sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

HOMOGENEIDADE X HETEROGENEIDADE: CONSIDERAÇÕES MÍSTICAS E ADMINISTRATIVAS


por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:





Lembro-me de que 30 anos atrás, se não me falha a memória, tínhamos dentro da AMORC o hábito de recomendar aos recém chegados que, “caso desejassem unir-se à pessoas de mentes afim com o ideal rosacruz, poderiam procurar os corpos afiliados ( na época chamados corpos subordinados) e freqüentar suas atividades”.
O que se dizia nas entrelinhas era que em ambiente rosacruciano o membro encontraria uma homogeneidade de interesses e uma multiplicação de esforços na direção do objetivo comum, o desenvolvimento do estado de Consciência Cósmica.
Muitas foram as decepções na época, as quais redundaram em progressivo afastamento de muitos neófitos da Ordem. Nem todos tiveram uma experiência ruim, mas é fato que, supondo que um corpo afiliado abrigasse uma coleção de pessoas de nível mental diferenciado, quando constatavam que estavam em meio a simples seres humanos, alguns, mais imaturos, não tão raramente, sentiam frustração e desalento.
Outro fator de aceleração do afastamento era a convocação precoce, às vêzes ou quase sempre por falta de opções numéricas, para um cargo ou administrativo ou ritualístico.
Principalmente os cargos administrativos geraram, como ainda geram, grandes dores de cabeça para as administrações locais e à Grande Loja.
Alguns membros antigos diziam que estes fatos não deveriam ganhar destaque, pois faziam parte dos testes de aptidão, as famosas “peneiras” a que cada estudante rosacruz é submetido ao longo da senda dentro ou fora do corpo afiliado.
O fato é que os dois problemas citados permanecem até hoje, e o que vemos é, ao invés de Homogeneidade, uma intensa Heterogeneidade no desempenhos dos nossos pronaoi, capítulos e lojas, sendo que alguns poucos tem um curso e um desempenho administrativo e/ou ritualístico brilhante enquanto um grande número amarga condições difíceis, mal conseguindo dar conta de suas obrigações.
Neófitos que compareçam a esses locais, levados pela crença de que encontrarão um ambiente como costumamos dizer, harmonioso, surpreendem-se com o sem número de embaraços que o Mestre do corpo afiliado tem às vêzes para proceder a um simples ritual rotineiro. 






