os
alemães, preconizaram naquela época a mais organizada, científica e metódica
máquina de genocídio já vista.
As análises posteriores de Hannah Arendt sobre a "banalidade
do mal" em seu livro "Eichmann em Jerusalém"; a descoberta da
filiação nazista de Heidegger e de sua traição ao seu mentor, Edmund Husserl,
somadas a percepção de que a ciência, cume da razão humana, (usada para a
construção tanto das câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau e Treblinka quanto na dos
terríveis mísseis V2, que mataram milhares de ingleses), não era
necessariamente uma atividade sempre voltada ao bem da humanidade,
acabaram com esta ilusão.
A lógica não nos protegeu da sordidez, já que o método de
extermínio de judeus era extremamente lógico.
A razão não nos protegeu do mal, já que a guerra, antes
justificada por valores morais (a honra), ou religiosos (a vontade de Deus),
agora encontrava justificativas racionais (criar um império de seres supostamente
superiores geneticamente).
E já que falei de Heidegger, em nada sua visão política
distorcida e equivocada prejudicou sua lucidez como pensador. Suas
contribuições à filosofia ainda são importantes e fundamentais, mesmo que como
cidadão e ser humano ele tivesse demonstrado um indivíduo precário.
As duas atividades da mente, a emocional e a essencialmente
intelectual, são camadas diferentes de nossos filtros mentais.
Podemos ter um raciocínio claro e poderoso e emocionalmente sermos frios ou maquiavélicos. O que não é o mesmo que dizer que é o
intelecto que nos torna mesquinhos ou cruéis, já que não é a faca na mão do
assassino que perfura a carne da vítima, mas sim a mão do algoz movida pela
vontade de seu cérebro.
Instrumentos são tão inocentes quanto qualquer coisa inerte
pode ser. Não possuem valores, não decidem qual o objetivo e finalidade de seu
uso particular por este ou aquele indivíduo.
Instrumentos são coisas mortas que ganham vida na mão de
seus usuários, da mesma forma que o barro ganhou vida pela intervenção do sopro
divino.
Não há vida sem o sopro, apenas barro.
O segredo é o sopro, o alento.
Assim, a razão não merece
confiança, se não conhecermos as emoções por trás de seu uso.
Na compreensão das atitudes, entendamos, os resultados
finais dependem de camadas mais profundas de filtragem, e o que a razão trabalhará,
inocente e competentemente, será sempre o que restar da filtragem da emoção.
É na filtragem da emoção que se define o material a ser
elaborado, nada mais, nada menos. Caberá à razão, apenas, justificá-lo pelo
discurso e viabilizá-lo através da técnica.
Existirá uma camada anterior a da emoção?
Existem controvérsias.
Os biólogos e bioquímicos dirão que antes de sentirmos,
certas substâncias em maior ou menor quantidade em nosso sistema
endocrinológico e neuroquímico nos levarão a sentir o que sentimos, sendo a emoção
escrava da neuroquímica e dos hormônios.
Espiritualistas, por sua vez, dirão que o espírito ou a alma
ditará ao corpo certas secreções que levarão a certas emoções e daí em diante,
na cascata de eventos.
Existem aqueles que acham que ambos estão corretos, e preferem
um pensamento intermediário, em que alma e o cérebro dialogam com o meio
externo, materializando compreensões resultantes destes diálogos.
Assim o homem não seria produto de seu meio, nem o meio
produto dos homens, mas ambos refletiriam a combinação de mútuas influências de
um sobre o outro, o que geraria o resultado final.
Entrariam no cálculo deste resultado as consequentes
alterações descritas dentro do ser humano, as tais filtragens, que seriam
afetadas pela experiências e, ao mesmo tempo, gerariam novas experiências.
O que chamamos Mente seria o conjunto de ações
neuroquímicas, emoções e razão.
De qualquer forma, antes da razão "fundamentadora"
e justificadora, e da técnica que dá materialidade às idéias surgidas da
reflexão racional, estariam as emoções, pela velocidade destas, em contraste
com a natural lentidão daquela.
É preciso estar atento às camadas mais profundas, portanto.
