Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará).

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

DIÁLOGOS ROSACRUCIANOS, CAPÍTULO 5: 3° SEMINÁRIO, 1a PARTE

Frater Erik Satie


Bernardo: Aqui estamos para iniciar o 3° seminário de avaliação interna e discussão de assuntos rosacruzes. Sejam todos bem vindos.
Comenius: Vamos começar deixando como fundo a musica de um grande frater de uma sensibilidade sem igual e que pode em muito nos inspirar. Esta seqüência é chamada de “Gnossienne”, de números 1 a 6. A música foi composta pelo frater Erik Satie.

Bernardo: Hoje, eu e Comenius queremos ler para vocês uma manifesto que muito nos influenciou e que vem de um frater que pede para manter-se no anonimato.
Comenius: O título deste ensaio é “Doutrina versus Orientação”. Bernardo começará a leitura e de trechos em trechos revezaremos para que não fique cansativo. Bernardo!
Bernardo: Obrigado. Comecemos.



DOUTRINA VERSUS ORIENTAÇÃO
Uma análise das bases religiosas e filosóficas das dificuldades de se lidar com a prosperidade material e uma defesa da necessidade da implantação de simpósios científicos por grau , em toda a nossa região e em outras regiões da AMORC

Introdução


Neste ensaio, por decorrência do raciocínio, faço referência a duas grandes correntes religiosas mundiais.
Embora explicite que meu interesse não é discutir o mérito de nenhuma delas, já que para o iniciado rosacruz todas as formas de expressão da religiosidade são dignas e devem ser respeitadas como caminhos legítimos para a Divindade, sempre é interessante fazer uma ressalva inicial para tentar evitar equívocos, comuns e prováveis. Como digo no ensaio, “a Rosacruz AMORC não é de modo algum uma associação sectária e jamais discriminou seus membros e aspirantes por sua opção religiosa". Esta reflexão, portanto, é uma análise, como estabeleceu o sociólogo Max Weber, “ da genealogia histórica do tipo de moral e dos valores filosóficos que acompanham cada grupo religioso.” Mesmo assim, pode ser que algum membro da Ordem e ao mesmo tempo membro de alguma destas religiões (ou escola, como preferem alguns Kardecistas) sinta-se desconfortável com estes comentários.
Neste caso, recomendo que leiam A Ética protestante e o Espírito do Capitalismo, de Weber.
O livro, escrito no séc. XIX, ainda é referência em sociologia e economia, e é amplamente aceito na comunidade científica como uma análise sóbria, e fundamentada em dados históricos, da maneira como cada grupo religioso encara os bens materiais e a sua manipulação e a relação que este tipo de perspectiva religiosa tem com a prosperidade de pessoas e nações. Muitos de meus amigos pessoais são seguidores do Kardecismo, e tenho particular gratidão a estas pessoas ligadas à linha de Pietro Ubaldi, que em muito lembra os princípios e as perspectivas filosóficas da Ordem Rosacruz, quando da minha estada em Campos dos Goytacazes, no norte do Estado do Rio de Janeiro, durante meu curso de graduação em Medicina. Posto isto, meus comentários têm exclusivamente a função de, no espírito Rosacruz de investigar o Eu Interior e estar a par das nossas mais profundas motivações comportamentais (“Conhece-te a ti mesmo”) , trazer a luz coisas que estão ocultas no cotidiano e que a meu ver dificultam a prosperidade material da Ordem na América do Sul e provavelmente no México , regiões conhecidas por serem de grande maioria católica. Gostaria de lembrar também que a simplicidade é uma armadilha teórica que encontramos constantemente entre os buscadores da Luz Maior. Não é a simplicidade do medíocre que objetivamos quando falamos em ser simples como as crianças. A simplicidade mística é semelhante ao ato simples de operar uma televisão ou um aparelho de DVD, hoje em dia, que oculta em seu manuseio toda a complexidade científica por trás de seu desempenho e fácil manipulação. O místico , por definição , é um ser altamente complexo, tem grande cultura espiritual, aperfeiçoa durante anos , em cada encarnação, seu caráter e seus dons, e com isso seu contato com Deus todo poderoso. Isto nada tem da simplicidade do medíocre. Ser simples , portanto, não é ser analfabeto, materialmente miserável, insensível ou grosseiro. Ser simples é alcançar, por meio da meditação e do esforço pessoal, uma compreensão clara do funcionamento do Universo e render-se a sua vontade com consciência e não apenas com resignação. O místico rosacruz, não Crê, mas Sabe que a Vontade de Deus sempre visa o melhor para ele e para a humanidade; sabe porque compreendeu em seu interior esta grande verdade de que nada o ameaça mais do que o Medo e a Ignorância. Portanto, no espírito de aumentar este refinamento crítico místico, escrevi o ensaio que se segue. Peço a Deus que ele enriqueça a reflexão de todos que o leiam, imploro pela tolerância rosacruz aos meus frateres e sorores e espero que ajude a todos a terem menos receio da prosperidade material.



