terça-feira, 18 de maio de 2021

O EGO E O SERVIÇO

 

Mario Sales, FRC, SI



É comum ouvir em outros ambientes queixas de ausência de reconhecimento pelos serviços prestados ou uma suposta falta de justiça ao desempenho profissional ou pessoal.

Já vi muitas pessoas dilaceradas por essa angústia, sem que eu pudesse fazer alguma coisa ou dizer alguma coisa que diminuísse seu sofrimento e angustia.

E isto por uma única razão: suas queixas nada tinham a ver com acontecimentos externos ou pelo comportamento de outras pessoas, fossem superiores ou subordinados. Todo o sofrimento daquele individuo tinha a ver com seu próprio Ego.

O curioso é que o Ego tem um papel fundamental na individuação de uma pessoa, na assunção de responsabilidades pessoais e de um papel qualquer social.

É através do Ego que reconhecemos nossas qualidades e deficiências, que buscamos individualmente a evolução ou, às vezes, que mergulhamos em processos de autoflagelamento psicológico.

O sofrimento que nos atinge, portanto, não tem a ver necessariamente com o Ego em si mas com a compreensão que temos dele e de sua relação com o todo a nossa volta.

O Ego é, como todas as nossas características psicológicas, um instrumento que podemos usar para o bem ou para o mal; embora ele leve a culpa por uma atitude autocentrada batizada inclusive de Egoismo, na verdade o Ego é usado dentro de uma estratégia perversa, como bode expiatório de uma atitude atrasada do ponto de vista espiritual.

Não é o Ego o problema, portanto, mas a maneira como o utilizamos.

Saber-nos indivíduos distintos socialmente ajuda apenas a qualificar e especificar nossas necessidades espirituais e emocionais. Cada um de nós é responsável por uma parte da criação e essa parte é exatamente o que fazemos de nossa própria vida.

Pode parecer pouco, mas se multiplicarmos tudo o que cada um vivencia emocionalmente pelo número de pessoas que existe no mundo, temos uma pálida ideia daquilo a que me refiro.

Podemos, no entanto, achar que nosso trabalho social implica algo que precisa de um reconhecimento especial, diferenciado, e isto pela comparação com outras pessoas mais bem sucedidas e mais reconhecidas do que achamos que somos.

O nome disso não é egocentrismo, mas inveja e insegurança. Ilude-se quem acha que o universo é injusto ou que a fama é um sinal de sucesso.

Ilude-se quem acha que seu trabalho não é devidamente reconhecido e só pensa assim aquele que está fragilizado pela inveja e pela imaturidade.

Na verdade, trabalhar e servir a sociedade, já deve ser em si nossa própria recompensa e satisfação.

Se fizemos o melhor que podíamos ter feito, se produzimos com amor aquilo que produzimos, se nossa intervenção no social trouxe benefício a uma pessoa que seja, nossa recompensa deveria ser exatamente isso, ter servido com dignidade, independente de quaisquer reconhecimentos.

Nossa guardiã e juiza é nossa consciência e apenas a ela devemos satisfação e precisamos agradar.

Só nossa consciência nos diz quando devemos nos arrepender ou nos orgulhar do nosso desempenho.

Quem, sabedor de sua incompetência e da pusilanimidade de seu desempenho, se compraz em ser aplaudido por néscios e ignorantes, é um néscio também e um tolo. Vive uma fantasia de sucesso que não resiste ao tempo nem às análises mais cuidadosas.

Além disso, estamos as vezes falando de pessoas muito a frente de seu tempo, que em vida não são nem reconhecidas nem tratadas com a importância que mais tarde terão.

O que não quer dizer que não existam exemplos de indivíduos bem-sucedidos e reconhecidos em vida.

Mas não são todos. Muitos foram vítimas do atraso da sociedade e dos preconceitos que levaram a que outros e não eles recebessem o crédito por descobertas as mais importantes. Reconhecimento, como soube Galileu, não é prova de que seus argumentos e descobertas são ou não importantes.