O que move as pessoas vem do fundo, e por mais límpido e
cristalino que pareça seu discurso, ele é apenas a consequência de intenções já
filtradas e direcionadas pela camada emocional, que é mobilizada apenas e tão
somente por traumas capazes de varar até às regiões abissais da mente e ali
depositar impressões diretoras.
Esses traumas e modulações da mente profunda são mais comuns
em momentos da vida que somos mais mentalmente indefesos, geralmente a
infância.
Nada impede no entanto que, dependendo da intensidade destes
traumas pessoas adultas também não tenham seu ser profundo alterado por
experiências emocionais no período da maturidade.
Esta análise nada tem de original.
Escrevo, descrevo e compartilho estes pensamentos apenas como um exercício de organização de conceitos, que é o que faço todo o
tempo neste imaginário.
Talvez, quem sabe, não sejam conceitos tão óbvios para
outros e possa de alguma forma, auxiliá-los a compreender sua própria natureza.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
ESTÁVEL INSTABILIDADE
por Mario Sales, FRC,SI,CRC gr.18°
Mais que um dia de alegria
quero a eterna serenidade
ofuscando a dicotomia
do bem e do mal,
da luz e das trevas,
já que oscilar entre extremos
cega
nossa percepção do delicado equilíbrio
e do enorme lucro conseguido
apenas por se ficar imóvel
no centro, no meio,
dentro,
atento,
quieto, sem ansiedade ou desejo,
desfrutando placidamente o fluxo,
o nexo, a conexão com tudo,
com todos, ao mesmo tempo,
muitos corpos, uma mente,
atenta
ao movimento.
Portanto,
se nossa emoção ou comoção,
motivos, nos garantir,
para chorar ou rir
Suspeitemos imediatamente, de um embuste,
uma traição,
já que tanto a lágrima como o sorriso,
são frutos da mesma ilusão.
O tic tac do carrilhão
ininterrupto,
o tempo se deslocando com inabalável dormência;
a única certeza da existência
é a fugacidade,
a impermanência.
O que hoje parece sólido e duradouro,
flutua, como um ancoradouro,
escravo dos movimentos do oceano.
Horas, dias, anos,
esvaindo-se pelas mãos, como a água.
Nada permanece,
nada.
Só o fluxo persiste.
do bem e do mal,
da luz e das trevas,
já que oscilar entre extremos
cega
nossa percepção do delicado equilíbrio
e do enorme lucro conseguido
apenas por se ficar imóvel
no centro, no meio,
dentro,
atento,
quieto, sem ansiedade ou desejo,
desfrutando placidamente o fluxo,
o nexo, a conexão com tudo,
com todos, ao mesmo tempo,
muitos corpos, uma mente,
atenta
ao movimento.
Portanto,
se nossa emoção ou comoção,
motivos, nos garantir,
para chorar ou rir
Suspeitemos imediatamente, de um embuste,
uma traição,
já que tanto a lágrima como o sorriso,
são frutos da mesma ilusão.
O tic tac do carrilhão
ininterrupto,
o tempo se deslocando com inabalável dormência;
a única certeza da existência
é a fugacidade,
a impermanência.
O que hoje parece sólido e duradouro,
flutua, como um ancoradouro,
escravo dos movimentos do oceano.
Horas, dias, anos,
esvaindo-se pelas mãos, como a água.
Nada permanece,
nada.
Só o fluxo persiste.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
O INIMIGO INTERNO
por Mario Sales, FRC,SI,CRC gr.18°
A estratégia de combate mais antiga entre todos os generais é dividir para conquistar.
Não precisamos nem devemos enfrentar um exército coeso e monolítico. O melhor é quebrá-lo em pedaços menores, descobrindo suas fraquezas, seus problemas internos, e focar aí, ardilosamente acentuando-os, como uma enzima que quebra ligações proteicas e desmancha algo que antes parecia tão sólido.
Então, se a educação é ruim, diminui-se o número de cadeiras na escola; se o reitor de uma universidade exige qualidade docente, cria-se a eleição direta em que o mais votado é aquele que exige menos e paga o melhor salário; se a saúde não funciona, culpam-se os médicos e joga-se a população contra eles, de forma que se transformem em bois de piranha enquanto a manada no poder passa ao largo, incólume, praticamente sem um arranhão.