Definições e Conceitos


A palavra doutrina , no dicionário Aurélio,1a edição, 1975, é definida na página 492 como “1.conjunto de princípios que serve de base a um sistema religioso, político, filosófico ou científico.(...) 3.ensinamento, pregação (...) 5.texto de obras escritas; 6.regra, preceito, norma” e mais a frente, na definição da palavra doutrinado, descreve o mesmo como “instruído”, bem como “ensinado, amestrado”, aí já com uma conotação menos dignificante.
Mais a frente a palavra doutrinar é caracterizada como “instruir numa doutrina, ensinar”e assim por diante.
Peço que me perdoem este momento dicionaresco e semântico, mas é preciso caracterizar com clareza o equívoco de usar uma única conotação das muitas que uma palavra pode ter em detrimento de outras mais nobres em uma campanha publicitária.
Isso aconteceu recentemente em nossa ordem ao divulgar panfletos onde se lia que “a Ordem Rosacruz não doutrina, orienta.”
Ora, esta preocupação me percorreu a espinha por que , sabedor que os dois princípios básicos do rosacrucianismo são Sistema e Ordem ,e sendo a atividade doutrinária, ou de ensino, sua mais importante função enquanto escola mística, fiquei com a impressão subjetiva, na época, de que uma Doutrina Rosacruz, no sentido de conjunto de informações técnicas , axiomas e postulados não existia e o trabalho da Ordem fosse apenas aquele dos sinais de transito, que apontam direções à direita ou à esquerda.
Acredito que a leitura de textos correlacionados ao ensinamento da Ordem seja fundamental a formação do estudante rosacruz , na ampliação de seus horizontes e para sedimentar a idéia de que a verdade é uma só, mas tem mil faces.
No entanto, isto não quer dizer que a Ordem Rosacruz em si não tenha uma doutrina própria de interpretação da realidade e da nossa relação com a realidade.
Seus estudantes , aqueles que participam de atividades templárias ou lêem suas monografias em seu sanctum , ou ambos , recebem ao longo de anos uma série de informações acerca de técnicas que se não são criação da Ordem , são pelo menos transmitidas pela Ordem de tal forma e com tal estratégia que se pode falar em uma maneira rosacruz de ver o mundo.

Comenius: (e continua o frater) E talvez o que nos falte não seja a consciência deste fato, esta maneira rosacruz de ver o mundo, mas um discurso claro sobre ele, um consenso sobre a forma de defini-lo, como se faria em um dicionário. O lema, maravilhoso, de a mais ampla liberdade na mais completa tolerância tem levado ao equívoco (velado e não expresso) de que não exista um Corpo de Doutrina no seio do ensinamento Rosacruz para alguns de nossos membros.
A Ordem , embora seja o resultado do trabalho de todas as mentes que dela participam ou participaram, não é uma colcha de retalhos filosófica.
Ela possui Ordem e Sistema.
Ordem é Sistema e Sistema, é Ordem.
E que sistema é este que temos para nos chamarmos , a nós mesmos, de uma Ordem?
São o Sistema e a Ordem que vem da informação e do conhecimento compartilhado de forma ampla por todos, ou seja, um corpo de doutrina que está dentro de cada rosacruz, o qual não deve se envergonhar de possuí-lo, nem de ter sido doutrinado, ou seja, instruído neste conjunto de informações e valores que caracteriza o conhecimento da Rosacruz.