São muitas exigências, muitos compromissos, muitas reuniões, muitos ensaios, o que pressupõe que o membro que assuma um cargo no corpo afiliado ver-se-á precocemente às voltas com um sem número de obrigações que não consegue às vêzes satisfazer.
Existe sempre um grupo de resistência, um núcleo duro de frateres e sorores que de maneira permanente sustentam financeiramente a estrutura física, e muitas vêzes também, a ritualística do corpo. Só que as pessoas não são eternas no aspecto físico e uma renovação é fundamental, de forma a que novas energias venham se juntar as antigas e continuar o trabalho templário.
Temos de lá pra cá tido uma piora deste quadro e, se ao mesmo tempo, aumentou o número de afiliados em todo o Brasil, e muitos buscam os portões da Ordem, trazidos por afinidades de outras vidas ou por mera curiosidade, muitos são 
também os que desistem da senda, geralmente a partir da quarta remessa de monografias. 
Acredito sinceramente que esta rotatividade, esta população flutuante e em fluxo, não se sente tão à vontade de sair apenas porque possuam falta de determinação ou porque não tenham ultrapassado as tais peneiras de que falam alguns. Nem muito menos aceito o argumento de que a qualidade dos capítulos é apenas fruto da capacidade da comunidade local em desenvolver adequadamente os procedimentos protocolares do nosso manual administrativo.
Sou rosacruz e membro de AMORC há 37 anos.
Conheci, ao longo destes anos, raras e inesquecíveis pessoas com quem tive a honra de dividir a condição de afiliados da Ordem. São pessoas absolutamente dedicadas à causa rosacruz e que, como eu, serviram a Ordem como oficiais administrativos e ritualísticos abnegados, com a mesma seriedade com que cuidavam dos interesses de sua própria família, convencidos de que seu altruísmo já era em si sua própria recompensa.
Do mesmo modo, contemplei as flutuações de qualidade ao longo das administrações, de forma que uma equipe de grande competência nem sempre era substituída por um grupo com a mesma habilidade e energia.
E, na minha opinião, isto não se deve apenas ao destino, mas ao pouco profissionalismo e amadorismo com que o trabalho de administrar os corpos afiliados sempre foi feito.
Sempre acreditamos que bastava a boa vontade do membro para que o trabalho fosse bem feito.
Não é tão simples. Aspectos legais e financeiros, logística de transporte para eventos de todo um corpo ritualístico, transporte seguro e confortável para eventos da Ordem Juvenil, tudo isso demanda um tipo de abordagem o mais profissional e padronizada possível, isto tudo sem falar no aspecto mais delicado de nossos corpos afiliados: sua viabilidade financeira, que hoje depende exclusivamente de eventos festivos e da mensalidade dos membros pagantes.
Minhas idéias sobre como solucionar essas questões são as mais variadas, desde o estabelecimento de uma quarentena para neófitos, que os impeça de assumir quaisquer cargos antes da primeira iniciação de templo, até a terceirização de funções administrativas para uma equipe estável e profissional, remunerada, que cuide das questões administrativas de modo rotineiro, deixando o mestre e seus oficiais livres para dedicar-se a assuntos reflexivos e filosóficos.
Isto não quer dizer que nenhum de nossos membros tenha capacidade para desempenhar esse papel, mas apenas que não se verá obrigado a desempenhá-lo quando não se sentir apto a isso, e nem o Mestre do corpo afiliado precisará preocupar-se com detalhes cada vez mais numerosos que, dependendo do secretário, serão extremamente penosos de cuidar.
Se a Ordem considera arriscado o aspecto de criação de vínculos empregatícios com pessoas que poderão trazer grandes dores de cabeça na Justiça Trabalhista, ao mesmo tempo deve considerar a possibilidade de que a profissionalização de nossos procedimentos gerará uma uniformidade de condutas que só o profissionalismo traz.
Precisamos urgentemente de uma informatização selvagem de nossos procedimentos, o meio mais adequado e rápido de homogeneização de condutas em todo o país, mantendo a possibilidade de acompanhamento em tempo real pela Grande Loja.
Isto permitiria que Curitiba não se arriscasse aqui e ali com funcionários locais, mas criasse a sua própria empresa de administração, com funcionários treinados para fazer o serviço necessário para a manutenção administrativa do corpo afiliado. E isto em caráter nacional.
Devemos ainda considerar o assunto tabu de como transformar nossos corpos afiliados em empreendimentos prósperos como é da doutrina rosacruz preconizar para todas as nossas atividades ao contrário destes numerosos.
Coordenado sempre pela Grande Loja, um esforço para implantação de atividades rentáveis ligadas a cada grupo rosacruz em cada comunidade na face da Terra, seria muito bem vindo.
Embora alguns estudantes rosacruzes sintam-se mal com a idéia do lucro, como um total apaixonado pela AMORC o que me incomoda profundamente é a penúria material de alguns corpos afiliados, indigna daquilo que os rosacruzes pregam em seus discursos.
Se um neófito chegar as nossas portas deve ao menos ser recebido com dignidade material mínima.
O tal “ambiente harmonioso” começa em condições materiais adequadas e considerando que não somos um grupo religioso, mas uma Ordem iniciática, com um viés Calvinista, para nós estudantes rosacruzes, mesmo em um país católico, a miséria não é o cartão de visitas da santidade, muito pelo contrário.
Como, no entanto, tornar um capítulo ou uma Loja um ambiente próspero e auto-suficiente?
Parece-me que a saída é a implementação de Livrarias Místicas em todo o país, uma rede com sede em Curitiba, de venda de materiais tanto rosacruzes como de outras tradições, como a tradição judaica, a tradição sufi ou a tradição zen budista.
O comércio de livros e objetos ligados a práticas místicas é uma parte importante dos fundos de um corpo afiliado, mas como nem sempre, ou melhor, na maioria das vêzes não é conduzido com o profissionalismo de mercado necessário, não resulta em lucro e em fundos para dar a tal dignidade material ao capítulo.
Prosperidade atrai prosperidade e acredito que com essa guinada profissionalizante, a motivação dos membros será revitalizada e não teremos uma flutuação tão intensa quanto temos hoje. Muitas mensalidades serão pagas de maneira mais regular, já que boletos bancários substituirão os discursos que hoje chamam o membro a responsabilidade de não interromper suas contribuições.
E embora para muitos, desacostumados com disciplina financeira, possam supor que estas medidas vão contra a noção de fraternidade, argumento que a irregularidade e a desatenção com as necessidades materiais de seu corpo afiliado a que muitos estão acostumados, esta sim é uma atitude que não condiz com a ética rosacruz
O estranho é que quando temos membros que pertencem a duas Ordens iniciáticas, ou seja, são rosacruzes e maçons ou rosacruzes e membros de outra escola espiritualista, segundo testemunhei, só esquecem de manter em dia suas contribuições (bem mais baixas que em outras ordens) na AMORC, orgulhando-se de comentar que pertence a esta ou aquela entidade que, com certeza, tem menos escrúpulos de lembrá-lo de suas obrigações.
Não é justo.
Precisamos repensar estas coisas.
Minhas sugestões são apenas isso, sugestões, e estão abertas a críticas e comentários, mas de qualquer forma precisamos mudar a maneira de cuidar de nossos corpos afiliados e, se possível, abandonar o amadorismo administrativo, perdendo a inibição e os escrúpulos de influência católica, de gerar prosperidade material para nossa Amada Ordem.
A heterogeneidade de nosso mundo demanda essa postura.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AGRADECIMENTO

Pela primeira vez o blog atinge a marca de 2688 acessos, no mês de janeiro de 2012, superando novembro de 2011 quando recebeu 2609 acessos.
Obrigado a todos.


