terça-feira, 12 de maio de 2020

O ISOLAMENTO E O FOCO


Por Mario Sales


São João da Cruz
SALMO 88

Ó, SENHOR, meu Deus e Salvador, dia e noite, na Tua presença, eu clamo a Ti.
Ouve a minha oração; escuta o meu grito pedindo socorro.
Pois as aflições que caíram sobre mim são tantas, que já estou perto da morte.
Sou como aqueles que estão para morrer; já perdi todas as minhas forças.
Estou abandonado no meio dos mortos; sou como os soldados mortos jogados nas covas;
Sou como aqueles que foram completamente esquecidos por Ti e que não tem mais a Tua proteção.
Tu me atiraste no mundo dos mortos, lá no fundo, na escuridão.
A Tua ira pesa sobre mim, e as Tuas ondas me esmagam.
Tu fizeste com que os meus amigos me abandonassem e olhassem com nojo para mim. Sou como o preso que não pode escapar.
Tenho sofrido tanto que quase já não enxergo. Ó Senhor Deus, dia após dia eu te chamo e levanto as mãos em oração.
Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam?
Será que no mundo dos mortos se fala do Teu amor?
Será que naquele lugar de destruição se fala da Tua fidelidade?
Será que naquela escuridão são vistos os Teus milagres?
Será que na terra do esquecimento se pode ver Tua fidelidade?
Ó Senhor Deus eu Te chamo pedindo ajuda; todas as manhãs eu oro a Ti.
Por que me rejeitas, ó Senhor? Por que Te escondes de mim?
Desde moço tenho sofrido e estado perto da morte; ando esgotado com o peso dos Teus castigos.
A Tua ira e o Teu furor caem sobre mim; os teus ataques terríveis acabam comigo.
O dia todo eles me cercam como uma enchente; eles me rodeiam por todos os lados.
Tu fizeste com que os meus queridos e meus vizinhos me abandonassem, e agora tenho como companhia a escuridão.


Bíblia Sagrada, Ed Paulinas, nova tradução na linguagem de hoje,2006

Estamos todos, por causa da pandemia deste ano, aprisionados em nossas casas, impedidos de ver uns aos outros, a não ser por artifícios tecnológicos que nos permitem ver-nos sem tocar-nos.
Achamos que isto nos constrange, que nos angustia e tortura. Foi inevitável na minha cabeça a comparação com os sofrimentos de outro prisioneiro, que seria mais tarde o guia dos que estão isolados da sociedade, não por algum constrangimento externo, mas por opção e perfil pessoal.
Falo de São João da Cruz, o guia da vida monástica, aquele que ao escrever sobre a vida retirada inspirou e ainda inspira monges e freiras.
Nem de longe nosso isolamento pode ser comparado às dificuldades físicas que acompanharam este monge, em 1577.
Eis um resumo: “Na noite de 2 de dezembro de 1577, um grupo de carmelitas contrários às reformas invadiram a casa de João em Ávila e o prenderam. Ele havia recebido ordens de alguns superiores contrários às suas ideias a deixar Ávila e voltar para sua casa original, mas ele se recusou alegando que seu trabalho havia sido aprovado pelo núncio espanhol, uma autoridade superior, o que resultou em sua prisão. Ele foi levado para um mosteiro em Toledo, que era, na época, o mosteiro carmelita mais importante em Castela, abrigando provavelmente uns 40 frades. João foi acusado de desobedecer às ordens de Placência e, apesar de seus argumentos, acabou sendo condenado à prisão. Encarcerado no mosteiro, João foi mantido sob um regime brutal que incluía uma surra de chicote em público ao menos uma vez por semana e um isolamento completo numa cela minúscula (3m x 2m) que mal abrigava seu corpo. Com exceção das raras ocasiões nas quais recebia permissão para utilizar uma lamparina, João era obrigado a subir num banco para conseguir ler seu breviário utilizando a luz que escapava do cômodo vizinho através de um buraco na parede. Ele não podia trocar de roupas e era alimentado apenas com pão, água e restos de peixe salgado. Foi neste período que João compôs grande parte de seu famoso poema "Cântico Espiritual" (além de outros menores) em papel fornecido por um outro frade que era encarregado de vigiar sua cela. João finalmente conseguiu escapar nove meses depois, em 15 de agosto de 1578, através de uma pequena janela que existia na cela vizinha depois de conseguir soltar as dobradiças da porta de sua cela.”
Meu computador vara a noite produzindo palavras e textos de forma ininterrupta, limitado apenas pela minha disposição e lucidez. Ao contrário de João, que nem papel conseguia com facilidade, isto não me torna mais produtivo. É impressionante que naquelas condições, “João compôs grande parte de seu famoso poema "Cântico Espiritual" (além de outros menores) em papel fornecido por um outro frade que era encarregado de vigiar sua cela.”
Existem relatos em várias partes da literatura que atestam o papel inspirador da miséria física na elaboração da boa literatura espiritual, se bem que, a história do misticismo sugere que iluminados não são escritores ou mesmo descritores de suas próprias percepções elevadas. Suas vidas são um doar-se tão constante que qualquer interrupção para registrar seus princípios éticos e espirituais seria como uma represa em um fluxo por natureza ininterrupto em direção ao oceano cósmico.
Outros que ao contemplarem as suas águas límpidas e seu ritmo inexorável o descrevam. A natureza do iluminado é fluir e permitir em si mesmo este fluxo.
Cristo, Buda, Isaac Luria e mesmo Sócrates tiveram seus evangelistas e relatores, que os imortalizaram em textos até hoje vigorosos e admirados, como em um desdobramento compulsório da presença e passagem desses iluminados pelos locais aonde passaram.
De qualquer maneira, não são condições materiais ideais que promovem o bom trabalho intelectual, mas um determinado estado de espírito que requer concentração e determinação, em uma palavra, foco.
Tudo que me dá conforto me distrai. Não sou favorável ao faquirismo, esclareço, mas a vida espartana tem seu valor psicológico, no sentido de reduzir todos os fatores que possam dificultar a manutenção estável de nossa concentração.
Patânjali, o codificador do Yoga, descreveu o Ashtanga Sádhana, o Caminho de oito partes. Os quatro últimos formam um conjunto de fases ascendentes até o estado de despertar da consciência, temporário ou definitivo, o Samadhi. A concentração, Dharana, é o segundo desses quatro passos, e antecede o estado meditativo, Dhyana. O primeiro desses últimos 4 passos é Prathyahara, a Abstração, retirar a atenção das coisas a nossa volta para alcançar um estado de foco adequado em um único ponto. Tudo que não seja este ponto é seu adversário, seu inimigo, luta contra ele e contra a estabilidade de nossa atenção. São a periferia da Mandala à frente do meditador, a mesma periferia que deve tornar-se cada vez mais difusa e invisível, até que desapareça por completo e reste apenas o centro do mesmo Mandala, tão somente o centro, o nosso verdadeiro foco. Aí sim, passamos ao período de ascensão gradual, aonde a perfeição de um estado leva a outro. Perfeita abstração é igual a concentração. Perfeita concentração é igual ao estado de Meditação. Perfeito estado meditativo, é igual a despertar da consciência, mergulhar no todo, esquecer-se de si mesmo.
É possível fazer alguma coisa nesse estado de abandono, de ausência de identidade pela identificação com o Altíssimo? Experiências como a de São João sugerem que sim. Sem conforto, com fome, cansado, sendo açoitado uma vez por semana, ainda assim com pedaços de papel conseguidos a duras penas, São João da Cruz escreve e cria sua obra mística que depois iria aperfeiçoar. Só consegue escapar nove meses depois, o mesmo tempo necessário a geração da criança no ventre de sua mãe, como numa reprodução simbólica da maternidade. O que nasce aqui, no entanto não é corpo, mas espírito; não é a carne, mais a alma, e junto com ela um diário desta gestação resumido no chamado “Cântico Espiritual”, sua obra do cárcere.
Tudo que nos dá conforto, nos distrai, nos prende ao mundo dos sentidos, fortalece em nós a ideia de que “sim, somos o corpo”, e não que “estamos no corpo”, temporariamente. Não é a matéria que nos prejudica, mas a distração que ela nos causa, impedindo o foco correto no espirito, que não implica, como demonstra a historia de João da Cruz, na inação, na aceitação passiva das circunstancias adversas, mas que pode sim ser ambiente propicio ao surgimento da beleza.
Quem já teve a curiosidade de estudar as diversas fases de formação do feto sabe que a forma final que a criança apresenta no dia do parto foi o resultado de mudanças progressivas que atravessam fases algumas das quais em nada nos lembraria um ser humano. Olhos esbugalhados e afastados, cabeças gigantescas em relação ao corpo, proporções que vão se ajustando ao longo das semanas até que a criança está pronta para a aventura for a do útero.
Processos que em momento algum podem ser interrompidos, cumulativos, com um único objetivo: a preparação do corpo para a vida em ambiente aéreo, respirando não líquido, mas ar.
Assim também o espírito atravessa processos preparatórios à iluminação, fases nas quais o foco é apenas um: a evolução. Todas as experiências visam apenas a Ascenção da consciência aos níveis que a atraem desde que chega a este mundo, arrastada pela imensa saudade da Unidade que já conhecera antes desta experiência de aparente autonomia e independência.
O mesmo João da Cruz que encontrou forças e foco para resistir a esta gestação moral nestes nove meses entre 1577 e 1578, descreveu com brilhantismo em sua obra literária a Noite Negra da Alma, o momento mais escuro que o espírito atravessa antes da iluminação, a angustia comparável a do corpo no canal do parto, na hora de sua expulsão do corpo de sua mãe.
Antes protegido, aquecido, mergulhado em líquido, o feto é trazido a um meio ruidoso, ofuscado por uma luz desconhecida, e tem seus pulmões inflados de modo súbito pelo processo de respiração.
Sair do estado material para o espiritual é da mesma maneira um brusco salto qualitativo, após um longo acumular quantitativo, um salto que, mesmo aparentemente súbito, apenas continua e coroa um processo que começou muito, muito tempo antes.
A evolução lembra mais cangurus do que cisnes em um lago. Não deslizamos ao longo das vidas, saltamos de existência em existência, de nível para nível, na escada espiralada da evolução.
O desconforto e o sofrimento nos afetam e entristecem, como entristeceu o próprio rei David do salmo 88, em epígrafe. Mas isto não significa que não possa ser um estímulo e uma oportunidade de melhorarmos nosso foco espiritual privados que estamos das distrações habituais.
Continuemos trabalhando porque eventualmente tudo passará, porque tudo, absolutamente tudo passa.
E não percamos a chance de usarmos este período desconfortável a nosso favor.
Tudo faz parte de nosso próprio processo de desenvolvimento, mesmo que leve nove meses, como em uma gravidez normal.