Em épocas fúteis como a nossa, e foram muitas ao logo da história, é preciso não se precipitar e entender que quem serve, serve porque quer servir e não é obrigado a fazê-lo a não ser pela sua incontrolável produção pessoal, sejam artistas, cientistas ou escritores.

E antes de tudo o serviço bem-feito deve ser um premio para quem serve, despreocupado com o reconhecimento ou com os aplausos dos que recebem este benefício.

Se servimos, sirvamos com alegria, pelo prazer de fazê-lo, sem os grilhões de esperar reconhecimento pelo que se fez.

O resto é vaidade. Somente vaidade.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS CARTAS DOS MAHATMAS

 

Por Mario Sales, FRC




Se a DOUTRINA SECRETA é uma obra obscura e às vezes errática em seu curso, desafiando a paciência e a persistência de quem se atreve a encarar seu desafio, as Cartas dos Mahatmas para A.P.Sinnett ao contrário são de uma clareza e leveza impressionantes.

Ali pode-se ouvir Ku-Thu-Mi e Moria falando em tom absolutamente coloquial sobre assuntos os mais variados, com uma objetividade que deveria servir de exemplo para outros esoteristas, sem o mesmo nível de evolução, e que, mesmo assim, supõem que quanto mais rebuscado e vago for seu discurso mais erudito e atraente parecerá.

Coisas pouco claras me dão muito sono e cansaço.

Quem escreve se denuncia como alguém que quer ser compreendido. Quando eu falo com alguém espero que meu interlocutor entenda o que estou explicando e por isso uso o mesmo idioma que ele, com a mesma gramática, com uma entonação de voz e às vezes gestos que complementem e reforcem minha apresentação.

Em textos não temos a não ser idioma e gramática para nos ajudar. E claro, um curso de pensamento coerente e se possível linear.

Tudo que encontramos nos textos das Cartas dos Mahatmas para Alfred. P Sinnett e não encontramos por mais que louvemos a importância de seu trabalho, na Doutrina Secreta, cujo nome antecipa seu objetivo oculto: manter secreta a Doutrina de que fala.

K-H ou na maneira como assina, Koot’Hoomi Lal Singh, dito o Hierofante de AMORC além de irmão de Ordem do Mestre de Blavatsky, Morya, escreve com bom senso e raciocina com muita clareza. Conhece bem a natureza humana e antecipa corretamente comportamentos que hoje estão mais do que claros para psicólogos comportamentais, em relação ao modus operandi das multidões em geral.

Uma coisa, no entanto, sempre me intrigou.

Os relatos dos seus contatos com o editor do Pioneer e seu amigo, Hume, mostram que ambos os interlocutores destes excelsos mestres não eram personalidades espiritualmente diferenciadas. No caso de Hume, pelo contrário, tratava-se de alguém com pouca evolução, que chegou mesmo a elaborar estratagemas para testar a veracidade das afirmações dos mahatmas, estratagemas estes descobertos e criticados pelos mesmos como demonstrações de falta de maturidade e mesmo seriedade do mesmo.

Mais tarde, por causa deste comportamento, os contatos com este cavalheiro foram suspensos, mostrando que foi um erro dar-lhe uma atenção que muitos discípulos de natureza mística bem mais refinada gostariam de receber.

Nas palavras de K-H, na carta número 1, dirigindo-se a Sinnett, comenta:

“Em outras palavras, você presenciou uma variedade maior de fenômenos, produzidos para você e seus amigos, do que muitos neófitos viram em muitos anos.”

Por que isso? Pelo fato de que Sinnett era editor de um jornal considerado a época de importância na Índia e com ecos em Londres? Pela sua evolução com certeza não era, visto que não seria este o critério para tamanha cordialidade. Muitos tentaram contato com esses iluminados sem sucesso. E o argumento sempre foi de que não teriam merecimento para isso.

Com certeza existia outra razão que escapa aos textos publicados e que estão preservados na British Library, na Inglaterra.