Contexto sócio religioso dos rosacruzes do século XVI e XVII


Por exemplo, nossa tradição, enquanto místicos rosacruzes , não é proveniente do cristianismo católico, da Igreja de Roma . O provável autor do Fama Fraternitatis , Johan Valentin Andréa, no século XVII, era protestante.

Johan Valentin Andrea, autor do Fama Fraternitatis

Nosso primeiro imperator para este ciclo de atividades, Harvey Spencer Lewis , era metodista, um outro viés do movimento protestante luterano.
Vejamos o que nos diz este texto tirado da Wikipedia sobre o círculo de Tübigen, de onde se originou o Fama Fraternitatis:
“A grande maioria dos personagens relacionados com o lançamento dos "Manifestos Rosacruzes" se originaram do meio luterano alemão. É de se notar que o próprio Lutero foi um dos primeiros a utilizar uma "rosa-cruz" (o "selo de Lutero", ou "rosa de Lutero") como símbolo de sua teologia.
A Rosa de Lutero

Abaixo de muitas rosas de Lutero está a frase: “O coração do cristão permanece em rosas, quando ele permanece sob a cruz.”
É amplamente discutível se os chamados "reformadores radicais" teriam exercido uma forte influência sobre os rosacruzes, ou, como algumas evidências parecem sugerir, se teriam sido os Rosacruzes a influenciar esses reformadores. Esses pensadores e teólogos luteranos acreditavam que a Reforma de Lutero deveria ser ampliada, que a doutrina ortodoxa não era suficiente, e que o Cristão devia realizar a comunhão mística com Deus. Entre outros, é possível citar os nomes de Caspar Schwenckfeld, Sebastian Franck e Valentin Weigel.
Caspar Schwenckfeld

Johann Arndt, teólogo luterano alemão cujos escritos místicos circularam amplamente na Europa no século XVII, amigo e mentor espiritual de Johann Valentinus Andreae e amigo muito próximo de Christoph Besold, também é uma influência conhecida. Arndt foi muito influenciado pelas idéias de Valentin Weigel, e é considerado o “pai” do movimento pietista alemão.

Johann Arndt

O místico e teósofo luterano alemão Jacob Boehme e o educador Jan Amos Comenius foram contemporâneos do movimento rosacruz original do século XVII e também davam testemunho de uma mesma sabedoria. Comenius chegou a denominar a Unidade dos Irmãos da Boêmia-Morávia, da qual ele foi um dos líderes principais antes de seu desaparecimento, como "Fraternitas Rosae Crucis". Além disso, ele considerava Johann Valentin Andreae sua primeira fonte de inspiração, considerando-o “um homem de espírito ígneo e de inteligência pura”, tendo-o contactado e recebido deste "o archote" para dar continuidade à tarefa iniciada. Muitos dos que responderam ao chamado dos manifestos rosacruzes, como Michael Meier e Robert Fludd, também se ligavam à mesma fonte de força espiritual.
O historiador francês Paul Arnold foi o primeiro a considerar os três manifestos como a obra comum do "Círculo de Tübingen", ou seja, o grupo que se reuniu ao redor do (futuro) teólogo Johann Valentinus Andreae e dos juristas Tobias Hess e Christoph Besold, na Universidade de Tübingen (Alemanha). Frances Yates, no entanto, relacionou o rosacrucianismo "clássico" do século XVII unicamente a Frederico do Palatinado e sua corte inglesa em Heidelberg.”(fim da citação)



A contribuição de Max Weber

Max Weber

Bernardo: E por que tocar neste detalhes , de cunho religioso?  Afinal a Rosacruz AMORC não é de modo algum uma associação sectária e jamais discriminou seus membros e aspirantes por sua opção religiosa.
Esta reflexão, portanto, é uma análise, como estabeleceu o sociólogo Max Weber, da genealogia histórica do tipo de moral e dos valores filosóficos que acompanham cada grupo religioso.
No Brasil como na Espanha e em Portugal, a Ordem existe em ambiente predominantemente católico, religião que por séculos , PREGOU E DOUTRINOU seus seguidores na importância espiritual da pobreza e na recusa aos bens materiais , bens estes que seriam capazes de degradar a alma.
Esta mesma religião,através de seus líderes enfatizou a importância da pobreza para superarmos as tentações da carne e atingirmos a plenitude espiritual, induzindo a compreensão de que a riqueza material é pecaminosa e sempre leva a destruição do espírito.