domingo, 10 de maio de 2020

"MISTICISMO", um texto fundamental



Por Mario Sales


São 10/05/2020. Já estamos no terceiro mês de pandemia e, por causa do isolamento, muitas palestras pela internet se sucedem, tanto individuais como institucionais.
Nesta última classificação a Sociedade Teosófica e a Rosacruz AMORC tem sido bastante atuantes.

Fábio Lopes Soares

Ontem a Loja Rosacruz Guarulhos São Paulo, em associação com a com a Heptada Martinista São Paulo e com a Loja Rosacruz Recife, de Pernambuco, promoveram uma bela atividade cujo título era “Reflexões de um Místico Moderno sobre a Alma”, trabalho do Frater Fábio Lopes Soares, atual mestre da Heptada Martinista São Paulo na sua fala baseou-se em 6 livros que nomeou na introdução, entre eles o livro MISTICISMO, de Evelyn Underhill, publicado pela editora rosacruz francesa, Difusion Rosacruciene. Trata-se de uma obra preciosa, densa, de 792 páginas, fora as da bibliografia. Data de 1911.

Evelyn Underhill

Tenho aqui na biblioteca a edição de maio de 2002, sendo que a primeira edição em língua portuguesa é do ano de 1995.
Por que tantos detalhes? Por que, como lembra o editor no prefácio, embora Evelyn Underhill seja “um dos escritores de misticismo essenciais do século 20, no entanto muito estranhamente ainda é desconhecida pelo grande público”. Esse livro levou 4 anos, diz ele, para ser escrito.
É, portanto, uma obra de fôlego, e, embora eu seja adepto da tese de que erudição não é sinônimo de iluminação, e que grandes escritores não são, necessariamente, por isso, grandes místicos, é claro que registrar em texto sentimentos e valores organiza nossas percepções e as esclarece, de maneira que muitos seres humanos, em todo o planeta, possam talvez se reconhecer nas imagens e reflexões desses autores, e quem sabe, fortalecer suas convicções, emoções e vivências, além de ajustar suas compreensões solitárias e pessoais às desta imensa egrégora de outras almas com as quais dividem afinidades espirituais.