Técnicas psicológicas primárias de influenciar o eleitorado ou qualquer grupo de pessoas, foram usadas ao longo de toda a história da humanidade, não com a intenção de melhorar a sociedade, mas na busca da perpetuação do poder de um grupo determinado.
E assim continuará a ser, até que todos recebam as armas filosóficas adequadas, que nos defendem da mediocridade e da pobreza espiritual: a capacidade de reflexão.
A proposta mais perigosa de domínio é oferecer alimento para o corpo e negar alimento para o espírito.
É assim que se criam os zumbis sociais, os comandados mentais que não tem vontade própria, aqueles que apenas sobrevivem dia após dia, aparentemente mais felizes e gordos, mas mais estúpidos e manipuláveis.
E pode-se fazer isso com qualquer grupo.
Pode-se hipnotizar as pessoas com as coisas da matéria, seja arroz e feijão, sejam bolsas Louis Vitton. E se somarmos a isso o preenchimento do vazio existencial com tolices e amenidades, temos uma massa de manobra fácil de administrar.
No marxismo/leninismo esses indivíduos são chamados de inocentes úteis, pessoas que movidas por um estado de atenuação crítica, pela falta de raciocínio político mais profundo acham normal e mais fácil acreditar em lendas de inimigos externos responsáveis pelas nossas mazelas do que na nossa própria incompetência.
Para o idealista, o inferno é o outro.
Nós mesmos não temos pecado, somos indivíduos dignos e nobres, e se não fosse pela ação de terceiros, teríamos sucesso.
Assim, se eu não fui promovido, a culpa é do meu chefe; se minha mulher não me ama, é porque não me compreende; se meus amigos me criticam, é porque são reacionários estúpidos; se não vou bem nos estudos é por que o professor me persegue; se sou multado por excesso de velocidade, estando realmente em excesso de velocidade, não é porque pisei mais fundo no acelerador mas por que os radares são "fábricas de multa".
Shakespeare lembrava disso ao dizer em um texto que "ninguém era um bêbado por causa das estrelas, mas porque bebia".
E esta capacidade de reconhecer em nós mesmos as causas de nossos problemas é manifestação direta de nossa maturidade emocional e psicológica.
Adultos nem sempre são maduros. Por isso é possível que homens e mulheres cometam equívocos, basta que estejam devidamente alimentados do alimento material e privados do alimento espiritual, a capacidade de pensar que liberta.
E desde que Platão se equivocou ao pensar que pudesse influenciar o político, no caso do tirano de Siracusa, nem mesmo os filósofos estão livres de equívocos.
Ser um pensador profissional não desfaz a possibilidade de ser sensível à preconceitos ou a receitas extremistas, pelo contrário, a razão pode fundamentar qualquer coisa, inclusive o mal e a tirania.
O remédio para a ignorância e o totalitarismo é a reflexão verdadeiramente calcada em valores democráticos, na crença que qualquer homogeneidade é burra, que é preciso permitir que as pessoas opinem e que precisamos da diferença para conseguirmos uma vida social saudável.
Imprensa livre, mesmo que contra; salários altos para os professores, escolas de tempo integral, educação filosófica e humanística, ênfase no raciocínio científico, pragmático, fundamentado.
E principalmente, permitir que todos, todos estudem psicologia, e aprendam a defender suas próprias mentes de qualquer tentativa de invasão.
Não defende sua casa aquele que constrói muros altos, mas sim aquele que conhece a si mesmo e que é capaz de barrar as invasões que vem de dentro, não as que vem de fora.
É dentro de nós que moram nossos inimigos, nossos preconceitos e erros, nossas crenças equivocadas e superstições.
Se não nos defendermos desses ataques, se não pararmos de inventar íncubus e súcubus para justificar nossas perversões solitárias, pouco teremos amadurecido.
E seremos presa fácil de qualquer um que saiba com sua língua, como a serpente, nos tentar.
sábado, 25 de outubro de 2014
REPERCUSSÕES
por Mario Sales, FRC,SI,CRC gr.18°
A palavra percussão
é sinônima da palavra golpe.
Instrumentos de percussão são instrumentos que dependem, para a produção de
seus sons característicos, de golpes desferidos em uma membrana esticada, que
assim ecoa.