Mario Sales


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

SALMAN KHAN, UM PROFESSOR PARA O SÉCULO XXI

Este é um blog para Rosacruzes da AMORC e de outras linhas e Martinistas da TOM, abrigada dentro da AMORC, bem como para Maçons interessados em evoluir.
Só que para isso, meu foco sempre tem sido a educação.
E qualquer coisa que possa aumentar o grau de cultura técnica e humana destes mesmos místicos destas três nobres Ordens , nas palavras de Comenius, é fundamental à sua formação.
Portanto, dentro deste espírito, ecôo o que já é um consenso internacional.
Todos os louros ao primeiro professor do século XXI, Salman Khan, que usando o You Tube e uma extrema dose de generosidade e didática tem facilitado a vida de estudantes em toda a face da Terra.
São 2700 vídeos de mais ou menos 20 minutos, 4 milhões de alunos virtuais, que assistem seus vídeos pela internet, os quais assistiram 115 milhões de aulas até a última sexta feira, segundo a revista VEJA deste fim de semana.






Mais. Antes restrito aos alunos de língua inglesa, o trabalho deste jovem, egresso do MIT, de 35 anos de idade, foi traduzido para o português pela Fundação Lemman, e continua a ser traduzido, já que o volume de material é bastante grande 
(  http://www.fundacaolemann.org.br/khanportugues/ ).
Acessem e deixem seus filhos acessarem.
Vários conceitos que não foram fundamentais a nossa vida social mas que serão absolutamente fundamentais à deles ficarão muito mais fáceis de entender.
Se quiser ir direto à fonte use o link http://www.khanacademy.org/
Grande Abraço


Mario


PS: Abaixo, com dublagem em Português, tirado do You Tube, um vídeo apenas como exemplo, no caso abordando o conceito de "Vírus". E mais abaixo, o próprio Salman Khan, apresentando-se e sendo apresentado por ninguém menos do que Bill Gates, tão impressionado com sua iniciativa quanto eu mesmo.







sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

AINDA A QUESTÃO DA LIBERDADE


Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:



Na aula que recomendei a todos que assistissem, onde Claudio Ulpiano fala sobre o conceito de Liberdade em Espinosa (http://www.youtube.com/watch?v=ip-qq9ELhUs) uma coisa que chama a atenção é o recurso didático que ele utiliza para esclarecer este mesmo conceito. Ao longo da exposição ele defenderá a tese de que, para Espinosa, um ser humano livre é aquele que é movido por “forças que vêm de dentro” enquanto o escravo, digamos assim é aquele que é refém de “forças que vêm de fora”. Toda vez que somos mobilizados por “forças que vêm de fora”, somos passivos, passividade essa que ele Espinosa chama de paixão, ao contrário do ser ativo, que influencia seu meio imediato, o homem de ação.
Mais nada precisamos dizer.
A imagem é límpida, cristalina. Liberdade é autonomia de decisão, do ponto de vista psicológico e emocional.
Não só as paixões dos outros corpos que nos circundam, mas também as nossas, são consideradas forças determinadas de fora para dentro, já que para o filósofo português, a paixão é determinada pelo desejo inconsciente, que elege um objeto fora de nós como essencial a nossa existência.



Auto-esclarecimento é, portanto, entender nossas necessidades, sejam elas quais forem, satisfazê-las do modo mais completo possível para garantir nossa subsistência e felicidade, mas tornando-nos principalmente conscientes delas, jamais jogando sobre necessidades legítimas quaisquer julgamentos de valor, quaisquer abordagens morais, já que nada é mais santo do que a própria fisiologia humana, e sua filha, segundo Espinosa, a psicologia humana.
Na verdade ele não privilegia uma ou outra e falar em mãe e filha é apenas uma figura de linguagem. Ambas interagem de tal maneira e com tal intensidade que dizer quem veio antes seria abominável, e injusto com uma filosofia tão brilhante, se bem que os materialistas adorariam jogar o princípio de tudo no corpo já que todo materialista tem um grave vício de compreensão do que seja matéria.
E isto porque, para os materialistas, matéria é o que é denso, e espiritual é o que é invisível, e provavelmente, por causa desta invisibilidade, falso e inexistente.
Para lembrar a fala do Prof. Sergio de Oliveira, cujo vídeo da palestra está lá nas profundezas do blog, ser materialista é acreditar em algo que não se vê, já que a matéria não tem luz própria, mas apenas reflete a luz que é lançada sobre ela, e crer em algo que não se toca, já que a sensação de densidade é dada pelo encontro de campos elétricos de trilhões de átomos, e não da matéria em si que eles compõem. Portanto, segundo Sergio, o materialista é aquele que crê em algo que não vê e que não toca, e por isso “é preciso muita fé para ser materialista”.
A noção de materialismo e imaterialismo desapareceu com o fortalecimento da física de partículas, a física quântica. No mundo do muito pequeno, o duro e o sólido não existem. Tudo é fluido e tem um comportamento errático e instável, para usar uma palavra sacrílega para a ciência, tudo é diáfano e espiritual, e não estamos falando de quaisquer aspectos religiosos, mas de física positivista, amparada em cálculos matemáticos perfeitamente racionais.
O psicológico é, portanto, apenas menos denso, mas tão material quanto o que nos parece mais denso e mais visível, por exemplo, nosso corpo físico. É disso que falava Espinosa, 400 anos antes de qualquer conhecimento quântico ou mesmo do nascimento de Max Planck.
Liberdade é isso, liberdade não só do corpo denso, mas mental, a liberdade mais essencial, do corpo menos denso, aonde vigoram os pensamentos, corpos menos densos ainda, mas ainda assim, materiais.
Essa é a verdadeira liberdade, se é que isto existe.
Aí, entretanto, já é outro assunto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

IMAGINAÇÃO E LIBERDADE


por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


O conceito de liberdade é muito caro ao homem contemporâneo. Ele o considera um bem precioso e defende-o de maneira intransigente em certas situações e, em outras, quando supõe que foi privado deste bem, mergulha em estado de melancolia.
Este comportamento tem suas raízes, como, aliás, quase tudo em nosso comportamento, na Grécia clássica.