Edmund Husserl

O escritor constrói estradas que facilitam o caminho dos que vêm após ele e quanto mais seu texto for claro e sincero, mais o caminho dos que vem após ele será plano e agradável.
Aprendi, lendo Edmund Husserl, criador da FENOMENOLOGIA, que existem autores profundos, claros ou obscuros, mas que nem todo texto obscuro é necessariamente profundo.
O livro de Evelyn Underhill não é nem obscuro, nem superficial, mas didático como desejaria Comenius, um nobre educador Rosacruz, mais parecido com um inventário grandioso das diversas manifestações literárias de verdadeiros místicos de várias linhas, sem deixar de, graças a este extenso levantamento, propor reflexões fundamentais à vida de cada um de nós, vítimas da picada da mosca violeta.
Comenius

Como exemplo cito seu relato sobre as confissões de Gertrude More, em “Os Exercícios Espirituais”. Lembra Underhill, que esses escritos “…não foram feitos para serem publicados, mas escritos, em sua maioria, nas páginas em branco de seu breviário…”. Gertrude chamava-os “Amor Ordinem Nescit”, ou, em português, “As devoções de uma tola”.

Gertrude More

Falam esses textos, impressos de modo póstumo, em Paris, em 1658, de 2 temas principais: o primeiro, “dar tudo o amor é algo dulcíssimo” e o segundo, “Oh, deixa-me amar ou não me deixeis mais viver”.
Tais textos, diz Underhill, receberam a seguinte análise de Peter Berger: “em essência são a concentração de todas as forças da alma sobre um objeto Supranatural, concebido e amado como uma Pessoa viva.”
“O amor e o desejo”, continua Underhill, “são necessidades fundamentais e, se ausentes, a pessoa mesmo visionária, não pode ser chamada de Mística”. Este é um tema caro aos que trilham a senda do misticismo: o que fazer com as paixões e com os sentimentos.
Daí, conceitos como SUBLIMAÇÃO, CANALIZAÇÃO DA ENERGIA DO CORPO PARA ALMA, ganham destaque naqueles que, estando no corpo, sabem-se espírito; que sendo néscios, tolos, sabem-se parte de uma formidável e indescritível inteligência que dorme oculta em seus interiores.
Reconhecemos o amor e a humildade como duas estratégias para a livre manifestação dessa inteligência transcendental.
Na verdade, amar e entregar-se ao ser amado já são suficientes para realizar essa alquimia já que a humildade é desnecessária nos apaixonados, pois não existe indivíduo verdadeiramente apaixonado que seja arrogante ou vaidoso.
Lembra Underhill que “a atração, o desejo e a união, na qualidade da consecução do desejo, constituem a maneira pela qual a vida trabalha, tanto nas coisas mais elevadas como nas inferiores”.
“A atitude do místico” continua ela “na verdade é igual à do apaixonado já que ele sente a mesma impetuosidade, a mesma devoção desinteressada, exaltada, a mesma combinação de êxtase e humildade. Esse paralelo é mais que uma fantasia, porque tanto um místico como um apaixonado respondem ambos em níveis diferentes ao chamado espírito da vida.”
A obra de Underhill ombreia com a de São João da Cruz e precisa ser objeto de meditação de todos os rosacruzes.


[1] Dame Gertrude More (nascida como Helen More; 25 de março de 1606 - 17 de agosto de 1633) era freira da Congregação Beneditina Inglesa, escritora e fundadora-chefe da Abadia de Stanbrook.
Ela nasceu em Low Leyton, Essex, Inglaterra. Seu pai, Cresacre More, era bisneto de Thomas More; sua mãe, Elizabeth Gage, era irmã de Sir John Gage, 1º baronete de Firle, Sussex, lorde Chamberlain da rainha Mary. Sua mãe morreu em tenra idade e o pai de Helen tornou-se responsável por seus cuidados e educação. Dom Benet Jones, um monge beneditino, incentivou-a a ingressar em sua fundação religiosa projetada, Nossa Senhora do Conforto, em Cambrai. Ela foi a primeira de nove postulantes admitidas na ordem em 31 de dezembro de 1623. Helen More ficou sob a influência de Augustine Baker e recebeu o nome religioso de Gertrude. Catherine Gascoigne, uma de suas colegas, foi escolhida à sua frente como abadessa.

domingo, 3 de maio de 2020

MAGIA E PENSAMENTO MÁGICO


por Mario Sales


MAGIA: arte, ciência ou prática baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos não naturais, valendo-se da intervenção de seres fantásticos e da manipulação de algum princípio oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de fórmulas rituais ou de ações simbólicas.

PENSAMENTO MÁGICO: “Em antropologia, psicologia e ciência cognitiva, pensamento mágico é o termo usado para descrever um raciocínio causal que procura correlações entre ações ou elocuções e determinados eventos. No caso da religião, das crenças populares e da superstição, a correlação proposta é entre a observância a certos rituais e a obtenção de alguma recompensa. Esses rituais incluem, por exemplo, oração, sacrifício, observância a tabus e a repetição ou tergiversação voluntárias de comportamentos considerados auspiciosos ou agourentos. Em psicologia clínica, o pensamento mágico é uma condição que faz com que o paciente experimente medo irracional de realizar certos atos ou ter certos pensamentos, porque ele assume uma relação entre suas ações e calamidades ameaçadoras.”

Dicionário Houaiss, Ed Objetiva


B.F.Skinner

O que é pensamento mágico? O clássico experimento de Skinner é muito esclarecedor acerca de como ele surge e evolui.  Burrhus Frederic Skinner foi um psicólogo e pesquisador americano que deu aulas e Harvard de 1958 a 1974. Ele era especialista em comportamentalismo ou behaviorismo (de behaviour, em inglês, comportamento). Entre seus experimentos existem um particularmente interessante feito com pombos dentro de caixas chamadas “caixas de Skinner”. Os pombos nessas caixas eram recompensados com alimentos de modo completamente aleatório. Skinner deixou-os nestas caixas por algumas horas e quando voltava ao laboratório, encontrava o seguinte cenário: em uma caixa, um pombo limpava o chão com sua cabeça, outro em outra caixa, bicava sucessivamente o canto inferior esquerdo da gaiola, outro por sua vez limpava suas penas embaixo da asa esquerda, outro ficava dando voltas em círculos.
Tudo isso porque nessas condições peculiares tinha acontecido uma recompensa, alimento fornecido pela máquina, e para o pombo, sua atitude, aquilo que ele estava fazendo naquele momento, deveria ter relação com o surgimento do alimento. Repetindo aquele bizarro comportamento ou atitude, ele supunha que mais alimento seria fornecido.
Esse é o pensamento mágico, a associação entre um evento aleatório e determinada ocorrência da qual, conclui a mente supersticiosa, deve ser a causa.



