domingo, 24 de março de 2019

BUSCANDO A OBJETIVIDADE NO ESPIRITO E A SUBJETIVIDADE NO CORPO


Por Mario Sales




“Fico muito preocupado quando converso com um Frater ou uma sóror no qual diviso uma fascinação e um encantamento com assuntos esotéricos vagos e imprecisos. Principalmente se esse Frater ou esta sóror tem já alguns anos de Ordem. Na sua falta de clareza de objetivos, na falta, portanto, de objetividade, antecipo que fará pouco progresso como místico ou como esoterista. Não que, na minha opinião, o estudante rosacruz não deva se comportar como um enciclopedista e ter interesse em várias áreas do conhecimento esotérico. O que me preocupa é quando este conjunto de informações não parece trazer uma melhoria real a sua qualidade de vida, transformando-se em um peso a mais em sua existência, uma erudição inútil e pedante e não uma alavanca para desfazer os obstáculos que, eventualmente, todos enfrentamos.”

Trecho de “Precisamos de Mais Objetividade”, ensaio publicado em 13 de maio de 2011


"Da mesma maneira que o inconsciente influencia o consciente e subjetiviza o que parece extremamente objetivo, do mesmo modo nossos pensamentos e a educação psicoterapêutica ou o processo iniciático verdadeiro, como já discutimos antes, podem nos ajudar a objetivizar o subjetivo no inconsciente e modular e melhorar o desempenho de nosso subconsciente".

Trecho de “Objetivo x subjetivo, consciente x subconsciente”, ensaio publicado em 12 de novembro de 2011


Esse tema retorna a minha mente de forma insistente, como se eu nunca o tivesse considerado, como se algo ainda houvesse a ser escrito sobre ele.
Pelo trecho em epígrafe fica claro que não é assim. O que parece é que a questão não se resolve e, às vezes mesmo, parece ter se agravado com o passar do tempo.
Oito anos atrás, quando escrevi aquele ensaio, eu achava que pudesse encarar a questão das mentes desordenadas em relação aos seus dons psíquicos e intelectuais como algo pontual, inevitável em meio a heterogeneidade de tipos e personalidades-alma que habitam este planeta. Como se sabe, a única semelhança entre os seres humanos é serem todos diferentes uns dos outros. Uns mais capazes, mais lúcidos, outros não. Uns mais convictos e outros destruídos pela incerteza.
Hoje não posso dizer que um esforço na tentativa de pelo menos amenizar a questão, tenha sido colocado em prática.
Eu me refiro apenas à AMORC, não ao Martinismo nem a Maçonaria.
Tenho a impressão que uma ordem atemporal, universal, que recolheu conhecimentos de várias culturas e civilizações ao longo de séculos tem uma bagagem e uma densidade de informações que precisam de uma mente no mínimo disciplinada para serem digeridas, absorvidas, consolidadas dentro do espírito. São temas que demandam sensibilidade, sutileza de pensamento e compreensão de conceitos demasiado abstratos para serem tratados com superficialidade.
Por isso é importante, principalmente nas coisas do espírito e do conhecimento espiritual, uma dose extra de objetividade.
E quando se fala em objetividade no espírito implicitamente estamos falando de organização emocional, de sentimentos esclarecidos e de uma mente equilibrada.
Não se pode ter a serenidade necessária para procedimentos de compreensão que solicitam um esforço mental continuado se não estivermos pelo menos emocionalmente equilibrados. Pensar bem não é apenas consequência de uma formação intelectual demorada, mas de um processo de amadurecimento pessoal que contemple o indivíduo com virtudes como paciência, com as dificuldades e consigo; uma vida pessoal estável onde as necessidades afetivas estejam supridas, ou pelo menos elaboradas; e, finalmente, clareza de objetivos quanto ao que se pretende com o estudo de assuntos místicos.
AMORC não enfatiza este aspecto embora, “in passant”, se refira ao tema em algumas monografias.
Os livros deixados por Spencer Lewis focam mais nestas questões. Sempre comento neste espaço o último capítulo de “Princípios Rosacruzes para o Lar e para os Negócios” intitulado “O Esqueleto no Armário”, expressão norte americana para os problemas ocultos e não resolvidos.
Neste capítulo, Lewis lembra que antes de empregar as técnicas de visualização criativa e de desenvolver a habilidade de entrar em modo receptivo quanto às inspirações intuitivas, precisamos ter a nossa parte psicológica devidamente equilibrada, e isto não é uma questão mística, mas psicoterapêutica por vezes.
Sem esta condição previa de, dentro do possível, ter seus sentimentos pessoais, suas inseguranças, seus problemas de relacionamento com as pessoas e com a sociedade resolvidos, ou ao menos encaminhados, a prática da arte mística é duramente prejudicada. Muitas vezes, o “chamado” de que sempre falamos, quando um indivíduo sente interiormente que deve se associar a uma ordem esotérica tradicional como AMORC, não é na verdade um chamado autêntico, mas apenas a expressão de uma curiosidade mórbida acerca do estranho e do obscuro, curiosidade esta que logo se verá decepcionada pela falta de acontecimentos de caráter espetacular e circense, digamos assim, por longo tempo em sua afiliação.
Está em Mateus 13:20-23  “O que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende; e o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera; mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.”
É fundamental ao místico ter “raiz em si mesmo”, não ser suscetível aos “cuidados deste mundo” além de ter serenidade para atravessar os períodos de “angústia e perseguição”.
É esse aspecto subjetivo da personalidade que destrava nosso cérebro e nos permite absorver adequadamente noções e informações que nos serão úteis no cotidiano.
A memória, nós médicos sabemos de há muito, é duramente afetada pela tensão, pela ansiedade.
Angústias e perseguições fazem parte da existência, e nossa capacidade de atravessar a tormenta com equilíbrio vem de nossa serenidade psicológica, não necessariamente de qualquer dom espiritual.
A mesma serenidade que se desenvolve pela meditação verdadeira, aquela que esvazia a mente de preocupações e que desfaz os fantasmas da dor e do fracasso. 
Esta é a parte subjetiva de nosso comportamento objetivo. 
É a gramática do inconsciente, como chamava Sigmund Freud, que devemos considerar com tanta seriedade quanto a nossa espiritualidade e fé em Deus.
Estas são as minhas reflexões de momento. Muito mais pode ser dito, mas deixo a critério de cada um e de suas meditações descobrir outros aspectos deste complexo relacionamento em nós do nosso corpo com o nosso espírito. Espero que sejam bem-sucedidos nesta busca deste Santo Cálice, que os rosacruzes chamam de “Paz Profunda”.