Para que os Mestres se expusessem do modo como fizeram, quase como se estivessem dispostos a divertir um grupo de burgueses ociosos com feitos que pareceriam truques de mágica, a intenção destes seres excelsos deveria, em princípio, visar uma meta mais complexa.

Só posso concluir que não escreveram para o editor do Pioneer, mas sim para todos nós. Esta correspondência, eles deviam saber, viria a ser publicada no futuro e serviria de guia para aqueles que quisessem compreender os meandros do trabalho do Governo Oculto do Mundo.

Aliás, um trabalho que não é tão livre assim, nem tão arbitrário como possa parecer àqueles que supõem que o poder dá liberdade de ação aos que o detém.

Uma frase me marcou profundamente nesta primeira carta: “…quando chegar o momento e ele puder ter um relance completo do mundo do esoterismo, com as suas leis baseadas em cálculos matematicamente corretos do futuro – os resultados necessários das causas que sempre temos liberdade para criar de modelar a nossa vontade, mas cujas consequências somos incapazes de controlar, e as quais dessa forma se tornam nossos mestres…” (o grifo é meu).

Ou seja, os Mestres não podem controlar as consequências de seus atos, ou pelo menos todas as consequências, e por isso seus movimentos devem ser prudentes e cuidadosos. Eles não são livres, em todo o seu poder, para fazer o que queiram, mas precisam estar atentos às muitas repercussões de atitudes impensadas ou intempestivas, evitando tornarem-se escravos de seus desdobramentos.

Portanto, toda a cordialidade e a estranha (para nós, que nos acostumamos a reverenciá-los como seres elevados e distantes de nós) naturalidade como concederam a dois visivelmente limitados indivíduos e seus amigos, satisfazendo pedidos caprichosos e banais, de pessoas espiritualmente também banais, aquiescendo em surpreendê-los e diverti-los com feitos extraordinários, só podem significar uma coisa: tais acontecimentos foram feitos para serem registrados para as gerações posteriores a estes eventos, uma outra época, talvez a nossa, onde as coisas importantes não fossem a posição social ou os costumes não fossem tão vitorianos. Alguns podem argumentar que não estamos em um mundo evoluído espiritualmente como não estávamos naquela época. Ninguém, entretanto, negará que houve uma significativa mudança nos costumes e a informalidade hoje é bem mais numerosa do que a formalidade. E se ainda temos muitos preconceitos e manifestações de racismo, não se pode negar também que esses aspectos não são aceitos em geral pela sociedade como toleráveis e geram, muito frequentemente, consequências legais para os seus praticantes.

Em suma o mundo mudou e a sociedade deu alguns passos em direção a uma compreensão maior do fenômeno espiritualista. A visão antropomórfica de Deus, embora ainda persista como dogma em algumas crenças, não é mais vista como aceitável pela maioria das pessoas.

As religiões são constantemente “customizadas” e adaptadas as novas concepções do momento.

Visivelmente o ser humano busca novas formas de crer.

Este novo homem, arrisco-me a dizer, lerá com muito menos assombro estas cartas e estranhará o comportamento infantil dos interlocutores dos mahatmas o que só pode ser atribuído ao momento histórico em que estes fatos ocorreram.

Outro mundo, outra sociedade, outras pessoas.

Estou dizendo que pessoas banais não existem mais? Não, longe disso. O que digo é que as comunicações e a velocidade com que a informação viaja e a sua democratização permite hoje que não haja necessidade de ter que se relacionar com seres espiritualmente tão limitados para chegar aqueles que realmente importam. Quando digo isso, refiro-me, claro aos iniciados, os servidores da humanidade, aqueles que estão militando na causa da evolução. Almas diferenciadas que merecem uma atenção e uma orientação mais próxima e que terão acesso as personalidades dos Mahatmas de várias formas, uma delas lendo suas cartas e descobrindo na leveza de seus textos homens, e não deuses, que tem como único objetivo colocar toda sua erudição e experiencia de muitas vidas a serviço da humanidade.