Caixas de Skinner


Ou seja, em uma época de ignorância, as relações entre os eventos, principalmente os climáticos como tempestades, raios, secas, inundações, tendiam a ser explicadas por critérios supersticiosos.
Um trovão rugia. Qual seria a causa? Com certeza o martelo de Thor, deus do travão, brandindo contra uma gigantesca bigorna.
Cocei minha orelha esquerda e um prato caiu ao solo. Na próxima vez tentarei evitar de coçar a orelha esquerda perto dos pratos.
O homem primitivo pensava como os pombos da pesquisa.
Não só o homem primitivo. O ser humano desprovido de discernimento, discernimento este decorrente da educação e do conhecimento, ainda tende a supor estranhas e curiosas relações entre certos procedimentos e acontecimentos os mais variáveis.
Qualquer psicólogo entende isso. O ser humano prisioneiro do senso comum não tolera a ignorância ou o vazio de explicações e não hesita, sem pudor, de “inventar” respostas para perguntas que ele não sabe responder. Esta criatividade maligna, esta capacidade de fantasiar sobre o real, muitas vezes gera angústia e sofrimento aos seus adeptos.
Sentem-se perseguidos por forças maléficas, supõem-se vítimas de magia negra, crêem que alguém possa feri-los à distância, recorrendo a cerimonias obscuras como no caso do Vudu haitiano.
Eu me equivoquei há pouco quando disse que o homem supersticioso o é por falta de educação. Na verdade. 
O homem ou a mulher supersticiosa são submetidos a uma espécie diferente de educação, para tornarem-se, como se tornam, escravo de superstições. É um condicionamento educacional, na sua comunidade de origem, na sua família, ouvindo histórias dos mais velhos, que vão alimentando suas almas impressionáveis de criança com valores e imagens, conceitos e sensações que nunca mais sairão de seus subconscientes.
Nem todo o dinheiro do mundo, aparentemente, pode mudar o que foi plantado fundo no inconsciente. Uma vez condicionado pelo pensamento supersticioso, uma vez tocado pela força do medo que acompanha esse pensamento, esse indivíduo terá receio incontrolável de tudo e de todos, até mesmo de sua própria sombra.
A palavra sombra aqui é muito propícia e fecunda.
Mergulhada em sombras, assim está a mente educada para temer, para recear.
Depois de instalado, esse estado é quase irreversível.
A única possibilidade de evitar essa situação é prevenir-se com a vacina do pensamento científico, orientado pelo método científico e pelo ceticismo metodológico.
“O ceticismo metodológico foi desenvolvido por René Descartes e consiste em duvidar de todos os conhecimentos que não sejam irredutivelmente evidentes. Segundo Descartes, tudo aquilo que não for completamente evidente e tudo aquilo que já nos tenha enganado no passado não pode ser considerado conhecimento verdadeiro. Por isso, a primeira regra do seu método defendia que nunca devemos "aceitar como verdadeira alguma coisa sem a conhecer evidentemente como tal: isto é, 'evitar cuidadosamente a precipitação e o preconceito; não incluir nos nossos juízos senão o que se apresentasse tão clara e tão distintamente ao nosso espírito que não tivéssemos nenhuma ocasião para o pôr em dúvida'." ("Discurso do Método", Segunda parte).”
Uma vez instalada, a dúvida criada pelo ceticismo metodológico deverá levar a verificação do conceito ou do fato pelo método científico. E o que é o método científico? É a investigação sistemática de um fenômeno na intenção de estabelecer sua veracidade, sua confiabilidade como conhecimento de certeza.



Portanto, ao contrário de pombos ou de pessoas de mentalidade simplória, ao se deparar com um fenômeno, é preciso submeter o real ao crivo da lógica aplicada a ciência. 
Primeiro, contemplar e observar um fenômeno, sem medo, sem temor, mas com curiosidade e interesse genuíno. Depois, formular uma ou duas hipóteses que expliquem esse fenômeno. Em seguida submeter essas hipóteses ao crivo experimental. Observando o resultado da experiência, confirmar ou refutar a hipótese inicialmente considerada. Se refutada, a partir dos resultados experimentais, formular novas hipóteses que serão novamente testadas.
Nada em ciência é estável. Tudo que é verdadeiramente científico pode e deve ser testado, várias e várias vezes, apenas para ter certeza de que os resultados não se modificam nas mãos de pesquisadores diferentes, em diferentes países, e em condições diferentes.
O exemplo mais simples é a gravidade.
A gravidade[1] diz que dois corpos que tenham massa estão submetidos a uma força de atração mútua, diretamente proporcional a suas massas e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância.
O que isso quer dizer? Se eu tenho uma laranja na minha mão e a solto no espaço, ela cairá em direção ao solo. Ela cairá todas as vezes que eu a soltar, seja de manhã, de tarde ou de noite, seja aqui ou em Lisboa, em Washington ou em Pequim.
Mudadas as condições e as pessoas, mudando mesmo de país, as laranjas que forem soltas continuarão a cair em direção ao solo, com regularidade, uniformidade, invariavelmente. Este é um fenômeno científico. Ele é verificável pela experimentação e é reprodutível.
Pode e deve ser submetido a verificação, mas os resultados têm sido sempre os mesmos desde 1687 quando o texto em que foi descrito foi publicado. O nome do texto era "Philosophiae Naturalis Principiae Mathematica".


Newton

Embora o método científico tenha provavelmente sua origem no trabalho do cientista Ibn Al - Haytham[2] nos seus estudos sobre ótica, com similaridades com o método de Descartes e o atual, (como a observação e a pesquisa teórica anterior ao fazer do experimento, a separação em categorias e comparar a hipótese de acordo com os resultados), fazendo com que ele fosse considerado por muitos "o primeiro cientista", o método cientifico foi aperfeiçoado e consolidado tanto pela instituição do ceticismo metodológico quanto pela publicação do Principia, no século XVII.


Descartes

E aqui chegamos a um interessante e aparente paradoxo. Tanto o autor do Discurso do Método, o filosofo Renée Descartes, quanto o autor do Principia, o físico inglês Isaac Newton, eram rosacruzes.
Como? Homens de indiscutível pensamento racional, empiristas convictos e construtores do que chamamos de as bases da ciência contemporânea, pertencendo a uma ordem esotérica de práticas obscuras e secretas?
O que poderiam buscar nesta afiliação já que tal escola não era parte do cânone intelectual de suas épocas? Quais seriam as razões para seres de pensamento unirem-se a um grupo de mulheres e homens cujas práticas poderiam ser classificadas de semelhantes aos pombos das caixas de Skinner?