domingo, 17 de março de 2019

REFLEXÕES ROSACRUCIANAS



Por Mario Sales




Neste fim de semana o capítulo rosacruz de São José dos Campos promoveu um debate com o título “O Mundo que Temos e o Mundo que Queremos” iniciativa do querido Frater Bispo, referência na região de capacidade e serviço a Ordem. Quatro expositores fizeram breves falas sobre temas variados: Frater Hugo de Paulo contemplou aspectos do Aquecimento Global e das Alterações climáticas; o Frater Carlos Alberto Balo di Giacomo, atual mestre do capítulo, abordou o impacto e os problemas do trabalho humano versus a entrada no mercado da inteligência artificial, que vem progressivamente substituindo um grande número de profissionais; soror Eni Alvim de Oliveira fez considerações sobre o difícil e bem sucedido processo ainda em curso de empoderamento feminino, como se convencionou chamar; e finalmente, eu fiz uma rápida análise dos problemas metodológicos educacionais, defendendo o papel da arte, principalmente a música, como elemento fundamental para reequilibrar a qualidade do ser humano e desfazer a angustiante situação de unilateralismo do pensamento racional-materialista.




Frater Raimundo Bispo

O que achei simpático é que sem prévia concordância, todos fizeram alusão ao fato de que as conquistas tecnológicas não podem ser descartadas, mas devem, isso sim, serem enriquecidas por uma mudança nos paradigmas espirituais e psicológicos na sociedade humana, tanto na modificação da relação com o meio ambiente (Frater Hugo), como na administração do ócio causado pela automação cada vez maior (Frater Carlos) e no aperfeiçoamento do caráter colaborativo e coletivo de trabalho, característica da abordagem feminina, na produção tanto de conhecimento quanto de bens e serviços. Para tal, sugeriram a necessidade de superar as inúteis conceituações de gênero (soror Eni) e passar para uma nova fase de trabalho humano menos hierarquizado e mais compartilhado.


Houve o consenso de que o problema da melhoria das condições de vida da espécie humana só será possível quando abandonarmos as fronteiras imaginárias que até hoje separam grupos étnicos, homens e mulheres, seres humanos e outras espécies que coabitam este planeta, e assim por diante. Após o fim do debate, coordenado por Frater Bispo, comentamos acerca da falta de sentido nas fronteiras entre nações. Em um planeta tão pequeno, com tantos problemas e escassez de recursos, supor que os que compartilham esse espaço geográfico e cósmico podem se dar ao luxo de viver separadamente é absurdo.


Soror Eni e Frater Carlos Alberto


Todos, entretanto, concordaram que o momento histórico ainda não é o desejado para um governo mundial, para a aplicação da simples regra de um planeta, uma espécie, um mesmo povo.
Acrescentei que os discursos antiglobalização são descabidos porque a globalização é inevitável, e sua implantação já está em andamento. Não se trata de uma tática de dominação de uns sobre outros mas do reconhecimento de que nossos destinos estão intrinsecamente associados e que a derrota de um é a derrota de todos.