Cem anos precisaram passar para que isso ocorresse.

Considerando a imensidão do Universo e a escala cósmica do tempo, até que foi rápido.

terça-feira, 11 de maio de 2021

O Quê e o Como

 

Por Mario Sales


 



A parte mais difícil da prática da visualização é visualizar. Parece uma tautologia idiota, mas na verdade visualização criativa não é como parece apenas ver alguma coisa na imaginação, mas transmitir uma mensagem ao cósmico, mensagem que tem seu próprio protocolo de redação, de montagem, que se não for seguido redundará em fracasso do experimento.

Por exemplo, no caso de desejar fazer uma viagem, devemos nos concentrar no local onde queremos estar e não nos meios para chegarmos até lá.

Se vamos para Pequim, na China, devemos nos ver em Pequim, e não gastarmos nossos engramas cerebrais em visualizar um avião, um navio ou mesmo uma quantia qualquer em dinheiro a qual supomos que nos leve até Pequim.

Portanto um dos pressupostos da visualização é que jamais nos concentremos em meios, mas sempre nos fins.

Os meios, Deus, em seu infinito poder, proverá.

Lembrava o poeta que as soluções de Deus sempre nos surpreenderão e estão além de quaisquer antecipações, através destes belíssimos versos:

“(Se eu quiser falar com Deus)

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar”



Fins e não meios. Porque não podemos dizer ao altíssimo, arrogantemente, como ele deve nos ajudar. Ele sabe tudo, pode tudo. Nada sabemos que ele não saiba e muitas coisas ele sabe que nós nem chegamos a cogitar.

Portanto precisamos confiar que a Consciência Cósmica interagirá melhor do que nós com as possibilidades disponíveis e nos trará uma solução simples e elegante para nossas necessidades.

Nessa mesma perspectiva devemos evitar de ser muito detalhistas quanto a objetos de grande vulto, não por causa do tamanho, porque isso não importa, mas porque detalhes demais sempre são uma forma de impor nossa visão à Consciência Cósmica, e isto não é de bom tom.

O exemplo da casa é importante e me vi sendo questionado em uma palestra virtual sobre esse aspecto.

Primeiro falei da importância da nitidez da imagem e depois falei do inconveniente de detalhar demais o que desejamos. No exemplo de desejar uma casa, podemos visualizar uma casa com paredes de fumaça, imaginando simultaneamente as qualidades que desejamos nesta casa como conforto, claridade da luz natural, espaço e linhas contemporâneas, mas aconchegantes. Como tais qualidades não podem ser visualizadas, na visualização projetamos a imagem de uma casa de fumaça, enquanto repetimos mentalmente, como se fosse um mantra, a lista de qualidades que a casa deve ter (conforto, claridade da luz natural, espaço e linhas contemporâneas, mas aconchegantes). Paredes de fumaça, teto de fumaça, mesmo com pé direito alto, mas sem dar uma forma a casa que possa impedir a participação do Grande Arquiteto no desenho final.

Resolvi escrever essas coisas para se possível deixar claro que isto se baseia no mais importante princípio da visualização. Diga a Deus o que você precisa, mas não como ele deve lhe ajudar. Esses são assuntos que estão além da nossa capacidade de decisão.

Como sempre repito, não acreditem em mim.

Testem esta técnica. Depois se quiserem me escrevam dizendo como se saíram. Ficarei muito feliz de ler seus relatos.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

NOVAS INTERPRETAÇÕES DO TERMO C.R-C

 

Por Mario Sales

 