AS DIFERENÇAS ENTRE SUPERSTIÇÃO E PRÁTICA ESOTÉRICA ROSACRUCIANA


A magia, como definida em epígrafe, não é, em verdade, a verdadeira magia. Supor que os rosacruzes pregavam que quaisquer eventos pudessem suceder de modo não natural é descabido e absurdo.
Crer que rosacruzes seriam capazes de não aplicar sistema e método aos seus ensinamentos, ou que falassem de assuntos sem a fundamentação da experiência seria injusto com alquimistas e químicos dos séculos XIV ao XVIII. Ouso mesmo dizer que a magia verdadeira nada tem a ver com suposições e impressões vagas. Uma das coisas mais verdadeiras acerca do rosacrucianismo em todas as épocas é de que ele nunca existiu de modo essencialmente teórico.
A tradição de nossa ordem não foi calcada em ideias sem fundamento ou práticas sem eficácia. Se nos notabilizamos por alguma coisa foi pela busca incessante de técnicas para dar manifestação as energias desconhecidas pela maioria dos seres humanos, pela sua natureza sutil ou por seu aspecto incomum. Por exemplo, o uso de sabão. Em textos secretos era recomendado aos membros da fraternidade antes de se alimentarem ou depois de se dedicarem a tarefas insalubres banhar-se ou lavas as mãos com uma substancia que produzia uma estranha espuma branca chamada “sabão”, que “combateria seres invisíveis capazes de gerar perigosas doenças e debilidades”. Como na época, falar em “seres invisíveis” seria o mesmo de ser acusado de bruxaria, este conhecimento incomum era passado em sigilo e com cuidado.
Da mesma maneira, seriam as práticas alquímicas, provenientes da china e do oriente médio, principalmente dos árabes, as precursoras da química moderna, sendo que o próprio Newton era um alquimista praticante. São, portanto, cientistas rosacruzes que fazem prosperar a Sociedade Real de Ciências, uma das mais nobres instituições científicas de todo o mundo, fundada em 1660. Newton foi seu presidente entre 1703-1727, ano de sua morte. Foi lá que apresentou seus revolucionários estudos sobre Ótica.
Outro pesquisador britânico também pertencente a Ordem Rosacruz, John Dalton, nascido em 1766, foi, além de físico, químico e meteorologista.



Dalton

Foi Dalton o moderno defensor da teoria atômica da matéria, já prevista por Demócrito de Abdera na Grécia antiga, quatro séculos AC.

Democrito de Abdera


Descartes, Newton e Dalton não eram pessoas com cérebro de pombo. Esta já é uma diferença notável.
Ao longo da história da humanidade, vários expoentes da ciência flertaram ou mesmo se casaram com a ordem rosacruz, demonstrando com isso terem vislumbrado em seus ensinamentos algo mais que superstição ou fantasia.
Os rosacruzes contemporâneos são herdeiros destes homens, e, portanto, carregam consigo a responsabilidade de manter a atitude cética e metodológica que eles ensinaram aos seus descendentes e pares científicos.
Dos rosacruzes espera-se que não pensem como pombos ou como pessoas desprovidas de senso crítico e por isso sejam capazes de cumprir o item 16 do código de vida rosacruz que enuncia: “Sê sempre um pensador livre. Reflete por ti mesmo e não penses conforme a opinião dos outros.”
Se algum ensinamento for conseguido através das monografias, testem-no. Jamais acreditem em afirmações sem provas. Experimentem as técnicas apresentadas em suas lições de sanctum, observem se funcionam. Se funcionarem, apliquem-nas novamente para confirmar sua confiabilidade e assim verificar se não funcionaram apenas por uma simples coincidência.
Uma vez que a prática confirme que a técnica é verificável e reprodutível, como a laranja que sempre cai, podemos então ter confiança nesta técnica e passar para a seguinte.
Só assim entenderemos que Magia rosacruz é ciência aplicada, não pensamento mágico, e honraremos nossos antepassados, como Descartes, Newton e Dalton, mostrando que somos dignos de sua herança, e que, o mais importante, não temos cérebros de pombo.


[1] A lei da gravitação universal afirma que, se dois corpos possuem massa, ambos estão submetidos a uma força de atração mútua proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade. Essa lei foi formulada pelo físico inglês Isaac Newton em sua obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, publicada em 1687, que descreve a Lei da Gravitação Universal e as Leis de Newton — as três leis dos corpos em movimento que assentaram-se como fundamento da mecânica clássica.
[2] Abu Ali al-Hasan Ibn Al-Haitham (em árabe: أبو علي الحسن بن الهيثم), conhecido também pela forma latinizada Alhazen, nasceu no ano 965 em Baçorá, agora Iraque e morreu em 1040 na cidade do Cairo. Físico e matemático persa. Pioneiro da ótica , depois de Ptolomeu. Foi um dos primeiros a explicar o fenômeno dos corpos celestes no horizonte.
Escreveu numerosas obras notáveis, pelo estilo e pelas observações sobre os fenômenos da refração da luz, com especial incidência na refração atmosférica ao nascer e ao pôr do sol.
Em seu Livro de Óptica (em árabe: Kitāb al-Manāẓir (كتاب المناظر)), publicado no início do século XI, propõe uma nova teoria sobre a Visão. Embora diferente do modelo atualmente aceito, essa teoria foi revolucionária para a época em que foi proposta e é vista como um passo importante para a compreensão da visão.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