Frater Hugo de Paula à esquerda


Economicamente já é assim. Resta superar o medo para que socialmente também o seja.
Salvo, no entanto, uma intercorrência de grande magnitude, realisticamente falando, exércitos, bandeiras e bravatas e ameaças de parte a parte continuarão por mais algumas décadas.
A humanidade, no entanto, continua em transformação, queira ou não, e os conceitos retrógrados e separatistas pouco a pouco estão cada vez mais ameaçados de extinção. A internet é um dos motivos. Em poucos anos, todo o planeta tornou-se um grande conjunto de mentes compartilhando idéias, boas ou más, mas compartilhando e descobrindo de forma não intermediada as semelhanças entre os diversos povos e regiões do planeta.
A ameaça que a internet representa para governos isolacionistas ou ditatórias é tão grande que a China já fala em restringir a rede ao seu próprio território, tentando com isso evitar o contágio de liberdade que o compartilhamento digital provoca. A Rússia também anunciou a intenção de bloquear o acesso da rede a sites internacionais, com objetivos semelhantes aos chineses.
O fato é que, queiram ou não os governos, tenham ou não os países medo desta súbita descoberta de seres humanos por outros seres humanos, ela já está em marcha.
Enquanto Frater Carlos Alberto falava do inevitável desaparecimento de profissões em função da entrada da IA no mercado de trabalho, eu pensava em como deve ter sido a chagada da luz elétrica para os profissionais conhecidos como acendedores de lampiões; ou do rádio e do telégrafo para os correios, hoje inclusive restritos apenas a entrega de encomendas e não mais de cartas.
O que hoje parece assustador vem acontecendo desde o século passado. Não é novo e não vai parar.
E é natural que assim seja porque tudo evolui e muda, e a permanente mudança é, de fato, a única coisa imutável na existência.
Resta modificar os seres humanos e não as coisas em volta deles. E urge a intensificação da atenção à melhoria da sensibilidade, mudando a relação com a realidade de manual para visual e auditiva.
Precisamos contemplar mais quadros e esculturas, precisamos ouvir mais música, precisamos despertar o lado direito do cérebro, tão relegado ao segundo plano.
É importante fortalecer nosso lado subjetivo sem prejudicar o lado objetivo.
Temos e precisamos dar atenção de modo objetivo à nossa subjetividade e a Arte é o caminho. É aí, neste campo do conhecimento, que expressamos nossos desejos e sentimentos mais profundos, onde conseguimos transmitir de modo mais claro e sem a necessidade da linguagem ideias e impressões pessoais acerca das coisas e do mundo.
E tudo que aumenta nossa capacidade de comunicação interpessoal é útil no processo de reunião da espécie em um corpo único. Aliás, o fato de que a arte pictórica ou musical transcendam a linguagem e além disso, o tempo e o espaço, já que a grande arte é eterna e transnacional, fazem dessa opção de comunicação entre o homem atual e o próximo homem, aquele ser humano que queremos, mais solidário, mais altruísta, mais empático a ponto de ser capaz de se colocar no lugar de seu interlocutor e compreendê-lo de modo mais profundo.
É esse talvez o horizonte que nesse debate deixamos implícito.
A mudança, como eu disse, já começou.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

PALAVRAS



Por Mario Sales








“Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. (...)
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.”

“Gosto de Dizer”, Fernando Pessoa, pela boca do heterônimo Bernardo Soares, Livro do desassossego”

“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala!”

Trecho do poema “Língua”, de Caetano Veloso



Meus textos são reuniões sociais de palavras, das quais eu participo. 
Dialogo entre um canapé e uma bebida com objetos diretos e indiretos, com indiretas de sujeitos sem predicado.
Óbvio, eu estou lá por elas e não elas por mim.
As palavras, via de regra, tem uma vida própria, planos e intenções.
Não por outra vivem em bandos, andam juntas, de forma a estabelecer para elas e para quem as lê uma imagem e um sentido, embaixadoras como são das idéias que lhes precedem.
Nenhuma palavra, sozinha, pode fazer o que um grupo delas consegue. Nenhuma palavra que não esteja em relação com outras tem a mesma intensidade, a mesma presença de uma frase pronta e acabada.
Linha após linha, textos são construções com forma, densidade e personalidade, que causarão impacto em uma, duas, ou centenas de pessoas que os contemplem.
Naqueles textos poéticos, vemos um instantâneo de um coração, de um sentimento que flui na vida real e que parou por uma simples condescendência de sua parte, para mostrar-se e ser visto. Palavras são reflexo da vaidade das emoções que não suportam a condição de anonimato.
Toda emoção não expressa gera sofrimento, desconforto.
Textos, mesmo aqueles técnicos, são emoções coaguladas; embora objetivos e científicos, refletem a tensão de quem os fez, acuado pela necessidade de nexo e clareza, pela obrigação de fidedignidade a verdade dos fatos, às teorias vigentes, aos consensos da época.
Talvez aqueles textos que tentam parecer os mais frios possíveis sejam os mais fortemente passionais, já que a energia que levou a sua realização é a energia da descoberta, seja de um fato ou de um conceito, a satisfação de poder compartilhar uma conquista, uma descoberta, enfim uma realização que dará prestígio ao seu autor.
Ou não. Daí a tensão, mascarada por termos e expressões equilibradas, falsamente neutras e impessoais.
Nenhuma conquista do espírito humano é órfã.
Órfão é o fracasso, a derrota, o erro, não a vitória.
Esta, não só tem pais, mas também avós e bisavós.
As palavras também nunca estão órfãs.
Elas são filhas de alguma angústia, de algum conflito ou de um desejo não realizado fisicamente e que se sublima na palavra escrita.  
Quando a angústia se deita com o gênio uma obra prima é gerada. E sua presença no mundo marcará de forma indelével a vida de milhares de pessoas que terão o prazer de conhece-la.
Sim, prazer. Um texto bem escrito, uma idéia bem descrita, é sempre um deleite, como uma brisa fresca em um dia quente, um oásis no deserto de mediocridade do nosso cotidiano.
Os textos que produzimos, são lançados como flechas a distâncias que não conseguimos supor. E quando saem de nosso arco, rápidas, ganham vida própria, e evoluem, alimentadas pelas variadas interpretações e simbolismos que despertarão em diferentes seres humanos.
Os textos nascem como significação mas se desenvolvem e crescem nas conotações, nos diferentes efeitos que, desde que fecundo, possa causar, de acordo com os contextos, as reuniões de que eu falava, as quais possa vir a frequentar.
Como entidades vivas, palavras não subsistem sem outras palavras, sem complementos, sem conjunções, sem artigos que a acompanhem e que as definam.
Palavras sempre estão acompanhadas, a solidão lhes é tão nociva quanto a nós mesmos. Precisam umas das outras, se necessitam, se procuram. Sem inibição ou pudores.
Sem preconceitos, a não ser as regras da sintaxe.
Seu único compromisso é com a beleza e com a elegância.
Palavras são a matéria na qual elaboramos nossos sonhos e nossa imaginação.
Que o Eterno abençoe as letras, as palavras e os textos, nosso sustento no vazio da existência.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O DIÁLOGO POSSÍVEL