Isto era enfatizado em seus sermões pela repetição da passagem bíblica que diz: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus.”
Ao contrário da opulência material em que vivia o Papa em Roma e seus seguidores próximos, ao povo de Deus era recomendadas a miséria e a resignação à pobreza , como estratégias para alcançar a luz.

A Venda de Indulgências e a Reforma Protestante

Em meio a tudo isto, um fenômeno compatível com a distância entre o discurso e a prática, provocou a revolta daqueles que tinham a moral e a dignidade como fundamentais à prática religiosa. Todos lembram, dos livros de história, do episódio conhecido como a Venda de Indulgências em 1517, pelo papa Leão X, onde, sob os auspícios e bênção da Igreja em Roma, vendia-se tanto o perdão como a absolvição em troca de bens materiais.
Aliás, foi por isso que Lutero instaurou a Reforma que levou seu nome, e que, por protestar contra toda esta hipocrisia da época, recebeu o título de Reforma Protestante.
Ora , os protestantes talvez fossem mais conservadores ainda do que os católicos neste ponto, quanto à importância da moral e da dignidade espiritual, mas é entre eles que surge a figura de Calvino.


João Calvino e a Santidade do Trabalho

João Calvino

Da WiKipedia “João Calvino (Noyon, 10 de Julho de 1509 — Genebra, 27 de Maio de 1564) foi um teólogo cristão francês. Calvino fundou o Calvinismo, uma forma de Protestantismo cristão, durante a Reforma Protestante. Esta variante do Protestantismo viria a ser bem sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os Afrikaners), Inglaterra, Escócia e Estados Unidos da América.”
Calvino criou uma filosofia, a qual dizia que o homem provava sua fé e demonstrava sua predestinação através do sucesso material, do enriquecimento. Considerava a pobreza como sinal do desfavor divino e valorizava o trabalho, o que ia ao encontro dos anseios da burguesia, que tinha no trabalho o elemento necessário para acumular o capital. A mentalidade Calvinista , que valorizava o trabalho e a prosperidade material , influenciou países como Suíça, Inglaterra e os Estados Unidos. E não por coincidência, foi nos Estados Unidos que o atual ciclo de atividades da Ordem Rosacruz teve início.
Nosso primeiro imperator , Harvey Spencer Lewis, protestante ,metodista e americano, era um homem destemido e empreendedor, um administrador e conselheiro de empresários, em suma, um consultor, muito bem remunerado por seu trabalho.
E se orgulhava disso. O dinheiro que pudesse ganhar com os serviços que prestava redundava em condições materiais para o sustento de sua família e para continuar o seu trabalho missionário de implantação da Ordem Rosacruz em todo o planeta, trabalho este continuado por seu filho, Ralph Lewis.

A Herança Calvinista dos Rosacruzes do Século XX

 

Ou seja, os nossos recentes ancestrais administrativos eram homens que prezavam a Ordem, tinham determinação de implantar um Sistema de estudos para divulgá-la, e se empenharam, sem culpa, na busca de recursos materiais para fazê-lo.
Isto é parte da história de nossa Ordem e não podemos fazer de conta que não foi e não é assim.
Por que ao contrário do discurso católico romano de estímulo à miséria, à pobreza, e à falta de recursos materiais, a Ordem tem uma doutrina de inspiração Calvinista, que acredita que o sucesso material é prova da harmonia do homem com seu Deus e não o contrário e que o trabalho é o meio para se transformar a realidade, trabalho dedicado e intenso, e para dar um toque rosacruz, marcado pelo uso da Visualização Criativa todo o tempo.
Comenius: É neste aspecto ético (no sentido dicionaresco de estratégia de ação) que vou me basear para mostrar que existe uma doutrina Rosacruz sim, e que, por não ser devidamente discutida em seus fundamentos, dá margem a equívocos e perversão de interpretações.