MOTIVAÇÃO VERSUS APATIA NAS ESCOLAS ESOTÉRICAS


Por Mario Sales






Quem me acompanhou durante esses quase dez anos de blog sabe que parei de escrever já faz alguns meses com a paixão que me caracterizava.
De repente a vontade de expor conceitos e posições acerca das práticas das escolas esotéricas deixou de ser algo que me motivasse, talvez exatamente pela falta de retorno desse tipo de exercício literário.
Não havia nenhum tipo de manifestação contrária ou a favor, via de regra. O demônio do desânimo e do desinteresse é o pior de todos os inimigos da luz.
Existem duas maneiras de enfraquecer alguém, uma é combatendo-o ferozmente e a outra é simplesmente desprezando sua existência.
E desse modo fui pouco a pouco desanimando também, me contagiando com a esta anedonia, com este vazio em torno dos assuntos abordados, coisa que, aliás, se repete no ambiente esotérico.
Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, a pobreza de ideias e a pouca elaboração nas reflexões chamam a atenção nos debates internos das ordens esotéricas, as quais não estão desprovidas de pessoas, ou intelectualmente elaboradas, ou espiritualmente elevadas, mas as quais, a meu ver, em quantidade insuficiente para estimular os seus irmãos e irmãs naquela escola em particular.
É preciso também levar em consideração a importância de aqueles que tem uma elaboração intelectual mais refinada olharem com carinho para seus irmãos na intenção de provocar sua reflexão ao estilo platônico-socrático, extraindo deles como na maiêutica, a sabedoria que todos sem exceção possuem dentro de si.  
Talvez por ansiedade ou impaciência tenho um sentimento de urgência em relação a tentar fazer as pessoas se empolgarem com a pratica esotérica em vez de mergulharem em estado semi catatônico enquanto ouvem determinado texto de uma autoridade hierárquica, na maior parte das vezes autoridade esta administrativa e não intelectual, muito menos mística.
Esses intermediários entre o conhecimento e os buscadores são talvez os elementos mais importantes no trabalho intelectual, e mesmo espiritual; no entanto, orientadores espirituais autênticos são aulas que deambulam, já que ensinam pelo exemplo, e não com palavras. Já o estímulo intelectual requer didática, interesse em motivar, capacidade de ter a habilidade de um professor em sala de aula, encantando a audiência e assim servindo a esta mesma audiência com esta habilidade de encantar.
O serviço intelectual é tão importante quanto o serviço físico. Mudar a qualidade mental das pessoas, motivá-las a buscar mais em suas elucubrações, em suas reflexões pessoais, estimulá-las a conhecer melhor a obra dos filósofos mais importantes, são esforços da maior importância e com certeza, redundarão em espíritos enriquecidos e esoteristas mais profundos.
É preciso preparar melhor os facilitadores que fazem o meio de campo de atividades em suas escolas esotéricas. É de sua maior ou menor competência que depende termos cada vez mais membros mais investigativos e proativos no engrandecimento de sua própria escola.

  

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

CONHECIMENTO E CONFORTO


por Mario Sales


“Examinem alguns fragmentos de pseudociência e encontrarão um manto de proteção, um polegar para chupar, algo a que se agarrar. E o que nós (cientistas) oferecemos em troca? A incerteza, a insegurança.”
Isaac Asimov