Por Mario Sales








“...A Super-Alma, a Causa, a Divindade; 
não revelada pela forma humana ou pela palavra, 
mas que preenche e inspira toda alma 
vivente no vasto universo 
de acordo com suas medidas; 
cujo templo é a Natureza 
e cuja a adoração é a admiração.”


H.P.Blavatsky, in “Isis sem Véu”, 
página 123,11ª edição, 2016, 
Editora Pensamento.


Quem diria que ela, justamente ela, a paladina que investe contra os cientistas céticos, (como se a crença pura e simples, sem comprovação experimental fosse uma virtude de caráter), pudesse produzir um trecho mais afim com o que chamamos, contemporaneamente de pensamento científico. Enquanto eu, Flavio e Wilson lemos página após página esse 2º volume dedicado a Ciência, volta e meia a discussão reaparece: Blavatsky, sentindo-se atacada pelas posições céticas de sua época, se debate no texto com estes pseudo-inimigos, a meu ver de forma quixotesca. Sempre comento que uma pessoa com a força e a autoridade que ela possuía não poderia preocupar-se em obrigar, sim esta é a palavra, obrigar o meio científico da sua época a aceitar, a força, suas crenças e seus postulados.
Nenhum esoterista em sã consciência jamais precisou que alguém do meio científico o apoiasse para se sentir mais seguro nas suas posições. Um esoterista crê no que crê porque assim supõe que seja a realidade ampliada, e não por que alguma descoberta científica atual ou pregressa lhe apoie o pensamento. Vejam, ninguém se dedica ao esoterismo porque quer. Existe uma afinidade, quase um chamado para que o indivíduo venha participar do trabalho místico, tornando-se membro de alguma escola tradicional. Mas a primeira coisa que devemos entender, (e nunca entendi porque ela, Blavatsky, nunca entendeu isso), é que nosso campo de saber, o esotérico, é um campo específico, que não dialoga (em detrimento das opiniões de pensadores como Edgard Morin) com outro campo qualquer da Ciência.
É como dar óculos de lentes coloridas diferentes para duas pessoas, pedir que os coloquem e depois querer que ambas vejam o mundo do mesmo jeito.
Esoteristas são esoteristas, cientistas são cientistas, e melhor seria que não se tentasse esse enxerto de um no outro. Primeiro porque é desnecessário.
Nem os cientistas precisam dos esoteristas, nem os esoteristas precisam dos cientistas, mesmo que achem que o que fazem seja um tipo de trabalho científico.
Só que são campos com parâmetros de trabalho diferentes, partindo de premissas conflitantes, e a primeira delas, que a Ordem Rosacruz pareceu querer superar, no início do século passado, é a total ausência de um trabalho experimental, mensurável e sistemático, dentro dos meios esotéricos.
Sem dados colhidos de maneira organizada e em experimentos controlados, jamais poderemos dialogar com o meio científico.
Os cientistas são céticos porque tem que ser, metódicos porque precisam, porque sabem que o testemunho humano é o fenômeno menos confiável que existe na face da terra.
O professor Neil De Grasse em uma palestra recente que está no YouTube, falando sobre isso, diz ficar impressionado que no direito o testemunho de pessoas seja considerado uma prova legal. Em 1957, o diretor Sidney Lumet, em um clássico do cinema, "12 homens e uma sentença", com uma atuação memorável de Henry Fonda, defendeu a mesma idéia.
Porque em ciência, e é assim que deve ser, o fato de que alguém afirma alguma coisa não é prova de que aquilo é verdade.
Não se trata de se desconfiar da boa fé de quem dá seu testemunho; é apenas reconhecer alguns aspectos da psicologia e da neurologia aplicada, fatos como as chamadas “ilusões de ótica”, as quais provam e demonstram que o cérebro e os sentidos podem ser enganados pelos fenômenos ou por algumas imagens.
Portanto, pessoas não são confiáveis como fiadores do que é e do que não é real.
É melhor entregar esta questão na mão de um especialista em investigar a verdade dos fenômenos. E esse especialista, provavelmente, será um cientista. Praticar ciência é buscar superar as limitações de nossos olhos, ouvidos e cérebro através de aparelhos que possam, de modo impessoal e não subjetivo, avaliar os fatos a nossa frente. É seguir um método de investigação que possa ser checado a cada passo, que possa ser contestado e testado várias e várias vezes, e observar se outras pessoas conseguem resultados iguais, esta sim, uma demonstração de confiabilidade em meus achados e em minhas conclusões a partir dele.
Crer por crer não faz parte da Bíblia da ciência.
Os cientistas são mais humildes que os esoteristas e duvidam, não só de outros, mas deles mesmos. Por isso fazem experimentos, tomam notas, tiram conclusões que novamente serão testadas muitas e muitas vezes por várias pessoas em locais diferentes.
Mais: só pelo fato de que todo cientista é por tradição e profissionalismo obrigado a compartilhar o que sabe é que outros saberão de seu trabalho e poderão se dar ao esforço de testá-lo por eles mesmos.
Esoteristas, também por tradição, não compartilham, e hoje ainda, como se vivêssemos na idade média, escondem o que sabem, isto é, quando sabem e se sabem alguma coisa.
Tenho uma forte impressão de que a maioria dos depoimentos de esoteristas sobre fenômenos que tenham presenciado não passa de fantasia e ilusão. O que não impede que em alguns casos realmente algo tenha acontecido. E aí, se houvesse um mínimo de espirito científico nos esoteristas, eles se preocupariam em documentar o fenômeno, descrevê-lo, e se não pudessem fazê-lo, guardarem discrição e não falarem do que conseguiram, até poder, junto com a narrativa, apresentar um exemplo palpável do fenômeno desencadeado.
Histórias e relatos são apenas isto e já de há muito, ninguém confia em afirmações sem comprovações.
É bem verdade que nasce um tolo a cada minuto, como diz o ditado, e que as pessoas de mente fraca são maioria, deixando-se induzir por charlatães de toda espécie e até acreditando em absurdos como o atual movimento antivacinas. Existe, eu sempre comento, uma nuvem de obscurantismo pairando sobre a sociedade, esperando um momento para avançar sobre tudo que conseguimos, principalmente nos últimos cem anos, e jogar tudo por água abaixo.
Isto me assusta sobremaneira.
Como místico, como esoterista e como médico.
O esoterismo não é uma religião, mas também se baseia em uma coleção de axiomas e crenças que, na maioria das vezes, não são comprováveis.
Antes que isso mude, nós esoteristas não conseguiremos o tal diálogo entre ciência e esoterismo, áreas de conhecimento que não falam a mesma língua, e que por isso mesmo não terão como se comunicar.
Só uma coisa nos une, cientistas e esoteristas: o mesmo fascínio pela Criação. Ambos olham para o mundo com respeito e reverência, acreditando que a criação tem um perfil peculiar “cujo templo é a Natureza e cuja a adoração é a admiração”.
Pode ser este o ponto de encontro entre esses dois campos, desde que sem arrogância, sem ilusões ou fantasias e sempre com muita, muita humildade.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