Gerd Bornheim

Lá começou a busca da liberdade, marcada desde o início pela contradição pois o povo que defendia o sistema político que hoje copiamos, a Democracia, cultivava a escravidão de outros povos. Foi no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, estudando o teatro grego, que aprendi um pouco sobre as movimentações do povo grego em busca de liberdade, principalmente aquela mais fundamental, a liberdade psicológica.
Fui aluno de Gerd Bornheim, no IFCS da UFRJ.
Era um homem respeitado no meio teatral, o que eu não sabia na época.
De qualquer forma, foi acompanhando suas digressões sobre o teatro na Grécia que comecei a fundamentar minhas reflexões sobre a transição entre um comportamento psicológico e outro, para gregos e para toda a humanidade depois deles.
E este comportamento psicológico dizia respeito às crenças religiosas em oposição à razão.
Ele sempre falava que a transição de modelo de peça teatral marcou também a transformação do homem amedrontado, aprisionado pela superstição e submisso à vontade dos Deuses para outro tipo de homem que, literalmente, tinha seu destino em suas mãos. E ele citava Medeia, no caso a versão de Eurípedes, uma tragédia importante da época, como marco desta transformação.


Medéia de Eugéne Ferdinand Victor Delacroix


Ali estão retratados sentimentos humanos, ou como diria Nietzsche, demasiadamente humanos, como ciúme, infidelidade, vingança. Só que o que chama atenção em Medeia é que, pela primeira vez, os erros de Jasão, o personagem masculino, e a sua traição à sua esposa, Medeia, desencadeiam eventos ligados única e tão somente aos sentimentos humanos envolvidos. Não há a intervenção de quaisquer dos deuses conhecidos nos acontecimentos. Quando Medeia envenena os filhos por vingança, ela o faz por sua vontade.







É curioso, mas a peça que mostra a libertação dos homens do jugo psicológico da vontade dos deuses é protagonizada por uma mulher.
Foi uma aula fascinante. Gerd falava calmamente, não tinha a característica teatral de outros professores na exposição de seus argumentos, mas eles tinham um peso e uma veemência própria, por si, e calavam fundo em todos nós.
Sábios não precisam gritar para serem ouvidos com atenção.
Livre dos deuses, o grego buscou guiar seu comportamento pelo pensamento racional, pela lógica, a partir de Sócrates, aperfeiçoada por Aristóteles. Por isso pensar era ser livre das superstições. Pensar e agir a partir de seu pensamento era ser livre. Pensar era ser livre. Ser livre era pensar.
Além disso, pensar significava romper com os deuses. Era uma atitude de oposição aos deuses. Essas reflexões já são minhas e não de Gerd.
Daí pra frente, romper com a opressão de deuses míticos tornou-se sinal de liberdade e o pensamento individual, os sentimentos humanos, um sinal desta liberdade.
Perante os deuses gregos ou perante qualquer idéia de divindade. Foi neste momento que jogamos a criança fora junto com a água da banheira.
Como já descrevi antes, crer em algo não é o mesmo que experimentar. Crer em uma determinada idéia de divindade não é o mesmo que experimentar uma espécie qualquer de contato com esta mesma entidade. E já que, nisto estamos de acordo, a mente nos prega peças, um contato desta ordem pode ser produto de delírio e ilusão psicológica e tão falso quanto crer na existência de Zeus ou de Apolo.
A Imaginação foi assim relegada a um plano de detenção, um ambiente mental prisional, aonde ela deve ficar detida para não causar problemas às partes sérias e confiáveis do cérebro, ou seja, a razão e o cálculo.
Por isso até hoje, os artistas são comparados aos loucos, dada sua imensa capacidade de imaginar e sua descontrolada felicidade em fazê-lo.
Ao contrário do que se concluiu ao longo de séculos, que era a razão que deveria nos libertar e que deveríamos manter sob vigilância a imaginação para que esta não nos confundisse, por causa de uma razão tirana mergulhamos em profunda tristeza da qual, na maioria das vezes, somos salvos apenas pela arte, a filha dileta da Imaginação, que com seus livros, esculturas e pinturas, com suas músicas e óperas, com seu teatro, libera-nos da opressão desmedida dos fatos e dá a estes mesmos fatos uma dimensão que vai muito além do que eles parecem ser.
Será esta, no entanto, a função da arte? Acalmar nossa angústia e nossa perplexidade? Ou por outra, a função da arte é causar exatamente esta perplexidade à qual os fatos, despidos de sentido ou beleza nos levaram?
Vamos por partes.
O primeiro impacto da Arte está na sua capacidade de materializar, no drama teatral ou em um objeto, nossas idéias de mundo e nossos sentimentos.