Tenho orgulho de minha ordem, tanto pela sua história quanto por seu esforço secular em busca da preservação de um conhecimento que, não fosse isso, teria desaparecido nas areias do tempo.
Principalmente me envaideço de participar da mesma Ordem que homens de visão como Lavoisier, Renée Descartes e Isaac Newton também participaram.
Se bem que a Ordem é aquilo que todos os seus membros são, seu prestígio sempre foi aquilatado pelos mais nobres entre nós. Seja pelo aspecto espiritual ou pelo científico, pelo aspecto místico ou filosófico.
Talvez por isso, por tentar espelhar esses nobres representantes do pensamento ocidental, minha tristeza seja tão grande ao ver o obscurantismo invadir nossas confrarias, disfarçado de esoterismo e de mistério.
O fenômeno é compreensível. É mais fácil para um racionalista e materialista distinguir entre mito e realidade, apegar-se ao comprovável, ao verificável, e não às impressões subjetivas. Mesmo alguns psicólogos tentam evitar a subjetividade, tentando escapar sob a égide do behaviorismo, da interpretação da mente sob o ponto de vista de conceitos como consciência e vida interior. Embora Skiner, pai do comportamentalismo, não goze mais do prestígio que já conheceu, seus experimentos são deveras interessantes, se bem que, na minha opinião, generalizar conclusões sobre o comportamento humano a partir de testes de condicionamento com animais, como ele o fez, é inadequado frente a complexidade humana.
Rosacruzes estão, ao contrário, mergulhados no subjetivismo até os cabelos. E, ao contrário dos budistas, não tem a mesma disciplina e treinamento mental que deveriam ter.
Hoje somos uma legião heterogênea de personalidades, que tem como única semelhança entre si a curiosidade. Não há nos nossos estudos nem mesmo um filtro, um critério de separação entre conhecimentos significativos e aqueles que não trazem nenhuma contribuição séria a consolidação do espírito.
Embora Spencer Lewis tenha feito um gigantesco esforço para dar direção experimental ao trabalho rosacruciano no século passado, bastou duas décadas para que esquecêssemos de suas recomendações, aposentássemos nossos laboratórios, tornados apenas uma lembrança desde a morte de George Buletza, responsável pelo departamento de pesquisas da antiga Suprema Grande Loja, na Califórnia.
Hoje dedicamo-nos, tanto nas monografias como na Universidade Rosacruz Internacional, apenas ao que não implique experimentalismo estrito senso, como as ciências humanas, que não demandam estruturas de pesquisas dispendiosas e mesmo assim não perdem o status de cientificas.
O mais perto que chegamos do positivismo sonhado por Lewis é a arqueologia, área em que não temos um investimento direto, mas com a qual dialogamos com frequência.
Ao contrário, talvez por influência do trabalho da Tradicional Ordem Martinista, que diferente da AMORC é uma ordem de caráter declaradamente cristão, vejo muitos fratres e sorores confundirem rosacrucianismo e religião.
Isto, no entanto, não seria grave, caso não significasse uma porta de entrada para o obscurantismo.
Enquanto a fé une o homem ao Altíssimo, desenvolve sua sensibilidade as coisas do espírito, ela é uma forte aliada do místico. Quando, entretanto, fé implica desconfiança e mesmo menosprezo pela ciência, pelo esforço de conhecer, através de um método consagrado de verificação passo a passo do que é obtido pela experiência, nesse caso fé passa a ser algo perigoso e danoso ao trabalho místico e esotérico.
Como disse antes, nosso ambiente é altamente heterogêneo e é cômico pensar que algumas décadas atrás a Ordem nos convidava a comparecer aos nossos corpos afiliados no intuito de encontrar mentes afins.
Hoje, nada é tão incorreto quanto isso. Nossas confrarias podem ser qualquer coisa, menos homogêneas e harmônicas, mesmo com um aumento substancial de discursos éticos em nossas reuniões, em detrimento de exercícios mentais, termo que prefiro ao consagrado experimento.
Citei acima os budistas, e isto porque, envolto em um manto de religiosidade, o Budismo é uma escola para a mente e para o aperfeiçoamento do comportamento mental. Ou seja, tudo o que a rosacruz AMORC deveria ser. 
Os budistas, com sua postura de respeito as evidências cientificas externas, ao mesmo tempo que respeitam as evidencias internas, provenientes de uma pratica meditativa persistente, causam inveja.
É triste ver um irmão de Ordem de Newton, pai da mecânica, valorizar informações que não tem sustentação ou fundamento. Ou fascinar-se pelo discurso da CIENTOLOGIA, uma linha de autocondicionamento, de fundamento behaviorista, como se a AMORC não tivesse fornecido elementos melhores e mais elevados de melhoria da determinação e do desempenho mental.
Esta benevolência com tudo e com todos, conduta aliás que não encontra reciprocidade em outros ambientes, fizeram os rosacruzes de AMORC, dentro da ideia de tolerância, acatarem com entusiasmo tudo que não fosse rosacruciano, mas que parecesse interessante, atitude que gerou em determinado momento uma intervenção administrativa da Grande Loja, solicitando que os Grande Conselheiros e seus monitores regionais ficassem mais atentos aos temas discutidos em ambiente de corpos afiliados, filtrando com bom senso e sem censura, aqueles que fugissem ao escopo da pratica rosacruciana ortodoxa.
Lembro-me, na época que exerci o cargo de mestre do capítulo rosacruz da minha cidade, do desconforto do palestrante e de alguns membros quando, cumprindo apenas o protocolo, citei que a fala do palestrante não representava a opinião oficial da Ordem, sendo apenas a posição do palestrante.
Além de abrirmos nossas portas para estudos não necessariamente ligados aos nossos trabalhos, como por exemplo as revisões de graus, lidamos algumas vezes com a arrogância daqueles que não compactuam com o espírito de tolerância de nossa Ordem.
Isso infelizmente não é tudo.
Em tempos de crenças absurdas (como o medo infundado de vacinas, responsáveis pela melhoria da saúde e pelo aumento exponencial da população, ou do movimento que defende que a terra é plana, fazendo com que revirassem de revolta em seus túmulos Copérnico e Eratóstenes de Cirene, que entre os séculos III e II A.C. conseguiu estabelecer a circunferência do planeta com grande precisão), os membros de AMORC não estão imunes a este obscurantismo inexplicável em uma época aparentemente de tanto avanço tecnológico.
Tudo isso era, ao que parece, previsível, e Carl Sagan, antes de morrer em 1996, já alertava que nos encaminhávamos para um terrível paradoxo, que unia a ignorância do homem comum sobre os métodos e os conceitos científicos contemporâneos com a alta tecnologia que caracteriza nossa vida atual.
O homem moderno, como em outras épocas, tem medo. 
Medo da miséria material, do sofrimento e da morte.
Exatamente os três aspectos da existência que causaram forte impacto no jovem Sidarta Gautama, mais tarde conhecido como o Buda.
O problema é que mesmo que a sociedade goze de uma riqueza e um conforto que jamais conheceu, não extinguimos totalmente as disparidades sociais e econômicas, e bolsões de miséria e violência persistem, o que é hipervalorizado por espíritos intelectualmente pouco elaborados, que consideram a exceção como regra.
Os rosacruzes de AMORC são membros da sociedade e como disse, não estão isentos das dúvidas que assolam muitos espíritos, nem estão livres, magicamente, de vicissitudes do próprio carma, como a doença, o sofrimento, a dor.
Pessoas incultas ou imaturas creem em soluções fáceis e rápidas para problemas complexos. Pior: supõem que as técnicas, que hoje parecem simples, não foram objeto de dezenas ou centenas de anos de pesquisas, testes e verificações, e tratam-nas como uma desconfiança descabida.
Alguns rosacruzes também.
Assim, estes rosacruzes confundem o estudo da Magia com o “pensamento mágico”. Aceitam informações sem verificação e não são capazes de aplicar o Ceticismo Metodológico instituído como técnica de aquisição de conhecimento pelo Frater Renée Descartes. O esforço de Lewis, sua preocupação em destacar termos como “técnica”, “confiança na experimentação e verificação de resultados” em vez de fé cega, aos poucos de dilui.
Se lermos as monografias, alguns destes conceitos estão lá, mas agora ocultos, misturados com fortes componentes religiosos. Um sinal disso foi a mudança da primeira monografia do sexto grau de templo, que fazia referência ao Buda e que agora faz referência ao Cristo. Embora não haja dúvida de que o ministério de Jesus foi marcado principalmente pelos atos de cura, a função desta introdução era marcar a importância do equilíbrio para a perspectiva rosacruz de saúde, enquanto que ao citar o Cristo arranhamos perigosamente um dos três principais universos religiosos do ocidente, dando margem a interpretações equivocadas, como supor que a técnica rosacruz de terapia, esse legado tanto egípcio como essênio, possa ter alguma conotação de caráter religioso e não essencialmente técnico.
Cristãos talvez não vejam assim, mas a AMORC não é formada apenas por cristãos. Como sou hinduísta, vejo esta situação com muita clareza.
Não podemos, não devemos permitir que nosso corpo de conhecimento dê margem a equívocos interpretativos o que é facilitado pelo discurso que descuidadamente permite a confusão entre esoterismo e religião. Sendo como é o Cristo um personagem de enorme importância na história da espiritualidade, mas também base para várias linhas religiosas as mais díspares, a prudência deveria evitar usá-lo como símbolo de nosso sistema terapêutico.
O medo e a insegurança geram a busca por estabilidade e conforto psicológico, exatamente as duas coisas inexistentes na vida humana.
Estamos flutuando em cima de uma rocha suspensa no vazio do espaço. Nada me parece mais instável do que isso.
Por outro lado, fisicamente somos finitos, fadados ao gradual desgaste físico e ao envelhecimento, não só do nosso corpo, mas também de nossos entes queridos.
Veremos morrer quem amamos além de também morrermos, na carne. Não existe tal coisa como a estabilidade ou o conforto físico ou psicológico permanente.
Descartes dizia que “tudo o que o homem faz é em busca da felicidade”.
Discordo mais uma vez, pois na minha opinião tudo que buscamos é a serenidade, e não a felicidade.
A felicidade, como descrita, é estável; a serenidade, dinâmica.
A felicidade é polar, um dos pratos da balança; a serenidade é a própria balança.
É para esta vida tecnológica, insegura, instável e incerta que a ciência nos prepara. Ela nos ensina a conviver em paz com a incerteza, com a ignorância e com o fracasso, três das companhias mais constantes do cientista. Só os religiosos e os ignorantes têm certezas; cientistas vivem mergulhados na dúvida.
E isto os faz viver melhor.
O curioso é que esta dúvida, mãe da ciência e filha do conhecimento, é considerada um defeito por aqueles que tem dificuldade para pensar ou pensam com muita simplicidade.