O SEGREDO DA ETERNIDADE É O AMOR


Por Mario Sales




“Há uma loja no sobrado
Onde não há comerciante.
Há trastes partidos na loja
Para não serem consertados.
Tamborete, marquesa, catre
Aqui jogados em outro século,
Esquecidos de humano corpo.
Selins, caçambas, embornais,
Cangalhas
De uma tropa que não trilha mais
Nenhuma estrada do rio Doce.
A perna de arame do avô
Baleado na eleição da Câmara.
E uma ocarina sem Pastor Fido
Que à aranha não interessa tocar,
Enorme aranha negra, proprietária
Da loja fechada.”

“Depósito”, de Carlos Drummond de Andrade,
In BOITEMPO I, Ed. Record, 1992, 3ª edição

Não sou eu que darei testemunho daquilo que vai na alma de todos os idosos.
Pelo menos para mim, que caminho a passos rápidos para lá, o que mais me incomoda é o medo de que minha vida seja como um depósito desse de Drummond.
Lembranças, resquícios de fatos já esquecidos, amontoados na memória sem nenhuma função ou utilidade, guardados apenas pela aranha negra do tédio.
Mais. Depósito que ninguém visita, que a ninguém interessa visitar.
Talvez Fernando Pessoa tenha lidado melhor com o problema. Já no inicio de A Tabacaria, ele vaticina:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)”