Conversei com outros artesãos da Rosacruz sobre minhas dúvidas levantadas no ensaio anterior. Baseando-se em palestras internas pregressas da Ordem, Frater Canalli me propôs outra interpretação, aliás conciliadora sobre os dois aspectos.C.R+C é um título, não o nome de alguém. Cristus Rosa Cruz é a condição de iluminado da Ordem que identifica, encarnação após encarnação, uma personalidade alma responsável pela implementação e fortalecimento da Ordem Rosacruz época após época. Existe um documento inclusive, relativo a assuntos administrativos, datado de 1934, assinado por H. Spencer Lewis, aonde após seu nome ele coloca as letras V.G.M seguida de C. R+C. ou seja, Venerável Grande Mestre e, em seguida, o título de Cristus Rosa Cruz, que o identifica como o CRC da época contemporânea. Ou seja, de tempos em tempos, um CRC encarna com a finalidade de soerguer o movimento rosacruciano e Ku-Thu-Mi referia-se provavelmente a um deles. Isto não é explicado na Carta 20 e causa o desconforto de deixar no ar a existência de um ser histórico com esse nome, que traduzido para o alemão tornou-se Christian Rosencreutz.

Me parece satisfatório. Agradeço a Frater Canalli pelo brain storm esclarecedor.

 

domingo, 2 de maio de 2021

CONTRADIÇÕES

 

Por Mario Sales, FRC

 

        

           
Spencer Lewis 


   

   Ku-Thu-Mi

 

“Conforme afirmamos, Mme Helena P. Blavatsky foi a primeira a apresentar popularmente aos estudantes místicos um dos mestres da Grande Fraternidade Branca. Ela obteve permissão de seu mestre (El Morya) para assim fazer (…). Fez ela muitas descrições interessantes de manifestações de seu mestre (Morya) e mestre companheiro (Ku-Thu-Mi). (…) Nós, que já estabelecemos contato com seu mestre e com outros e que trabalhamos sob sua orientação, conhecemos as coisas maravilhosas que por eles e por intermédio deles são realizadas diariamente (…).”

Manual Rosacruz, H. Spencer Lewis, 6ª edição, coordenação de Maria A. Moura, Ed Renes, pág. 205 e 206

 

“Ao aproximar-se o momento de cada jurisdição ou país promover o renascimento da Ordem, tomavam-se providências para a habitual emissão de um manifesto, ou panfleto, que lançava o começo de um novo ciclo. (…) Esse manifesto, decreto, ou símbolo, anunciava a descoberta de uma “tumba”, em que for a encontrado o “corpo” de um grande mestre, C. R-C (Cristian Rosenkreutz), juntamente com joias raras e escritos secretos ou inscrições gravadas em pedra ou madeira, que conferiam poderes aos descobridores da “tumba”, para restaurar a secreta organização. (…) É preciso que se torne evidente, para o leitor desta história, que a descoberta de um “corpo” numa “tumba”, ou do corpo de uma pessoa conhecida como Cristian Rosenkreutz é alegórica, não devendo ser compreendida no seu sentido literal. Em primeiro lugar a palavra “corpo”, na língua em que foi primeiramente empregada simbolizava algo inteiramente diferente do corpo físico de um homem. Em segundo lugar as iniciais C. R-C não significavam Cristian Rosenkreutz, exceto na tradução das palavras que elas representavam para o alemão. Estas iniciais, significando Christus da Rosa-Cruz, podem ser traduzidas para o latim, o francês e outras línguas sem qualquer alteração; portanto, as iniciais C.R-C, quando usadas a primeira vez, não se referiam a palavras alemães ou francesas, e sim latinas.”

In “Perguntas e Respostas Rosacruzes”, H. Spencer Lewis, Biblioteca Rosacruz, Grande loja do Brasil, 2ª edição, 1983, páginas 73 e 74.

 

 

“Eliphas (Levi) estudou os manuscritos rosacruzes (agora reduzidos a três exemplares na Europa). Estes expõem nossas doutrinas orientais com base nos ensinamentos de Rosenkreutz, que após o seu regresso da Ásia, as revestiu com uma roupagem semi cristã, com a intenção de proteger os seus discípulos da vingança clerical. (…) Rosenkreutz ensinou verbalmente. Saint Germain registrou as boas doutrinas em linguagem cifrada (…).

Ku-Thu-Mi In “Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett, 2ª edição volume I, Editora Teosófica, Brasília, DF, págs. 131,132.