Confusão entre Prosperidade Material e Materialismo

Por causa disso, quanta tristeza me causa ouvir um frater ou uma sóror de origem religiosa católica dizer que, um corpo afiliado que investe seu tempo e recursos na ampliação de sua estrutura material e na melhoria de suas instalações está por isso mergulhado num caminho perigosamente materialista e que, por isso, se afasta dos objetivos principais da Ordem.
Que profunda ignorância dos princípios Calvinistas que fundamentaram os protestantes americanos , de amor ao trabalho e à prosperidade material , que fez a riqueza de uma nação como os Estados Unidos de onde vem nossa loja mãe neste período de atividades. E por que comentários como estes prosperam às vezes, entre frateres e sorores, intelectualmente diferenciados?
Por que no fundo o que nos leva a ser do jeito que somos são nossas crenças e valores morais oriundos de nossa educação familiar e religiosa, e não a nossa formação educacional.
Por baixo do verniz acadêmico esconde-se, muitas vezes, o preconceito contra o lucro, contra a felicidade material, contra o prazer sexual, e todas as coisas que fazem o ser humano satisfeito e pleno como manifestação da abundância divina presente na riqueza dos oceanos, na imensidão de estrelas que povoam os céus ou na variedade de espécies de plantas e animais.

A importância do de Equilibrar O Material e o Espiritual em nossa Vida


O homem e a mulher foram feitos para a felicidade e para a prosperidade e o discurso da tristeza e do ranger de dentes como meio de encontrar-se a Paz e fortalecer a Espiritualidade tem que ser banido do planeta, ou pelo menos do seio de nossa ordem, e isso só se faz com uma educação voltada à implantação destes valores morais de alegria e prosperidade que só é possível por uma doutrinação (ensinamento) adequada, neste sentido.
Os rosacruzes não perguntam aqueles que batem em suas portas a sua procedência e de que valores o espírito do buscador está animado ao chegar ao nosso portal.
Não perguntam porque sabem que mesmo o próprio indivíduo não saberia responder a estas questões no instante que chega até nós.
Sua mente ainda está obscurecida pelos preconceitos (os ídolos, nas palavras de nosso Frater e ex imperator Francis Bacon) , que marcam, todos nós, com seus estigmas.
Só na caminhada , na senda mística, é que as cascas irão se desfazendo e despindo nosso corpo verdadeiramente luminoso, deixando a mostra nosso poder e nossa divina origem.


A Importância de Explicitar nosso Amor, como Rosacruzes, ao Conhecimento, ao Trabalho e à Prosperidade


O que me parece ingênuo é achar que, sem que a Ordem declare , com todas as letras, hebraicas ou não, suas concepções em relação a realidade que nos cerca, sua opção pela fé na vida, no homem, na inteligência e na ciência, na sua crença inquebrantável na capacidade do trabalho de gerar riqueza e satisfação, o indivíduo perceba por si só e com rapidez, que está se unindo a um grupo diferenciado de pessoas e não a uma outra religião de princípios semelhantes aos seus, ainda mais se ele foi educado e doutrinado para acreditar que o bem e o certo são a pobreza e a simplicidade de espírito , no mau sentido.
É compreensível então que a partir daí, creia (mesmo que não o explicite) que ser rosacruz é ser pobre e limitado, física e espiritualmente.

Nesse sentido, o papel doutrinário da Ordem é de suma importância e, portanto, a Ordem deve dar, sim , a este buscador uma descrição clara de sua doutrina , e não apenas uma simples orientação, mostrando-lhe, de forma paulatina, que ele é muito mais do que supõe sua vã filosofia, (parafraseando novamente frater Bacon, na pele de seu alter ego, William Shakespeare).

A Doutrina Rosacruz,no amor ao trabalho, é de inspiração Calvinista

A doutrina Rosacruz, de contorno Calvinista, de amor ao trabalho e ao lucro oriundo deste trabalho, gerando prosperidade material e também espiritual deve ser difundida entre os nossos membros de forma mais constante, e não de modo envergonhado, para desfazer arestas, não em busca de uma homogeneidade mental, pois isto seria nossa morte intelectual, mas para deixar clara nossa posição acerca das coisas e do mundo.