É como se assim aceitasse essa condição inevitável de ser efêmero, transitório, passageiro, sem drama e sem apego, sem lamentos, mesmo que a vida tenha se tornado um depósito de um sobrado, “sem comerciante”, abandonado, cheio de lembranças inúteis.
Conheço muitas pessoas que se comportam mentalmente dessa forma, tristes e desanimados. Como médico, às vezes diagnostico uma depressão, tratável. Como ser humano, penso que pode ser uma decorrência inevitável do tempo, mas muito mais da errônea impressão de que somos, de alguma forma, especiais, ilusão que nos acompanha por toda a vida.
“Não sou nada, nunca serei nada”, diz o poeta com uma entonação budista. É isto realmente que somos, apenas sombras que são arrastadas pelo vento do tempo, involuntariamente.
Existem duas maneiras de lidar com essa situação.
Uma é sentir-se mal por que as coisas são assim.
Outra é entender que as coisas são assim, sempre foram assim, e tudo bem.
Não há forma de conciliar estas posições.
Existem pessoas que se adaptam à finitude, mas a grande maioria aposta suas cartas na remota e incorreta possibilidade da eternidade no mesmo corpo, este corpo que despreza nossa vontade e contra ela, se desgasta, envelhece, e pouco a pouco vai desaparecendo, como a fumaça que se espalha pelo espaço.
Como envelhecer de maneira digna, sem angústia, sem receio de desaparecer como se nunca tivesse existido?
Esta sempre foi uma aflição tipicamente humana, pois animal nenhum pensa no futuro ou na morte.
Os animais, sábios, estão sempre no momento presente.
Não que não tenham memórias. Só que não são aprisionados por elas.
Seus barcos estão sempre no mar, navegando e navegando, sempre.
Humanos, ao contrário, sonham com um porto, anseiam por jogar a ancora e parar. O movimento e o balanço constantes lhes causam enjôo. Crêem que é possível a estabilidade e que a terra é firme.
Por isso, por causa de nossas crenças e de nossa educação, que se superpõem aos nossos instintos e aos fatos, supomos a eternidade no físico possível, mais que isso, desejável.
Dizemos que sabemos que as coisas não são assim, que é certo que morreremos, mas nos comportamos como se assim não fosse. Somos confusos como Aurora que em sua paixão por Títono, (filho de Laomedonte e irmão mais velho de Príamo, rei de Tróia) pede a Zeus que conceda a ele, Títono, a imortalidade e esquece de pedir também a juventude eterna. E assim Títono persiste, vivo, mas entrando gradualmente numa decrepitude física cada vez maior.
O que queremos? Não existe, no corpo, estabilidade ou duração infinita. Sabemos disso.
E porque desejamos a eternidade? Para que queremos ser eternos? As vezes dizemos que precisamos mais tempo para aprender a viver melhor, que quando aprendemos algo sobre a vida, já é hora de morrer. Que a vida é aparentemente longa, mas que é insuficiente para que nos tornemos seres humanos melhores.
Será verdade? Será que se tivéssemos mais tempo para nos aperfeiçoarmos, nos aperfeiçoaríamos verdadeiramente? Ou a busca pela perfeição seria deixada de lado em troca do deleite, da inação, da preguiça mental e física?
Talvez exatamente porque temos um tempo determinado é que sintamos o apelo da urgência em realizar mais, em amar mais e melhor, em dar aqueles que nos cercam e com os quais nos encontramos na existência o que tenhamos de mais perfeito.
Talvez perfeição seja exatamente isto, habilidade cada vez maior de compartilhar o que pudermos e receber, na mesma moeda, ininterruptamente, durante este aparentemente breve período de existência.
Talvez nos sintamos mais velhos porque olhamos apenas para nosso próprio umbigo e não para a paisagem fora do trem em que viajamos. Todos os que importam para nós estão no mesmo vagão, viajando junto conosco, envelhecendo, juntos, forçados a esta solidariedade cronológica inevitável.
E como olhamos para eles aqui ao nosso lado, todos nos parecem os mesmos, nem mais moços, nem mais velhos, apenas os mesmos, e choraremos pela sua ausência quando chegarem a suas estações e descerem deste trem. Aqueles que amamos não parecem envelhecer da mesma forma que aqueles com os quais não temos um envolvimento afetivo tão intenso.
O amor torna eternos quem amamos, pelo menos enquanto estiverem conosco. O vínculo que nos une nos sustenta e diminui a preocupação com o futuro. O importante é que estamos juntos, fisicamente por um certo tempo, mental e emocionalmente, aí sim, para sempre.
Não, não é de tempo que precisamos.
Precisamos é do amor e de alguém para amar, estas sim condições de imortalização.
Precisamos amar, desesperadamente.
Só isto nos garantirá a permanência, não como uma memória, mas como um sentimento, o mesmo sentimento que determina o momento de devoção ao ser amado seja sempre presente.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

ESCREVER A LÁPIS


Por Mario Sales


                                        