A rigor até o piano é um instrumento de percussão já que as
teclas ferem cordas internas para produzir vibrações e as características notas
musicais.
Os tambores e bumbos, no entanto, são exemplos mais
imediatos que vêm à nossa mente quando usamos a expressão percutir.
Repercutir seria portanto ecoar uma percussão anterior,
repetir os sons anteriores de outro tambor, como nas técnicas primitivas de
comunicação entre as tribos da áfrica, que golpeavam troncos ocos ou
instrumentos mais elaborados para transmitir mensagens além.
A imagem que fica é de que aquilo que repercute se espalha,
avança sobre o espaço, se expande.
Faço essas considerações por causa da repercussão do meu
mais recente ensaio, "A Importância da Paixão", que teve uma
inesperada repercussão.
Digo inesperada porque há tempos não publico nada de minha
própria lavra. Os bloqueios criativos são normais e hoje convivo com eles
pacificamente, aceitando-os como silêncios cíclicos necessários no ritmo da
música da vida.
Aprendi com o poeta:
Não haveria luz se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim
Dia e noite, não e sim
Cada voz que canta o amor não diz tudo o que quer dizer
Tudo que cala fala mais alto ao coração
Silenciosamente
Eu te falo com paixão
Eu te amo calado
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncio e de luz
Nós somos medo e desejo
Somos feitos de silêncio e som"
Portanto aceito esses instantes de silêncio, mesmo que sejam
instantes que durem meses, por que sei que são naturais e necessários para que
a expressão seja adequada.
Como havia semanas que não publicava, já achava que não
haveria leitores pelo menos atentos e capazes de reagir tão rapidamente a estes
traços.
Súbito, vejo a caixa postal encher de comentários, um
contra, dois a favor, um deles belíssimo e lírico, postada por alguém chamado
Longchempa, a quem agradeço a citação:
"Do Canto Doze: Liberação
Em suma, toda a percepção sensorial consciente,
E tudo o que é inconsciente ou transcendente,
Tudo já está liberado no espaço de agora,
Assim, qualquer tentativa de liberar qualquer coisa de novo é supérflua.
É inútil tentar fazer um esforço no sentido de liberação!
Portanto, não tente! Não tente! Não lute e se esforce na prática!
Não procure! Não procure! Não busque a verdade intelectual!
Não medite! Não medite! Não invente meditação!
Não analise! Não analise! Não analise dentro ou depois de um evento! Não pratique! Não pratique! Não pratique o resultado de esperança e medo!
Não rejeite! Não rejeite! Não rejeite carma emocional!
Não acredite! Não acredite! Não acredite em religião justa! Não se prenda! Não se prenda! Não engaiole sua mente!"
Keith Dowman - Espacialidade"
É isso. Quem já tem , não procura. Quem já é não busca ser.
Não teme ser, já que não se envolve. Viver para ele é apenas contemplar, como
se se afastasse de si por um tempo e deixasse que se corpo e seu coração
fizessem coisas, dissessem coisas, sem se confundir com eles, observando-os
serenamente enquanto vivem, enquanto tateiam na existência e nos sentimentos,
procurando significados e esclarecendo dúvidas que nenhum espírito tem, só os
corpos, só os corações, estas mesclas de carne e alma fantásticas geradas pela
alquimia da existência.
Não confundir-se com o Eu é o segredo.
Sem este equívoco a vida é mais plena, não há culpa, não há
remorso.
O Eu tem uma função, tem um papel, mas o Eu é, mesmo assim,
apenas um instrumento, um óculos através dos quais enxergamos e imergimos na
experiência carnal.
O Eu não é o Indivíduo, a Personalidade Alma como dizemos na
Rosacruz, mas o Eu, tão atacado pelas várias linhas de espiritualidade, não é o
inimigo.
O que nos afeta, o que nos perturba, é a Identificação com o
Eu, a ilusão de acharmos que somos o Eu, de que as necessidades do Eu são as
nossas necessidades.
Desfeita a ilusão da identificação equivocada, a Vida
torna-se plena e sempre agradável.
É este estado que chamamos Iluminação, a libertação da
Errônea Percepção do que nos Circunda.
