Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

COMO RELACIONAR-SE COM A VAIDADE E O EGOCENTRISMO

Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:


Nem todo egocentrismo é do mal.


Embora no Eclesiastes esteja a mais antiga advertência quanto aos perigos da vaidade, a ausência total de vaidade resvala na ausência de auto-estima e isto é prejudicial do ponto de vista psicológico.


Muitos espiritualistas equivocados têm advogado ao longo dos séculos o abandono de toda vaidade e de toda noção de ego para alcançar mais rápido a santidade, mas na verdade o que sucede é que estes homens, por força de convicção ou de dogma, isolam-se da sociedade e vivem de forma marginal, transformando-se nos “santos por ausência de chance de pecar”, tão comuns na história da busca espiritual.


Há muito tempo esta prática foi denunciada como artificial, se bem que não deixa de ser uma questão de opção. O teste da vida, os lucros da interação com o social para o crescimento espiritual são diretamente relacionados a este convívio e o afastamento das provocações da vida mundana não resolve automaticamente as pendências psicológicas espirituais que possas existir. Muitos mestres hindus como Lahiri Mahasaya, paramguru de Paramahansa Yogananda, citado por este último em “Autobiografia de um Yogue Contemporâneo”, confirmam que se todos os desejos de um determinado plano espiritual não forem devidamente revirados e trabalhados, estes mesmos desejos transformar-se-ão em amarras que impedirão o salto qualitativo de um plano de evolução ao seguinte.


Portanto, viver em sociedade não só é bom para o equilíbrio como também necessário para a evolução, e se é possível argumentar que as tentações do mundo podem atrasar a evolução espiritual, é possível dizer que, ao mesmo tempo, elas podem acelerá-la.


Outro exemplo na história do misticismo da necessidade do convívio social mundano daquele que está legitimamente interessado em progredir espiritualmente está no novo testamento bíblico e na história do Cristo, Jesus, que inaugura sua atividade mística em uma festa de casamento, além de ir buscar discípulos até em festas nas casas de coletores de impostos, divertindo os que ali estavam com suas histórias e parábolas.


Portanto, uma coisa é conviver em sociedade e outra concordar em ser contaminado pelos maus costumes e pela vaidade reinante na vida social.


Ao lermos com atenção o texto do Eclesiastes citado acima, veremos que ele, o narrador, só conclui ser vaidoso depois de desfrutar muito tempo de todo o luxo e glória que o mundo pode dar a um homem. Ele não fez esta descoberta através da miséria material, mas sim após desfrutar da riqueza e da nobreza por décadas.


Concluo que é possível buscar-se a Deus entre os homens e mulheres, e entre a abundância material, sem prejuízo da evolução.


Costuma-se erroneamente, como vimos acima, associar-se a vaidade às posses intelectuais e materiais de um determinado indivíduo.


Na verdade, o vaidoso o é porque é, não por que tem isto ou aquilo, mas por que lhe falta sabedoria e apenas isto, nada mais. A culpa não está em suas qualidades, as quais depõem a seu favor, mas na sua falta de maturidade psicológica, já que o vaidoso não tem noção do outro, vive em estado auto centrado, o que revela um distúrbio comportamental.


Ele não é vaidoso porque é rico, inteligente ou belo, mas apenas por ser espiritualmente simplório.


Não estamos falando de uma patologia psiquiátrica, mas de uma deficiência psicológica na percepção do outro. O vaidoso, por definição, só contempla a si mesmo. Isto revela um desequilíbrio de percepção.


Na avaliação do desconforto causado pela convivência com alguém extremamente vaidoso é preciso levar em conta também as nossas próprias frustrações pessoais.


É muito comum que alguém cheio de soberba em função de suas qualidades e sucessos nos cause desconforto não por causa de seu orgulho de si mesmo, mas porque ele agride o nosso próprio Ego, nos lembrando de nossa insignificância em comparação com seu sucesso. O nome deste fenômeno é Inveja.


O problema da Inveja está intimamente relacionado ao da Vaidade. O vaidoso provoca e ofende muito mais ao invejoso do que ao ser humano em paz com seu espírito.


Este é um dos fenômenos ao qual deveremos estar atentos, em nós mesmos, quando nos relacionarmos com alguém extremamente vaidoso.


Afinal de contas, todos nós temos necessidade de narrar nossos sucessos e ocultar nossos fracassos. É parte da natureza humana.


Montaigne já nos alerta em Ensaios, Livro III, Capítulo 9 que “seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”. (p. 19)


Isto nos remete a outra ilação: a vaidade oculta uma necessidade de aprovação alheia. O vaidoso precisa da atenção alheia, tem grande carência afetiva e por isso exibe-se de forma a ser notado e receber este afeto desejado.


Isto posto, Vaidosos são, na verdade, pessoas extremamente fragilizadas.


Só os fortes são capazes de manter certa continência verbal, e eu mesmo sou testemunha pessoal da dificuldade de conter meus pensamentos e educar minha própria língua.


Pessoas vaidosas, em princípio, não serão bons esoteristas, já que terão dificuldade em guardar segredos.


Se os encontrarmos em nossas andanças, dentro ou fora do ambiente das Ordens Esotéricas, devemos estar atentos não a eles, propriamente, mas a nós mesmos, indagando-nos se o desconforto que aquele espírito cheio de soberba nos causa é decorrente de seu orgulho ou de nossa inveja, e se é uma vaidade fundamentada em competência incontestável ou fruto apenas de fantasia pessoal, sempre tendo clareza quanto ao fato de que a exposição do vaidoso encerra um pedido de atenção e denuncia grande carência afetiva, provavelmente com raízes no período da infância.