Sim, muitas das vêzes os artistas recorrem a referenciais cotidianos, a histórias mundanas e corriqueiras, mas apenas para discutir através do visível, o invisível, os sentimentos.
E também é verdade que a arte nos causa perplexidade, mas de forma positiva, porque instabilizando nossos horizontes ela permite que possamos expandi-los, além daquilo que a razão tinha nos assegurado e estabelecido. E nisto a arte pode nos tirar da zona de conforto, mas na intenção de nos mobilizar internamente em direção a valores mais refinados e elaborados do que os anteriores, a percepções mais complexas e ricas do que as que possuíamos antes.
A intensidade deste desconforto que a arte pode provocar vai depender, obviamente, do artista, que deverá ser capaz de dosar aquilo que produz para que, nem deixe de causar impacto emocional com sua obra, nem cause tanto impacto que em vez de perplexidade, gere sofrimento e aversão em quem contempla seu trabalho.
Sua liberdade em libertar a mente de quem o assiste é, portanto, limitada a capacidade de tolerância do espectador às cores, físicas ou psicológicas da obra.
Por isso existe um universo artístico tão heterogêneo, pois tal universo consiste tanto de diferentes tipos de expressão artística quanto de diferentes tipos de artistas, funis diferentes para o mesmo fluido. E, claro, este fluido que é o nome que daremos aqui para a Inspiração da Imaginação, será derramado nos mais diferentes tipos de recipientes, os quais serão então a forma final desta ou daquela obra artística.
Criar arte é aprisionar o fluxo livre da imaginação em determinado recipiente, seja um texto, um poema ou uma canção.
É como uma fotografia do movimento das ondas do mar, ininterrupto, mas que ficará congelado na foto, como se fosse imóvel, e será tanto mais bela a foto quanto mais perto estiver de sugerir o dinamismo destas ondas.
A imaginação é invisível para quem não está envolvido no processo criativo, e certas idéias não poderão nem mesmo ser percebidas por quem tentar imaginá-las se não tiver, como vimos no ensaio anterior, instrumentos intelectuais para isso. Só um matemático pode ver beleza em determinadas equações. Só um músico pode perceber de forma consciente as nuances de uma melodia. Seus cérebros estão aptos à fazê-lo, como nem todos os cérebros estão.
A Imaginação, portanto, tanto nos liberta da mesmice do mundo quanto não é livre totalmente, já que depende de quem imagina. Ela estará sempre, indissociavelmente, unida ao imaginador. E este deverá dar a esta Imaginação a forma que puder e tiver competência intelectual para dar.
Daí a importância de algo que caiu em desuso em nossos dias e que se convencionou chamar de “cultura geral”.
Num mundo que valoriza o especialista, em uma ciência que depende desta especialização para poder mostrar resultados, aqueles que forem capazes de conhecerem muitas coisas sobre muitos assuntos estarão, paradoxalmente, mais aptos a receber um sem número de inspirações em sua imaginação e compreendê-las, tornando-se um manancial de idéias fabuloso. É o caso de pessoas criativas ou que lidem com a criatividade não direcionada, como os publicitários.
Publicitários, por definição, não são apenas artistas que se expressam, mas sim artistas da expressão em si.
É da natureza de sua profissão dar imagem a idéias e por isso, seriam, se os salários compensassem excelentes professores. Quando transformam em comerciais de 30 segundos uma idéia ou uma informação, para que possam ser bem sucedidos devem fazê-lo com graça e capacidade de fixação na mente do interlocutor ou espectador.
E todas as idéias e fatos cotidianos possíveis serão convocados a participar deste esforço de representação, deste teatro de meio minuto, aonde é preciso emocionar quem assiste com a mesma força de uma peça de hora e meia.
Qualquer publicitário sabe que, da mesma forma que não há como saber o que um cliente futuro trará para ser objeto de seu trabalho, não existe informação que ele possa desprezar no seu dia a dia dentro da sociedade, e por isso permanece atento a tudo que testemunha, desde o comportamento do balconista de uma padaria até as formas de música e estilos de dança que caem no gosto das pessoas de sua época. E isto sem desprezar aspectos tradicionais do comportamento humano, suas tradições e crenças mais comuns.
O Publicitário é um psicólogo de massas, como todos nós devemos ser, e tem obrigação por profissão de entender a natureza humana, sem preconceitos ou reservas.
Ele é o meu melhor exemplo da utilidade da erudição na função de dar um contorno às idéias provenientes da imaginação produtiva, no intuito de tornar visível e estático o que em si é, por natureza, invisível e dinâmico.
E assim, aprisionando o fluido da imaginação em uma forma, libertamos nossa mente de sua angústia de se expressar.
É isso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

IMAGINAÇÃO, FANTASIA, EDUCAÇÃO E CIÊNCIA

Por Mario Sales, FRC.:,S.:I.:,M.:M.:


"A imaginação é mais importante que o conhecimento."
Albert  Einstein


Em meus recentes ensaios sobre Espinosa detive-me em um deles (“Fantasia e Imaginação em Espinosa”, 1° de janeiro de 2012) para esmiuçar a noção de Imaginação para aquele pensador. Baseando-me mais na minha intuição do que em conhecimentos intelectuais, afirmei que, em minha opinião, o conceito de Imaginação que Espinosa combate como danoso à constituição de um pensamento bem estruturado nada tem a ver com a Imaginação como atributo da mente humana em geral.
Podemos falar em dois tipos de Imaginação: aquela que chamaremos de Produtiva, que tem a ver com a elaboração de um conceito ou a compreensão deste mesmo conceito, ou ainda com a técnica de Imaginação Criativa, tão conhecida dos rosacruzes; e aquela imaginação que chamaremos de Dispersiva, a Fantasia, que tem como exemplo o divagar descomprometido, o sonho, sem um objetivo definido, sem compromissos com o que chamamos de mundo real, que se alimenta de superstições e delírios, esta sim considerada por Espinosa um obstáculo ao pensamento claro.
A imaginação deve, para ser produtiva, nos servir e estar contextualizada como ferramenta para elaborar o Real e não tentar ser o próprio Real que ela trabalha, como exemplifica o quadro de René Magritte “Ceci n`est pas une pipe”, “Isto não é um cachimbo”, escrito embaixo da figura pintada de um cachimbo, evidenciando que trata-se de uma representação do mesmo e não um cachimbo em si.




Quando imaginamos a partir de um referencial no real, com um objetivo claro e definido, usamos a Imaginação; quando divagamos, de maneira dispersiva, ela nos usa.
Esta dualidade aparentemente perde um pouco de sentido se considerarmos a criação artística, que necessita de uma imaginação com liberdade absoluta, pelo menos nos seus primeiros instantes criativos.


René Magritte

Em sua defesa, entretanto, argumento que não existe liberdade total nem mesmo para a imaginação, pois esta está sempre atrelada à sua expressão e àquele indivíduo que a exprime, o que a limita. Antes mesmo de manifestar-se através da língua, da música ou do pincel, a imagem se expressa na mente, e quem não tiver recursos para compreender e dar forma ao que imagina, não verá absolutamente nada. Por exemplo: imaginem um indivíduo que não tenha muitas luzes, do ponto de vista intelectual, mas que seja extremamente inspirado, sendo capaz de perceber coisas que outros não consigam, dada a sua sensibilidade. Como seu vocabulário é pequeno e seus recursos intelectuais são poucos, não conseguirá expressar de maneira satisfatória as inúmeras inspirações que receberá do Cósmico, a todo instante e momento, vivendo o que eu chamo de Iluminação Egoísta, aquela que não se pode compartilhar.
Poderá expressar sua particular sensibilidade por atividades misericordiosas, ou por um sorriso de beleza ímpar, mas não poderá descrever a quem não consegue como ele, contemplar as imagens que lhe chegam do Universo, toda a beleza que encerram e todo o colorido de seus significados e contornos.
O segredo do conhecimento realmente significativo é o compartilhamento.
Toda erudição não compartilhada é estéril e inútil. O destino da informação é ser distribuída, generosa e gratuitamente, de maneira que mais e mais pessoas venham a desfrutar de novos recursos conceituais e intelectuais que melhorarão seu padrão de vida e sua autonomia social.
E a ferramenta mais importante para este compartilhamento é a Didática, que depende e muito da Imaginação Produtiva, como definida acima.
A Didática é a maneira de facilitar a compreensão de um conceito ou uma idéia ao seu interlocutor. Ela facilita e muitas vêzes determina o fenômeno de compartilhamento. Quem não sabe explicar facilitando a compreensão de seu interlocutor, não consegue compartilhar, principalmente se este interlocutor tem um nível cultural inferior ao seu.
Fora este caso, muito comum, de níveis culturais diferentes, os conceitos também variam em complexidade, podendo ser simples ou altamente complexos, visualizáveis ou não visualizáveis, como os conceitos meramente matemáticos.


Para lembrarmos um detalhe histórico curioso, não deixemos de assinalar que, embora o conceito de técnica didática já estivesse presente na Grécia (a palavra, aliás, tem origem no grego Τεχνή διδακτική - techné didaktiké) o pai da didática moderna é um rosacruz do século XVII, Jan Amos Komenský, conhecido no Ocidente como Comenius.

Comenius

Porque esta longa digressão sobre a Didática? Por causa da Imaginação, a fonte de elementos imagísticos que criará as condições básicas de transmissibilidade de conceitos complexos de forma palatável, compreensível, seja qual for o nível cultural do interlocutor.
Um professor sem Imaginação, uma Imaginação Produtiva, comprometida com uma finalidade definida e clara, não conseguirá levar a bom termo sua missão de ensino. Partindo deste princípio, e no intuito de que todos tenham mais facilmente esta capacidade de ensino, existem sistemas didáticos prontos, padronizados, para serem usados por escolas que não consigam ter em seus quadros professores capazes de ensinar didaticamente conceitos mínimos que todos os seus alunos precisem absorver.
Esta é uma das funções em que a imaginação produtiva mostra sua extrema utilidade, mas não a única.
A mais importante função da imaginação produtiva é na área científica. É verdade que o cientista moderno trabalha geralmente a partir de sua observação. Especula sempre a partir de fatos já estabelecidos ou de conceitos matemáticos abstratos, mas demonstrados.