A Vida em si continua. Tudo permanece o mesmo.
O que muda é a percepção.
Mudando a percepção do que nos circunda e de nós mesmos,
nada muda e tudo muda, ao mesmo tempo.
Achei estranho um budista, o que ficou bravo comigo, ter me
escrito falando que eu tinha pervertido o Budismo ao citá-lo no referido ensaio
anterior.
Não achei estranho ter me corrigido mas a emoção e a paixão
com que o fez.
Havia ira em seus comentários, ou seja, uma atitude não
serena, não budística.
Não sou budista, não sou uma autoridade em Budismo, posso e
devo cometer equívocos interpretativos da doutrina budista todo o tempo. Mas
não me importo de ser corrigido pela mais pacífica e serena comunidade
religiosa de todo o mundo.
Budistas verdadeiros estão mergulhados em um estado de
serenidade permanente, a exemplo de seus líderes, uma serenidade que não é
artificial, mas natural, humana, autêntica.
Não negam as emoções mas sabem que as emoções são coisas do
Eu, e o Eu não é o que somos.
Nós não somos o Eu. O Eu é uma ilusão da mente.
E o budismo diz que libertos da ilusão da mente, das ilusões
do Eu, nos iluminamos.
Também penso assim.
E então recebo às vezes, comentários tensos, preocupados,
falando do que é certo e do que é errado em Budismo, etc, etc.
Curioso.
São os chamados religiosos de texto.
Não sentem a mensagem com o coração. Não deixam que ela
entre, que se aposse de seu ser.
E isto é fundamental na apreensão de um conhecimento
espiritual.
Não podemos aprendê-lo, mas sim apreendê-lo e deixar que ele
nos apreenda e nos inunde.
A verdadeira espiritualidade deve ser absorvida como a
esponja absorve a água.
E assim eu
vejo o budismo, como uma aula permanente sobre a importância do
autoconhecimento, nada mais.
Mais que uma
religião, a Doutrina Budista é um discurso de bom senso e técnica.
Bom senso ao
reconhecer no homem limitações naturais ligadas a sua ignorância daquilo que
ele é realmente.
E técnica na
medida que orienta o interessado em maneiras e métodos de transcender esta
ignorância e superá-la.
Portanto, é
uma linha de pensamento abençoada, porque desfaz, pelo conhecimento, todas as
nossas ansiedades e receios, todos os nossos medos e equívocos.
Ao meu
crítico, como sempre anônimo, peço que tenha tolerância comigo, mas minhas
posições são as posições de alguém naturalmente limitado, que jamais chegará a
falar com segurança de todas as coisas, alguém que quanto mais lê mais entende
que sua ignorância é imensa e que, por isso, não tem medo de errar, já que isto
é inevitável. Mas como diria o personagem humorístico, "não fique bravo".
Afinal, a ira é coisa do Ego, e voce é um Budista, e portanto sabe que não é o
Ego, não é a Mente, voce é Luz, Plenitude, Compreensão Absoluta. Não há lugar
para a ira em corações abençoados pela doutrina budista, e se a ira se
manifestar, olhe-a com tolerância e compreensão, porque são apenas ecos,
repercussões de sons distantes de um passado de ignorância ao qual, graças ao
Buda, Krishna, Melquisedeque, Cristo, Apolonio de Tiana e outros, não
pertencemos mais.
E fiquemos
em paz.
Ao comentadores do post, meu grande
abraço.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
A IMPORTÂNCIA DA PAIXÃO
por Mario Sales, FRC, SI, CRC gr.18°
Este período que marca uma das mais acirradas disputas
eleitorais que o país já viu, que literalmente dividiu o país ao meio, é
necessariamente um momento onde a serenidade desaparece. Até meu primo posta
mensagens pedindo que as pessoas tenham menos empenho em suas defesas de seus
candidatos, assustado com a intensidade das emoções envolvidas.
A manifestação livre da emoção sempre foi considerada um
risco à espiritualidade. Todo comportamento religioso primava e ainda em alguns
lugares prima por procurar o recato, a discrição, o silêncio. O próprio Saint
Martin tem uma famosa frase (aprendi que o Bem não faz alarde e o alarde não
faz bem) que estimula o recolhimento em prol da espiritualidade.