O conceito Rosacruz de Reencarnação


Bernardo: (continuando o texto de nosso frater) Assim como a Ordem, por sua própria história, não é contra o lucro ou contra a prosperidade material, e jamais associou como a Igreja Católica fez, pobreza e evolução espiritual , também, da mesma maneira, é parte da Doutrina Rosacruz o conceito de Reencarnação. A doutrina Rosacruz pressupõe a concepção reencarnacionista. Ela é parte de nossos ensinamentos e de nosso patrimônio cultural, um nome mais refinado para o termo doutrina. Mesmo assim, talvez por falta de doutrinação acerca da concepção genuinamente rosacruz nesta área, vemos muitos irmãos tentando de boa fé defender pontos de vista sobre a reencarnação, originários de outras linhas de pensamento, que entendem a reencarnação como um fenômeno ligado ao caráter cármico punitivo , ou algo que o valha, não necessariamente de caráter essencialmente evolutivo, mas principalmente ligado a que se costumou chamar de “resgate de débitos cármicos”.


A visão Kardecista

Qualquer espiritualista antigo reconhecerá nestas linhas características dos axiomas de uma doutrina conhecida como Espiritismo Kardecista , iniciada na França , no século XIX. Na Wikipedia vemos que Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, França, 3 de outubro de 1804 — Paris, 31 de março de 1869), foi um pedagogo e escritor francês. Sob o pseudônimo de Allan Kardec, notabilizou-se como o codificador do Espiritismo, também denominado de Doutrina Espírita.
Embora reconhecendo a importância do pensamento Kardecista para o conjunto do trabalho espiritualista universal, a Ordem Rosacruz , com toda a certeza não é um movimento espírita kardecista.
Portanto suas concepções da reencarnação estão ligadas aos ensinamentos das Escolas de Mistério do Egito, 2000 anos antes de Cristo.
Para a AMORC, a reencarnação é uma decorrência pura e simples da natureza do processo evolutivo, já que somos seres espirituais imortais em personalidade alma , que usam seus corpos no sentido de crescer em compreensão, ao longo de sucessivas encarnações.
E este é o final das semelhanças entre as doutrinas, espírita kardecista e rosacruciana.
Todo o restante, descritos em Céu e Inferno, O evangelho segundo o Espiritismo e outras tantas obras fundamentais para a compreensão do Kardecismo, são compreensões específicas da doutrina espírita e assim devem permanecer. As diferenças são sutis, mas importantes.
Por exemplo, na Doutrina Kardecista encontramos traços do discurso católico de elogio da pobreza e da simplicidade física como base para o crescimento espiritual quando a doutrina rosacruz, como vimos acima, é tributária das posições do protestantismo alemão do século XVI.


A Reencarnação como Oportunidade de Evolução

Outra Característica da Doutrina Rosacruz em relação à imortalidade da alma é a da alegria e do contentamento em relação às muitas oportunidades de evolução espiritual que sucessivas existências nos proporcionam e nunca de entender que este fato, a Reencarnação , tenha sob qualquer aspecto, natureza punitiva, ou seja prova de nosso atraso espiritual , como pensam também alguns seguidores do Budismo , pois segundo eles, se fossemos seres realmente evoluídos não precisaríamos reencarnar.
Comenius: Para o Rosacruz, os seres humanos não são ou deixam de ser evoluídos, mas na verdade estão todos, em processo de evolução, em diferentes trechos da jornada em direção à plenitude.
Estar neste ou naquele trecho, significa apenas uma definição espaço-evolucional e não uma punição ou uma bênção. Todos somos arrastados pela força evolutiva que nos trouxe a este plano e que nos faz atravessá-lo a fim de aumentarmos a consciência de nós mesmos e do Universo. Nascer e morrer, para o místico rosacruz, é como dormir e acordar, e, que eu saiba, ninguém amaldiçoa o momento em que o cansaço obriga ao repouso merecido e nem reclama também do instante em que acorda, já que volta a existência através do despertar e um novo dia de possibilidades se abre para ele, permitindo-lhe mais um período de experiências que aumentarão sua consciência.
Rosacruzes não devem, pois, em princípio, sentir-se embaraçados com o fenômeno da morte. E aumentar a consciência sempre é uma bênção e nunca uma punição.

Esta é a base filosófica da felicidade do Rosacruz em experimentar a Vida na Carne, usando-a em todo o seu potencial no aperfeiçoamento de sua Personalidade Alma.