 

Alguma dessas afirmações não é verdadeira.

Os rosacruzes de AMORC aprendem desde cedo que nosso hierofante, a mais alta autoridade da hierarquia da Ordem não é o Imperator mas Ku-Thu-Mi, um dos mestres da Grande Fraternidade Branca, entidade revelada ao mundo por Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica.

El Morya, Mestre de Mme Blavatsky, e Ku-Thu-Mi, seu mestre companheiro mantiveram por trinta anos, entre 1870 e 1900, correspondência pessoal, como todos sabem, com um editor de um jornal indiano chamado Alfred Percy Sinnett[1], editor do The Pioneer, em Alahabad. Essas cartas estão disponíveis em Londres, na British Library. Foram publicadas de dois modos. Uma versão que as organiza de acordo com seus temas principais, sob a égide de C. Jinarajadasa, à época presidente da Sociedade Teosófica. A outra versão tem o título As Cartas dos Mahatmas e foi organizada seguindo a ordem cronológica das mesmas, em dois volumes. Ambas as publicações foram traduzidas para o português pela Sociedade Teosófica e estão disponíveis em várias livrarias virtuais.

 

Alfred Percy Sinnett

 

Na segunda versão, “As Cartas dos Mahatmas”, Flavio me chamou a atenção para o trecho em epígrafe neste ensaio, na carta número 20. Neste trecho, Ku-Thu-Mi, nosso hierofante, afirma que um personagem, que aprendemos desde cedo na AMORC é fictício e simbólico, na verdade é real e histórico e teve existência física. Embora não se diga nada sobre isso, fica também a impressão nesse trecho que C. R-C foi o fundador da Ordem Rosacruz sendo que todos nós somos os seus seguidores, e isto por volta do século XVI. Embora não tenhamos como demonstrar com documentos nossa origem, nós, rosacruzes, nos consideramos herdeiros das escolas dos templos das pirâmides do Egito, e tradicionalmente é assim que cremos ter sido. Aceitar que toda a Ordem Rosacruz deva sua gigantesca tradição ao trabalho de um único homem e em época tão próxima, 4 séculos atrás, é desconcertante. Principalmente quando tal afirmação é feita por um mestre da Fraternidade Branca, um alto iniciado, além de nosso próprio Hierofante.

Ou o trecho de As cartas dos Mahatmas está equivocado ou adulterado no original, ou a afirmação de Spencer Lewis sobre a condição literária e simbólica do personagem C. R-C é falsa.

Não há como conciliar os dois trechos.

Os teósofos dirão que o que está nas cartas é fiel as declarações do Mahatma Ku-Thu-Mi, e provavelmente nos remeterão ao exemplar original na British Library para comparação.




British Library, Londres

As autoridades administrativas de AMORC também não abrirão mão da total confiança nas declarações de nosso fundador no século XX, cujos textos são as colunas de sustentação do trabalho da Ordem nos últimos 100 anos.

Só uma adulteração do texto de Ku-Thu-Mi poderia desfazer esse impasse mas caso isso não tenha acontecido, temos que admitir que, se Spencer Lewis está sendo fiel aos fatos que lhe foram transmitidos por Sar Hyeronimus, na França, Mestre Ku-Thu-Mi, o Ascenso, não é verdadeiramente infalível, e cometeu um equívoco.

Os textos teosóficos estão coalhados de declarações pelo menos errôneas, que na maioria das vezes devem-se a erros de tradução ou mesmo podem ser fruto de adulteração do original. Pelo menos na edição da Editora Pensamento de 1976, em português, que já foi dita por Carlos Cardoso Aveline, da Editora Teosofica em Brasilia, como uma edição não confiável. Ou como no caso relatado por mim em um ensaio anterior, Filósofos de Fogo, de 26 de julho de 2018, e que transcrevo abaixo:


Blavatsky demonstra aqui que mesmo grandes esoteristas, orientados por mestres cósmicos, podem incorrer em equívocos.