Só que não só de fatos vive a ciência. Ela também vive de idéias. O universo não é apenas pensado, mas também e principalmente imaginado pelo pesquisador.
Toda linha de pesquisa pressupõe e denuncia uma Idéia de Mundo, uma perspectiva pessoal daquele cientista acerca do mundo que ele vai investigar. O que a maioria dos pesquisadores faz é buscar comprovações de sua Idéia de Mundo, que pode ser uma convicção pessoal, mais ou menos fundamentada nos fatos e na sua experiência, como também, além disso, resultado de uma cultura antropológica específica.
Os cientistas gostam de se sentir seres humanos essencialmente racionais, mas é óbvio que isto não passa de uma falácia. Em nosso espírito temos misturadas duas partes, uma líquida e outra sólida, fluindo por dentro de nós, como nosso sangue. A líquida é flexível, maleável, adaptável. A sólida nem tanto. E esta parte que eu chamei de sólida compõe-se fundamentalmente de valores culturais adquiridos na infância e durante a nossa convivência familiar na infância e adolescência.
O cientista é educado mentalmente a reservar uma parte de seu cérebro para estas lembranças como meras crenças familiares e guiar-se apenas pelo seu raciocínio lógico e fundamentado. Vez por outra, entretanto, escapes ocorrem desta região de depósito que podem contaminar ou mesmo contaminam o pensamento dito racional. 




A palavra contaminar tem um aspecto negativo e não é feliz em descrever o que realmente acontece, pois pode ser exatamente esta Impureza Mental e Reflexiva a garantia da humanidade no processo científico. É o caso da imaginação produtiva e do raciocínio na obra científica de Einstein. Suas convicções pessoais, talvez até de certa forma religiosas, de um universo organizado e racional levaram-no a buscar até o fim de sua existência a chamada Teoria de Tudo, uma equação que em si resumisse a manifestação da existência. Hoje, pelo andar da carruagem, alguns respeitados homens de ciência já começam a achar que esta é uma busca inglória e fantasiosa (pasmem), que mais tem a ver com a noção religiosa do Deus Único do que com a ciência em si.
Tudo até agora aponta para um Universo Múltiplo e não Uno, como supõem os que ainda hoje buscam este Santo Cálice da Física Contemporânea. (Quanto a isso sugiro a leitura do texto de Marcelo Gleiser, “Criação Imperfeita”, da Editora Record).



Todos os místicos gostariam que sim, o Universo pudesse ser compreendido como uma manifestação Una e Indivisível, e que pudéssemos descrever cientificamente esta unidade em uma única equação.
E talvez seja assim, mas não do jeito que achamos. Talvez a nossa noção de Unidade é que esteja errada e, na verdade, a Unidade não seja um Ser, mas o conjunto dos seres e de tudo, esta interligação em si, tão presente na obra de Espinosa, um autor, aliás, admirado por Einstein.
Isto implicaria não em uma equação, mas em um conjunto de equações que, inter-relacionadas entre si, mostrariam cada uma faceta da Criação, um lado deste triângulo ou deste hexágono, não sei.
Este é um desafio para a Imaginação Produtiva dos cientistas envolvidos na busca, os quais com certeza recorrerão à esta ferramenta de modo construtivo e encadeado para elaborar os conceitos que depois, através do intelecto, tentarão descrever, didaticamente, para todos nós.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

OPINIÕES, CRENÇAS E EXPERIÊNCIA

Por Mario Sales, FRC.:;S.:I.:;M.:M.:

Existe no You Tube um vídeo da BBC sobre Nietszche, ao que parece parte de uma série intitulada “Humano, demasiadamente Humano” (Human, All Too Human: Nietzsche). Lá estão descritos detalhes biográficos do eminente pensador alemão. Entre eles a mudança brusca de rumo ao abandonar o curso de teologia na Universidade de Bonn. Por causa disso, Nietzsche mandou uma carta a sua irmã, Elizabeth, explicando suas razões para a troca pelo curso de filologia das línguas clássicas.
Diz ele: “Te escrevo isso, querida Elizabeth, só para contar as verdades mais comuns para os crentes. Toda verdade na fé é infalível; ela cumpre aquilo que o crente espera encontrar nela. Porém não oferece a mínima base para estabelecer uma verdade objetiva. Aqui os caminhos do homem se dividem. Se queres alcançar a paz e a felicidade, então crês. Se queres ser um discípulo da verdade, então busca.”



Essa fala me pareceu elucidativa sobre um tema que discuti quando escrevi sobre a morte do polemista Christopher Hitchens, antiteísta como se definia.
Para Nietzsche, havia uma oposição irreconciliável entre fé e busca, como se a busca também não fizesse parte do processo de crença.
Esta oposição é, do ponto de vista místico, absolutamente falsa.
Eu sempre comento que se os filósofos conhecessem o misticismo, fossem iniciados nas colunas do verdadeiro esoterismo, mudariam sua concepção sobre a presença de Deus no mundo e não combateriam mais ao Todo Poderoso, mas sim as instituições que se arvoraram em suas representantes e procuradoras, as religiões, aquelas que estabeleceram normas e leis em nome de uma intimidade com o Altíssimo que jamais possuíram.