A Morte como decorrência da Vida



“Qual a casa que a Morte não visitou?” perguntava o Buda numa história antiga. É, portanto, da maior importância, que a doutrina rosacruz reencarnacionista seja comentada de forma mais freqüente nos encontros culturais que promovemos em nossos corpos afiliados, para que fortalecidos pelo ensinamento, nossos irmãos não sejam vítimas de um sofrimento compreensível, mas às vezes desproporcional para um espiritualista verdadeiro.
Bernardo: Queria acrescentar aqui, para marcar posição, um trecho do livro Rosacruz História e Mistérios de Cristian Rebisse (pseudônimo) Difusion Rosicrucienne , 2004, traduzida para o português da versão francesa de 2003, onde as relações entre os dois movimentos , Kardecista e Rosacruciano, se esclarecem , historicamente. “Nessa época (1904) na América , um grupo predominava no campo das pesquisas psíquicas : a American Society for Psychical Research (Sociedade Americana para pesquisa Psíquica), de Boston. Ora, em 1904 ela estava perdendo impulso e cessou suas atividades em 1905, após o falecimento de seu diretor,o Dr Richard Hodgson. Só um ano mais tarde , com o Dr. James H. Hyslop, essa velha instituição se reorganizaria em Nova York com o nome de American Institute for Scientific Research (Instituto Americano Para Pesquisa Científica). (...Em Nova York...) surgiu o New York Institute for Scientific Research (Instituto de Nova York Para Pesquisa Científica). Sob a direção de Harvey Spencer Lewis, ele procedeu a investigações que visavam controlar as reais capacidades dos médiuns, o que o levou a desmascarar mais de cinqüenta simuladores.(...) Estas pesquisas não satisfizeram a H.S.Lewis pois ele não acreditava que os fenômenos produzidos pelos médiuns provinham da manifestação de espíritos;estava persuadido de que eles tinham origem em faculdades da mente ainda desconhecidas.(...) Durante os anos de 1906-1907, H.S.Lewis abandonou as pesquisas psíquicas, que julgou estéreis.” 

A importância da Promoção de Simpósios com demonstrações de técnicas Místicas Rosacruzes

O que me leva ao terceiro ponto deste ensaio: a necessidade de abordar de forma mais constante temas da doutrina essencialmente rosacruz em nossas palestras. A história da Ordem, suas ligações com outras ordens de reconhecida importância no meio místico, a vida e a biografia dos mestres que compõem a Grande Fraternidade Branca com ênfase na questão de que a Rosacruz assim como outras ordens místicas dignas e reconhecidas são um corredor em direção ao contato com esta Grande Fraternidade. Vejo com tristeza, grupos de seriedade duvidosa, muitas vezes um abrigo para todo tipo de desequilíbrios e fantasias , tomarem para si o mérito da divulgação do trabalho destes mestres , às vezes propagando ensinamentos descabidos como seus ou dizendo-se intérpretes de seus desejos para a Humanidade.
Não nego que, mal ou bem, estes grupos servem a divulgação do trabalho destes seres ascensionados, mas tal divulgação nem sempre é feita com a seriedade e o equilíbrio necessário a tornar mais compreensível a necessidade do iniciado buscar o contato com tais seres. Faz parte da Doutrina Rosacruz o conceito de que somos representantes da Fraternidade Branca neste plano material e que estamos aqui apenas como preparadores de homens e mulheres para o serviço desta Fraternidade. Toda vez que um frater ou uma sóror ocupa um cargo administrativo ou ritualístico está continuando seu treinamento em direção a este contato. “Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece” diz um aforismo místico. O que faz a doutrina rosacruz não é outra coisa se não ajudar nossos estudantes a estarem prontos para este encontro. E fazemos isto de modo extremamente elegante, consolidando conhecimento de forma gradual, num ritmo constante e adequado a cada um. É outra tristeza que carrego, contemplar este mar de charlatães que em todas as épocas obscurecem a verdade com seus truques de salão e atraem , hoje como antigamente, aqueles que vêm ouro onde existe apenas pirita. Noto em frateres e sorores fascínio por doutrinas mal fundamentadas, talvez porque não tenham estudado adequadamente suas monografias, talvez por que sejam simples de espírito , no mau sentido que esta expressão sempre carrega, talvez por que não tenham realizado os experimentos que a ordem ensina, ou se os fizeram , não observaram resultados práticos suficientes para desenvolverem confiança nestas técnicas.
É por isto que é preciso aumentar o número de encontros rosacruzes no estilo de simpósios para promover não só o aprofundamento do conhecimento e da doutrina rosacruz, mas também o aperfeiçoamento destas técnicas e experimentos que estão nas monografias e que fazem parte do treinamento básico do místico rosacruz. É comum ouvir em discursos rosacruzes que devemos praticar os experimentos com regularidade , mesmo que não percebamos conscientemente resultados de sua prática, mas até isto, realizar inúmeras vezes um experimento sem conseguir qualquer resultado consciente, é desanimador para uma mente estruturada e aceitar a necessidade de repetir tal exercício que não redunda em resultados visíveis ou perceptíveis se baseia mais em uma questão de fé do que na confiança que advém da repetição dos resultados.
Nós Rosacruzes, temos um conhecimento em nossas mãos que é de cunho prático, não só teórico. E como é uma tolice ver separação entre espiritual e material, também é uma tolice igual ou maior supor distância entre teoria e prática, no caso de cientistas místicos como nós. Toda nossa doutrinação (instrução) filosófica e espiritual visa o domínio de uma técnica prática que pode ser usada como ferramenta de mudança para melhor em nossas vidas, seja no âmbito espiritual, psicológico ou material.