Mais à frente, nos comentários ao oitavo verso da Estancia 3, numa belíssima passagem que revela todo seu conhecimento universalista e esotérico, diz ela:

“É ainda igualmente significativo o estranho símbolo adotado; seu verdadeiro sentido místico é a idéia de uma matriz universal, representada pelas Águas Primordiais do Abismo, ou abertura para a recepção e a subsequente saída daquele Raio Uno (o Logos), que contém em si os outros Sete Raios Procriadores ou Poderes (os Logos ou Construtores). Daí terem os Rosacruzes eleito por símbolo o pássaro aquático (seja o cisne ou o pelicano) com os seus sete filhotes (símbolo modificado e adaptado à religião de cada país. Ain Sof é chamado no Livro dos Números a "Alma de Fogo do Pelicano". Surge em cada Manvantara como Nârâyana ou Svâyambhuva, o Existente por Si, e, penetrando no Ovo do Mundo, dele sai no final da divina incubação, como Brahmâ ou Prajâpati, o progenitor do Universo futuro, no qual se expande.

É Purusha (o Espírito), mas também é Prakriti (a Matéria).”

Ora, qualquer rosacruz que tenha pertencido ou pertença à Ordem Maçônica, em qualquer de suas potências aceitas, verá que aqui não temos um símbolo rosacruz, mas sim um símbolo eminentemente maçônico, ligado ao chamado "Grau do Cavaleiro Rosacruz", ou Grau 18, que foi , aqui, equivocadamente atribuído aos rosacruzes em si.



Na verdade, a simbologia do Pelicano que morde o próprio peito e tira seu próprio sangue para dar como alimento aos seus sete filhotes refere-se a este grau da maçonaria e representa, na simbologia maçônica, o desenvolvimento da virtude da misericórdia, como lembra talvez o mais importante autor maçônico brasileiro, o alagoano Nicola Aslan. Não quero dizer com isso que o texto de Cartas dos Mahatmas que traz esta contraditória afirmação atribuída a mestre KH seja incorreto. Embora eu tenha plena confiança nas afirmações de Spencer Lewis, e sua explicação de C.R-C como um símbolo literário e recurso de aviso velado da reativação do trabalho da Rosacruz após o ciclo de repouso de 108 anos faça, para mim, muito mais sentido, na verdade me faltam dados para bater o malhete e dizer qual afirmação corresponde a verdade.

Deixo em aberto minha perplexidade e apenas anoto esta contradição entre textos de duas nobres e respeitáveis tradições esotéricas, que atribuem a um mestre ascenso, em princípio infalível, como já dito, declarações contraditórias e inconciliáveis, esperando eventualmente que esta dúvida seja desfeita por um leitor tão detalhista quanto eu.


[1] Alfred Percy Sinnett (18 de Janeiro de 1840 - 26 de Junho de 1921) foi escritor e teósofo.

As cartas dos Mahatmas, que geraram a controvérsia que mais tarde contribuíram na divisão da Sociedade Teosófica, foram escritas majoritariamente para Sinnett. Em 1880, Helena Blavatsky e Henry Olcott visitaram Sinnett em Shimla. Em 1881 Sinnett escreveu O Mundo Oculto, e em 1883, Budismo Esotérico. Posteriormente, Sinnett foi presidente da Loja de Londres da Sociedade Teosófica. Ele foi Vice-Presidente da Sociedade Teosófica entre 1880-88, 1895-1907, 1911-1921, e atuou como Presidente por quatro meses em 1907, logo após a passagem de Henry Steel Olcott.

Fonte Wikipedia

sexta-feira, 30 de abril de 2021

OLHAI OS LIRIOS DO CAMPO

 

Por Mario Sales

 

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.”


Mateus 6:25-34

 



 

Lá pelas últimas páginas de “princípios rosacruzes para o Lar e para os Negócios”, no capítulo intitulado “A Távola Redonda”, Spencer Lewis diz que “o homem tem dentro de si um poder criador que é parte da força universal criadora e parte da energia criadora que Deus soprou no espaço quando a primeira Palavra (assim mesmo, com “P” maiúsculo) foi pronunciada e a ordem surgiu do Caos.”