Escrever a lápis faz com que o pensamento flua mais devagar, com mais cautela.
Até a atitude física de quem escreve a lápis é diferente. Não se força muito a ponta do grafite no papel, para que não quebre.
Da mesma maneira que escrevemos com mais prudência, pensamos com mais prudência.
Por ser o lápis tão delicado, não se pode escrever com um lápis sobre assuntos controversos e polêmicos, mesmo que se quisesse.
As idéias descritas com um lápis nunca serão passionais, mesmo que desejássemos. O traço suave do lápis no papel nos impede sobre conflitos e disputas.
Tudo é mais quieto no traço do lápis. Até os contornos das letras são mais artísticos e a caligrafia mais elaborada.
Penso que precisamos, ou melhor, eu preciso, escrever mais a lápis minha vida, descrever com mais esmero e vagar meus sentimentos. Sem pressa, letra após letra. É bem provável que desse modo eu escreva com menos ansiedade, até porque errar com um lápis é sempre menos angustiante.
Os lápis, em sua generosidade, permitem as borrachas, aquelas que fazem desaparecer nossas falhas, nossos enganos e equívocos. Pena que na vida real não exista semelhante recurso.
Infelizmente não podemos, na vida real, apenas apagar os trechos dos quais nos arrependemos.
Textos a lápis são corrigíveis. Vida, nem sempre.
Portanto os lápis, ao contrário das canetas esferográficas, são mais misericordiosos com nossas falhas e lapsos.
Graças as providenciais borrachas, textos a lápis, de correção em correção, ficam mais perfeitos ao final.
Por comparação, a História da Ciência é escrita a lápis, enquanto fundamentalistas religiosos escrevem sua história com esferográficas, geralmente com tinta vermelha.
Em um texto a lápis, é impossível o dogma, só as teorias.
Tudo fica em aberto para ser revisado ou apagado, se necessário.
Como a nossa vida, textos a lápis são efêmeros, podem e serão apagados de acordo com a vontade do pequeno escritor. Nossos traços vitais também podem ser apagados, a qualquer instante, de acordo com a vontade do Grande Escritor. A vida é muito frágil.






Por isso mesmo, devemos ter muito capricho ao escrevermos nossa própria vida, fazendo valer cada letra, cada palavra, cada linha de nossa existência.
Se apenas uma letra for colocada de modo errado, toda a frase poderá perder o sentido.
Velemos com carinho por cada uma das muitas letras de nossos dias, deixando prudentemente em aberto a possibilidade de voltar atrás, sem embaraço, pesar ou lamentação. Afinal correções são normais em qualquer texto que busque a perfeição.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O ROSACRUCIANISMO E O MARTINISMO: ALGUNS CONFLITOS DOUTRINÁRIOS II


Por Mario Sales
                          



“É a confiança por parte do Homem interior nos altos ideais do Homem exterior, que leva o Homem interior a ouvir e concordar com as sugestões ou solicitações do Homem exterior; é a CONFIANÇA do Homem exterior no Homem interior que faz com que o homem exterior deposite toda a sua esperança, toda a sua fé, no reino psíquico e se liberte de seu antigo ceticismo.
Compreende agora, o que significa o estabelecimento de tal CONFIANÇA? Vê quão diferente é dos conceitos de Fé e Crença?”
De um texto secreto rosacruz