De certa forma, este recolhimento transformou-se em
tristeza, de forma que tristeza tornou-se sinônimo de espiritualização.
Nunca entendi bem este aspecto do recolhimento, se bem que
entendo o contexto em que surge este discurso.
Digo isso porque tenho grande simpatia pela alegria entre
jovens monges e autoridades budistas, sejam do Budismo Tibetano ou do Budismo
Zen. Não há tristeza em seus discursos.
Recentemente, publiquei aqui no Blog um longo vídeo dedicado
a Sua Santidade o Dalai Lama, quando em visita ao Brasil. Sua fala, ao longo de
três palestras, de mais de uma hora e meia de duração, em nenhum, vejam, nenhum
momento, tece quaisquer considerações sobre moral, hábitos ou costumes, pecados
e castigo, sofrimento e santidade. Sua fala foca em aspectos operacionais ou
históricos do Budismo, suas raízes, seus princípios, a natureza da mente e das
ilusões que ela fomenta.
As paixões humanas não são combatidas, mas aceitas como uma
parte e uma expressão da natureza humana comum. À um questionamento, em
determinada altura, sobre se ele, Dalai, também se aborrecia, sua resposta foi
como sempre preenchida de bom senso e sinceridade:
"- Claro que sim, há momentos em que meu temperamento
se altera, como qualquer ser humano."
O Dalai é avesso à separação mental entre santos e
pecadores, comum na visão cristã ocidental. Bons e maus, nobres e plebeus,
materialistas e espiritualistas, são divisões que não fazem sentido para um
budista que sabe que o dualismo é a mais importante ilusão da mente.
O Mundo não é apenas dual, ele parece Dual, porque o que
contemplamos, contemplamos com nossa mente, através de nossa mente, nossa lente,
através da qual, se a lente/mente for verde, tudo será verde, ou se ela for vermelha,
tudo será avermelhado.
As paixões, são manifestações legítimas de sentimentos entendidos
como passivos, nas palavras de Renée Descartes, em seu livro "As Paixões
da Alma".
Paixões são erupções de fluxos de emoções as quais dão
substância e colorido às nossas vivências na carne, mediadas por nossos
hormônios e sistema nervoso.
Não podem ser represadas sem que paguemos um alto preço
psicológico por isso, da mesma forma que represar um rio caudaloso é aumentar
sua pressão em um milhão de vêzes.
Se um indivíduo sabe que ele e o corpo não são a mesma
coisa, e sabe respeitar essas diferenças, não terá escrúpulos em manifestar
suas paixões no cotidiano, nem sentirá nenhuma culpa cristã por isso.
O Cristo, que dá nome a esta linha religiosa, não tinha ele
mesmo este pudor. Lembro-me de um episódio do Novo Testamento em que ele
expulsa os vendilhões do templo de uma maneira que, a meu ver, nada tinha a ver
com discrição ou falta de alarde.
Não, o mesmo cristianismo que, na visão de Friderich
Nietzsche, transformou a todos os seus seguidores em seres apáticos e sem
vigor, foi fundado por um homem vigoroso, corajoso, social e gregário.
Não vejo pois conflito em ter e manifestar paixões e buscar
ao mesmo tempo a evolução espiritual.
A vida no corpo não impede nossa alma de evoluir, apenas
acelera nossa evolução, assim como o fluxo da água de um riacho é mais rápido
quando ele contorna uma pedra em seu caminho.
Penso que quando voltar ao estado não manifesto não poderei
mais sentir o sol em meu rosto, nem o calor da tarde, nem o frio da noite, e
dessas coisas, sentirei saudade. São sensações banais, mas tão agradáveis e
provocam em mim uma tal felicidade, que não posso evitar de lamentar a ausência
desses momentos.
Não tenho vergonha pois de perder temporariamente minha
serenidade para minhas paixões, desde que meu motivo seja justo e nobre.
Estas paixões não nos desmerecem, mas dignificam nossa
condição humana.
Indignar-se é a última manifestação de liberdade humana. Desfrutemos,
sem culpa, pois, da vida e das paixões geradas por quaisquer indignações justas.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)