Este equívoco está presente nos pensadores mais brilhantes. Tomam a experiência divina como sinônimo de crença e de religião. Não é, qualquer místico sabe disso, mas eles não são místicos, nunca buscaram dentro de si, e se o fizeram, não foram fundo o suficiente. Atingiram no máximo a mente e não o espírito.
Busca interior é algo mais profundo. Minha sóror e saudosa amiga Diva Ogeda sempre comentava que misticismo era uma coisa pra se tomar na veia. Não permitia meias verdades. Pessoas que não experimentaram interiormente a presença de Deus não podem discuti-lo, falar sobre ele, ser a favor ou contra a idéia de sua existência. É um discurso vazio, já que não é baseado em fatos. Sim, fatos, já que a experiência interior, a epifania verdadeira, não é uma impressão ou uma crença, mas uma vivência. Tenho lido pensadores os mais variados e exatamente por não terem vivenciado a presença em seu interior, discutem a Divindade de forma banal, superficial e imprecisa. Debatem a autodeterminação como se Deus os tolhesse; debatem a importância da liberdade como se Deus os acorrentasse; enfim debatem o pecado como se Deus os julgasse ou os condenasse.
Tudo bobagem.
Qualquer místico sabe que quem tentou tirar nossa autonomia filosófica, moral e científica foram as religiões; que quem aprisionou e torturou, física e mentalmente milhares de pessoas foram as religiões, e por último, quem julgou , condenou, e criou tábuas da lei como o próprio Nietzsche mostra em Genealogia da Moral, foram as religiões.
Deus? Deus não tem nada a ver com isso. Aqueles, no entanto, que se arvoraram em Seus representantes, esses falsários do espírito, esses seres arrogantes que se auto intitulam possuidores de uma revelação qualquer que lhes autorizaria torturar, julgar e escravizar multidões de mente fraca mundo afora, esses tiranos de várias denominações, esses são os verdadeiros inimigos da liberdade e da experiência direta de Deus, e não a fé.


O massacre dos Cátaros


Lembremos dos Cátaros, no sul da França e norte da Itália. Cátaro em grego quer dizer puro. Foram dizimados por uma única razão: acreditavam na auto determinação e que cada homem deveria ter um contato individual com Deus, e não através de intermediários. Vejam a transcrição que se segue : “A resistência às sucessivas tentativas de reconversão da população local provocou a organização da Cruzada Albigense. Iniciada em 1209, a cruzada durou cerca de 35 anos. Foi comandada por Simon de Montfort sob ordem do Papa Inocêncio III. Seus enviados estampavam uma cruz em suas túnicas e tinham como meta a absolvição de todos os pecados, a remissão dos castigos, um lugar a salvo no céu e, como recompensa material, o produto de todos os saques. A primeira cidade tomada foi Beziers, e o massacre foi quase que total. O abade de Citeaux, representante papal, ao ser questionado sobre como seriam reconhecidos os cátaros e os católicos, ele havia respondido: " Matem a todos... Deus se encarregará dos seus..."”
É estranho que grandes pensadores não tenham se apercebido desta sutileza. Talvez estivesses tão encharcados de religiões que não conseguiam ver Deus por trás e acima delas.
Mesmo assim, se sou severo com os Inquisidores de plantão, que não morreram nem desapareceram, estão apenas adormecidos e perigosamente atentos, tenho uma dose de crítica reservada aos grandes pensadores.
A única coisa que explica que homens inteligentes e sensíveis intelectualmente não tenham conseguido perceber a diferença entre uma e outra coisa é a ignorância. E não a ignorância intelectual, pois todos eram soberbos intelectuais.
O que é triste é que com tanta sensibilidade nunca tiveram a capacidade de se deixar absorver no Todo. E a única explicação é o Medo. Este mergulho na experiência, a única forma de se conhecer diretamente aquilo que Espinosa chamava de a Substância sem Causa, implica também na perda parcial ou total, temporária, não definitiva, na noção de Eu.


Aquele que por alguns instantes se funde com o Todo, percebe a noção de Unidade, e a personalidade não resiste à experiência da Fusão.
É assustador. É revelador da mesma forma.
E de qualquer maneira, é a única forma de se chegar a este conhecimento que aos místicos é corriqueiro: Deus não é uma crença, não é uma imagem, não é um nome; Deus é uma experiência.
Quem morrer em meu nome terá a Vida Eterna, dizia o mestre.
Sim, trata-se de uma espécie de Morte. E o Ego não suporta tal idéia. Tudo faz e fará para permanecer, para não ver sua destruição, como se isso fosse possível.
A experiência de Vivenciar a Divindade não anula o Ego, flexibiliza-o, mostra que ele não é algo tão sólido e estável como possa parecer. Apenas isto.
Isso imediatamente nos transforma.


Torna-nos humildes e, ao mesmo tempo, felizes. Faz com que pela primeira vez entendamos a ligação que temos com todas as coisas da Criação e com as outras pessoas e os animais e a Natureza. Tudo acontece de uma única vez, mas não é ainda uma iluminação. É apenas o primeiro passo na direção da Luz, mas que passo.
Esta é a única e verdadeira iniciação, aquela que ocorre no coração, como lembrava Saint Martin. Lembremos disso quando lermos os filósofos que falam sobre, a favor ou contra a idéia de Deus. E nos apiedemos de suas almas. Pois uma experiência assim é uma bênção transformadora e quem ainda não passou por isso, não viveu. Nada na sensualidade, nos prazeres mundanos, equivale a intensidade desta experiência. É uma pena que alguns não tenham ainda vivenciado tal estado.
Verdadeiramente, uma limitação.
Uma triste limitação que produz discursos capengas e incompletos.
Paciência.