ISAAC ASIMOV (1)


Como lembra Asimov na frase em epígrafe, o homem comum quer algo para se agarrar, alguma certeza, e a ciência lhe dá apenas “incerteza e insegurança”.
O místico moderno precisa recuperar o espírito alquímico, experimental, paciente, perseverante. Devemos, nós rosacruzes, deixarmos as igrejas e os templos e voltarmos aos laboratórios que abandonamos nas últimas décadas. É lá, nestes laboratórios, com um trabalho persistente e paciente que honraremos o todo poderoso, que prestaremos ao Deus de nosso coração, ao Deus de nossa compreensão nossa homenagem com nosso labor e oração.
O que caracteriza o rosacruz de AMORC não é sua fé em Deus e na espiritualidade, mas acima de tudo isso, o seu perfil de pesquisador do Oculto, de investigador minucioso e criterioso dos fenômenos naturais, porém incomuns, ligados as capacidades desconhecidas e por isso não desenvolvidas em todos os homens e mulheres da humanidade. Nós temos dons maravilhosos não manifestos, que em muito facilitariam nosso cotidiano se desenvolvidos fossem. Esse é nosso objetivo, como Ordem. Isso, não devemos ou podemos esquecer.
Muitos de nós pagaram com a vida seu amor a este conhecimento, a essa busca, como foi o caso de Cagliostro.
Muitos perderam a vida mesmo tendo este conhecimento, mostrando que ele apenas nos diferencia, mas não afasta de nós as atribulações do carma, como no caso de Lavoisier.
A vida dos homens e mulheres é instável e insegura pela própria natureza da sua fragilidade. Mesmo a existência da raça humana, como lembra o físico Marcelo Gleiser, é um fenômeno raro e delicado, que representa um acontecimento biológico a ser comemorado e preservado; mas segurança e conforto não é nossa característica.
Para usar uma frase comum na internet “tempos difíceis geram homens fortes, homens fortes geram tempos fáceis (confortáveis); tempos fáceis geram homens fracos.” É isso que estamos testemunhando, o surgimento de uma sociedade infantil, mentalmente preguiçosa e por isso, perigosamente obscurantista, olhando com desconfiança para a única razão pela qual atingimos este grau de conforto e civilização: a ciência.
Esta situação me faz lembrar do Faroeste americano.
O pistoleiro de maior fama era exatamente o maior prêmio dos pistoleiros menores. Quem matasse em duelo aquele que era o mais rápido, tornava-se o mais rápido. Atacar a ciência é demonstrar sua importância como referência, e mesmo os que a atacam gostam de usar expressões como “isto está provado” ou “isto é científico”.
Perigosos tempos os nossos, como de resto foram todas as épocas antes desta.
Nós, como rosacruzes, somos por definição “Portadores da Chama”, “Guardiões da Luz”. E de que Luz estamos falando? A luz do conhecimento.
Que nossas portas e mentes estejam sempre fechadas ao demônio do obscurantismo e da ignorância.
Como todos os demônios, ele tem uma fala macia e promete tesouros a quem lhe dá ouvidos.
Cuidado. Não existe prêmio para quem faz o Bem.
Servir à humanidade, e servir bem, já é a própria recompensa de quem serve.
Lembremos desta fala: “Acautelai-vos contra a Ignorância, ela é destruidora da Luz”.

(1) Isaac Asimov (em russo: Исаак Юдович Озимов; transl.:.: Isaak Yudavich Azimov; Petrovich, Russia Soviética, atual Russia, período entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920 — Brooklin , 6 de abril de 1992) foi um escritor e bioquímico americano, nascido na Russia, autor de obras de ficção científica e divulgação cientifica.

sábado, 21 de setembro de 2019

O USUÁRIO DO COMPUTADOR, O SOFTWARE E O HARDWARE.


Por Mario Sales





Os três ensaios sobre a visão espinozana (1º e 2º de 30 de junho e o 3º de 6 de setembro) das razões do comportamento emocional não foram suficientemente claros em suas assertivas e conceituações. Em parte, é bem verdade, por causa do que eu disse em “Palavras” (3 de agosto de 2019) “quando falamos, falamos com nossa própria boca. Os outros nos escutam com seus ouvidos”; por outro lado, entretanto, tudo pode ser dito sempre de modo mais claro.
No terceiro ensaio, eu deixei claro que a minha concordância com a visão atual, a qual vê inegáveis sinais do papel do instinto e do corpo em muitas das manifestações mentais não significa que eu tenha deixado de acreditar na existência de um “escafandrista” dentro do “escafandro”. Mente, para mim, não é o espírito, mas outro órgão de percepção do real, uma estrutura de intermediação entre nós e o que nos cerca, alimentada pelas demandas do corpo e usando o cérebro como estrutura, não de produção de ideias e pensamentos como hoje acreditamos, mas sim de recebimento e sublimação de impulsos corpóreos em processos mentais, como lembrava Schopenhauer, ou de transformação de percepções externas em conceitos e idéias, como postulou Immanuel Kant.
O cérebro não produz pensamentos, mas traduz em pensamentos as sensações que percebemos através dos sentidos, tanto fora do corpo, por exemplo através da visão e audição, como dentro do corpo, via medula espinhal. A função de transformação de idéias em impulsos mecânicos, realizada pela ação do sistema límbico sobre a neuro hipófise, e desta sobre o corpo pela adenohipófise, mostra um sentido do movimento de densificação em atitudes do que, antes, era apenas uma imagem ou desejo. Da mesma maneira, em sentido contrário, existem nervos aferentes que trazem até o cérebro o que antes foi a percepção de uma deficiência de potássio ou de hidratação, causando o irresistível desejo de consumir bananas ou de tomar água.
Uma outra imagem possível é supor o corpo, o hardware do “escafandro”, e a mente, o software, enquanto o escafandrista está por trás de ambos, indicando o rumo da pesquisa e da caminhada no fundo deste oceano material.
Embora posamos demonstrar a existência do escafandro de muitas maneiras, a presença de um escafandrista dentro dele segue indemonstrável, a ponto de supormos que tal coisa não exista.
A ausência do escafandrista não é a visão que eu abraço. Não é a minha crença.
Embora não possamos ainda individualizá-lo por completa falta de tecnologia para isso, o que somos em verdade está lá, dentro de nós.
Não é nosso cérebro portanto, complexo e sofisticado, que nos dá nossa condição de indivíduos, embora sem ele não pudéssemos, aqui, nesta dimensão, nos expressar adequadamente.
Existe o indivíduo sim, mas por detrás de todas estas estruturas, usando-as e às vezes confundindo-se com elas, cometendo equívocos que só podem ser evitados quando o conhecimento estabelece com alguma clareza os limites de cada parte deste conjunto que formamos com nossa mente e corpo.
A época em que estas coisas ficarão mais claras ainda não chegou, mas chegará. E talvez aí sim, possamos entender que estamos apenas vestindo este corpo, absolutamente fundamental à nossa experiência terrestre, mas não somos o corpo, assim como o escafandrista não é o escafandro, mas está nele, em uma relação de interdependência intensa, de tal forma que pode parecer que são uma coisa só.
E para o bem da experiência da en-carnação, ou “escafandrização”, é bom que seja dessa forma.