O Rosacruz é Um Cientista Místico



Repitamos para deixar claro: somos cientistas místicos e precisamos ver resultados em nossas práticas para confiarmos nestas práticas.
Comenius: Por isso, nestes simpósios, experimentos devem ser realizados e os resultados devem ser demonstráveis para que, contemplando estes experimentos , possamos  refazer a confiança de nossos frateres em nossas técnicas e mostrar-lhes que não têm necessidade, enquanto rosacruzes, de enveredar por quaisquer outras linhas de pensamento, mesmo que pareçam atraentes.
Sinto-me mal, às vezes, ao ver a competência publicitária de outras linhas de pensamento e grupos religiosos.
Por isso acho que devemos dar mais assistência aos nossos membros, principalmente os de sanctum, dando-lhes oportunidade de acesso a reuniões não apenas especulativas, mas principalmente práticas e experimentais .
E quando falo experimento, não me refiro apenas a um exercício de visualização mental (que era como devíamos nomear tais empreendimentos já que a expressão experimento designa outro tipo de atividade) como é comum em nossos encontros. Falo em demonstrações de nossos recursos como nas técnicas de Terapêutica do 6o grau , Visualização criativa ou intuitividade.
Se a maioria de nossos frateres e sorores não desenvolveram suas habilidades nestas e em outras áreas do trabalho Rosacruz, alguns conseguiram , e por isso devem ser convocados a demonstrar seu sucesso , não apenas como ensinamento, mas como estímulo a outros buscadores.
Essa é minha idéia de um simpósio verdadeiramente produtivo, o qual pode ser específico para graus determinados ou mais gerais, de acordo com a vontade dos corpos afiliados.
Todo este ensaio sobre a importância da doutrina , da educação do estudante rosacruz para a prática de um bom rosacrucianismo vem da inspiração de um livro famoso de Sun Tzu, A Arte da Guerra, onde ele lembra que o êxito de uma organização, seja um exército ou uma empresa, depende de quatro condições: • Objetivo comum, • Sensibilidade ao ambiente, • Liderança capaz, • Fluxo de informações eficiente.
A AMORC tem uma liderança capaz e é sensível ao seu ambiente, mas é preciso que torne mais eficiente seu fluxo de informações para que nossos membros tenham verdadeiramente um objetivo comum.
E é minha opinião de que só poderemos conseguir tal coisa com uma doutrinação mais constante de nossos frateres e sorores em relação ao âmago de nosso conjunto de ensinamentos.
Bernardo: Este documento se encerra aqui. Gostaria agora de fazer um intervalo para que os frateres e sorores conversassem entre si para depois retornarmos ao debate. Portanto faremos um intervalo de 15 minutos.