Por Mario Sales
O que significa amizade? O que faz duas pessoas procurarem a
convivência uma da outra, de forma constante e prazerosa?
Das respostas filosóficas a essas questões, a mais famosa é
a que está no livro VIII e IX da obra Ética a Nicômano, de Aristóteles, (384 AC
a 322 AC) aproximadamente há 2040 anos atrás, mas que ainda permanece atual.
Nicômano era o filho de Aristóteles com a escrava Herpilia.
Aristóteles comenta que não possuindo riquezas, deixaria como herança a seu
filho um guia para a vida em sociedade e para a interação humana.
A felicidade, (eudaimonia, “o estado de ser habitado por
um bom daemon,[demônio,
do ponto de vista grego] um bom gênio”)
não se fundamentaria em satisfações físicas e sociais como honra, prazer e riquezas
mas na virtude (areté), palavra que na cultura grega, tem um sentido diferente
do significado cristão, representando a idéia de excelência de desempenho em
alguma atividade.
Para auxiliar o filho a desenvolver esta areté (lê-se
aretê), Aristóteles esmiúça vários aspectos das relações humanas, entre eles a
amizade (philia), palavra que em grego tanto representa o afeto cordial como o
amor entre duas pessoas.
Sempre atento aos aspectos práticos da Ética, Aristóteles
classifica a amizade em três tipos: as amizades motivadas pelo prazer, pela
utilidade, ou pela amizade em si mesma.
Nos dois primeiros tipos, existe uma intenção na associação
com o outro, ou na busca da satisfação dos desejos, ou na utilidade que este
relacionamento traz para nós na forma de benefícios pessoais.
No terceiro tipo, no entanto, que Aristóteles classifica
como o mais importante, a amizade existe apenas por ela mesma, sem qualquer
interesse de parte a parte. Ama-se o amigo por razões de afinidade espiritual e
não por motivos sociais ou físicos. É um relacionamento baseado na admiração
mútua, e isto é suficiente.
“A amizade segundo a virtude só pode se estabelecer entre
os homens que são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o
bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos.”. Como estes (seres
humanos) são raros, amizades assim também são raras.”[1]
Dizem que devemos ser gratos por nossas bênçãos. Uma das
bênçãos pela qual devo agradecer é por desfrutar do privilégio de amizades
virtuosas, as tais que são raras.
E embora as amizades assim não sejam baseadas em interesses
pessoais, como disse, existe um benefício imediato deste tipo de associação, o
compartilhar.
Fui membro da Ordem Maçônica por muito tempo. Lá observei
que os costumes que estavam presentes na fundação da ordem, 1000 anos atrás,
ainda permanecem vivos e ativos. O mais prosaico deles é o de dividir e
compartilhar a mesma refeição, e o mesmo vinho.
Desde épocas imemoriais, a raça humana faz dos momentos a
mesa um instante de consolidação dos relacionamentos e aprofundamento dos
vínculos afetivos.
Provavelmente, em uma época em que a comida fosse escassa e
difícil de conseguir, compartilhar alimento tornou-se a mais forte manifestação
de uma vida social, onde as disputas e as competições são temporariamente
suspensas e substituídas por um momento de carinho e saciedade mútua.
Se saciar nossa fome é bom, melhor seria saciar a fome em
grupo. Com isso, ao mesmo tempo, combatemos a fome e a solidão.
Chamamos isto em filosofia de sensação de pertencimento.
Pelo convívio em torno da refeição, consolidam-se os laços que fortalecem o
grupo.
Assim foi com a Ordem Maçonica. Após um dia de estafante e
perigoso trabalho, construindo catedrais góticas, no alto de andaimes
precários, sujeitos aos perigos de acidentes mortais, os homens reuniam-se a
noite para celebrar o fato de estarem vivos e dividir com seus companheiros de
oficio esta alegria.
Ainda hoje é parte do ritual maçônico jurar proteger órfãos
e viúvas. Os mesmos órfãos e viúvas resultantes dos acidentes citados.
A solidariedade se fortaleceu na divisão do ônus e do bônus
envolvido na arriscada empreitada a que se dedicavam aqueles homens.
E então, à noite, vinha o banquete. Por muitos séculos, pelo
menos cinco deles, não havia um ritual de iniciação à Ordem Maçônica, mas sim
um banquete de recepção ao novo companheiro.
Comendo juntos, tornavam-se um só grupo, fortalecidos por
pertencer a algo maior do que eles mesmo, o tal senso de pertencimento.
Compartilhar, assim, era também a forma de expandir nossos
horizontes e possibilidades para além de nossas próprias limitações físicas e
intelectuais.
Pelo dividir de alegrias e decepções, diminuía-se o fardo da
existência e ampliava-se a capacidade de comemorar o que era gratificante.
Muitas pessoas unidas pela mesma “philia”, garantiam que o conhecimento
fosse uniformemente repartido entre todos os membros do grupo. A difusão da
informação tornava mais hábeis e preparados os que dela compartilhavam,
melhorando cada um deles e o grupo inteiro, por extensão.
Assim, talvez o maior lucro da amizade virtuosa não seja tão
abstrato, mas eminentemente prático além de fundamental ao desenvolvimento da
sociedade: o compartilhar.
É verdade que a afinidade entre duas pessoas antecede o
compartilhar de alimento e de informação, mas é nessas atividades que o
encontro se fortalece, se solidifica.
Por isso conversamos com os amigos enquanto comemos. E com a
ajuda do vinho, conversamos alegremente, sem os pudores necessários a
relacionamentos mais superficiais.
A humanidade é um conjunto de homens e mulheres, e não um
único e isolado indivíduo.
Precisamos, por inúmeras razões, uns dos outros, para a
nossa autopreservação e para garantia de uma vida de qualidade e enriquecedora.
A solidão física jamais foi a base de um espírito refinado e
elaborado. Em determinada época, alegou-se que era necessário passar algum
tempo isolado para desenvolver a espiritualidade, a sensibilidade espiritual.
No entanto, uma vez tendo desenvolvido esta habilidade,
estes seres iluminados não fogem do convívio, mas ao contrário, procuram as
comunidades para trazer seu conhecimento e sua sabedoria, compartilhando com
elas aquilo que possam ter alcançado.
A base, pois da amizade, principalmente da amizade virtuosa,
mas também daquela baseada no prazer e na utilidade, é o compartilhamento, o
dividir dos ônus e bônus de viver.
Esta talvez seja a essência de todos os relacionamentos
realmente bons e justos.
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