Essa é uma afirmação de forte impacto, se compreendida, se realmente assimilada, se não for lida com desinteresse ou descrença.

Ela afirma que o homem, qualquer homem ou mulher, têm dentro de si “um poder criador que é parte da força universal criadora e parte da energia criadora que Deus soprou no espaço”, mas poderia ter afirmado que qualquer ser humano têm dentro de si o mesmo poder que emana de Deus, e não “uma parte” dele.

Todas as vezes que leio este trecho em literatura da Ordem ou trechos que propõem uma concepção semelhante, sou tomado de forte emoção.

Primeiro pelo significado intrínseco destas declarações que se lidas com a devida atenção trazem uma afirmação assustadoramente poderosa; segundo porque por mais que creiamos na correção e veracidade da afirmativa a maioria de nós está distante de perceber ou de implementar tal conhecimento em sua totalidade. Pelo contrário: sentimo-nos, via de regra, limitados por condições objetivas, problemas de natureza social, psicológica ou física. Situações de caráter financeiro ou emocional.

Não nos sentimos cheios deste poder.

Não percebemos tal energia criadora em nós.

E por quê?

A resposta está em nossas convicções. No livro “As cartas dos mahatmas para A.P.Sinet”, no volume 1, página 166 lemos que “os senhores Sinet e Hume são exceções. As suas crenças não são barreiras para nós, pois não têm nenhuma. (quanto a manter contato e troca de ideias). Eles podem ter tido influências ao seu redor, más emanações magnéticas resultantes da bebida, da sociedade mundana e de associações físicas promíscuas (resultado até mesmo de apertar a mão de homens impuros); mas todos esses impedimentos são físicos e materiais, aos quais podemos nos opor com um pequeno esforço – continua mestre Morya - , e mesmo eliminá-los sem muito esforço para nós. Mas é diferente com o magnetismo e os resultados invisíveis produzido por crenças errôneas e sinceras.”

Errôneas e sinceras, diz Mestre Morya, ou seja, convicções profundas absolutamente equivocadas, contra as quais pouco podemos fazer. Todo diálogo, toda mudança, esbarram nestas convicções que, como zinabre, impedem a conexão necessária que geraria a energia latente em nosso ser.

Obstruções de fluxo.

E precisamos deste fluxo livre para que a força latente em nós possa ser manifestada, como se manifestava no Cristo ou em Buda.

Tal poder não é nosso, mas está disponível a todo ser vivente, e em última análise, é da mesma natureza daquele que nos garante a própria existência através do cordão de prata.

Não é preciso crer nele. Precisamos isto sim, nos libertar da dúvida sobre ele, de todo pensamento de limitação que nos faz crer, primeiro, que somos separados uns dos outros e da Fonte de toda a Vida; e segundo, de que, por isso, não temos poder algum para modificar nossa existência ao nosso bel prazer.

Permitir-nos ser o que somos, tornarmo-nos aquilo que somos, como diria Nietszche, é nosso destino e meta.

A experiencia de vida seria muito diferente se percebêssemos em nós 1/10 deste poder.

Para isso, no entanto, temos de abandonar convicções errôneas e sinceras, nossos preconceitos e crenças acerca do que somos, ou de nossas limitações.

Este salto de qualidade só é possível pela deseducação, pelo esquecer do que acreditamos e, pelo menos, darmos uma chance a outras possibilidades de compreensão.

Não é tão simples como bem lembra mestre Morya; mas é possível. Não é suficiente querer, mas sim esquecer o que achamos sobre a vida e sobre nós mesmos.

Este é o segredo da transformação.

E aí perceberemos como lembra Mestre Jesus no evangelho de Mateus, nossa divina filiação e nossa ligação permanente com Aquele que não só nos deu a Vida, mas também a mantém.