Em  10 de janeiro de 2011, aqui no blog, publiquei um texto intitulado “O Rosacrucianismo e o Martinismo : alguns conflitos doutrinários ocultos.”
Ali eu começava uma análise que ainda não terminou e que se apresenta de modo sub-reptício para rosacruzes, e talvez para os martinistas da TOM, tão óbvia que passa despercebida: as duas Ordens tem caminhos e prioridades diferentes.
Enquanto os rosacruzes são um grupo de pessoas provenientes de várias religiões, o Martinismo se autonomeia uma ordem essencialmente cristã.
Mais: naquele texto de oito anos atrás eu lembrava que, depois de séculos dedicados a estudar os meandros da magia, os rosacruzes “literalmente desencantaram-se com o Ocultismo. E por quê? Porque aperfeiçoaram suas técnicas e entenderam que muito, mas muito deste aparato metodológico era desnecessário à sua finalidade primordial, qual seja, a elevação de seus espíritos como seres humanos a um nível de excelência. Rosacruzes, ontem como hoje, querem ser cada vez melhores como seres humanos, e servir mais intensamente a mesma humanidade da qual fazem parte. Esta é a verdadeira alquimia: a transformação do ser humano chumbo, homem ou mulher, em ser humano ouro. A Magia pela Magia, o Ocultismo pelo Ocultismo, entre os Rosacruzes modernos, digamos assim, saiu de moda.”
Com o risco de ser repetitivo, lembro que a “magia” rosacruz hoje é interna e mental. Porque como todos os saberes, histórica e metodologicamente o rosacrucianismo também evoluiu.
A TOM, a Tradicional Ordem Martinista, ao contrário, referencia-se em práticas do século XVIII, nos ensinamentos da Cabala Cristã, e representa um somatório de tendências as mais variadas, desde o apaixonado ocultismo de Papus até a erudição do Marquês Marie Victor Stanislas de Guaita, aliás, o mais rosacruciano de todos o grupo de restauradores do Martinismo daquela época. Homem extremamente culto e refinado, com um espirito cosmopolita e plural, Guaita era uma luz entre seus pares. A TOM, no entanto, arrasta consigo uma sequência de perdas humanas, geralmente de membros de importância significativa, perdas estas que mergulharam a Ordem em caos administrativo.
Enquanto a Ordem Rosacruz, pela vontade de Deus, se mantém uma tradição solida, que sobrevive as épocas e as diferentes mudanças sociais, o Martinismo parece sobreviver com enorme esforço e dificuldade.
Assim foi em seu início, com a morte inesperada de Martinez de Pasqualy; assim foi, no inicio do século XX, com a também estranha morte de Papus, vitima de tuberculose, doença contraída quando médico na frente de batalha da primeira grande guerra, em 25 de outubro de 1916. Gérard Anaclet Vincent Encausse recebeu o cognome de Papus, (nome do gênio da medicina do Nuctemeron de Apolônio de Tiana) por influência de Eliphas Levi, esoterista e escritor francês, que junto com Blavatsky, embora em campos diferentes, estabeleceu as linhas do esoterismo no século XIX.
Bom administrador, espirito inquieto e produtivo, Papus centralizava o processo de restauração e sustentação do Martinismo. Sua morte abalou a estrutura da Ordem de tal forma que, não tivesse sido, com muita dificuldade, recolhida à proteção da AMORC, por Spencer Lewis, a Ordem Martinista teria se dissolvido em várias pequenas facções. Pelo fato de abrigar-se na AMORC, que lhe forneceu um know how de organização interna, a TOM é hoje, entre as diversas denominações Martinistas, a mais bem estruturada e sólida.
Mesmo assim, o Martinismo tem características próprias, resultantes das muitas variáveis envolvidas em sua história. A principal delas é que trata-se de uma ordem de forte cunho ocultista, caminho contemporaneamente abandonado.
Esse, no entanto, não seria um problema importante, se seus trabalhos não focassem tanto em aspectos religiosos.
A TOM preconiza a Fé, como base para o trabalho martinista. Diz que esta Fé reflete o caminho do coração, a via cardíaca. Séculos atrás, antes da TOM, os rosacruzes seguiam também a via do coração na busca pelo Deus de seus corações, em um esforço que transcendia a simples Fé. Na verdade, as monografias nas quais estudei, da qual extraí o texto que inicia este ensaio, fazem uma clara distinção entre os dois conceitos. E isso é um fato histórico da cultura rosacruz. Nós, rosacruzes, não baseamos nossa vida e prática apenas na Fé; fomos e somos educados para CONFIAR, a partir da experiência, nos ciclos e mecanismos naturais do universo e do “Deus dos nossos corações”. Portanto não cremos: sabemos.
Não cremos, mas sabemos em nossos corações e mentes, em nosso corpo e em nosso espirito, e este saber baseia-se na experiencia direta de harmonização com Deus, pela oração silenciosa, pela inspiração intuitiva, pelo treinamento de ouvir a “voz do silêncio” que nos orienta melhor e com mais segurança do que qualquer elaboração intelectual pode orientar.
Isto apenas serviria para mostrar as diferenças metodológicas e estruturais entre as duas ordens. O que assistimos, no entanto, é a tentativa, nas ultimas três décadas, de fortalecimento dos valores martinistas em detrimento daqueles típicos da tradição rosacruciana.
A ponto de as monografias mais recentes, segundo me relatam membros mais novos, assumirem o conceito Fé como sinônimo de Confiança, e não de Crença, numa tentativa de unificar discursos heterogêneos, o que gera não a harmonia entre duas linhas esotéricas mas, isto sim, me perdoem os fratres, um filosofia frankstein, bem ao estilo do Martinismo histórico.
E quando digo isso recordo a todos que Martinismo não é Martinezismo, embora o discurso da TOM os confunda; que San Martin abandonou as práticas dos Ellus Cohen em benefício de uma livre iniciação, protocolo que a TOM- AMORC modificou, estabelecendo que alguns dos SI são livres iniciadores e outros não.
A única linha de uniformidade entre os diversos períodos de atividade martinista é geográfico: todos ocorreram em território francês, França que, à época do trabalho de Papus e Guaita era o centro cultural do mundo.
Poder-se-ia, maldosamente, dizer que a força do Martinismo tem a ver com a ação de um Imperator francês. Isto seria, entretanto, uma inverdade, já que quem captou a TOM e a colocou dentro dos muros da AMORC foi Spencer Lewis, nascido nos Estados Unidos, trabalho que seria continuado pelo seu filho e conterrâneo, também americano. Portanto, quando Cristian Bernard assume o cargo de Imperator, encontra a TOM já estruturada, e apenas continua o trabalho dos Lewis, pai e filho, como se esperaria de um sucessor.
Tudo isso é compreensível, mas o que não se pode entender é como é possível tentar fundir duas tradições tão diferentes em suas características, uma universal e internacional, a outra eminentemente francesa; uma feita de espiritualistas de todos os matizes religiosas enquanto a outra ligada apenas ao cristianismo; uma com uma história de milênios; a outra com apenas três séculos de existência.
Essas considerações fazem parte de uma reflexão baseada no espírito rosacruciano da mais perfeita tolerância, dentro da mais perfeita liberdade.
Rosacruzes são livres pensadores, e não devem nem podem, enquanto rosacruzes, abdicar deste privilégio da sua afiliação.
Pensando com liberdade, questiono se uma ordem tão jovem e tão pouco internacional seja capaz de influenciar uma tradição tão poderosa como é a tradição rosacruz, modificação que começa com a alteração dos conceitos, pouco a pouco, fenômeno ao qual estou atento e estimulo outros fratres a também ficar.